sexta-feira, 30 de setembro de 2016

HERNÂNI CIDADE – Professor Universitário e Escritor






Hernâni Cidade (Redondo, Alentejo, Portugal, 1887 – Évora, Portugal, 1975).

Fez os estudos preparatórios no Seminário de Évora, mais acessível ao orçamento familiar e possibilitando o ingresso no sacerdócio. Porém, o despertar de novos interesses durante a sua formação académica fê-lo declinar um convite para prosseguir estudos superiores na Universidade Gregoriana de Roma.

Com o objectivo de se habilitar ao magistério secundário, frequentando o Curso Superior de Letras, deslocou-se para Lisboa. Terminando o curso, iniciou a carreira de docente liceal como professor supranumerário do Liceu Passos Manuel, em Lisboa. Professor efectivo no Liceu de Leiria a partir de 9 de Novembro de 1914, aqui ministrou as disciplinas de Língua e Literatura Portuguesa.

Com a entrada de Portugal na 1.ª Guerra Mundial, em 1916, foi mobilizado para o Corpo Expedicionário Português e enviado como Comandante de Pelotão para a frente da batalha, na Flandres, onde revelou, em várias ocasiões, a sua bravura no resgate de soldados de ambas as forças em combate. 

Na Batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918, foi feito prisioneiro pelas forças alemãs, tendo permanecido cerca de nove meses sob o seu jugo, em condições degradantes. 

O contacto com outros intelectuais e culturas durante este período despertou em Hernâni Cidade o desejo de seguir uma carreira académica numa Faculdade de Letras.

De regresso ao país no final da Guerra, pôde concretizar o seu desejo graças ao convite que lhe foi formulado para leccionar na recém-criada Faculdade de Letras do Porto, onde ingressou como Professor Contratado do 2.º Grupo (Filologia Românica), em 1919.
Regeu as cadeiras de Língua e Literatura Francesa, Língua e Literatura Portuguesa, Gramática Comparada das Línguas Românicas, História da Literatura Italiana, Filologia Românica, Filologia Portuguesa e História da Literatura Portuguesa.

Além de o Conselho Escolar lhe ter outorgado o grau de Doutor em Letras – Filologia Românica, a 19 de Abril de 1926, foi, ainda, eleito como Secretário da última equipa directiva da instituição (1930-1931).

Após o anúncio oficial de extinção da Faculdade de Letras do Porto, pelo Decreto n.º 15365, de 12 de Abril de 1928, e durante o período que antecedeu o seu encerramento efectivo, em 1931, leccionou no Liceu Rodrigues de Freitas, também no Porto. Neste mesmo ano, transitou para os quadros da Faculdade de Letras de Lisboa, após aprovação em concurso público com a dissertação Obra poética de José Anastácio da Cunha.

Participou em alguns movimentos de oposição ao regime até meados da década de 1930, mas viu-se obrigado a abandoná-los depois de ter sido ameaçado de expulsão da Universidade de Lisboa.

Até à sua jubilação como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, em 1957, dedicou-se a uma extensa produção cultural e científica nos domínios da Literatura e da Cultura Portuguesa, ministrando cursos e participando em conferências em diversas universidades brasileiras, espanholas, francesas e inglesas.




in Universidade do Porto (excertos).



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

CASA MUSEU AMÁLIA RODRIGUES






CASA MUSEU AMÁLIA RODRIGUES


Na porta de entrada do n.º 193 da Rua S. Bento, estão penduradas duas rosas. Nesta casa, que resistiu ao terramoto de 1755, Amália morou desde a década de 50 até à morte. Em testamento, deixou expressa que era sua vontade que a casa fosse transformada num museu com fins caritativos. Móveis e objectos permanecem, na sua grande maioria, nos lugares onde Amália os deixou

Subindo as escadas até ao primeiro piso, no hall, encontra-se um retrato a óleo da diva, da autoria de Luís Pinto Coelho, sobre uma mesa de encostar dos fins do século XVIII. Amália respira-se e sente-se por todo o lado. Pelas paredes estão espalhadas fotografias da cantora, em actuações, ou em poses descontraídas. 

