segunda-feira, 31 de março de 2014

A Poesia Vai Acabar

 
 
 
 

 
A Poesia Vai Acabar

 
A poesia vai acabar,
os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»   
E a pergunta afligiu-me
tanto por dentro e por fora da cabeça
que tive que voltar a ler toda a poesia
desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

 
Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde".


domingo, 30 de março de 2014

Dante Alighieri


 
 
Dante Alighieri (1265-1321) nasceu em Florença, Itália.
 
Escritor, poeta e político, foi chamado o “Pai da Língua Italiana”.
 
Tinha apenas nove de idade quando se apaixonou pela jovem Beatriz Portinari.
 
A história de amor de Dante é contada no seu livro de sonetos “A Vida Nova”.
 
Esteve envolvido no conflito Guelph-Ghibelline.
 
Lutou na Batalha de Campaldino com os guelfos florentinos contra os gibelinos.
 
Viveu o resto da vida exilado em Ravenna.
 
“A Divina Comédia”, considerada uma obra-prima da literatura, narra a sua viagem pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, acompanhado por Beatriz, seu amor de infância.
 

Palavras de Dante Alighieri: "Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria."



Poema de Dante para Beatriz


E acostumou-se à sua tirania,
Que, se a princípio parecia rude,
Suave agora me habita o coração.
Assim, quando me tira tanto as forças
Que os espíritos vejo me fugirem,
Então a minha frágil alma sinto
Tão doce, que o meu rosto empalidece,
Pois Amor tem em mim tanto poder
Que faz os meus suspiros me deixarem
E saírem chamando
A minha amada, para dar-me alento.
Onde quer que eu a veja, tal sucede,
E é coisa tão húmil que não se crê.


Dante Alighieri, in "Vida Nova"

 
 

sábado, 29 de março de 2014

Filomena Cabral

 
 

Filomena Cabral nasceu no Porto, Portugal, a 3 de Junho de 1944.

Viveu em Angola na década de 60.

Poetisa, jornalista, romancista, tradutora, colabora em vários jornais e revistas, com destaque para o “Jornal de Letras” e “Letras e Letras”.

A sua actividade literária no Brasil tem sido intensa. Participou em diversas Bienais Internacionais do Livro; na Feira Internacional de Cultura de Brasília; no I Congresso de Literaturas Americanas, no Rio de Janeiro; em Congressos de Língua e Literatura Portuguesas, organizadas pelas Universidades de São Paulo, Universidade de Campinas, Universidade de Pernambuco.

Foi convidada para as Comemorações dos 500 anos da Descoberta do Brasil.

Participou, também, no I Congresso de Literaturas Lusófonas e no Simpósio Internacional Mulher e Cultura, em Santiago de Compostela, em Espanha e nos Encontros Internacionais de Poesia em Strugga, na Macedónia.

Alguns dos 30 livros  publicados: “Sol Intermitente”; “Os Anjos Andam Nus”; “Maldamor” ; “Prantos”; “Madrigal”; ”Um Amor Cortês”; “Em Demanda da Europa”; “Mar Salgado”; “Tarde de Mais Mariana”.

Ganhou inúmeros galardões, entre ao quais: “Prémio Especial de Literatura Portuguesa da Associação Paulista de Críticos de Artes de São Paulo”;  “Diploma de Mérito Cultural”, atribuído pela Câmara Brasileira do Livro; “World Citizen 2002”, pelo “American Biographical and Research Institute”; International Peace Prize”, por “The United Cultural Convention of the USA”

Foi nomeada sócia da "Academia Lusíada de Ciências Letras e Artes", em São Paulo, Brasil.
 

 
      Kurikutela

Kurikutela que passas,
Kurikutela me leva,
me leva p'ra ver o mar.
Diz qu'é azur como o céu
mas não pode acreditar.
Kurikutela, pruquê?
Pruquê não foste parar?
Só quiria ver kalunga
só quiria ver o mar!


Filomena Cabral, in “Muxima”
 



 
 





sexta-feira, 28 de março de 2014

Dai-me rosas e lírios

 
 

Dai-me rosas e lírios

Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas

Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança

Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.

 
O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!

É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça
A flor caída no chão.

A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?


