segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

TEATRO NACIONAL DE SÃO CARLOS - Lisboa




TEATRO NACIONAL DE SÃO CARLOS

As obras de construção do Teatro Nacional de São Carlos tiveram início a 8 de Dezembro de 1792. A sua inauguração ocorreu a 30 de Junho de 1793, com a ópera em dois actos La ballerina amante, de Domenico Cimarosa, seguida do bailado A felicidade lusitana, de Caetano Gioia. 

Aquando da sua inauguração, o S.Carlos era um espaço único na capital, não apenas pela sua dimensão, magnificência e boas condições de funcionamento, mas também por ser um espaço concebido especificamente para a representação de teatro lírico. 

O espaço original — edificado à semelhança do Teatro di San Carlo de Nápoles, consumido pelo fogo em 1816 — foi projectado pelo arquitecto José da Costa e Silva. As obras de edificação foram concluídas em apenas seis meses, dando origem a uma sala de espectáculos com atributos técnicos perfeitos, de forma elíptica e com cinco planos de espectadores — um primeiro piso composto por plateia e frisas, camarotes de 1ª, 2ª e 3ª ordem, e um último piso com varandas e torninhas. Uma sumptuosa tribuna real, da autoria de Giovanni Maria Appiani, concluída em 1821, erguia-se ao centro da sala, no lado oposto ao palco, ocupando parte dos três pisos que compreendem a área dos camarotes. 

A iluminação original era feita por meio de velas de sebo, colocadas em lustres e candelabros distribuídos por todo o edifício. A sua utilização era desagradável devido ao cheiro e fumo que produziam. Estas velas foram posteriormente substituídas por umas inodoras e permaneceram, juntamente com um grande lustre central de candeeiros de azeite instalado em 1819, a única fonte de iluminação do teatro até 1850, ano em que foi instalada a iluminação a gás. A luz eléctrica chegou ao S. Carlos em 1885. 

Para além do espectáculo operático, o S. Carlos albergou também oratórias e concertos – de entre muitos, destaca-se a presença de Franz Liszt, em 1845 – bem como bailados e teatro declamado. 

No teatro declamado destaca-se a passagem de Sarah Bernhardt e a sua companhia, em Novembro de 1895. Relativamente aos bailados, registe-se a passagem da companhia Bolshoi, da Royal Ballet e da Ópera de Paris. Mais recentemente passaram pelo S. Carlos notáveis intérpretes do espectáculo operático entre os quais se destacam Maria Callas, Renata Tebaldi, Plácido Domingo, Alfredo Kraus e Monserrat Caballé.



Fonte: Instituto Camões (excertos e adaptação)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

CARLOS HARRINGTON - “O Bocage do Fado”




CARLOS HARRINGTON
(Lisboa, Portugal, 1870 – 1916)

Cantador e poeta espontâneo

Boémio impenitente, que passou a sua curta vida em continuada estúrdia foi também figura de destaque no processo da evolução do fado.
Dotado de um poder de improvisação e de um sentido de oportunidade raros, a sua veia poética permitia-lhe glosar quaisquer motes com extrema facilidade, produzindo uma torrente de décimas, motivo pelo qual foi conhecido por o “Bocage do Fado”.

Cantando num estilo sentimental a sua poesia recheada de conceitos, Carlos Harrington foi, além de cantador e poeta espontâneo, um homem de alma nobre e enternecida, que teve como inseparável companheira uma cadelinha (a Pérola). 

Desapareceu prematuramente do número dos vivos, com 46 anos, ou não tivesse ele presidido ao “Grupo dos Desgraçados” de que foi secretário outro boémio incorrigível, Augusto Bastos. Reunia-se esse grupo de amigos da vida airada numa casa de pasto de um tal António Ribas, conhecida por a Desgraça devido a estar situada num prédio das Escadinhas da Rua de Santa Justa, esquina da Rua da Madalena, que fora pasto de um pavoroso incêndio, e também por causa da sua pouca clientela. 

O “Grupo dos Desgraçados” realizando ali aos sábados suculentas jantaradas de cabrito assado e de belas galinhas do campo, conseguia ir mantendo aberta a casa, onde após as comedorias e com o sentimentalismo exacerbado pelas libações, o bom Carlos Harrington dava o lamiré para a função, com a sua frase sacramental: “Vou pregar o meu sermão!”. 
A partir daí as cantigas sucediam-se na sua voz melancólica, escutadas com enlevo pelos companheiros. 

