terça-feira, 31 de maio de 2016

CÂMARA PESTANA - Um dos pioneiros da bacteriologia.






Câmara Pestana (Funchal, Madeira, Portugal, 1863 – Lisboa, Portugal, 1899)

Em 1876/1877, entrou no Liceu Nacional do Funchal, onde permaneceu até 1882. Nesse ano, chegou a Lisboa, onde frequentou os estudos da Escola Politécnica e da Escola Médico-Cirúrgica. Completou o curso em 1889 com distinção, apresentando a sua dissertação inaugural "O micróbio do carcinoma". Neste ano publicou, n´A Medicina Contemporânea, o seu primeiro artigo crítico "Febre tiphoide".

Foi interno do Hospital de São José e posteriormente, sócio da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, por proposta de Bettencourt Rodrigues e Sousa Martins.

A descoberta da vacina anti-rábica, em 1885, por Louis Pasteur e os seus trabalhos sobre doenças contagiosas influenciaram Câmara Pestana. 

Nos dez anos seguintes, Câmara Pestana foi reconhecido como uma autoridade no campo das doenças infecto-contagiosas.

Com os avanços no tratamento da tuberculose, foi enviado para Paris, em 1891, para estudar bacteriologia. 
Iniciou investigações sobre o tétano e as suas toxinas, descobrindo a antitoxina tetânica e encerrando os fundamentos da imunização passiva. 
Este seu estudo representou um dos expoentes máximos da sua vida profissional, e, poderia figurar junto a Behring na história da Ciência.

Em 1892, criou o Real Instituto Bacteriológico de Lisboa para administração da vacina anti-rábica. Este mais tarde teria importância no contexto da profilaxia da raiva.

Interveio em acções de divulgação, fundando a revista Arquivos de Medicina e publicando em revistas nacionais e europeias, como a Centralblatt fur Bakteriologie und Parasitenkunde.

Em 1894, foi incumbido da investigação do bacilo de uma epidemia febril, em Lisboa, que se pensava ser Cólera. Recorrendo à Microbiologia, refutou tal diagnóstico. 

Preocupou-se com a contenção de epidemias, defendendo uma reforma na Saúde Pública e iniciou o estudo da “peste bubónica”, em particular na Europa. No mesmo ano, foi encarregue, pela administração do Hospital de S. José, do estudo e tratamento da Difteria.

Um ano depois, assumiu o lugar de cirurgião extraordinário das enfermarias do referido hospital.

Em 1898, Câmara Pestana apresentou uma tese “A Sôrotherapia” e progrediu na carreira, tornando-se regente das cadeiras de Higiene e Medicina Legal e Anatomia Patológica. Nesse ano, fundou, com outros colegas a Associação dos Médicos Portugueses.

No ano seguinte, a peste irrompeu no Porto. Inicialmente diagnosticada por Ricardo Jorge, foi posteriormente confirmada por Câmara Pestana e Albert Calmette. 

No Verão de 1899, Câmara Pestana esteve no Porto, assistindo às primeiras autópsias em cadáveres infectados e recolhendo material para aperfeiçoamento da prevenção epidémica.

Na procura de reagentes para criar a vacina antipestosa, Câmara Pestana voltou ao Porto e infectou-se mortalmente. Já consciente do seu fim, afirmou «A consciência… do dever cumprido… é bastante… Olha… merece a pena ser bom…».

Morreu a 15 de Dezembro de 1899.
Face à sua morte, houve um pesar generalizado, pelo que se pode afirmar que “a sua morte precoce ao serviço da ciência deu lugar ao herói popular”.

Para além do Instituto, construção apoiada pela rainha D. Amélia, o seu nome é ainda recordado em vários prémios de cariz científico.



Fonte: Dicionário de Médicos Portugueses
Imagem: Retrato de Câmara Pestana (1900), por João Galhardo (1870-1903), no Instituto Bacteriológico de Câmara Pestana.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

SEARA NOVA – Revista






SEARA NOVA


Revista fundada em Lisboa, por iniciativa de Raul Proença e de um grupo de intelectuais portugueses, no ano de 1921. 

Quanto ao projecto editorial, assumiu-se como uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, com fins políticos e pedagógicos, e tendo a colaboração de um grupo de intelectuais militantes, poetas, economistas, pedagogos e críticos, como é referido no editorial do nº 1, datado de 15 de Outubro de 1921. 