Na sala de estar, o piano de meia cauda parece aguardar o momento de ser tocado pela sua diva. Era nesta divisão que Amália passava os dias e os serões, tanto sozinha como rodeada de amigos. Num dos sofás ainda permanecem um bandolim e uma guitarra incrustada a granadas, turquesas e minas novas. A esta sala, foi acrescentada uma mesa onde estão dispostas medalhas e condecorações atribuídas à fadista entre 1968 e 2001, e onde foi colocada a Grã- Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, concedida então pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, no dia da transladação dos restos mortais da fadista do Cemitério dos Prazeres para o Panteão Nacional. 

Na sala de jantar, a mesa está posta para oito pessoas, como se Amália estivesse à espera de convidados famosos para mais uma refeição. 

Nas escadas que levam ao segundo piso, dois quadros de Amália decoram as paredes. 

O quarto de hóspedes, a antecâmara e o quarto da artista estão também em exposição. Em cima da cama, repousam os seus óculos, três rosas e o livro de versos editado antes da morte. Ao fundo da antecâmara, esconde-se um armário que contém as roupas de Amália, sapatos, maquilhagem, malas, e a meio da divisão, sobre uma mesa, estão dispostas as jóias que um dia brilharam no corpo de Amália. 

A própria Amália desenhava todos os seus fatos e jóias de espectáculo.




in “Fundação Casa Museu Amália Rodrigues”





quarta-feira, 28 de setembro de 2016

FERNANDO LOPES-GRAÇA – Maestro e Compositor





Fernando Lopes-Graça (Tomar, Portugal, 1906 – Parede, Cascais, Portugal, 1994).

Compositor, pianista, pedagogo, crítico e ensaísta, deixou uma obra musical extensíssima a par de uma importante obra literária que nos dá testemunho da sua grande formação humanista e da sua intensa actividade cultural e política. 

Estudou no Conservatório de Música de Lisboa com Viana da Mota, Tomás Borba e Luís de Freitas Branco e concluiu em 1931 o Curso de Composição. Por motivos políticos foi impedido de leccionar em instituições públicas e mais tarde no ensino privado e não pôde, também, usufruir de uma bolsa que ganhou para estudar no estrangeiro.

Após a sua prisão por motivos políticos em Caxias (1936), Fernando Lopes-Graça foi viver para Paris entre 1937-1939, a expensas suas, onde estudou composição com Charles Koechlin e musicologia na Sorbonne com Paul-Marie Masson. Aí escreveu as primeiras harmonizações de canções populares portuguesas e compôs La fièvre du temps por encomenda da Maison de La Culture.

Em 1942 fundou a Sociedade de Concertos “Sonata”, que dirigiu até 1961, dedicada à divulgação da música contemporânea e que se tornou numa referência da vanguarda intelectual.

As suas obras têm sido interpretadas em todo o mundo.

A procura de uma linguagem estética portuguesa levou-o a definir o conceito de «música portuguesa» como uma fórmula que exprime uma relação étnico-estética, expressão cultural e filosófica alicerçada na tradição musical do povo, como elemento dinâmico e fecundante de uma nova linguagem representativa, só válida pela sua qualidade estética e, só nessa qualidade, as obras e a criação artística nacional poderão ter ressonância universal. 

A recolha e a reinterpretação da música popular portuguesa constituiu um eixo permanente da sua criação evidenciado em muitas das suas obras para voz e piano e reflectindo-se, igualmente, em grande parte da sua obra instrumental. A sua íntima ligação à língua e cultura portuguesa exprimiu-se também na criação de ciclos de canções com textos de grandes poetas portugueses de que se destacam Fernando Pessoas, Luís de Camões e Eugénio de Andrade.

A sua intensa produção artística manteve-se entre 1927 e 1992, tendo produzido 260 títulos e havendo no seu catálogo 694 peças, entre obras válidas, versões, revisões, esboços e transcrições.

Recebeu vários prémios de composição e diversas condecorações.




in “Museu da Música Portuguesa” (excertos)



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               Jornada                   

Não fiques para trás, ó companheiro
é de aço esta fúria que nos leva.
P´ra não te perderes no nevoeiro,
segue os nossos corações na treva.

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada,
ao sol desta canção.