E a rapiocada não terminava às vezes ali: alta madrugada, iam todos para a Floresta, a adega que ficava ao lado do também desaparecido Café Martinho, vizinha do Teatro Nacional de D. Maria II e lá continuava a cantoria até ao romper do dia.

Frequentador assíduo do Águia Roxa, da Estrada de Sacavém, Carlos Harrington participou na festa de homenagem a D. João da Câmara, realizada nesse retiro a propósito da 15.ª representação do drama Alcácer- Quibir daquele dramaturgo. Nessa festa, como aliás noutras ocasiões, acompanhando-se à guitarra, improvisou com mote de Henrique Lopes de Mendonça:

Se foi Alcácer-Quibir
A perda da nossa glória,
Tal nome hoje representa
A mais completa vitória.
              
                I

Se um poeta é uma estrela
E a poesia um firmamento,
De D. João o talento
Compõe a estrela mais bela.
Inspirou-me a luz singela
Dessa lira e o seu sentir,
Mas não posso definir
Qual tomei como pretexto,
Se foi D. Afonso sexto
Se foi Alcácer-Quibir.

             II

Em versos cadenciosos
E de sublime primor
Burila o grande escritor
Um dos fastos lutuosos.
Matizam tão bem a História
Que na chaga da memória
Vertem bálsamo e prazer
Fazendo mesmo esquecer
A perda da nossa glória.

              III

Mas de que podem servir
Cantos feitos num momento
Saudando o fino talento,
Cantor de Alcácer- Quibir!
É dessa estrela a luzir
Que a minha canção alenta,
E com voz bem rouca e lenta
Eu direi com alegria,
Tudo o que há em poesia
Tal nome hoje representa

             IV

Dos notáveis escritores
O seu nome é decantado
Tendo o caminho alfombrado
De frescas e belas flores.
Eu, um dos admiradores,
Ergo um brinde à pura glória
Desse que cantou a História
Com vigor e singeleza,
É da musa portuguesa
A mais completa vitória



in “Lisboa, o Fado e os Fadistas” de Eduardo Sucena
Imagem: Cartaz do Ciclo “A Cantar e a Contar”, inserido na programação “Há Fado no Cais”, produzido pelo CCB.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

ARMANDO JORGE – Coreógrafo e bailarino





ARMANDO JORGE
(Cadaval, Portugal, 1938)

Bailarino, coreógrafo, director artístico e professor 

Começou a estudar dança com Margarida de Abreu, quando ainda era aluno do curso especial de pintura da Escola de Belas-Artes de Lisboa. Iniciou a sua carreira no Círculo de Iniciação Coreográfica de 1959 e, dois anos depois, já como profissional, integra o elenco do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio, onde rapidamente ascendeu a uma posição de destaque. 

Em 1962 ingressou nos Grands Ballets Canadiens, como solista, por influência directa do antigo bailarino da Companhia do Marquês de Cuevas, o francês Daniel Sellier, com quem trabalhara em Lisboa durante algumas temporadas.

A convite da Fundação Gulbenkian, deslocou-se a Portugal em 1964 para dançar o “pas de deux” do III acto do Lago dos Cisnes (o “Cisne Negro”), no VIII Festival Gulbenkian de Música, acompanhado por Margery Lambert. De volta ao Canadá, retomou o seu trabalho nos GBC tendo regressado definitivamente a Portugal (e ao GGB) em 67, também acompanhado de Margery Lambert.

Interpretou alguns papéis do reportório clássico, como Albrecht, em “Giselle”, o Poeta nas “Sílfides”, o Príncipe no “Quebra Nozes”, Siegfried no “lago dos Cisnes” e ainda o papel titular de Petruchka”. Coreografou os bailados “Movimentos Sinfónicos” (mus. Haydn, 1971), “Canto da Solidão” (música Álvaro Cassuto, 1973), “Hossana Para Um Tempo Novo” (música Rachmaninov, 1977), “Carmina Burana” (música Carl Orff, 1979), “Sonho de Uma Noite de Verão” (música Mendelssohn, 1995), etc.