O grupo pretendia activamente intervir na vida política do país, aproximando a elite intelectual republicana e progressista da realidade portuguesa, servindo-se da revista como veículo da sua acção pedagógica e doutrinária. 

Após a implantação da Ditadura Nacional surgida da Revolução de 28 de Maio de 1926, o grupo da Seara Nova assumiu-se como um dos grupos ideológicos mais activos no combate contra o salazarismo. 

O projecto nos seus primeiros anos de publicação, reuniu alguns dos principais nomes da intelectualidade do tempo, com destaque para Jaime Cortesão, Raul Proença e António Sérgio. 

Mas muitos outros intelectuais deram a sua colaboração ao longo dos seus mais de 50 anos de publicação, como Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, Augusto Casimiro, Teixeira Gomes, Rogério Fernandes, Augusto Abelaira, Assis Esperança, Afonso Duarte, Hernâni Cidade, João de Barros, Joaquim de Carvalho, Irene Lisboa, Manuel Mendes, José Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, José Bacelar, Álvaro Salema, Lobo Vilela, Santana Dionísio, José Gomes Ferreira, Adolfo Casais Monteiro, Mário Dionísio, Avelino da Costa Cunhal e Fernando Lopes Graça.




Fonte: Hemeroteca Municipal de Lisboa 


domingo, 29 de maio de 2016

AFONSO DOMINGOS - Arquitecto







Afonso Domingos (Lisboa, Portugal, meados do século XIV – Batalha, Portugal, 1402).

Pouco se sabe acerca deste arquitecto.
Depois da experiência adquirida, trabalhando na Sé Catedral de Lisboa, foi o primeiro arquiteto do Mosteiro da Batalha.
A ele foram atribuídos o projecto e a direcção inicial dos trabalhos, em 1388.
Pensa-se que era oriundo de uma família abastada, uma vez que tinha residência numa das zonas mais caras de Lisboa, na freguesia da Madalena.
A ele se ficou a dever a traça original do Convento, tendo dirigido as obras entre 1388 e 1402.
Embora deixasse o templo quase totalmente configurado, não conseguiu finalizar a obra, uma vez que veio a falecer em 1402.



Fonte: Mosteiro da Batalha


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Palavras de Afonso Domingues:
“A abóbada não caiu, a abóbada não cairá.”



sábado, 28 de maio de 2016

MANUEL BANDEIRA - Madrigal Melancólico






Manuel Bandeira (Brasil, 1886 - 1968)


                                      Madrigal Melancólico


O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
– Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.




Imagem: pintura de Ruben Cukier (Buenos Aires, Argentina)


sexta-feira, 27 de maio de 2016

CARLOS MALHEIRO DIAS – Historiador e romancista






Carlos Malheiro Dias (Porto, Portugal, 1875 – Lisboa, 1941).

Após uma carreira política que a implantação da República viria interromper, duas vezes deputado regenerador, vogal do Conselho de Arte Dramática, intensificou brilhante carreira literária, que havia dado suas provas, já, no jornalismo, sobretudo como Director da Ilustração Portuguesa.

Ao jornalismo devem-se também as páginas reunidas em volume de Cartas de Lisboa, indispensável ao conhecimento sociológico de um período agitado da vida nacional. À sua fase de activa intervenção política ficaram-se também devendo livros de combate, de alta intenção nacional, sendo de salientar destes, Zona de Tufões e Exortação à mocidade.

Ficcionista, foi influenciado por Eça de Queirós em alguns dos seus romances mais representativos, embora noutros se desenhasse, pela primeira vez entre nós, a assimilação de temas históricos pela imaginação, a realidade transfigurada. Mas é sobretudo de natureza realista a linhagem estética dos seus romances.

No Brasil, Carlos Malheiro Dias fundou a revista O Cruzeiro e lançou a monumental História da Colonização Portuguesa no Brasil, da qual foram publicados apenas três volumes.

Nomeado embaixador em Madrid, já no termo de uma longa e gloriosa (mas nem sempre fácil) vida pessoal e política, não chegou a tomar dessa tardia recompensa.



Fonte: Enciclopédia de Cultura



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Palavras de Carlos Malheiro Dias: 
"A coragem de afirmar asneiras é uma das características da improvisação jornalística."





quinta-feira, 26 de maio de 2016

CANTOCHÃO RADIOFÓNICO






CANTOCHÃO RADIOFÓNICO


Abro a telefonia… Uma voz chorosa, opaca, lamuria qualquer coisa, mastigando as palavras. Com esforço, acabo por perceber que não se trata das exéquias de ninguém. E, num esforço supremo para separar as palavras do que insinua o tom plangente, verifico que a voz fala de poesia. Mas a poesia não morreu, caramba! – para que estará aquele homem a falar dela como se fosse já do outro mundo… ou ele é que será do outro mundo?