Fernando Pessoa, in “Novas Poesias Inéditas”

 


quinta-feira, 27 de março de 2014

Sarah Bernhardt - “A Divina Sarah”



Sarah Bernhardt, (1844-1923) nasceu em Paris, França.

Considerada uma das mais famosas actrizes da história do teatro, foi também pintora, escultora, escritora e mulher de negócios.

Estudou no Conservatório de Paris, tendo-se estreado aos 13 anos na “Comédie  Française”.

O seu primeiro sucesso foi em 1869, na peça “O Viandante”, de François Coppée.

Em 1907, foi nomeada professora do Conservatório.

Ao longo da sua carreira, interpretou muitos papéis clássicos, tais como: Marguerite Gautier, em “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas, filho; Cordélia, no “Rei Lear”, de Shakespeare; Aricie, em “Fedra”, de Racine; Joana D´Arc, em “Joana D´Arc”, de Jules Barbier; Hamlet, em “Hamlet”, de Shakespeare; Lady Macbeth, em “Macbeth”, de Shakespeare.

O dramaturgo Victorien Sardou escreveu, propositadamente para a actriz, as peças: “Fedora”; “Théodora”; “La Tosca” e “Cléopâtre”.

Sarah Bernhardt foi a primeira actriz-empresária do mundo do espectáculo. Em 1899, alugou, por 25 anos, o enorme “Theâtre des Nations”, em França, onde actuaria, exclusivamente, durante os últimos 24 anos de sua vida.

Em 1907, publicou a autobiografia, intitulada “Ma double vie”.

Em 1914, foi condecorada pelo governo francês, com a “Légion d´Honneur.”

No final do século XX, recebeu uma estrela na “Calçada da Fama”, em Hollywood.
Mark Twain, escritor americano, escreveu: “Há cinco classes de actrizes: as boas, as más, as regulares, as grandes actrizes e … Sarah Bernhardt.”
Palavras de Sarah Bernhardt:
“Quando a cortina é levantada, o actor deixa de pertencer a si próprio. Ele pertence ao seu carácter, ao seu autor, ao seu público.”
Um excerto do seu livro: “A Arte do Teatro”, publicado em 1924:
“Os moralistas, e em particular os moralistas religiosos, cobrem de vergonha os actores em geral, e consideram o teatro lugar de perdição.
Assim, na maioria das cidades da América em que tenho feito representações no decurso da minha “tournée”, os bispos lançam, “ex cathedra”, raios destinados a reduzirem a cinzas os meus camaradas e a mim mesmo.
A respeito de um sermão semelhante, o meu “manager”, o senhor Henry Abbey", escreveu ao bispo a seguinte carta:
-“Monsenhor, quando venho à sua cidade costumo gastar em publicidade quatrocentos dólares. Mas como desta vez a fez por mim, envio-lhe duzentos dólares para os seus pobres.” Henry Abbey
Sarah Bernhardt , in “A Arte do Teatro”
Ilustração: Pintura de Georges Clairin



quarta-feira, 26 de março de 2014

António Feijó



António Feijó  (1859-1917) nasceu em Ponte de Lima, Portugal.

Foi poeta e diplomata.

Em 1882, licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra.

Partiu para o Brasil, em 1886, onde exerceu cargos diplomáticos. Uns anos mais tarde viajou até Estocolmo e Copenhaga.

Algumas das suas obras: “Líricas e Bucólicas”; “À Janela do Ocidente”; “Cancioneiro Chinês”; “Transfigurações”; “Sol de Inverno”; “Ilha dos Amores”.  

António Feijó foi admitido na Academia Brasileira de Letras, onde, em 28 de Junho de 1917, o poeta brasileiro Alberto de Oliveira pronunciou uma conferência intitulada “António Feijó, o que morreu de amor”.


Palavras de António Feijó:        

“O coração nunca envelhece. Basta um serviço, um nada, um abraço e tudo nele se ilumina e aquece.”

O Amor e o Tempo

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!