Fonte: Centro Nacional de Cultura (excertos)


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

LÊDO IVO - Perdas e Danos





LÊDO IVO
(Maceió, Brasil, 1924 - Sevilha, Espanha, 2012)

Poeta, romancista, contista, cronista, jornalista e ensaísta 

Em 1940, transfere-se para o Recife e, influenciado pelo ambiente intelectual da cidade, publica poemas e artigos na imprensa local. 

Três anos mais tarde, muda-se para o Rio de Janeiro. Passa a trabalhar na imprensa carioca como jornalista profissional, colaborando com textos literários e reportagens. 

Em 1944, publica seus primeiros poemas no livro As Imaginações

É eleito em 1986 para ocupar a cadeira número 10 da Academia Brasileira de Letras. 

Em 2004 é lançada a primeira edição de suas obras completas, com seis décadas de poesia e prosa. 
Para os críticos e historiadores literários, Ivo filia-se à terceira geração do modernismo, com evidente preocupação com a linguagem e o retorno a sensos estéticos anteriores à fase experimental do movimento. 

Em 2006, doa seu arquivo pessoal, reunindo correspondências, manuscritos, recortes de jornais e fotografias, ao Instituto Moreira Salles - IMS, de São Paulo.


in, Enciclopédia Itaú Cultural (excertos)


***

Palavras
de
Lêdo Ivo

 “O grande escritor não precisa ser nem muito inteligente nem muito culto. A inteligência e a cultura são contudo indispensáveis nos escritores menores.”


PERDAS E DANOS

Quem dorme perde a noite.
Foge da eternidade,
candelabro cativo
na escuridão do céu.

Quem dorme perde o amor,
a vigília madura
da carne que se sonha
a si mesma acordada.

Quem dorme perde a morte
que respira escondida
como a lebre no bosque.
Quem dorme perde tudo
que o acaso deposita
na mesa do universo!






quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

LOUISE WEISS - «A decana das feministas europeias»





LOUISE WEISS 
(Arras, França,1893 – Paris, 1983)

Escritora, feminista, política e jornalista

Com apenas 21 anos, já licenciada em Letras, foi convidada para assistente universitária. Estava-se nas vésperas da I Grande Guerra (1914-1918). Como muitíssimas outras raparigas, foi enfermeira durante a guerra, facto que a marcou profundamente, como relata nas suas Memórias. Era trágico ver massacrar e desaparecer amigos e colegas da sua idade. 

Em 1918, criou o seu próprio jornal, "L’Europe Nouvelle", que dirigiu até 1984. Assistiu, em 1918, à assinatura do Tratado de Versalhes, que pôs fim à 1ª Guerra Mundial, com a consciência de que os vencedores se iriam digladiar em breve, como aconteceu. 

Vai abraçar apaixonadamente a causa dos checos emigrados que se queriam libertar do jugo do império austro-húngaro. 

Fundou em 1934 "La Femme Nouvelle", associação para a igualdade dos direitos cívicos entre franceses e francesas com o fim de obter legislação para que as mulheres tivessem direito ao voto. A inauguração da sua sede foi um acontecimento social, apesar da chuva. Foi a 6 de Outubro de 1934, em plenos Campos Elísios, em Paris. Na montra da frente afixou o mapa do mundo, onde estavam a todos os países em que as mulheres já votavam, acompanhado de uma legenda bem visível: "As americanas votam, as inglesas votam, as alemãs votam, as austríacas votam, as checas, as húngaras, as chinesas votam. As francesas não votam." À França, esse direito só chegará em 1944. 

Durante a II Guerra Mundial é secretária do comité de refugiados, desenvolvendo uma intensa actividade, sem nunca deixar de ser jornalista. De 1942 a 1944, dirige o jornal clandestino "Nouvelle République". 

Com mais de cinquenta anos, resolveu ‘vagabundear’ pelo mundo, como conta em Memórias de Uma Europeia, para conhecer como viviam e pensavam as mulheres dos outras continentes. Durante vinte e cinco anos visita o Extremo Oriente, a Ásia Menor, a África, o Alasca, a China, etc., escrevendo e filmando. 

Fundou em 1970, com Gaston Bouthoul, o "Instituto de Polemologia" e, nesse ano, em Estrasburgo, criou também o "Instituto das Ciências da Paz".

