domingo, 31 de julho de 2016

CARTA DE ARMANDO CORTEZ ao Presidente da Caixa de Previdência dos Profissionais de Espectáculos – 1963.






Carta de Armando Cortez ao Presidente da Caixa de Previdência dos Profissionais de Espectáculos – 1963.


Excelentíssimo Senhor,

Com os meus melhores cumprimentos, venho junto de V. Exa. expor e solicitar o seguinte:
Há já bastante tempo tenho necessidade de duas placas dentárias para substituir um velho e desadaptado aparelho que há anos trago na boca, com prejuízo para as gengivas e restantes dentes.
Consultei para o efeito, há poucos meses, o Exmo. Sr. Dr. Oliveira Pinto, no Centro de Medicina Dentária, que estudou o trabalho de prótese a efectuar, e o orçamentou em 1.900 escudos. Como se tratava de uma verba incompatível com as minhas possibilidades financeiras, nessa mesma altura telefonei para a Caixa, a informar-me da viabilidade de me serem por ela pagas as referidas placas dentárias.

Informou-me o funcionário que então me atendeu, de que eu teria de escrever a V. Exa. uma carta, formulando esse mesmo pedido e dizendo:

- Porque razão eu desejava duas placas dentárias.
- A que se destinavam as mesmas.
- Em quanto importava o seu custo.

Passo, portanto, a esclarecer estes três importantes e nebulosos pontos:

- Desejo duas placas dentárias porque me faltam os meus próprios dentes.
- Destinam-se as mesmas a ser aplicadas, uma ao maxilar inferior, outra ao maxilar superior, para assim menos custosamente eu proceder à mastigação dos alimentos possíveis de adquirir com os meus honorários depois de deduzidos: 5,5% para a Caixa de Previdência, 1,5% para o Fundo de Desemprego e recentemente mais 1% para o imposto Profissional.

Objectarão talvez os esclarecidos Serviços dessa Caixa que eu poderia alimentar-me de papas e bolos, dispensando-me assim o luxo de ostentar dentes que não são meus. De bom grado me sujeitaria a isso, com todos os prejuízos, se não se sobrepusesse um problema de ordem profissional: é que eu sou Actor, e os dentes se me tornam indispensáveis à mecânica da articulação de sons e palavras, isto é: - à Dicção! A isto poderão ainda os mesmos esclarecidos Serviços objectar que não são os dentes tão necessários à articulação quanto eu pretendo, porque… Eu sei ao que os Serviços se querem referir, mas a minha formação moral e o meu sentido de camaradagem repudiam energicamente a sugestão de me propor ao ÚNICO cargo em Portugal em que um actor sem dentes pode ganhar a sua vida: o de Professor de Arte de Dizer do Conservatório Nacional. Além disso, se as coisas de facto assim se passaram durante alguns anos (pelo menos enquanto durou o meu curso), já há muito tempo que esse assunto foi revisto e resolvido por razões de ordem trófica e possivelmente didáctica.

- Importa o seu custo em 1.900 escudos, conforme documento que se junta, escrito pelo punho do Exmo. Sr. Dr. Oliveira Pinto, e que poderá em qualquer altura ser confirmado pelo Centro de Medicina Dentária, na Calçada Bento Rocha Cabral em Lisboa.

Estou informado particularmente, não sei se bem se mal, de que é hábito as Caixas de Previdência só liquidarem este género de despesas depois destas estarem pagas pelos beneficiários. Parece-me isso tão absurdo que não quero crer que assim seja. Se eu faço à minha Caixa de Previdência este pedido é porque, em função da minha profissão, acho inteiramente justo que ele me seja deferido, e por não ter eu possibilidades financeiras de arcar com essa despesa. 

Ora se eu for pagar primeiro, para depois a Caixa me pagar a mim, (para o que careceria, evidentemente, de instrumento material) passo automaticamente da situação de beneficiário à de beneficiante. Invertem-se completamente os papéis e as funções de um e de outro: passo eu a ser uma espécie de Previdência da Caixa, e não creio que a Caixa dos Profissionais de Espectáculos ou qualquer outra, esteja na situação crítica de recorrer a favores pessoais para cumprir a sua missão. 

É essa medida tomada, segundo me dizem, para obstar ao facto, que considero vergonhoso, de alguns beneficiários darem a esse dinheiro outro destino que não aquele para que ele é solicitado. Para evitar delongas, e situações insolúveis, desde já me permito sugerir a V. Exa. que os respectivos serviços dessa Caixa entrem directamente em contacto com o Centro de Medicina Dentária, e directamente tratem a liquidação do custo do aparelho, de que urgentemente necessito, pelo que solicito a possível brevidade na apreciação desta pretensão, que me permito submeter ao alto critério de V. Exa. por a achar a todos os títulos justa.