Saio por uns minutos da sala. Ao voltar, é outra voz - mas a choradeira continua. É porém, agora, uma voz de mulher, que segrega tédio, fúnebre, fúnebre. Volto a fazer o mesmo esforço: que estará ela a chorar? Felizmente, algumas palavras que me são familiares põem-me na boa pista: não é carpideira, é uma «diseuse», como se usava dizer outrora: a voz feminina está a recitar versos – perdão: a chorá-los.

E é sempre isto: para falar de poesia, para recitar versos, aqueles senhores e aquelas senhoras consideram indispensável uma voz trémula, estertores de moribundo. Os versos podem ser alegres, triunfantes, dinâmicos, cheios de vida: sejam eles o que forem, eles e elas choram-nos – e choram sobre eles.

Porque não ficam em casa, a chorar a faltinha de jeito com que Deus os brindou? Em casa, para as visitas, que ao menos teriam a consolação de lhes comerem os bolos. Nos tempos que vão correndo, é um sacrifício que vale a pena.



in “Mundo Literário”: semanário de crítica e informação literária, científica e artística – de 1 de Junho de 1946.


Imagem: pintura de Pedro Victor Sousa (Ilha de Santa Maria, Açores, Portugal, 1970).

quarta-feira, 25 de maio de 2016

ÉRICO VERÍSSIMO - Escritor






Érico Veríssimo (Cruz Alta, Brasil, 1905 – Porto Alegre, Brasil, 1975).

Pertence ao seleto grupo de escritores brasileiros de grande reconhecimento. É, ao lado de Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, uma das vozes mais representativas no Século XX. 

Teóricos internacionais avaliam sua trilogia, O Tempo e o Vento como obra expoente no romance épico.

Mudou-se para Porto Alegre, em 1931. 
Publicou seu primeiro livro, Fantoches, uma coletânea de contos em 1932. Clarissa foi seu romance de estreia, seguido por Caminhos Cruzados e Olhai os Lírios do Campo, inaugurando o sucesso editorial.

Ao longo de sua carreira escreveu 36 obras, entre, romances, novelas, contos, memórias, narrativas infanto-juvenis e de viagens. 
Criou o Clube dos Três Porquinhos, na Rádio Farroupilha, cuja experiência gerou diversas obras infantis. (…)

É um dos autores brasileiros mais conhecidos no exterior, com obras editadas em mais de 15 idiomas. (…)

Sua obra maior, a trilogia O Tempo e o Vento (O Continente, o Retrato e o Arquipélago), escrita entre 1947 e 1962, recupera duzentos anos de história do Rio Grande do Sul. São páginas que inscrevem nomes com Ana Terra e Capitão Rodrigo Cambará entre as grandes personagens da literatura brasileira.

A novela Noite, os romances Incidente em Antares e Senhor Embaixador, além da sua autobiografia Solo de Clarineta, cuja segunda parte é publicada após seu falecimento em 28 de Novembro de 1975, coroam uma atuação ímpar no cenário literário brasileiro.



Fonte: Centro Cultural Érico Veríssimo (excertos).


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Palavras de Érico Veríssimo:
Acho muito perigoso um homem levar-se demasiadamente a sério.”







terça-feira, 24 de maio de 2016

FERNANDO PESSOA - O burro e as duas margens







O BURRO E AS DUAS MARGENS


É costume contar-se às crianças, quando começam a estar em idade de começar a ser estúpidas, uma história a propósito de um burro que chega à margem de um rio e não consegue passar para a outra margem.

O rio não tem ponte, o burro não sabe nadar, não há barca que o transporte. O que faz o burro? Depois de algum tempo de pensar, a criança diz que desiste. E então a pessoa adulta, que lhe pôs a adivinha, diz: O mesmo fez o burro. O que devia dizer era: És como o burro, porque assim é que a graça tem graça, se é que a tem.

Mas a história não se passou assim, e foi o burro mesmo que m'a contou.