Em 1975, é admitida na Academia Francesa. Em 1979, concorreu às eleições europeias e obteve um lugar no Parlamento Europeu em Estrasburgo, no Grupo de Democratas Europeus pelo Progresso. Permaneceu no posto de deputada europeia até ao dia da sua morte. 

Começou a escrever as suas extensas memórias em 1968, um total de oito volumes onde recorda, numa escrita tão cativante quanto acessível, toda a sua vida e luta pelos direitos das mulheres e pela unidade europeia.

Morreu, com 90 anos, a 26 de Maio de 1983, tendo-lhe sido prestada uma homenagem a nível europeu com toda a solenidade. Ficou conhecida como «A decana das feministas europeias" e, com o seu nome, foi criada posteriormente uma fundação que procura seguir e preservar os valores da unidade europeia.


in “O Leme”


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

SEBASTIÃO DA GAMA - Largo do Espírito Santo, 2-2º




SEBASTIÃO DA GAMA
(Azeitão, Setúbal, Portugal, 1924 – Lisboa, 1952)

Poeta e pedagogo


LARGO DO ESPÍRITO SANTO, 2-2º

Nem mais, nem menos: tudo tal e qual
o sonho desmedido que mantinhas.
Só não sonharas estas andorinhas
que temos no beiral.

E moramos num largo… E o nome lindo
que o nosso largo tem!
Com isto não contáramos também
(Éramos dois sonhando e exigindo.).

Da nossa casa o Alentejo é verde.
É atirar os olhos: são searas,
são olivais, são hortas... E pensaras   
que haviam nossos olhos de ter sede!

E o pão da nossa mesa!... E o pucarinho
que nos dá de beber!... E os mil desenhos
da nossa loiça: flores, peixes castanhos,
dois pássaros cantando sobre um ninho…

E o nosso quarto?... Agora podes dar-me
teu corpo sem receio ou amargura.
Olha como a Senhora da moldura
sorri à nossa alma e à nossa carne!

Em tudo, ó Companheira,
a nossa casa é bem a nossa casa.
Até nas flores. Até no azinho em brasa
que geme na lareira.

Deus quis. E nós ao Sonho erguemos muros,
rasguei janelas eu e tu bordaste
as cortinas. Depois, ó flor na haste,
foi colher-te e ficarmos ambos puros.

Puros, Amor - e à espera.
E serenos. Também a nossa casa
(Há-de bater-lhe à porta, com a asa,
um anjo de sangue e carne verdadeira).


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ÁLVARO DE CAMPOS - Nota ao acaso




NOTA AO ACASO

O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
Nada disto tem que ver com a sinceridade. 

Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões. 

A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta. Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história da Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas que dissessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam. 

Há alguns, muito grandes, que nunca o disseram, que foram sempre incapazes de o dizer. Quando muito há, em certos poetas, momentos que dizem o que sentem. 

Aqui e ali o disse Wordsworth; uma ou duas vezes o disse Coleridge; pois a Rima do Velho Nauta e Kubla Khan são mais sinceros que todo o Milton, direi mesmo que todo o Shakespeare. Há apenas uma reserva com respeito a Shakespeare: é que Shakespeare era essencial e estruturalmente factício; e por isso a sua constante insinceridade chega a ser uma constante sinceridade, de onde a sua grande grandeza.

Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. 

Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas – tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassílabos como usaria luto na vida.

O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo.


ÁLVARO DE CAMPOS (heterónimo do poeta e escritor Fernando Pessoa)


in “Sudoeste” – 1935 - Publicação mensal dirigida por Almada Negreiros

Imagem: Álvaro de Campos por Almada Negreiros, amigo e contemporâneo de Fernando Pessoa.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ALBERTO DE LACERDA - Como é Belo Seu Rosto Matutino





ALBERTO DE LACERDA
(Ilha de Moçambique, 1928 — Londres, Inglaterra, 2007)

Poeta, professor e crítico de arte

Veio para Lisboa em 1946, onde cursou o Instituto Francês e o Instituto Britânico. Em 1951 fixou-se em Londres como locutor da BBC. Viajou pela Europa e esteve no Brasil (1959-1960) e nos Estados Unidos da América (1967-1969). 