Com os protestos da minha maior consideração, tenho a honra de me subscrever,

De V. Exas.
Atentamente
Armando Cortez



Nota:Esta carta foi cedida pela actriz Manuela Maria, esposa de Armando Cortez.



sábado, 30 de julho de 2016

ALMEIDA FARIA - Escritor





Almeida Faria (Montemor-o-Novo, Portugal, 1943).


O escritor Almeida Faria iniciou o processo de doação do seu Espólio à Biblioteca Nacional de Portugal com a entrega simbólica dos manuscritos Rumor Branco, editado em 1962, quando contava apenas 19 anos, e A Paixão (1965).


Entre 1965 e 1983 Almeida Faria escreveu o ciclo Triologia Lusitana, iniciado com A Paixão, a que se seguiu Cortes e Lusitânia, encerrado com Cavaleiro Andante, que, segundo Maria Alzira Seixo, termina “um ciclo de reflexão sobre a situação do homem português perante o seu contexto social e a incidência política que o determina”, o salazarismo e a revolução de 25 de Abril de 1974, e “sobre a sua capacidade (ou talvez melhor, incapacidade) de se definir na sua totalidade humana (pessoal, familiar erótica, ambiencial), em registos de comunicação que transcendem o puramente ficcional (lírico e epistolar), assim modulado numa estrutura que coloca em situação de relevo a personagem, agente ou paciente da História que aqui fundamentalmente se encontra em questão”.

Os romances de Almeida Faria, ficcionista, ensaísta e professor de Estética na Universidade Nova de Lisboa, obtiveram vários prémios literários e têm sido objecto de trabalhos universitários.


in Biblioteca Nacional de Portugal (excertos)



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Palavras de Almeida Faria:
“A literatura portuguesa é bastante puritana, não teve um Aretino, quase nunca teve a liberdade que outros países, mesmo católicos, tiveram.”

sexta-feira, 29 de julho de 2016

TEMPO PRESENTE - Revista Portuguesa de Cultura






TEMPO PRESENTE -Revista Portuguesa de Cultura publicada entre 1959 e 1961, dirigida por Fernando Guedes, com uma redacção constituída por António José de Brito, António Manuel Couto Viana, Caetano de Melo Beirão e Goulart Nogueira. 

Inclui rubricas com Ensaios e Poesia, Teatro, Tempo Presente.

Tempo Presente apostou literáriamente numa estética de modernidade, consagrando autores modernistas e futuristas portugueses como Almada Negreiros, Mário Saa, Ângelo de Lima, Raul Leal, Armando Côrtes-Rodrigues.

Colaboram ainda nomes que tinham estado ligados às revistas Távola Redonda e Graal, como António Manuel Couto Viana, Fernando Guedes, Fernando de Paços, Maria Manuela Couto Viana, Fernanda Botelho, Luiz de Macedo, Cabral do Nascimento, Tomás Kim, José Blanc de Portugal, José António Ribeiro, Nuno de Sampayo, António Salvado, Eduíno de Jesus e Natércia Freire.



in Hemeroteca Municipal de Lisboa






quinta-feira, 28 de julho de 2016

GUITARRILHA DE SATAN






Guitarrilha de Satan


Estranha apparição
Que em minhas noites vejo,
Ó filha do desejo!
Ó filha da soidão!

Não sei qual é o teu nome,
E d'onde vens ignoro:
Sei só que tremo e choro
Como de frio e fome!

Que por fundir comtigo
Suspiros, ais, rugidos,
Déra ideaes queridos,
Deuses e fé que sigo.

Sim! dera as prophecias
E os cultos salvadores,
E os Golgothas e as dôres
E as Biblias dos Messias!

Por ti minh'alma clama,
Corre a meus braços breve,
Sejas de fogo ou neve,
Sejas cristal ou lama!

Se és Beatriz, sou Dante;
Sou santo, se és divina;
Se és Laïs ou Messalina,
Sou Nero, ó minha amante!



Antero de Quental (Ponta Delgada, Açores, Portugal, 1842 – 1891), poeta e escritor que integrou o movimento da Geração de 70.

Imagem: pintura de Édouard Manet (Paris, França, 1832 – 1883).


quarta-feira, 27 de julho de 2016

JORGE PEIXINHO - Compositor






Jorge Peixinho (Montijo, Portugal, 1940 – Lisboa, 1995).