Aqueles que se percam no caminho,
que importa? Chegarão no nosso brado
porque nenhum de nós anda sozinho,
e até mortos vão a nosso lado.
              


Letra do poeta José Gomes Ferreira
Música de Fernando Lopes Graça






terça-feira, 27 de setembro de 2016

CARTA DE BEETHOVEN À SUA AMADA IMORTAL – Eternamente nós





CARTA DE BEETHOVEN À SUA AMADA IMORTAL 


Depois da morte de Beethoven foi encontrada numa gaveta da sua residência uma estranha carta fechada numa «segunda-feira, 6 de Julho». A data pode corresponder a 1801, 1807 ou 1812, anos em que o dia 6 de Julho foi segunda-feira, mas em geral pensa-se que foi escrita neste último ano. Outro problema é a destinatária. 

Embora se lhe conheçam algumas relações femininas (Giulietta Guicciardi, Thérèse Malfatti, Amalie Sebad…), ignora-se quem teria sido essa enigmática «amada imortal» e se se tratava de alguma delas. Nunca antes Beethoven se tinha expressado em termos tão explícitos e arrebatados:

«Pode subsistir o nosso amor por outro meio que não seja o sacrifício e a renúncia a tudo? Podes mudar tu esta situação em que não sou todo teu, nem tu toda minha? (…) Onde estou, tu estás comigo; comigo e contigo falo. (…) Atropelam-se os meus pensamentos para ti, minha amada imortal, às vezes alegres, depois tristes, à espera de que o destino nos favoreça. Só posso viver completamente contigo ou não posso viver (…) Continua a amar-me, não ignores nunca o coração mais fiel do teu amado Ludwig. Eternamente teu, eternamente minha, eternamente nós»



in “Crónica da Música”


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

CONFLITO ENTRE A POESIA LÍRICA PORTUGUESA E O CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA





CONFLITO ENTRE A POESIA LÍRICA PORTUGUESA E O CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA


Entre a poesia lírica portuguesa e o sr. cardeal patriarca está a ponto de rebentar um grave conflito, que decerto perturbará as boas relações em que até hoje têm permanecido a igreja e as consoantes.

É o caso que, segundo uma revelação feita, há dias, pelo Diário de Notícias, o chefe da Igreja lisbonense não consente que os anjos do patriarcado tenham mais de dez anos de idade, ao passo que os poetas líricos só os admitem de idade superior a quinze, havendo mesmo alguns que mais os apreciam à proporção que eles vão sendo mais durinhos. 

Há mesmo quem considere, como Balzac, que os anjos só se podem julgar completamente feitos aos trinta anos.

Não desesperamos de ver a Igreja chegar a um acordo com a poesia no interesse comum. Se se fosse a cumprir rigorosamente à letra a provisão do austero prelado, a própria clerezia do patriarcado seria a primeira a achar-se em graves embaraços, por ter de despedir os anjos de maior idade, que hoje estão ao serviço da Igreja.

E depois como seria triste um trovador ter amanhã de pôr o seguinte comunicado nos jornais, dirigido ao arcanjo dos seus sonhos…

O teu nome, anjo de céu,
Foi uma estrela cadente,
Que às bicadas feneceu
Dos corvos de S. Vicente!

Já não és anjo; eu chamar-te,
Seria evocar o abismo!
Em ti leio, em qualquer parte
A certidão do baptismo!...

Sê tu anjo de inocência,
E eu seja o próprio Petrarca,
Não o quer sua Eminência
O cardeal Patriarca!...



in “O António Maria” – jornal de humor político, editado e dirigido por Rafael Bordalo Pinheiro (1846 - 1905) – edição de 2 de Outubro de 1879.

Imagem: pintura do alemão Egon Schiele (1890-1918)

sábado, 24 de setembro de 2016

JOSÉ DE ALENCAR – “O patriarca da literatura brasileira”






José de Alencar(Messejana (actual bairro de Fortaleza), Brasil, 1829 – Rio de Janeiro, 1877).

Advogado, jornalista, político, orador, romancista e teatrólogo, é o patrono da cadeira n. 23, por escolha de Machado de Assis. (…)

As mais distantes reminiscências da infância do pequeno José mostram-no lendo velhos romances para a mãe e as tias, em contacto com as cenas da vida sertaneja e da natureza brasileira e sob a influência do sentimento nativista que lhe passava o pai revolucionário. 