O burro chegou à margem do rio, e queria passar para a outra margem. Verificou, efectivamente, e nesse particular a história é verídica como se narra, que (a) não havia ponte, (b) não havia barco, (c) ele, burro, não sabia nadar.
Então o burro pensou: O que faria um homem no meu caso? E, depois de pensar, pensou: Desistia. Pois bem, decidiu: Sou como o homem.

Porque, nesta adivinha, ninguém pensou numa coisa: é que o homem desistia também.

Moralidade: 
A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras diferentes. O melhor é dizer em segundo lugar, porque como é o homem que faz a adivinha, adiante vai o burro.

Moralidade:
Cuidado com o avesso.
Cuidado com os tecidos políticos que se podem virar do avesso.


in Arquivo Pessoa
Imagem: Fernando Pessoa – pintura de Júlio Pomar

segunda-feira, 23 de maio de 2016

GRUPO DO LEÃO





Grupo do Leão


Em 1881 alguns artistas plásticos e homens de letras, que se reuniam habitualmente na cervejaria e restaurante Leão de Ouro, da antiga Rua do Príncipe, em Lisboa, resolveram fundar o Grupo do Leão, cuja actividade se estendeu até 1888. 

O Grupo do Leão que teve a sua revista própria, a Crónica Ilustrada, dirigida por Alberto de Oliveira, congregou um núcleo de artistas modernos (como a si próprios se chamavam), devotado à estética do Naturalismo, como reacção ao meio artístico nacional, em franca decadência, simbolizado na “Promotora”. 

O chefe do grupo foi o pintor portuense Silva Porto; a ele se juntaram António Ramalho, João Vaz, Malhoa, Girão, Henrique Pinto, Rodrigues Vieira, Cipriano Martins, Ribeiro Cristino. Mais tarde, fizeram parte do Grupo do Leão, o entalhador Leandro Braga, Rafael Bordalo, Vilaça e até Soares dos Reis e o rei D. Fernando. 

Também Columbano se integrou no grupo, que retratou numa tela célebre, hoje no Museu Nacional de Arte Contemporânea, mas que pertenceu à decoração da cervejaria, efectuada em 1885, assim como vários outros quadros dos pintores do grupo. 

Ao Grupo do Leão, que promoveu exposições notáveis durante a sua existência, pertenceram ainda literatos como Monteiro Ramalho – o crítico oficial do grupo - , Fortunato da Fonseca, Augusto  Cardoso, etc. 

Não se deverá esquecer a figura de António Monteiro, também retratado por Columbano, proprietário da cervejaria que deu o nome ao Grupo do Leão, de tão grande importância na arte portuguesa nos fins do século XIX. 




Fonte: Enciclopédia de Cultura

Imagem: Grupo do Leão: pintura de Columbano Bordalo Pinheiro.

domingo, 22 de maio de 2016

PREGÕES MATINAIS







         PREGÕES MATINAIS


Passo às vezes na cama um dia inteiro
De papo para o ar, como um madraço…
Fumando qual filósofo ou palhaço,
– Sem mulher… sem cuidados… sem dinheiro!

É de manhã então que me é fagueiro
Ouvir trinar no cristalino espaço
Um pregão mais macio que um regaço,
Que se esvai a carpir… como um boieiro…

De manhã é que passa a leiteirinha,
Com seu pregão chilrado de andorinha,
Passam varinas de gargantas sãs…

E ao escutar tais cantantes semifusas,
Eu creio que oiço ao longe as frescas Musas,
– A vender uvas e a pregoar maçãs.



Gomes Leal, poeta e crítico literário (Lisboa, Portugal, 1848 – 1921).

sábado, 21 de maio de 2016

JOLY BRAGA SANTOS – Compositor e maestro






Joly Braga Santos (Lisboa, Portugal, 1924 – 1988) revelou desde muito cedo um elevado talento musical, tendo iniciado estudos de violino aos seis anos. Estudou composição com Luís de Freitas Branco de quem recebeu uma forte influência técnica e estilística na primeira fase da sua produção musical. 

Aos 24 anos rumou para Itália com a finalidade de aprofundar os seus conhecimentos em Direcção de Orquestra com Herman Scherchen (Veneza, 1948). Mais tarde, frequentou o estúdio experimental de Gravesano, com Antonino Votto (1957-1958) e prosseguiu os estudos de Composição com Virgilio Mortari (Roma, 1959-1960). A partir do final da década de cinquenta, a sua obra revela também influência destas experiências europeias.

Foi ainda professor de Análise e Técnicas de Composição no Conservatório Nacional de Lisboa, dirigiu a Orquestra da Emissora Nacional e publicou regularmente crítica musical.

