sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

JANE ADDAMS – «A cidadã mais útil dos Estados Unidos»




JANE ADDAMS

(Cedarville, EUA,1860 — Chicago, 1935) 
Filantropa e Pacifista


Filantropa e doutrinadora, considerada, pelo presidente Teodoro Roosevelt, «a cidadã mais útil dos Estados Unidos». Aliás, o seu pai, já revelara alto espírito humanitário, defendendo a abolição da escravatura. 

Jane pretendia ser médica, mas teve de desistir desse propósito, por ser de constituição débil. Porém, tendo visitado, em Londres, os Serviços Sociais daquele país, sentiu nascer a sua vocação. 

Ao regressar a Chicago, tornou-se uma ardorosa apóstola da paz e da justiça social, resolvendo criar instituições que protegessem os imigrantes e os trabalhadores de todas as raças. 

Em conjugação com a sua amiga, Helena Gates Starr, instalou-se, num barracão, que elas próprias lavaram e prepararam, nele inaugurando, em 1889, um serviço de assistência social, que ficou conhecido por Hull House, do qual foi chefe-residente até ao termo da sua existência. 

Ali instalou jardins-de-infância, agência de empregos, oficinas, campos de recreação, bibliotecas, escolas de música, aulas de artesanato, clubes, lares para jovens, etc. 

Além disso, desenvolveu uma frutuosa acção, no sentido de conseguir a promulgação de leis de protecção ao trabalho de menores e de mulheres, de segurança das fábricas, de arbitragem em conflitos de trabalho, etc.  Foi, também, defensora do sufrágio feminino, revelando-se uma grande pacifista. 

Apenas ocupou um lugar remunerado: o de inspectora municipal da limpeza urbana. Todos os demais foram gratuitos, e Jane dava, ainda, dinheiro do seu bolso para eles.

Fundou a "Associação para o Avanço dos Povos de Cor", e tomou parte na Conferência Feminina Internacional da Paz. 

Foi escritora e conferente, versando temas humanitários. 

Em 1931, foi-lhe conferido o “Prémio Nobel da Paz”, e, em 1960, os Estados Unidos celebraram, com impressionantes comemorações, o 1º centenário do seu nascimento.


in “Dicionário de Mulheres Célebres”


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Palavras 
de 
Jane Addams

"De todos os aspectos da miséria social nada é tão doloroso quanto o desemprego."




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Poema de MANUEL DA FONSECA dedicado a MANUELA PORTO





Poema de MANUEL DA FONSECA dedicado a MANUELA PORTO

I


Como búzio que ecoa
rumores do mar distante,
nossa saudade guarda
a tua voz ausente.

Na névoa da miragem
que as lágrimas estremece,
velado como em sonhos
teu rosto transparece.

E teus olhos, Senhora,
estrelas que a alva esfria,
cintilam indecisos
entre a noite e o dia.

Como quem escuta um búzio
- na muda madrugada
nossa saudade escuta
tua voz apagada.
             
  II

Imóvel e deslumbrada
mágico sonho sonhava.
Longínqua, feita de nada,
a erguida presença alada
no ar lavado flutuava.

Absorto, vogando espaços,
seu olhar claro e profundo
vinha, por ocultos traços,
através de altos terraços,
debruçar-se sobre o Mundo.

Com gestos lentos abria
aérea graça gentil.
Voz onde a vida fluía
na alteada melodia
da nitidez do perfil.

(Ora quando despertava
das harmonias extremas,
se o mundo a interrogava,
a cabeça reclinava,
e respondia : Sei poemas.)



MANUEL DA FONSECA, poeta e escritor (Santiago do Cacém, Portugal, 1911 - Lisboa, 1993).

MANUELA PORTO, escritora, actriz e declamadora (Lisboa, Portugal, 1908-1950).









quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O TRISTE RISO DE UM PALHAÇO




O TRISTE RISO DE UM PALHAÇO


Pietro Mascagni, com Cavalaria rusticana, tinha imposto na ópera o movimento verista, que pretendia transladar para a cena lírica os princípios do realismo que, em literatura, eram representados por Émile Zola ou Giovanni Verga. Neste ano, seguem o seu caminho músicos como Alfredo Catalani, com Mala vita e, acima de todos, Ruggero Leoncavallo, com Pagliacci. Esta última inspira-se num facto real, ocorrido durante a infância do compositor numa povoação da Calábria: o assassínio de uma mulher às mãos do seu amante, membro de uma companhia de palhaços. 

Com libreto do próprio Leoncavallo, a ópera é estreada em Milão a 21 de Maio de 1892, dirigida pela batuta de Arturo Toscanini. 