Foi um dos mais importantes compositores portugueses do século XX, tendo tido um papel fundamental na actualização do panorama musical do país entre 1961 e meados da década de 1980, não apenas através da sua actividade criativa, mas também enquanto incansável divulgador, ensaísta e intérprete.

A sua obra, em que se detecta uma progressiva evolução estilística, conjuga com uma crescente originalidade a flexibilidade da ideia ou da execução musical e o rigor da escrita.

Iniciou, no Montijo, os estudos de piano com sua tia Judite Rosado.
Estudou Composição no Conservatório Nacional, em Lisboa, com Artur Santos (1948- 1954) e Jorge Croner de Vasconcellos (1954-1956). Terminou em 1958 o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional, onde trabalhou com Fernando Laires.

Como bolseiro da Fundação Gulbenkian, aperfeiçoou-se em Composição em Roma entre 1959 e 1961 com Boris Porena e Goffredo Petrassi, adoptando então o cromatismo integral e o atonalismo serial como base para a assimilação de novas técnicas criativas.

Na Holanda, em 1960, familiarizou-se com as possibilidades oferecidas pelos estúdios de música electrónica. Trabalhou ainda com Luigi Nono em Veneza e com Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen em Basileia, tendo frequentado, na década de 1960, os cursos internacionais de composição de Darmstadt, onde participou em obras colectivas orientadas por Stockhausen.

Em Lisboa, Peixinho divulgou, com grande escândalo, a música de John Cage (1961, 1964); dirigiu cursos de música contemporânea em colaboração com Louis Saguer e Pierre Mariettan (1962-1964).

Desdobrou-se como pianista, crítico musical, conferencista e ensaísta; e participou ainda em estrepitosos "happenings" multimedia (1965, 1967).

Em 1970, fundou o influente Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, que dirigiu até à sua morte, tendo-se apresentado com ele em diversos países da Europa e da América do Sul; o GMCL abriu uma janela sobre a criação contemporânea internacional e permitiu que nomes como Constança Capdeville e Emmanuel Nunes, entre outros, se fizessem ouvir.

Na obra de Peixinho, a crescente influência de Stockhausen é detectável a partir de 1963, culminando na acentuada componente aleatória de "Eurídice Re-amada" (1968).

De 1969 em diante, a música de Peixinho ganhou um lirismo particular, facilmente reconhecível, baseado no entretecer de citações, na distensão temporal e no refinamento tímbrico.

A sua influência foi grande no meio nacional; compositores como Clotilde Rosa, Paulo Brandão ou Isabel Soveral devem-lhe um impulso decisivo para a sua evolução artística.

Jorge Peixinho recebeu vários prémios nacionais de composição. 



in Grupo de Música Contemporânea de Lisboa (excertos)



terça-feira, 26 de julho de 2016

MATILDE ROSA ARAÚJO - Não te assustes






Matilde Rosa Araújo (Lisboa, Portugal, 1921 – 2010).

Matilde Rosa Araújo nasceu na casa de seus avós, uma quinta na estrada de Benfica, onde contactou o meio rural e observou o trabalho de adultos e crianças que lidavam com animais.
Estudou em casa, com mestres escolhidos, o que a levava a dizer com expressão sonhadora, sem amargura, «A minha infância foi muito solitária».

Nos anos quarenta, já jovem adulta, muda-se para Lisboa.
Fez o curso de Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde granjeou grandes amizades para toda a vida.

No início da sua carreira de professora, Matilde Rosa Araújo ensinou Português, Francês, Geografia em escolas técnico- profissionais.
Ao longo do tempo exerceu a docência em numerosas escolas do secundário percorrendo o país de Norte a Sul, o que lhe permitiu conhecer a realidade de muitos lugares, base da sua grande experiência e inspiração para poemas e contos.

Em convívio com as educadoras, num curso de formação, ou na sequência duma sua conferência, sublinhava a importância de se estar atenta à sensibilidade poética infantil, que se devia desenvolver com o canto, as lengalengas, os textos rimados. 

Como pedagoga, Matilde Rosa Araújo cativava as crianças escutando-lhes as falas e os anseios e chegava a elas pela via da literatura. Os alunos ficavam presos da sua voz doce e sábia, que lhes abria horizontes e os impelia a pensarem e a agirem com responsabilidade.

Além de alguns poemas e contos publicados, Matilde inicia a sua vida literária em 1957, com o Livro da Tila, um conjunto de poemas para crianças. Mais tarde Fernando Lopes Graça musicou todo o livro, que considerava "o melhor cancioneiro infantil na história da música portuguesa".