Sendo a sinfonia o género em que melhor exprimiu o seu talento criativo, a dimensão, qualidade e diversidade da sua obra, colocam-no entre os maiores compositores portugueses do século XX.

O espólio documental doado à Biblioteca Nacional de Portugal é constituído por mais de 100 obras em versão manuscrita, constituídas por música instrumental sinfónica e de câmara, música para piano, para canto e piano, para coro, música de bailado, ópera radiofónica e bandas sonoras para cinema de ficção e documental. 

Contém, ainda, cadernos de apontamentos, cerca de 500 espécies impressas (livros, partituras, programas de concertos) e ainda algumas cópias manuscritas de obras de outros autores (algumas com dedicatória) como Fernando Lopes Graça e Alberto Ginastera, entre outros.

Embora a obra de Joly Braga Santos tenha uma projecção nacional e mundial de grande notoriedade, a doação deste espólio à Biblioteca Nacional de Portugal representa para músicos e para investigadores a possibilidade de contactar directamente com os manuscritos do compositor, explorando assim aspectos menos conhecidos da sua produção musical, bem como do seu método de trabalho e do seu processo criativo.

O Espólio entregue será, futuramente, completado com documentação de carácter biográfico, da qual se destaca a correspondência trocada com músicos portugueses com quem manteve uma relação de recíproca admiração como Fernando Lopes Graça, Luís de Freitas Branco ou Álvaro Cassuto.



Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal



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Palavras de Joly Braga Santos:
“Não me considero compositor, mas sim inventor de música.”



sexta-feira, 20 de maio de 2016

A INVENÇÃO DA ÁGUA






A Invenção da Água



Como muito bem se sabe, no princípio não havia água.
Só havia o verbo.
Depois apareceram o sujeito e o complemento directo.
Mas de água, nada.

Então todos começaram a beber vinho e Deus achou que era bom.
E lá isso era!

No entanto, com o aparecimento das primeiras culturas
do tipo comercial,tornou-se evidente
a falta de qualquer coisa
que pudesse aumentar a produção do vinho
e torná-lo mais rentável.

Era a água, claro.

Mas não havia água, como já fizemos notar.
As primeiras pesquisas,
então ainda bastante primitivas,
levaram à descoberta da água-pé.

Embora curiosa, essa descoberta não resolveu,
de forma alguma, o fim pretendido.
Continuava a não haver água. As pesquisas prosseguiram.

Felizmente o homem é assim, nunca desiste.
É isso que faz o progresso.
E largos tempos passados chegou-se a nova descoberta:
a aguardente.

Era melhor, não duvidemos, mas realmente não era o desejado.
Faltava a água. Definitivamente.
As civilizações pastoris, no seu nomadismo constante,
descobriram, acidentalmente, a água-bórica que,
aliás, nunca serviu para nada. Coisas de nómades.

Foi então que no seio das culturas orientais
mais avançadas tecnologicamente,
surgiu a grande invenção:
um misterioso pó branco que,
deitado em mínima quantidade num litro de água,
o convertia,
quase milagrosamente,
num litro de água.

ESTAVA INVENTADA A ÁGUA

Inicialmente rara e só usada para fazer vinho,
tornou-se no entanto com o desenvolvimento industrial,
bastante acessível e abundante.

Ergueram-se os primeiros lagos,
deu-se início aos rios pequeninos e,
finalmente surgiram os rios maiores,
aqueles muito grandes,
que consta várias pessoas já terem visto por aí.

Este progressivo desenvolvimento líquido
teve como consequência
o aparecimento de poderosas civilizações marítimas,
que se desenvolveram de tal maneira que nos puseram
no brilhante estado em que nos encontramos.

É o que fazem as invenções.

No entanto, e mesmo com a actual abundância,
não devemos abusar, dada a tremenda
explosão demográfica que se está registando.
Parece-nos mais prudente beber gin. Sempre.



MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA (Lisboa, Portugal, 1923-1980),
in “Novos Contos do Gin”.
Imagem: pintura de Lyssack Gennadiy (pintor russo contemporâneo).




quinta-feira, 19 de maio de 2016

RONALD DE CARVALHO - Anoitece






Ronald de Carvalho (Rio de Janeiro, Brasil, 1893 – 1935).

Começou a escrever como poeta simbolista, com o livro Luz Gloriosa (Paris, 1913).