Entre 1837-38, em companhia dos pais, viajou do Ceará à Bahia, pelo interior, e as impressões dessa viagem reflectir-se-iam mais tarde em sua obra de ficção. Transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro. (…)

A sua notoriedade literária começou com as Cartas sobre A Confederação dos Tamoios, publicadas em 1856. (…) Optou, ele próprio, pela ficção, por ser um género moderno e livre.

Ainda em 1856, publicou o seu primeiro romance conhecido: Cinco minutos. Em 1857, revelou-se um escritor mais maduro com a publicação, em folhetins, de O Guarani, que lhe granjeou grande popularidade. Daí para frente escreveu romances indianistas, urbanos, regionais, históricos, romances-poemas de natureza lendária, obras teatrais, poesias, crónicas, ensaios e polémicas literárias, escritos políticos e estudos filológicos. 

A parte de ficção histórica, testemunho da sua busca de tema nacional para o romance, concretizou-se em duas direcções: os romances de temas propriamente históricos e os de lendas indígenas. Por estes últimos, José de Alencar incorporou-se no movimento do Indianismo na literatura brasileira do século XIX, em que a fórmula nacionalista consistia na apropriação da tradição indígena na ficção, a exemplo do que fez Gonçalves Dias na poesia. (…)

Sua obra é da mais alta significação nas letras brasileiras, não só pela seriedade, ciência e consciência técnica e artesanal com que a escreveu, mas também pelas sugestões e soluções que ofereceu, facilitando a tarefa da nacionalização da literatura no Brasil e da consolidação do romance brasileiro, do qual foi o verdadeiro criador. 

Sendo a primeira figura das nossas letras, foi chamado “o patriarca da literatura brasileira”. Sua imensa obra causa admiração não só pela qualidade, como pelo volume, se considerarmos o pouco tempo que José de Alencar pôde dedicar-lhe numa vida curta. Faleceu de tuberculose, aos 48 anos de idade.



in “Academia Brasileira de Letras”


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Palavras de José de Alencar:

“Só a ignorância aceita e a indiferença tolera o reinado da mediocridade.” 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

EDGAR ALLAN POE – Annabel Lee






Edgar Allan Poe (Boston, Massachusetts, EUA, 1809 – Baltimore, Maryland, 1849).

Escritor norte-americano, autor de contos e poemas sobre o macabro e o misterioso. Suas obras mais conhecidas são o conto A Queda da Casa de Usher e o poema O Corvo, em que um homem que chora a morte de sua amada é visitado por um corvo que lhe diz que ele nunca mais a verá.

A partir de 1832, dedica-se constantemente ao conto, narrativa breve que pudesse ser publicada rapidamente, lida em pouco tempo e apreciada por sua intensidade narrativa. 

Envia diversos contos a revistas da época, participa de concursos literários e começa a ganhar fama e algum dinheiro. 

Alguns dos contos mais famosos de Poe datam do período 1832-1842, década de altos e baixos na produção, publicação e aceitação de suas ideias

Em 1835, por exemplo, publica Berenice, Morella e The Unparalleled Adventures of One Hans Pfaall

Em 1836, casa-se com Virgínia, então com treze anos de idade, o que causa assombro na sociedade puritana e fechada da época.

Em 1839 publica a primeira colectânea de contos, Tales of the Grotesque and Arabesque, com vinte e cinco contos.



in “A História”


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             Annabel Lee

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.



Tradução:Fernando Pessoa



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

TOMAZ DE FIGUEIREDO - Para quê me deste à Vida?







Tomaz de Figueiredo (Braga, Portugal, 1902 – Lisboa, 1970).

Cursou Direito em Coimbra e Lisboa, onde se formou. 

Até 1960 exerceu funções notariais em vários concelhos do país.  Nessa data fixou-se em Lisboa, entregue apenas à actividade literária. 

Publicou romances, novelas, poesia e peças de teatro. Com a sua tardia estreia, A Toca do Lobo,1947, obteve o Prémio Eça de Queirós, Tiros de Espingarda, 1966, mereceu o Prémio Nacional de Novelística. 