Preocupada com a situação social da infância escreve Praia Nova (1962), O Palhaço Verde (1962), conto inspirado num menino real encontrado num circo pobre da província, mas onde não falta a ternura infantil. Este livro teve o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro da Associação Paulista de Crítica de Arte de São Paulo, Brasil. Escreveu muitas histórias e novelas para a infância, artigos e crónicas em jornais e colaborou com a sua prosa clara e rigorosa em diferentes revistas: "Távola Redonda", "Graal", "Vértice" ou "Seara Nova".

Matilde Rosa Araújo sempre defendeu e apoiou causas justas actuando na Unicef ou no Instituto de Apoio à Criança, ou ainda manifestando-se contra a violência e as injustiças.

Amante da paz, do entendimento entre os povos, ansiando viver em plena democracia, num convívio fraterno, Matilde Rosa Araújo era de grande fidelidade na amizade. Sempre admirou os seus amigos com exaltação, não querendo nunca nada para ela, como se não merecesse.

Mas recebeu prémios, homenagens e louvores pela sua obra, pela sua vida, e pelas palavras que faziam sonhar as crianças, e os adolescentes, que a escolhiam para confidente, pelo amor que lhe retribuíam os leitores e os alunos das escolas que a Matilde continuava a visitar com enorme alegria, sempre teve um grande significado na existência da escritora.

Recebeu muitas mensagens também de crianças e uma delas, que fazemos nossa, dizia: "Querida Matilde nunca te vamos esquecer".



In revista “Seara Nova” (excertos)


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Não te assustes


Não te assustes
É o falar das folhas
Seu verde falar
Com o vento que vai
Com o vento que vem
Não te assustes e aprende a escutar
O vento que vai
O vento que vem
Verdes folhas e seu falar.



 in “Segredos e Brinquedos”


segunda-feira, 25 de julho de 2016

ALLEN GINSBERG - Atrás das Almas Mortas






Allen Ginsberg (Newark, Nova Jersey, 1926 – 1997).

Foi o grande rebelde romântico e poeta anarquista contemporâneo que ficou conhecido pelas loucuras com os seus companheiros Jack Kerouac e William Burroughs. 

Promoveu uma revolução na linguagem e nos valores literários que transformou numa rebelião colectiva. A Geração beat nasceu com o impacto provocado pelo lançamento de Howl and Other Poems (1956), de On the Road de Kerouac (1957), e de outras obras literárias.


in “A Rua Sétima”


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Palavras de Allen Ginsberg:
“Quem controla os “media”, controla a cultura.”



Atrás das Almas Mortas


Para onde Oh América
é que guias o teu
glorioso automóvel,
a que acidentes te inclinas
rodovia abaixo,
nos profundos canyons
das Montanhas do Oeste,
acelerando ao sol-se-pondo
sobre o Golden Gate
no rastro de que rusga
atiras o teu jazz
sobre o oceano Pacífico!


Tradução: Reuben da Cunha Rocha





domingo, 24 de julho de 2016

UMA ESMOLINHA PELO AMOR DE DEUS




UMA ESMOLINHA PELO AMOR DE DEUS

(QUEIXUMES DE UMA TRÁGICA)


Dai esmola à pobrezinha,
Que já foi nova e bonita;
Socorrei quem vos implora
Na sua infausta desdita!
Acudi por compaixão,
Ó bondosos benfeitores,
Mitigai as minhas dores
Com a esmolinha bendita!


Eu que fiz por tantos anos
De duquesa e de rainha,
Não vejo chapa, há três meses,
Daquela empresa daninha!
Três meses! duzentas libras!
Que miséria ser artista!
Mais valia ser corista,
Ou criada de cozinha!


Sobre os pés do Teodorico
Eu dobrei os meus joelhos,
Supliquei que se lembrasse
Dos que são amigos velhos,
Mas fez ouvidos de mouco
À minha triste miséria,
E, deitando cara séria,
Deu-me apenas bons conselhos.


Hoje, imersa na penúria
De algum prédio e inscrições
Que nem dão para uma família
Comer uns magros feijões
Vou pedindo à caridade
Que se lembre da mesquinha,
Que trinta anos foi rainha
No trono dos dramalhões.

                                                                   
                                                                                   Zebedeu                                                                         


in “O António Maria” – Jornal de humor político, editado e dirigido por Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) – edição de 4 de Setembro de 1879 – HML.