Em 1914 estabeleceu-se em Lisboa, Portugal, para exercer actividades diplomáticas. Conheceu membros do grupo modernista e, em 1915, já integrado no grupo, participou no lançamento da revista “Orpheu”, que foi um marco do Modernismo português.

Em 1919 publicou Poemas e Sonetos, que representam a sua fase parnasiana.

A partir de 1922, com os Epigramas Irónicos e Sentimentais, deu início à fase de poeta modernista.

O seu último livro foi Itinerário, publicado em 1935.



Palavras de Ronald de Carvalho:
"A exaltação da personalidade produziu, por um lado o individualismo, e, por outro, o enfraquecimento da inteligência em beneficio da sensibilidade."



Anoitece...

Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e subtil, aparece...

 
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...

 
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.

 
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...





Ronald de Carvalho, in “Poemas e Sonetos”.



quarta-feira, 18 de maio de 2016

TEMPLO DE ÁMON, CARNAQUE






TEMPLO DE ÁMON, CARNAQUE


Embora apenas com ferramentas primitivas e um exército de trabalhadores escravos, os antigos Egípcios encontravam-se entre os mais prolíficos construtores da história. 

Através de erecção de projectos monumentais, como templos, seguiram uma profunda convicção religiosa em honra e apaziguamento dos deuses.

Os templos dedicados aos deuses e à adoração dos antepassados eram muitas vezes o resultado de sucessivas fases de construção, periodicamente remodeladas para acomodar esquemas mais grandiosos.

No Templo de Ámon, em Carnaque, no Egipto (1530 – 323 a.C.), os edifícios estão dispostos ao longo de itinerários processionais ligados às margens do Nilo e ao próximo Templo de Luxor. Chega-se ao santuário através de uma sucessão de quadras abertas e do hipostilo, cuja passagem central possuía iluminação clerestórica, com as colunas em volta desaparecendo no vasto e escuro interior.

O santuário interior abrigava a imagem sagrada do deus criador, Ámon, assistido pelo faraó e seus sacerdotes em ritos secretos.
O recinto de um pouco mais de vinte e um hectares foi erigido ao longo dum período de mil e duzentos anos, registando monumentalmente a luta dinástica dos faraós pela imortalidade.



in Arquitectura – Neil Stevenson
Imagem: Avenida das Esfinges

terça-feira, 17 de maio de 2016

LOUIS BRAILLE: Um Farol para um Mundo de Escuridão





Louis Braille (Coupvray, França, 1809 - Paris, França, 1852).

Aos três anos de idade, feriu-se no olho esquerdo com uma ferramenta pontiaguda, originando uma infecção que se alastrou ao olho direito, provocando-lhe a cegueira total.
Frequentou o “Institut Royal des Jeunes Aveugles de Paris” fundado por Valentin Haüy, que criou um programa para ensinar os cegos a ler. O sistema era complicado e de difícil aprendizagem.
Louis Braille pensou que devia investir o seu talento e trabalho num processo mais fácil e eficaz, que permitisse aos cegos terem o direito de acesso à cultura.
Com quinze anos, concluiu o seu método, que se baseava numa célula de seis pontos (três pontos de altura por dois de largura). Posteriormente, Braille evoluiu o sistema com a inclusão da notação numérica e musical.
O “Código Braille” é lido da esquerda para a direita, com uma ou as duas mãos.
Com o avanço da tecnologia, é fácil imprimir textos em “Braille”, com a adaptação de um programa específico.
Assim, é possível a impressão de livros, que em Portugal atinge cerca de 3.000 títulos, de temática variada: filosofia, psicologia, romances, poesia, infanto-juvenil, manuais escolares, etc.
A nível mundial existe um plano para a unificação dos códigos matemáticos e científicos, mas ainda não atingiu o sucesso pretendido.
O método de Louis Braille, usado em todo o mundo, apenas foi reconhecido, postumamente, pelo estado francês em 1952.


Hellen Keller, escritora, filósofa e conferencista, (EUA (1880-1968), cega e surda desde criança, publicou um artigo de homenagem a Braille no “The New York Times Magazine”, em 6 de Janeiro de 1952, intitulado: Louis Braille: Um Farol para um Mundo de Escuridão.



Palavras de Louis Braille: 
"Se os meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre ideias e doutrinas, terei de encontrar uma outra forma.”


Um Cego


Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.

Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.

Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,

porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.



Poema de Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda”.
Tradução: Renato Suttana