Contribuiu para o ressurgimento da tradição romanesca camiliana, sendo as suas obras caracterizadas por um estilo onde o casticismo se funde com o lirismo e por uma técnica narrativa singularmente moderna.


in “Portugal Século XX”


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Para quê me deste à Vida?


Para que foi, ó Mãe, que me criaste? 
Mas — antes! — para quê me deste à vida? 
Emendando: porquê, de espavorida, 
o pescoço me não estorcegaste? 
Melhor andaras, Mãe, pois destinaste, 
assim, a tua carne a ser perdida. 
Ah! Mãe! Na tua gélida jazida, 
saberás que, ao seres mãe, me assassinaste? 
Se o sabes, no teu ventre, como cunhas, 
deves cravar, em desespero, as unhas, 
deves na campa estertorar aos ais. 

Aqui estou, Mãe, agora, nestas ânsias. 
Aqui estou, sem estar. Rojo em distâncias, 
só e sem mim, — que é um só demais. 

in “Antologia Poética” 





quarta-feira, 14 de setembro de 2016

SOEIRO PEREIRA GOMES – Esteiros







Soeiro Pereira Gomes (Baião, Porto, Portugal, 1909 – Lisboa, 1949).

Tirou o curso de Regente Agrícola em Coimbra.
Em 1930, vai para Angola trabalhar, mas regressa no ano seguinte. Casa-se, indo viver para Alhandra e empregando-se na Companhia Cimento Tejo. 

Desenvolveu intensa actividade nas colectividades daquela localidade, nomeadamente no teatro, na organização de bibliotecas, na construção da piscina. 

Ligando-se ao Grupo Neo-Realista de Vila Franca, participou nos passeios no Tejo e em inúmeras actividades realizadas nas duas localidades.

Em 1944, foi um dos organizadores das greves que assolaram a região em Maio, na sequência das quais passou à clandestinidade.

Colaborou nos jornais “O Diabo”, “O Alhandra”, “O Castanheirense”, “República”.

Faleceu com doença grave, em casa de familiares, sem ter abandonado a clandestinidade.

Obras: Esteiros, Refúgio Perdido, Engrenagem, Contos Vermelhos, Obras Completas.



in “Museu do Neo-Realismo” (excerto)


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Palavras de Soeiro Pereira Gomes:
Para os filhos dos homens que nunca foram meninos escrevi este livro (Esteiros).”



«Maria do Bote abriu a porta, e tudo em casa lhe pareceu mais sombrio e nu. Apenas, sobre a cómoda carunchosa, o despertador alardeava brilho, mantinha a mesma cadência das horas que não vivia. A dona olhou-o, melancólica, como a um traste inútil; depois, em súbita resolução, pô-lo debaixo do xaile, e dirigiu-se ao escritório do Rodrigues. À entrada ainda hesitou. Mas o penhorista chegou-se logo com modos animosos.
- Faz favor de entrar. Um seu criado, minha senhora. - E esfregava, uma na outra, as mãos peganhentas.
- Sr. Rodrigues. Eu trago aqui...»


in "Esteiros" (excerto)





terça-feira, 13 de setembro de 2016

VELHA TENDINHA





    Velha Tendinha


Junto ao Arco do Bandeira
Há uma loja, a Tendinha,
De aspecto rasca e banal,
Na história da bebedeira
Aquela casa velhinha
É um padrão imortal.

Velha taberna
Nesta Lisboa moderna,
É da tasca humilde, eterna,
Que mantens a tradição.
Velha tendinha,
És o templo da pinguinha,
Dos dois brancos, da ginjinha,
Da boémia e do pifão

Noutros tempos, os artistas
Vinham já grossos das hortas
Pró teu balcão caturrar.
E os fidalgos, os fadistas,
Iam prá aí, horas mortas,
Ouvir o fado e cantar.



Velha Tendinha - letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão, interpretado por Hermínia Silva na revista “Zé dos Pacatos” (1934).

