quarta-feira, 31 de julho de 2013

AUGUSTO GIL

 



                Augusto Gil nasceu em Lordelo-do-Ouro, Guarda, Portugal, no dia 31 de Julho de 1873, e viveu até 26 de Fevereiro de 1929.

          Foi advogado e poeta com vasta obra publicada.

          A sua poesia foi influenciada pelo Parnasianismo e pelo Simbolismo.

          Algumas das suas obras poéticas: “Musa Cérula”; “Luar de Janeiro”; “Rosas desta Manhã”.

           
Balada da Neve

 
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.


 
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…


Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

 Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

 
E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…


Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil, in “Luar de Janeiro”.

 

terça-feira, 30 de julho de 2013

JOSÉ LEITE DE VASCONCELOS

 




          José Leite de Vasconcelos nasceu em Ucanha, Tarouca, Portugal, no dia 7 de Julho de 1858, e viveu até 17 de Maio de 1941.

          Foi linguista, poeta, arqueólogo, filólogo e etnógrafo.

          Licenciou-se em Medicina e em Ciências Naturais. Doutorou-se na Universidade de Paris.

          Foi pioneiro no estudo da onomástica portuguesa. Publicou a obra: "Antroponímia Portuguesa".
 
          Em 1890, publicou “Poesia Amorosa do Povo Português”.

          Em 1893, fundou o Museu Nacional de Arqueologia, situado ao lado do Mosteiro dos Jerónimos, em Belém.

          José Leite de Vasconcelos deixou em testamento, ao Museu, a sua biblioteca com mais de oito mil livros, manuscritos, fotografias, correspondência e gravuras.


Mouras Encantadas

 
Naquele dia as Mouras encantadas
Com seus cabelos fartos, gloriosos,
Vêm tomar as frescas orvalhadas.

Outros tempos antigos e ditosos,
Pelos vastos palácios do Oriente,
Elas, as filhas lânguidas dos gozos,

Princesas, amariam loucamente
Dos califas as púrpuras reais,
As harmonias do alaúde ardente.

E hoje, banidas deusas virginais,
Nacional os altos montes, nas marmóreas grutas,
Ou das fontes nos trémulos cristais.

Ei-las sofrendo, belas, resolutas,
A solidão cruel do cativeiro,
- Nobres reféns de sanguinosas lutas.

Só quando se ouve o místico romeiro
As cantigas do Estio desprendendo
Ao  mar, à terra, ao vento, ao nevoeiro.


E que elas saem do martírio horrendo,
Mostrando a forma escultural, etérea
Dos seios, e os cabelos estendendo.


José Leite de Vasconcelos, in "Consciência dos Séculos".











 
 


 
 


 

 

 

 



 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

EDITORAS DESTROEM 100.000 LIVROS POR ANO!

 
 

O poeta e escritor venezuelano Fernando Báez, autor da obra “História Universal da Destruição dos Livros”, oferece uma visão aterradora da devastação sistemática de livros. O estudo demorou 12 anos, começando no Mundo Antigo, passando pela Inquisição e tempos das conquistas, até à catástrofe mais recente: a destruição de um milhão de livros no Iraque, resultado da sangrenta guerra.

O medo, o ódio, a intolerância de todos os tipos e a ambição pelo poder são as causas principais para destruir não o objecto em si, o livro, mas o que ele representa: a ligação com a memória, a riqueza intelectual de toda uma civilização.

Há 50 anos, a UNESCO definiu o livro e outros bens ligados à cultura, como “produtos culturais”. Isto significa que o livro é um produto comercial e portanto está sujeito às regras do mercado.

 
Em Portugal mais de 100.000 livros são destruídos por ano!

 
Numa entrevista a um jornal diário em 2010, o administrador-delegado do grupo Leya considerou que a destruição de livros é uma “prática de todas as editoras pelo mundo fora”, justificada pelos custos de "stocks", além da falta de capacidade física dos armazéns.

Para as editoras é mais vantajoso destruir os livros do que suportar os custos de armazenagem. Quando não conseguem colocar os livros no mercado, mesmo promovendo descontos e acções especiais, o destino é o abate.