António Feijó, in “Sol de Inverno”

terça-feira, 25 de março de 2014

Piano



                                    Piano
Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;
Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos, até que vejo
uma criança sentada debaixo do piano, na explosão do prurido das cordas
E pressionando os pequenos, suspensos pés de uma mãe que sorri
enquanto ela canta.
Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção
Atraiçoa-me fazendo-me voltar, até que o meu coração chora para pertencer
Ao antigo entardecer dos domingos em casa, com o inverno lá fora
E hinos na aconchegada sala de visitas, o tinido do piano o nosso guia.
Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor
Com o appassionato do grandioso piano negro. A magia
Dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade
É desencorajada no fluxo da lembrança, choro como uma criança
pelo passado.
D.H.Lawrence

segunda-feira, 24 de março de 2014

José Augusto de Carvalho

 
 

José Augusto de Carvalho, nasceu no dia 20 de Julho de 1937, em Viana do Alentejo, Portugal.                

 É poeta e tradutor.

 Da sua obra literária, destacam-se os livros: “Arestas Vivas”; “Sortilégio”; “Vivo e Desnudo”; “Nós Poesia”; “Da Humana Condição”; “O meu Cancioneiro”.

 Colaborou em diversas Antologias, tais como: “Poetas Alentejanos do Século XX”; “Amantes das Leituras”; “Temas Originais” e “Princesa da Poesia”.

 Está a traduzir “Por Terras de Portugal e Espanha” de Miguel Unamuno e “Selecta Poética” de António Machado.

 
Palavras de José Augusto de Carvalho:
“Sou uma pessoa igual às demais, com algumas virtudes, com alguns defeitos.”           

 

                                             A recusa!

                     
Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!

O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.

Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!

 Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...


 José Augusto de Carvalho


domingo, 23 de março de 2014

Lluïsa Cunillé

 
 

Lluïsa Cunillé, nasceu em Badalona, Espanha, em 1961.

Dramaturga catalã, é uma das autoras mais importantes da Europa.

Foi um dos fundadores da “La Companyia Hongaresa de Teatre” e da “Companhia La Reina de la Nit”.

Estreou, como autora, mais de quarenta peças teatrais.

Algumas das suas obras: “Rodeo”; “Libração”; “Intempérie”; “Ilusionistas”; “Passatge Gutenberg”; Depois de mim, o Dilúvio”; “Barcelona, Mapa de Sombras”.

Foi galardoada com vários prémios, entre os quais: “Prémio Calderón de la Barca”; “Prémio Golden Point”; “Premi Ciutat de Barcelona”; “Prémio Nacional de Teatro”; “Prémio Nacional de Literatura Dramática”.

 

Um excerto da sua obra: “Libração”:

 
“De que se fala quando não há nada para falar? Tanto faz. Encolhe os ombros no escuro e no cachecol. Tanto faz se a mulher que conheceu no parque onde passeia os cães dos outros volta na noite seguinte. Tanto faz se a estranha que de vez em quando a visita ali no meio dos carrosséis de ferro velho quer realmente ler o livro que lhe oferecera ou se realmente roubara o anel para lhe retribuir o livro. Tanto faz se está frio ou vai chover. Tanto faz se essa mulher deseja mesmo a partilha do seu segredo. O que é? Tanto faz. Tanto faz?”

                           

Lluïsa Cunillé                          


sábado, 22 de março de 2014

Ruy Cinatti

 

Ruy Cinatti (1915-1986) nasceu em Londres. Aos dois anos de idade veio para Portugal.

 Foi poeta, antropólogo e agrónomo.

 Estudou antropologia social na Universidade de Oxford.

 Licenciado em Agronomia, trabalhou, durante cinco anos, como chefe dos Serviços de Agricultura do Governo de Timor.

 Foi co-fundador das revistas “Cadernos de Poesia” e “Aventura”.

 Algumas das suas obras publicadas: “Nós não Somos Deste Mundo”; “Poemas Escolhidos”; “O Tédio Recompensado”; “Timor-Amar”; “56 Poemas”; “Um Cancioneiro para Timor”.

 Recebeu vários prémios, entre os quais: “Prémio Antero de Quental”; “Prémio Nacional de Poesia”; “Prémio Camilo Pessanha”.

 Em 1992, foi agraciado com a “Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique”.

 

 Palavras de Ruy Cinatti:  

“Quem não me deu Amor, não me deu nada”

 
Quando o amor morrer dentro de ti

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.
 
Ruy Cinatty, in “Obra Poética”.