segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

JANE AUSTEN - Escritora





Jane Austen (Steventon, Inglaterra, 1775 – Winchester, 1817).

Escreveu encantadoras novelas, consideradas obras-primas, como crítica à vida da sociedade britânica do seu tempo. 

Walter Scott, segundo se diz, lia, com verdadeiro interesse, as suas novelas.
Um crítico comentou: «É feminina somente na sua aguda e clara percepção psicológica e na sua condescendente e completa exclusão de assuntos políticos.» Exclui também a tragédia terrificante e todo o excesso passional (a não ser em Persuasão, considerada a sua obra-prima), assim como qualquer aproximação com as risadas estridentes da comédia popular.

Outras obras: Orgulho e Preconceito, Emma, Razão e Sensibilidade.


************

Palavras de Jane Austen:

“Há casos em que um conselho pode ser tanto bom quanto mau - dependerá dos acontecimentos.”

domingo, 4 de dezembro de 2016

O DINHEIRO NÃO TRAZ FELICIDADE





O Dinheiro Não Traz Felicidade


Só e triste vivia o pobre marceneiro. Sem parentes, morava ele na sua loja humilde, trabalhando dia e noite para ganhar o que mal lhe bastava para sustentar-se. Mesmo assim, porém, conseguia economizar cinquenta cruzeiros cada mês. No fim do ano, com 600 cruzeiros juntos, lá ia ele para a lotaria e comprava um bilhete inteiro. 

Os que sabiam de sua mania riam dele, mas ele acreditava que era através da lotaria e não do trabalho que iria fazer-se independente. 

E assim foi. No quinto ano de sua insistência junto à lotaria, esta lhe deu cem mil contos. Surgiram fotógrafos e repórteres dos jornais, surgiram os amigos para participar do jantar que ele ofereceu para comemorar sua sorte. Fechou imediatamente a loja e, daí em diante, sua vida foi uma festa contínua. Saía em passeios de lancha pela manhã, à tarde ia para os bares, à noite para as boites e cabarés, sempre cercado por amigos entusiásticos e senhoras entusiasmadíssimas. 

Mas, está visto, no meio de tanta entusiasmo, o dinheiro não durou um ano. E, certo dia, vestido de novo com suas roupas humildes, o nosso marceneiro voltou a abrir sua humilde loja para cair de novo no seu trabalho estafante e monótono. 

Voltou a economizar seus cinquenta cruzeiros por mês, aparentemente mais por hábito do que por desejo de voltar a tirar a sorte grande, o que, aliás, parecia impossível. 

Os conhecidos continuavam zombando dele, agora afirmando-lhe que a oportunidade não bate duas vezes. No caso de nosso marceneiro, porém, ela abriu uma excepção. Pois no terceiro ano em que comprava o bilhete, novamente foi assaltado pelos amigos e repórteres que, numa algazarra incrível, festejavam sua estupenda sorte.

Mas, desta vez, o marceneiro não ficou contente como quando foi sorteado pela primeira vez. Olhou para os amigos e jornalistas com ar triste e murmurou: " Deus do céu; vou ter que passar por tudo aquilo outra vez!?"

Moral: Para muita gente dá um certo cansaço ter que comparecer à festa da vida.




Millôr Fernandes, escritor, poeta, humorista, dramaturgo, jornalista (Rio de Janeiro, Brasil, 1923 – 2012), in “Pif-Paf”.

Imagem:pintura de Van Gogh (Holanda, 1853 – França,1890).



sábado, 3 de dezembro de 2016

UM ESCÂNDALO HISTÓRICO





UM ESCÂNDALO HISTÓRICO


A 29 de Maio de 1913 tem lugar, no "Théàtre des Champs Elysées", de Paris, uma das estreias mais polémicas da história da música. 

A obra em questão é um bailado passado na Rússia primitiva, A Sagração da Primavera, cuja música é obra de um jovem que só dois anos antes tinha sido acolhido como o herdeiro dos grandes compositores russos, Igor Stravinsky. 

Passados escassos minutos de iniciada a obra, o público rompe em insultos, sarcasmos, ruídos e toda a espécie de gritos. A tensão vai aumentando à medida que avança a representação entre a assistência, um dos quais acaba em duelo no dia seguinte. 

Apresentada pela Companhia dos "Ballets Russos", de Diaghilev, com uma coreografia de Nijinsky, é uma peça que assombra pelos seus ritmos deslocados, as suas chocantes harmonias e uma orquestração agressiva que concede grande papel às secções de metal e percussão. 

Todavia, este não é o primeiro escândalo dos "Ballets Russos" nesta temporada: uns meses antes, a 15 de Maio, a estreia de Jogos, de Debussy, é recebida pela assistência com assobios, gritaria e insultos. Com este bailado e a composição de Stravinsky, uma coisa parece clara em vésperas da Primeira Guerra Mundial: o mundo mudou, e com ele algo que até pouco tempo antes se considerava invariável e eterno, como é a ideia da beleza.



in “Crónica da Música”

Imagem: Cena do bailado Jogos, de Debussy – aguarela de Valentine Gross (França), na qual aparecem Ludmilla Schollar, Vaslav Nijinsky e Tamara Karsavina, dos Ballets Russos.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

CANTO CONTRA A ESPERANÇA




CANTO CONTRA A ESPERANÇA
(do poema inédito A Mulher de luto)


Houve outrora, um palácio, hoje em ruínas,
fundado numa rocha, à beira mar…
donde se avistam lívidas colinas,
e se ouve o vento nos pinhais, pregar.
Houve outrora, um palácio, hoje em ruínas.