A possibilidade de as editoras oferecerem os livros a instituições, a países de língua portuguesa, etc., é anulada por questões burocráticas, económicas e logísticas.

O conceito de produção/impressão digital denominado Print on Demand, minora esses problemas, dado que as cópias dos livros são produzidas a partir de encomendas online e enviadas directamente ao cliente.

        No entanto, a evolução tecnológica e a massificação dos livros electrónicos, com custos drasticamente reduzidos e a natural diminuição dos preços de venda ao público, além de outras vantagens, começou a provocar uma revolução no tradicional sistema quer de produção, quer de venda.

       
         Talvez mais cedo do que se possa imaginar, as livrarias que sobreviverem a esta mutação do mercado, e serão poucas, transformar-se-ão em museus de livros.

 
O fim dos livros de papel parece não ser ficção.

 


domingo, 28 de julho de 2013

JOÃO JOSÉ COCHOFEL

 
 
 
 
          João José Cochofel nasceu em Coimbra no dia 17 de Julho de 1919, e viveu até 14 de Março de 1982.
Foi poeta, crítico literário e musical, ensaísta.
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Coimbra.
Colaborou em diversas publicações literárias.
 
       Dirigiu o “Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e da Teoria Literária”.
Foi director da “Sociedade Portuguesa de Escritores” e da “Academia dos Amadores de Música de Lisboa”.
Integrou o movimento Neo-Realista e foi um dos editores do “Novo Cancioneiro”.
O seu espólio literário encontra-se no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional de Portugal.
 
                            Acendem-se as luzes
 Acendem-se as luzes
nas ruas da cidade.
 Ainda há claridade
ao alto das cruzes
da igreja da praça
e para lá dos telhados
já meio esfumados
na mesma cor baça
do casario velho
que recobre a encosta
e mal entremostra
as cores de Botelho,
sobranceiro à massa
fluida e movente
das cordas de gente
por onde perpassa
um ar de alegria
que é do tempo quente
e deste andar contente
que no fim do dia
leva para casa,
a paz das varandas,
o álcool das locandas,
tanta vida rasa
minha semelhante.
Solidão povoada
que a tarde cansada
suspende um instante
ao acender das luzes.
 Em cada olhar uma rosa
de propósito formosa
para que a uses.
João José Cochofel, in “Breve”
 
 
 

sábado, 27 de julho de 2013

MIGUEL DE UNAMUNO

 
 
 
 

         Miguel de Unamuno nasceu em Bilbau, Espanha, no dia 29 de Setembro de 1864 e viveu até 31 de Dezembro de 1936.

         Poeta, dramaturgo, pedagogo, ensaísta e filósofo, foi um homem polémico das letras espanholas. Apoiou o trabalho crítico dos escritores da “Geração de 98”.

           Frequentou a Universidade de Madrid, onde se doutorou em Filosofia e Letras.

          Foi reitor da Universidade de Salamanca, onde estudara grego.

          É considerado como um dos melhores poetas líricos espanhóis.

          Dos seus livros de poesia destacam-se: “El Cristo de Velásquez” e "Andanzas y Visiones Españolas". 

 
A Lua e a Rosa

 
No silêncio estrelado
a Lua se dava à rosa
e o aroma da noite
enchia - sedenta boca -
o paladar do espírito,
que adormecendo sua angústia
se abria ao céu noturno
de Deus e sua Mãe toda...

Toda cabelos tranquilos,
a Lua, tranquila e só,
acariciava a Terra
com seus cabelos de rosa
silvestre, branca, escondida...
A Terra, desde suas rochas,
soprou suas entranhas
fundidas de amor, seu aroma ...

Entre os arbustos, seu ninho,
era outra lua a rosa,
toda cabelos enrolados
no berço, sua corola;
As cabeleiras enroladas
da Lua e da rosa
e no cadinho da noite
fundidas numa só...

No silêncio estrelado
a Lua se dava à rosa
enquanto a rosa se dava
à Lua, quieta e só.