Imagem: Fotografia da “Velha Tendinha”, fundada em 1840, situada junto ao “Arco do Bandeira”, entre o Rossio e a Rua dos Sapateiros, em Lisboa, Portugal.



segunda-feira, 12 de setembro de 2016

PALÁCIO DO ALHAMBRA – Granada






PALÁCIO DO ALHAMBRA

A conquista de Espanha pelos Mouros, a seguir às invasões do ano 711, levou a um período de ocupação que durou sete séculos, até à sua expulsão final pelas forças cristãs em 1482. 

O último bastião do domínio mouro foi o palácio do Alhambra, em Granada. A administração dessa província islâmica mais ocidental era feita a partir das cidadelas de Granada e Córdova, as quais em épocas de governos tolerantes se tornaram um dos centros mais educados e cultos da Europa. 

Os governantes árabes introduziram formas tradicionais de arquitectura e métodos de irrigação islâmicos em Espanha, domesticando o calor do Verão para criar luxuriantes jardins e arejados pátios sombreados. 

O Alhambra (1238-1358) é o epítome dos refinados prazeres e graça da cultura mourisca. A seguir à expulsão dos Mouros e à unificação da Espanha, Isabel de Castela (1451-1504) e Fernando de Aragão (1452-1516) estabeleceram aí o seu palácio por algum tempo. 

O Alhambra, com a sua graciosa sucessão de aposentos, colunatas de maravilhosos pormenores e pátios ajardinados, mantém o seu misterioso encanto, uma lembrança da rica herança cultural paralela às tradições cristãs do gótico europeu.



in “Arquitectura” de Neil Stevenson


domingo, 11 de setembro de 2016

PÁGINA FEMININA – A mulher como centelha artística





A mulher como centelha artística


Todas as manhãs, antes do marido chegar para almoçar, a mulher penteada, maquilhada, harmoniosamente vestida e sorridente.

Não é um carinhoso objecto de arte?

Quando sai, escolhe o chapéu melhor, enfia o vestido predilecto, deita uma gôta de perfume nas mãos e outra no lóbulo da orelha e olha mais uma vez, para o espelho.

Encontra-se mesmo a sair a porta. Não fica encantado?

Depois, como prefere vê-la? De sapatos quadrados e rasos, vestido escorrido, cabelo cortado à homem, passo largo, chapéu qualquer – ou vendo-se que folheia um livro, não deixando de comprar uma revista e trincando gulosamente a já tradicional tortazinha de maçã?

Seja franco. A feminista nunca foi o seu fraco, pois não?

Outra vez em casa. O quebra-luz dá mais conforto ao seu maple. Ela fixa o rádio onde sabe que lhe agrada. Tem um delicioso vestido de casa em veludo azul com fourreau prateado.
Sorri.

Você é feliz só de a ver, só de a sentir a seu lado.
É uma boneca? E porque diz tanto mal do pó de arroz?

Que, afinal, não é uma boneca, não, é uma obra de arte – com ternura, beleza e dedicação. Vá, cale-se…consinta em ser plenamente feliz.




in “Mundo Gráfico” (1940–1948), revista quinzenal de “actualidades nacionais e internacionais. “Página Feminina” de autoria de Aurora Jardim- 1943.



sábado, 10 de setembro de 2016

CRISTOVAM PAVIA - Requiem






Cristovam Pavia (Lisboa, Portugal, 1933 – 1968).

Publicou, aos vinte anos, os seus primeiros poemas nas duas mais importantes revistas literárias desse período, a “Távola Redonda” e a “Árvore”.
Fez parte do núcleo central da revista “O Tempo e o Modo”, constituído pelos escritores : Nuno de Bragança, Alberto Vaz da Silva, Pedro Tamen, João Bernard da Costa e António Alçada Baptista.

Publicou, em 1959, 35 Poemas, a única obra poética editada em vida, na qual se reconhece a originalidade da sua poesia.



Palavras de Cristovam Pavia:

“Pensava que uma das poucas qualidades que tinha era a ausência de inveja. Não é verdade. Invejo os poetas.” 



             Requiem
(ao menino morto, eu próprio)


A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo.
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.

Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos.
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta...
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria...
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas)
Oh, não há solidão, nas neblinas de inverno
Pela erma planície...

E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em
silêncio...

Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo
Já me confundo contigo.