Nesse triste palácio inabitável,
as janelas sem vidros, contra os ventos,
batem de noite, em côro miserável,
lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável.

Só resta uma varanda solitária,
onde medra uma flor que bate o norte,
sacudida da chuva funerária,
lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária.

Como nessa varanda apodrecida,
em minha alma uma flor também vegeta,
toda a noite dos ventos sacudida,
inteira, humilde, lírica. Secreta.
Como nessa varanda apodrecida.

Vai tu, ó minha dor, a esse palácio!
e arranca-lhe essa flor… Vai sem tardança!
como um guerreiro audaz do velho Lacio
arranca-a e calca-a aos pés – porque é a Esperança
Vai tu, ó minha dor, a esse palácio!




Gomes Leal - poeta e crítico literário (Lisboa, Portugal, 1848 – 1921).

Imagem: pintura de Gustav Klimt (Áustria, 1862-1918).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

LENDA – O bispo e a burra




O bispo e a burra


Esta é uma história que irá virar lenda — saiba o povo com a sua arte acrescentar-lhe imaginação.

Em tempos remotos — ainda não havia, em muitas paróquias serranas, acessos a carro — uma das mais afastadas da então vila de Amarante foi agraciada com a visita do Bispo da Diocese.

Marcada a data tudo se preparou para receber Sua Excelência com festa e charanga. A igreja tinha os altares engalanados; a torre sineira rejubilava com enfeites em papel; as ruas ricamente atapetadas com verdes e flores e até as casas tinham lavado a cara. 

Honra destas não era todos os dias e Canadelo fazia questão de receber o prelado, mais alto da diocese, com honra, alegria e prazer.

Chegado o dia toca a organizar o cortejo que iria receber o senhor Bispo no lugar de Ordes, que ficava a cerca de cinco quilómetros do centro da freguesia. Como o carro não passava deste lugar era imperioso ajaezar uma burra para o transporte de Sua Excelência.

Se bem o pensaram melhor o fizeram. Ajaezaram uma burra, enfeitaram o percurso e fizeram um lindo tapete de flores e no local, em Ordes, um grande arco dava as boas-vindas ao senhor Bispo.

Chegado o Prelado é recebido com palmas, acenos, foguetes e charanga. Ao ver o transporte que lhe estava destinado ficou perplexo e indeciso sobre a segurança e as capacidades do animal.

O dono do bicho, ao ver tanta hesitação, como bom conhecedor das prestações da sua besta, resoluto e cheio de simpatia virou-se para o Bispo e disse:

- Atrepe-lhe tio bispo..., olhe que a burra pode..., ela até arrasta o diabo.

Perante argumentos tão convincentes, o Prelado, não teve outro remédio senão subir para a mansa e bem-educada burra que, ao rebate de uns “arre boneca”, iniciou a longa caminhada até à engalanada freguesia de Canadelo, tão rica na sua história e na sua gente.



Fonte: Biblio PATRÍCIO, António Lendas de S. Gonçalo e de Amarante Amarante, Paróquia de S. Gonçalo, 2009.

Imagem. Pintura de Lucília Aranha – pintora portuguesa nascida em 1877.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

COMPARAR-TE A UM DIA DE VERÃO?





Comparar-te a um Dia de Verão?


Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.




William Shakespeare, in "Sonetos"
Tradução: Carlos de Oliveira
in “Citador”
Imagem: pintura de Michael Gorban (Rússia, 1956).


terça-feira, 29 de novembro de 2016

FRANCISCO JOAQUIM BINGRE - O Tempo Gastador de Mil Idades





Francisco Joaquim Bingre (S. Tomé de Canelas, Aveiro, Portugal, 1763 – 1856).


Foi um dos fundadores da Nova Arcádia de Lisboa (1790), juntamente com Domingos Caldas Barbosa, Belchior M. Curvo-Semedo e J.S. Ferraz de Campos. Nas suas poesias, predominam o lírico e o bucólico.


in “Dicionário de Literatura”



***************

Francisco Joaquim Bingre deixou-nos uma vastíssima obra, distribuída por cerca de 1120 sonetos, odes, sátiras, madrigais, elegias, farsas, fábulas, hinos, etc.
Morreu na miséria.



***************


O Tempo Gastador de Mil Idades


O Tempo gastador de mil idades,
Que na décima esfera vive e mora,
Não descansa co'a Fúria tragadora,
De exercitar, feroz, suas crueldades.

Ele destrói as ínclitas cidades,
As egípcias pirâmides devora:
Sua dentada fouce assoladora,
Rompe forças viris, destrói beldades.

O bronze, o ouro, o rígido diamante,
A sua mão pesada amolga e gasta
Levando tudo ao nada, em giro errante.

Como trovão feroz rugindo arrasta,
Quanto cobre na Terra o sol radiante,
Só da Virtude com temor se afasta.


in “Sonetos”