 
Miguel de Unamuno, in “Poesias”


sexta-feira, 26 de julho de 2013

RACHEL DE QUEIROZ – A Arte de Ser Avó

 
 
 
 
 
Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Brasil. (1910-2003)
 
Escritora, romancista, tradutora, jornalista, cronista e dramaturga brasileira, destacou-se na ficção social nordestina.
 
Com vinte anos de idade, publicou o romance “O Quinze”, no qual narrou os horrores da grande seca de 1915.
 
Trabalhou na Comissão dos Direitos Humanos da ONU.
 
Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras e a ser galardoada com o Prémio Camões.
 
Em 1994, entrou para a Academia Cearense de Letras.
 
Em 1998, escreveu uma autobiografia intitulada “Tantos Anos”.
 
Excertos do livro “O Brasileiro Perplexo”:
 
A Arte de Ser Avó
 
 
 Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus.
 
Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimónio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
 
Quarenta anos, quarenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não a incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações - todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita.
 
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências.
 
A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aqueles que você recorda. (…)
 
(…) E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis - nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é "devolvido".
 
E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.(…)
 
(…) Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho - involuntariamente! - bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó?
 
Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...”
 
 
 
 
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

ADOLFO CASAIS MONTEIRO

 
 
 
 
        Adolfo Casais Monteiro nasceu no Porto, no dia 4 de Julho de 1908, e viveu até 24 de Julho de 1972.
       
         Foi poeta, crítico literário, novelista, tradutor, editor e professor.
       
         Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
       
         Por assumir posições políticas contra o regime vigente, foi afastado do ensino. Preso várias vezes, decidiu exilar-se no Brasil.        Participou nas comemorações do 4º centenário da cidade de S. Paulo.        
       
         Foi professor de Literatura Portuguesa em várias universidades brasileiras.
       
         Dirigiu as revistas “Presença”; “Águia” e “Mundo Literário”.     
       
         Traduziu autores como: Baudelaire” Hemingway, Stendhal, Tolstoi, etc.
 
          A sua obra poética prosseguiu o primeiro movimento
modernista português.
       
          Publicou vários ensaios, tais como: “Fernando Pessoa e a Crítica“ e Estrutura e Autenticidade na Teoria e na Crítica Literárias”.
       
           Em colaboração com a Associação Portuguesa de Escritores, foi criado o “Prémio Literário de Poesia de Adolfo Casais Monteiro”.
 
 
           Do livro “Noite Aberta aos Quatro Ventos”, o poema:
 
                                       A Palavra Impossível
 
Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
a vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
as vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
a impossível palavra da verdade.
 
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
para eu guardar dentro de mim,
para eu ignorar dentro de mim
a única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

WILLIAM SHAKESPEARE

 
 
 
 
 
William Shakespeare nasceu no dia 23 de Abril de 1564, em Stratford-on-Avon, Reino Unido. Viveu até 23 de Abril de 1616.
Foi poeta e dramaturgo.
Escreveu 154 sonetos de temática amorosa.
Foi autor de três longos poemas narrativos, intitulados: “Vénus e Adónis”, “O Rapto de Lucrécia” e “Queixa de Um Amante”.
Como dramaturgo, ficou célebre pelas suas obras “Romeu e Julieta” e “Hamlet”.
 
 
              AMOR ETERNO
 
Impedimentos não admito para a união
de corações fiéis: amor não é amor
quando se altera ao perceber alteração
ou cede em desertar quando o outro é desertor.
Oh! Não, ele é um farol imóvel tempo em fora
que as tempestades olha e nem sequer trepida;
é a estrela para as naus, cujo valor se ignora,
mau grado seja a sua altura conhecida.
O amor não é joguete em mãos do tempo, embora
face e lábios de rosa a curva foice abata;
não muda em dias, não termina numa hora,
porém, até o final das eras se dilata.
 
Se isto for erro e o meu engano for provado
jamais terei escrito e alguém terá amado.
 
 
 
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

MATILDE ROSA ARAÚJO

 
 




            Matilde Rosa Araújo, nasceu em Lisboa no dia 20 de Junho de 1921, e viveu até 6 de Julho de 2010.

Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Frequentou o Curso Superior do Conservatório.