Estreou-se em Portugal com uma série de poemas publicados na revista "Portucale". Publicou 77 poemas, Palácio, Exílio, Selected Poems e Oferenda. Usa uma linguagem pouco adjectivada mas rica em imagística, reveladora de um mundo sobriamente misterioso oculto na vulgaridade das coisas e dos factos.


in “Grande Livro dos Portugueses”


***


COMO É BELO SEU ROSTO MATUTINO


Como é belo seu rosto matutino
Sua plácida sombra quando anda

Lembra florestas e lembra o mar
O mar o sol a pique sobre o mar

Não tive amigo assim na minha infância
Não é isso que busco quando o vejo
Alheio como a brisa
Não busco nada
Sei apenas que passa quando passa
Seu rosto matutino

Um som de queda de água
Uma promessa inumana
Uma ilha uma ilha
Que só vento habita
E os pássaros azuis


in 'Exílio'



domingo, 12 de fevereiro de 2017

OS RETIROS DAS HORTAS




OS RETIROS DAS HORTAS

No dealbar do século XX, Lisboa, como de resto outras capitais da Europa, era ainda, sob o ponto de vista social, uma cidade de contrastes chocantes. O fado, no entanto, lograra já libertar-se, em grande parte, das áreas marginais, instalando-se nas sociedades recreativas e conquistando a simpatia de gente de trabalho das mais variadas profissões, além dos boémios, seus indefectíveis cultivadores.
Mas o processo da sua higienização começara muito antes, na verdade anteriormente a 1846, com a saída para as hortas, aos domingos e dias santos, de cantadores, tocadores e simples apreciadores.

Vinha de longe esse hábito lisboeta das rapiocas no campo. Há notícia de em fins do século XVIII, princípios do século XIX, terem existido locandas largamente concorridas em Sete Rios, Laranjeiras, Lumiar e Loures, bem como das famosas patuscadas em Belas, pela mesma época, e das frescatas do tempo de D. Miguel. 

Utilizando os mais variados transportes, desde os burros de aluguer do Poço do Borratém e do Arco do Bandeira até à carruagem, passando pela caleche, pela tipóia, pela vitória e pelo breque, os lisboetas já então abalavam em animados grupos para os retiros de fora de portas, onde o vinho jorrava dos canjirões e a comida farta e bem apaladada não dispensava o acompanhamento de salada de alface, que fez deles os alfacinhas.

As hortas foram, com efeito, durante largos anos, o regalo das famílias da capital, que naqueles dias debandavam rumo aos arrabaldes para, em ambiente rústico, esquecerem as agruras da vida e desfrutarem as excelências do ar puro campesino.

Diz José Pedro do Carmo que as hortas “marcavam o seu dia grande às quartas-feiras de cinzas”. Então a cidade despovoava-se e os campos circunvizinhos, onde houvesse locanda, adega, restaurante, enchiam-se de gente alegre e folgazã para quem os comes e bebes constituíam o atractivo número um – mas não o único. Na verdade, segundo aquele autor, os retiros “tinham as suas características muito próprias, como o jogo do chinquilho, os cegos e respectivos moços a cantarem modinhas, acompanhadas à guitarra e à viola; o canjirão e as inseparáveis canecas; a poesia do cenário verdejante e o chiar da nora movida pelo esforço vagaroso do boizinho com os olhos vendados; o perfume natural das emanações do campo, sempre viçoso, e para remate o canto das avezinhas sobre as ramadas que formavam os caramanchões a abrigar-nos daquele sol ardente das tardes de Agosto.”

Não admira, pois, que com todos esses atributos os retiros das hortas atraíssem o lisboeta de qualquer condição social, simultaneamente divertido e sentimental, e que o fado lá encontrasse ambiente propício para se fazer ouvir, quer em reunião de gente modesta quer em pândegas que deram brado, em que participaram fidalgos, artistas, boémios, cantoras e bailarinas do S. Carlos e actrizes.

Foram muitos os retiros das hortas, uns mais famosos que outros, que coexistiam ou se sucederam.