Alcança um êxito extraordinário, e não é para menos: o subtil desenho psicológico das personagens, a concentração e intensidade da acção e uma eficaz mistura de comédia e drama, além de uma escrita melódica directa, fazem de Pagliacci um clássico. 

Destacam-se especialmente, o recitativo e a ária do palhaço Canio «Recitar!... Vesti la giubba» (Recitar!...Veste o gibão), no qual se expressa todo o drama que anima o protagonista, a contradição de fazer rir as pessoas enquanto no seu interior é corroído pelo desespero e pelos ciúmes.



in “Crónica da Música”
Imagem: Luciano Pavarotti



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

ALCIONE SORTICA - Raio de luz





ALCIONE SORTICA 
(Cachoeira do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil,1935)
Escritor, ensaísta e poeta

É um escritor premiado pela sua obra literária de carácter urbana e regionalista, apresentada em contos, crónicas e poesias. Além da distinção no estudo da língua portuguesa e da literatura brasileira, completou seus conhecimentos com o francês, o inglês e o latim, línguas comuns ao ensino da época.

A partir de 1969 passa a dedicar-se às artes: inicialmente música e pintura. Em 2000, com o nascimento da sua primeira neta – Stephanie – a literatura começa a tomar forma.

O poema Raio de Luz, publicado no “Jornal RS Letras”, deu início à sua efectiva vida literária. 
Velhos escritos são desengavetados, outros novos vão surgindo, entre contos, crónicas, ensaios e poemas. 

Das inúmeras viagens surgiram as crónicas da série Histórias de Viagens
Em 2005, publicou seu primeiro livro Cacos do Tempo, com prefácio do amigo e também escritor Nelson Fachinelli. 

Com mais de 100 participações em revistas, jornais, antologias e colectâneas cooperativadas nacionais e internacionais, sua obra literária conquistou vários prémios.


in” Página Oficial de Alcione Sortica” (excertos)


Palavras 
de 
Alcione Sortica
“Se me entendo na minha anarquia, não tentes organizá-la. Respeite a bagunça alheia.”



Raio de luz


Se a única realidade é o passado,
onde está a criança que nasci,
o jovem que usou meu cérebro para sonhar,
o homem que fui ontem, hoje de manhã,
há apenas um segundo?
Só estiveram, amaram, riram ou choraram,
num pedaço qualquer do tempo,
mas lá não estão mais.
E se a certeza é o futuro,
quem será e onde estará
o homem, que serei daqui a instantes,
amanhã de manhã, até mais não sei quando?
Tal e qual o menino do passado,
também não consigo encontrá-lo.
Ambos não morreram,
mas nenhum existe.
Somos, na realidade,
uma infinidade de seres diferentes,
a cada avanço milimétrico do tempo,
revelando o ser confuso,
mágico, incompreensível,
que somos no momento.
Na velocidade incomensurável da luz,
a terra desloca-se no universo,
atrelada à galáxia.
E você, que leu este poema até o fim,
já está a milhões de quilómetros do princípio,
e não é a mesma pessoa que alguém viu ou conheceu.
  


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CASA MUSEU VASCO LIMA COUTO




CASA MUSEU VASCO LIMA COUTO


Casa apalaçada dos finais do século XVIII, foi habitação de diversas figuras importantes da vida local e nacional, como o ministro setembrista Passos Manuel, Jacinto de Sousa Falcão e sua esposa, descendente de um da linhagem dos doze de Inglaterra, o doutor Francisco de Oliveira Moncada, governador-geral de Angola e o professor pintor José Campas.

Pertence, desde os anos '70, a José Ramoa Ferreira, o Zé Brasileiro, português de Braga dos versos de Vasco de Lima Couto (1923-1980).

O poeta viveu nesta casa os últimos quatro anos da sua vida. 
Após o seu falecimento, foi transformada em Casa-Museu, inaugurada em 1981.

Guarda objectos pessoais de Lima Couto e muitos originais, em especial correspondência trocada com amigos, bem como uma rica colecção de arte constituída por mobiliário e pintura.




Fonte: “Constância – Vila Poema”




domingo, 15 de janeiro de 2017

PEQUENO ESTUDO SOBRE A HISTÓRIA DA CAROCHINHA





PEQUENO ESTUDO SOBRE A HISTÓRIA DA CAROCHINHA


Na linguagem popular existe uma locução genérica para significar toda a classe de tradição imaginosa, desde a lenda local ou pessoal até à parlenda infantil, - histórias da Carochinha

De facto os contos ou histórias da Carochinha são ignorados por aqueles que empregam a locução com um certo desdém pejorativo. Na Feira de Anexins, de D. Francisco Manuel de Melo, do meado do século XVII, acha-se uma preciosa referência à História da Carochinha, como sendo o feitiço e encanto das crianças:

«- Espere; contar-lhe-ei uma história.
  - A da Carochinha?
  - Não buscará outra mais cara, que essa é muito barata?
  - Pois digo-lhe, que ainda com a carocha, esta história é o feitiço das crianças.»