Foi docente do Ensino Técnico-Profissional e do primeiro Curso de Literatura para a Infância.

Colaborou em diversos jornais.

Alguns dos livros publicados: “Capuchinho Cinzento”; “Estrada sem Nome”; “A Escola do Rio Verde”, “O Palhaço Verde”, “O Livro da Tila”; “Camões Poeta, Mancebo Pobre”; “Histórias e Canções em Quatro Estações”, “Os Direitos da Criança”.

Foi distinguida com o “Grande Prémio de Literatura para Crianças”, da Fundação Calouste Gulbenkian e com o “Prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte”, de S. Paulo, Brasil.

Recebeu o grau de “Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique” e foi agraciada com o “Prémio Carreira”, pela Sociedade Portuguesa de Autores. Foi nomeada para o Prémio Andersen 94.

Pertenceu ao “Comité Português da UNICEF”, ao “Instituto de Apoio à Criança” e à “Sociedade Portuguesa de Escritores”.

Matilde Rosa Araújo, especialista em literatura infantil, viveu em constante inquietude com as múltiplas complexidades das crianças e foi uma acérrima defensora dos seus direitos.

 
Balada das Vinte Meninas Friorentas

 Vinte meninas, não mais,
eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
e branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
vestidinho azul-escuro.

As minhas vinte meninas,
capinhas dizendo adeus,
chegaram na Primavera
e acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
dormiam quentes num ninho
feito de amor e de terra,
feito de lama e carinho.

 As minhas vinte meninas
para o almoço e o jantar
tinham coisas pequeninas,
que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
e asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! Muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
e branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
capinhas dizendo adeus,
em certo dia de Outono
perderam-se pelos céus.

domingo, 14 de julho de 2013

LUÍS DE MONTALVOR

 
 
 
 
 
Luís de Montalvor, nasceu na Ilha de S. Vicente, Cabo Verde, no dia 31 de Janeiro de 1891 e viveu até 2 de Março de 1947, dia em que juntamente com a família, o seu carro, por acidente, caiu no rio Tejo.
Durante três anos viveu no Brasil, onde exerceu as funções de secretário da embaixada de Portugal.
Quando regressou a Portugal trouxe o projecto de lançar a revista “Orpheu”. (figura mítica que vai ao mundo dos mortos socorrer a sua mulher, sem nunca poder olhar para trás).
A “Orpheu” representou uma oportunidade, embora efémera, para os jovens poetas, na qual podiam publicar tudo o que lhes apetecesse.
Fernando Pessoa, disse em Novembro de 1935: “Orpheu” acabou. “Orpheu” continua.
E assim foi. Prosseguiu a ruptura com o passado, romântico e simbolista, emergindo uma nova geração que queria a mudança.
No ano seguinte, Luis de Montalvor publicou e dirigiu o primeiro e único número da revista “Centauro”. Nela, escreveu:
- “Somos os descendentes do século da Decadência. Onde somos hoje decadentes foram os de outros tempos nossos percursores".
Foi o fundador da “Editorial Ática”, que deu inicio à publicação sistemática das obras de Fernando Pessoa (1942) e de Mário de Sá-Carneiro (1946).
Luís de Montalvor, poeta e ensaísta, produziu curta obra. Mas foi um dos nomes mais importantes do modernismo português e um prossecutor da poesia da Decadência.
Os seus versos foram coligidos num único volume “Livro de Poemas”. Postumamente.
 
          “Tarde”
 
Ardente, morna, a tarde que calcina,
como em quadrante a sombra que descora,
morre − baixo relevo que domina −
como um sol que sobre saibros se demora.
Inunda a terra a vaga de ouro: fina
chuva de sonho. Paira, ao longe, e chora
o olhar errado ao sol que já declina
sobre as palmeiras que o deserto implora.

A um zodíaco de fogo a tarde abrasa,
em terra de varão que o olhar esmalta.
− Estagnante plaino de ouro e rosas − vaza

nele a sombra, sem dor, que em nós começa
e galga, sobe, monta e vive e exalta.
E a noite, a grande noite, recomeça!