Imagem: pintura de Amedeo Modigliani (Livorno, Itália, 1884 – Paris, França, 1920).





sábado, 23 de julho de 2016

GUILHERME DE FARIA - Não vale a pena





Guilherme de Faria (Guimarães, Portugal, 1907 – Lisboa, 1929).

Publicou o seu primeiro livro, Poemas, em 1922, com quinze anos apenas. Morreu aos vinte e dois. 

E tanto o seu primeiro livro como os que se seguiram, Mais Poemas, Sombra, Saudade Minha, Destino, Manhã de Nevoeiro e Desencanto, além do publicado postumamente, Saudade Minha – Poesias Escolhidas, dir-se-à que todos eles reflectem o prenúncio da morte próxima, tal a predisposição melancólica, a contemplação, o ensimesmamento em que mergulhou.



in “Dicionário de Literatura”



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           Não vale a pena 


Viver sentindo n’alma o fogo ardente
Da mais alta ambição, que nos condena
A lutar, a sonhar eternamente,
— Não vale a pena…

Viver na febre intensa dos desejos
E sonhos da luxúria que envenena
As almas, ao calor de falsos beijos,
— Não vale a pena…

Viver cantando, d’alma leda e pura,
Versos ao som de pastoril avena,
Longe da vida tão hostil e escura,
— Não vale a pena…


Viver para o meu Amor — Vida e Doçura! —
Doce mulher cheia de graça, plena
Do mais divino amor e formosura,
— Não vale a pena…

Não vale a pena… É vão todo o desejo.
— E para quê sonhar, nesta amargura,
Acesa a luz da esperança, que eu não vejo,
E ter sonhos, quimeras a sorrir,
— Se, para além da humana desventura,
Tenho o leito da eterna sepultura,
Para fechar os olhos e dormir?…


sexta-feira, 22 de julho de 2016

ANTÓNIO JACINTO – Carta de um Contratado





António Jacinto (Luanda, Angola, 1924 – Lisboa, Portugal, 1991).

Destacou-se como poeta e contista da geração Mensagem e, como membro do Movimento de Novos Intelectuais de Angola, tendo colaborado com produções suas em diversas publicações nomeadamente "Notícias do Bloqueio", "Itinerário", "O Brado Africano"

Por questões políticas foi preso em 1960 sendo desterrado para Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, onde cumpriu pena até 1972, ano em que foi transferido para Lisboa sendo-lhe imposto o regime de liberdade condicional, por cinco anos.

Após a independência de Angola foi co-fundador da União de Escritores Angolanos, e participou activamente na vida política e cultural angolana, sendo Ministro da Cultura de 1975 a 1978.

Ganhou vários prémios literários.



in Lusofonia poética (excertos)



Carta de um Contratado


Eu queria escrever-te uma carta 
amor 
uma carta que disesse 
deste anseio 
de te ver 
deste receio de te perder 
deste mais que bem querer que sinto 
deste mal indefinido que me persegue 
desta saudade a que vivo todo entregue... 


Eu queria escrever-te uma cara  
amor 
uma carta de confidências íntimas 
uma carta de lembranças de ti 
de ti 
dos teus lábios vermelhos como tacula 
dos teus cabelos negros como dilôa 
dos teus olhos doces como macongue 
dos teus seios duros como maboque 
do teu andar de onça 
e dos teus carinhos 
que maiores não encontrei por aí...


Eu queria escrever-te uma carta 
amor 
que recordasse nossos dias na capôpa 
nossas noites perdidas no capim 
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos 
o luar que se coava das palmeiras sem fim 
que recordasse a loucura 
da nossa paixão 
e a amargura nossa separação... 


Eu queria escrever-te uma carta 
amor 
que a não lesses sem suspirar 
que a escondesses de papai Bombo 
que a sonegasses a mamãe Kieza 
que a relesses sem a frieza 
do esquecimento 
uma carta que em todo Kilombo 
outra a ela não tivesse merecimento...


Eu queria escrever-te uma carta 
amor 
uma carta que te levasse o vento que passa 
uma carta que os cajus e cafeeiros 
que as hienas e palancas 
que os jacarés e bagres 
pudessem entender 
para que se o vento a perdesse no caminho 
os bichos e plantas 
compadecidos de nosso pungente sofrer 
de canto em canto 
de lamento em lamento 
de farfalhar em farfalhar 
te levasse puras e quentes 
as palavras ardentes 
as palavras magoadas da minha carta 
que eu queria escrever-te amor...


Eu queria escrever-te uma carta... 
Mas ah meu amor, eu não sei compreender 
por que é, por que é, por que é, meu bem  
que tu não sabes ler 
e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também!