Neste trecho há dois equívocos seiscentistas, a relação entre carochinha e barata, (contraposição de caro com barato) e o da carocha com a mitra de ignomínia que a Inquisição enfiava na cabeça dos desgraçados que atirava às fogueiras. 

O que nos interessa aqui é a referência ao gosto das crianças por esta história, no século XVII, enlevo ainda vigorosíssimo na vida doméstica actual.

A História da Carochinha, apresenta na tradição portuguesa diversos estados de conservação; em Coimbra a sua primeira parte achava-se dissolvida em prosa, tendo o final na sua forma de lengalenga ainda a estrutura poética; na Ilha da Madeira repete-se uma versão inteiramente poética, mas um pouco obliterada na sua parte final. Dos Açores recebemos algumas versões, entre elas uma mais completa, que publicamos. 

Em um entremez, Récipe de pau, (1792) achamos uma referência ao texto da Carochinha: «está posta todo o dia àquela janela, com uma mão sobre a outra, feita a Carochinha, e não se envergonha, sendo uma mulher viúva, e estar com os penteados tão indignos ao seu carácter.»
Eis a parlenda tal com anda nas versões insulares:


A Carochinha

Era uma vez
A Carochinha,
Achou cinco reis
Ao varrer da cozinha.
A Carochinha
Pôs-se à janela
A ver quem queria
Casar com ela:

«Quem quer casar
Com a Carochinha,
Que ela é formosa
E bonitinha?

Passou um porco:
- Quero-vos eu!
«Que comes tu?
- Do que Deus deu.
«Fó, fó, ó porco,
Eu não te quero;
Melhor marido
Que tu espero.

Quem quer casar
Com a Carochinha,
Que ela é formosa
E bonitinha?

Passou um cão:
- Quero-vos eu!
«Que comes tu?
- Do que Deus deu.
«Fó, fó, ó porco,
Eu não te quero;
Melhor marido
Que tu espero.

Vão passando o boi, o gato e outros animais, ela sempre:

Quem quer casar
Com a Carochinha,
Que ela é formosa
E perfeitinha?

Passou um rato:
- Quero-vos eu!
«E tu que comes?
- O bom é meu.
«A ti ó rato,
a ti, eu quero;
Melhor marido
Não o espero!

Casaram-se, e ele chamava-se o João Ratão.



in, “Revista de Estudos Livres” - 1886
Imagem: Pintura de Henri Matisse (França, 1869-1954).


sábado, 14 de janeiro de 2017

VIMALA DEVI - Não me fales com essa tua voz




VIMALA DEVI 
(Goa, Índia, 1932)
Escritora, poetisa, pintora

Veio para Lisboa (1958) e, depois de longa viagem pela Europa e América do Sul, fixou-se então em Londres, deixando esta em 1972 para permanecer em Lisboa. Uma vez na capital inglesa, frequentou diversas academias e estúdios de arte londrinos. 

Desde 1966, data da sua primeira exposição individual na Greenwich Gallery, também expôs em Lisboa, na Galeria Futura, em Março de 1972. 

Além de pintura, fez crítica de arte na B.B.C. de Londres. Colaborou no Diário da Noite e em O Heraldo, de Nova Goa. 
Realizou recitais de folclore goês, no Brasil (1960) e em Lisboa (ex-Emissora Nacional). 
Reside, presentemente, em Lisboa.

Algumas das suas obras: Súria, Monção, Hologramas e Tele-poemas, A Literatura Indo-Portuguesa.
Está representada na Antologia poética “Poesia-70”, e no volume Goa, Damão e Diu, da colecção Antologia da Terra Portuguesa.


in “Mulheres Célebres”


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Não me fales com essa tua voz 

Não me fales com essa tua voz de silêncio
De torturar os mortos,
Tu que escalaste a montanha inacessível
Da minha alma...

Porque não choras, não gritas,
E olhas com esse teu rosto azul
A lua do teu coval
Como um esqueleto descarnado de ideais,
Se és testemunha e não vítima
Desta humanidade incolor?
Porque não ergues o estandarte triunfal
Dos "excluídos para sempre"?

Oh, não me fales da putrefação,
Nem da extinção da tua existência impoluta,
Se não me prometeres que vais ser o Sol Verde
Tingindo os Outonos de cabelos amarelos!



Publicação nº 1255