Cantava quem queria ou quem sabia mas obedecendo ao puro espírito de amadorismo, de desprender ternura e beleza, incompatíveis com deselegantes interesses. Dava-se inteira e abertamente. E com que fervor! Exibia-se por amor da arte, no alcandor do espírito deliciando as assistências com delicados requebros de supremo e donairoso encantamento. Quantas vezes a guitarra soluçava o acorde e do lugar inesperado espontânea voz, masculina ou feminina, acudia impetuosa, veemente, ufana, cortando o ar em aleluias, espiritualizando a letra! Mimosos galanteios surpreendiam os presentes e os idílios acalentavam seu início em tom de rima. Ocorre-me uma quadra que ali ouvi e a que uma voz melancólica imprimiu particular brilho:

Toma lá colchetes d´ouro
Aperta o teu coletinho;
Coração que é de nós dois
                     Deve andar conchegadinho.                     

Alguns dos nomes: Perna de Pau (da Gertrudes), Horta das Tripas à Estefânia, Ezequiel ao Dafundo, Miséria na Estrada de Palhavã, Viteleira na Travessa dos Carros, Colete Encarnado (da Joana), José dos Passarinhos em Alcântara, Quebra Bilhas no Campo Grande.



in “Lisboa, o Fado e os Fadistas” de Eduardo Sucena (excertos)
Imagem: Retiro “Os Pacatos na Estrada de Sacavém” – gravura de J.Novaes

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Poema de LUÍS AMARO dedicado a TEIXEIRA DE PASCOAES





Poema de LUÍS AMARO dedicado a TEIXEIRA DE PASCOAES

              1

Tudo a noite transforma.
A verdade das coisas está perto
E o silêncio fala
Com as sombras da nossa alma, iguais
Às sombras dum jardim lunar
Com árvores e flores
Que reflectem nossa paisagem íntima.

Imagem do silêncio,
Ó fonte do meu sonho, recolhida
E imersa na penumbra...

Longe, uma tristeza irmã abre-me os braços
Onde tudo me diz
O sentido da vida!

              2

Lá vem a noite... As sombras
Invadem já meu coração sozinho,
Tocado de mistério e de silêncio,
Ferido de remorso e nostalgia.

Lá vem a noite, e traz consigo
O abandono absoluto, o esquecimento,
O contacto mais Íntimo das coisas
Que nos povoam e nos sobressaltam.

Lá vem a noite... E eu, desamparado,
Defronto enigmas e desfio lembranças
Da vida vã, dispersa… Mas súbito
Uma outra voz acalma o coração,
Cresce da sombra, iluminada e pura!

              3

Um fio de música
Que me liberte
Do peso escuro
Que trago em mim!

Um fio de música
Que me transmita
(E a alma inunde),
Mãe., teu perdão!

Um fio de música
Que vá ao fundo
Do ser dorido,
Qual uma bênção

E sagre e embale
Meu coração
Das trevas preso:
Um fio de luz

Que me redima
Daquele instante
E varra, afaste
A vil lembrança!;

Um fio de música
A dar-me o alento
De olhar de frente
A luz do dia!

              4

Ave ferida, minha alma
Necessita de silêncio
Para voar liberta da aridez dos dias,
E vai morrendo ausente
Da luz do alto onde quisera
Pairar sem nome e sem destino...

Ave ferida e deserta
De esperanças, vai ficando
Saudosa dos longes, da distância,
E suas asas retraem-se, doridas,
De encontro às grades frias, lisas,
Dum cárcere obscuro!

Ave ferida e sedenta
Dos livres horizontes, das palavras
Que crepitam nos astros e fluem
Dos corações amantes, das montanhas,
- Minha alma necessita de silêncio
E, reflectindo na noite a sua imagem,
Ir ao fundo das coisas, desprendida!
              
               5

Nos confusos recantos onde o sonho
Se espraia e vive, sem dizer seu nome,
Pulsa num coração o ritmo do mundo.

Ignorado, longe, intranquilo,
Do grande mar, rasgando a imensidade,
Voga no vento um clamor, um grito

Que a noite guarda abandonadamente
E o coração anónimo adivinha
Além da névoa persistente, triste...

E do silêncio emerge uma voz pura,
Já liberta de lágrimas, cantando,
Na luz oculta, o despontar da vida!



LUIS AMARO, poeta e crítico literário (Aljustrel, Portugal, 1923).

TEIXEIRA DE PASCOAESpoeta e escritor (Amarante, Portugal 1877 – Gatão, 1952).