sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

AUGUSTO DOS ANJOS - Psicologia de um Vencido




AUGUSTO DOS ANJOS 
(Paraíba, Brasil, 1884 — Leopoldina, Minas Gerais, 1914)

Poeta

A sua poesia, muito pessoal e desligada de qualquer escola, traduz angústia, desespero, cepticismo, obsessão da morte, tudo expresso numa linguagem violenta, carregada de termos científicos, que contribuiu para radicalizar as opiniões em torno do poeta. Materialista, não raro deixa ver, nos seus versos, uma nostalgia do espiritual.

Principais obras: Saudade, Eu e Outras Poesias.


in “Enciclopédia de Cultura”

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Palavras 
de 
Augusto dos Anjos

“A mão que afaga é a mesma que apedreja”


PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

JOAQUIM NABUCO – Escritor





JOAQUIM NABUCO
 (Recife, Brasil, 1849 – Washington, E.U.A., 1910).

Político, escritor e poeta


Actuou intensamente na vida parlamentar, distinguindo-se pela elegância da oratória e pelo idealismo das suas campanhas políticas, em especial a da abolição da escravatura. 
Foi Embaixador na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde se empenhou em notável trabalho em favor do pan-americanismo.

Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras.

Algumas das suas obras: Camões e os Lusíadas; O Abolicionismo; Escravos, poesia; Um estadista do Império, biografia; Minha formação, memórias; Escritos e discursos literários.


in “Larrousse”

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Palavras
de
Joaquim Nabuco


“Uma das maiores burlas dos nossos tempos terá sido o prestígio da imprensa. Atrás do jornal, não vemos os escritores, compondo a sós o seu artigo. Vemos as massas que o vão ler e que, por compartilhar dessa ilusão, o repetirão como se fosse o seu próprio oráculo.”




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

AQUILINO RIBEIRO - O escritor que mais se mostrou aos leitores





AQUILINO RIBEIRO
(Sernancelhe, Carregal, Portugal,1885 - Lisboa,1963)

Escritor

AQUILINO RIBEIRO foi, talvez, o escritor que mais se mostrou aos leitores, não ostensivamente a falar de si e das suas acções, mas integrado nas personagens dos seus romances. Observador penetrante, psicológico, sagaz, perscrutador insaciável da alma humana, ele dá-nos, na maioria dos seus livros, pinturas espantosamente verídicas não apenas do mundo que o rodeava, mas do que vivia dentro do seu ser, e do qual não podia nem queria evadir-se. 

Quem o lê nunca deixa de o encontrar, seja no Libório Barradas da Via Sinuosa, ou no Valadares da Maria Benigna, na Mónica ou nos Caminhes Errados, em lances que podem ser vividos ou inventados, mas sempre inconfundível e original, pela bizarria de atitudes, nobreza de carácter, fulgor de espírito ou força de pensamento das figuras em que se fez incarnar.



in “Vida Mundial” – 1969 (excerto)

Imagem: Retrato de Aquilino Ribeiro, por Abel Manta (Gouveia, Portugal, 1888 - Lisboa).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

GIUSEPPE UNGARETTI – Vigília




GIUSEPPE UNGARETTI 
(Alexandria, Egipto, 1888 – Milão, Itália, 1970).

Poeta e professor

Tendo retomado a tradição de Petrarca e de Leopardi, é considerado um representante destacado do hermetismo. Esteve no Brasil (1937-1943), leccionando literatura italiana na Universidade de S. Paulo.

Algumas das suas obras: Sentimento do Tempo, Um Grito e Paisagens, Vida de um Homem (obra poética completa), Alegria do Naufrágio, A Dor.


in, “Dicionário Enciclopédico”

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Palavras 
de 
Giuseppe Ungaretti

"A morte conta-se vivendo."

VIGÍLIA

Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia

com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor

Nunca me senti
tão
preso à vida.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

TEATRO NACIONAL DE SÃO CARLOS - Lisboa




TEATRO NACIONAL DE SÃO CARLOS

As obras de construção do Teatro Nacional de São Carlos tiveram início a 8 de Dezembro de 1792. A sua inauguração ocorreu a 30 de Junho de 1793, com a ópera em dois actos La ballerina amante, de Domenico Cimarosa, seguida do bailado A felicidade lusitana, de Caetano Gioia. 

Aquando da sua inauguração, o S.Carlos era um espaço único na capital, não apenas pela sua dimensão, magnificência e boas condições de funcionamento, mas também por ser um espaço concebido especificamente para a representação de teatro lírico. 

O espaço original — edificado à semelhança do Teatro di San Carlo de Nápoles, consumido pelo fogo em 1816 — foi projectado pelo arquitecto José da Costa e Silva. As obras de edificação foram concluídas em apenas seis meses, dando origem a uma sala de espectáculos com atributos técnicos perfeitos, de forma elíptica e com cinco planos de espectadores — um primeiro piso composto por plateia e frisas, camarotes de 1ª, 2ª e 3ª ordem, e um último piso com varandas e torninhas. Uma sumptuosa tribuna real, da autoria de Giovanni Maria Appiani, concluída em 1821, erguia-se ao centro da sala, no lado oposto ao palco, ocupando parte dos três pisos que compreendem a área dos camarotes. 

A iluminação original era feita por meio de velas de sebo, colocadas em lustres e candelabros distribuídos por todo o edifício. A sua utilização era desagradável devido ao cheiro e fumo que produziam. Estas velas foram posteriormente substituídas por umas inodoras e permaneceram, juntamente com um grande lustre central de candeeiros de azeite instalado em 1819, a única fonte de iluminação do teatro até 1850, ano em que foi instalada a iluminação a gás. A luz eléctrica chegou ao S. Carlos em 1885. 

Para além do espectáculo operático, o S. Carlos albergou também oratórias e concertos – de entre muitos, destaca-se a presença de Franz Liszt, em 1845 – bem como bailados e teatro declamado. 

No teatro declamado destaca-se a passagem de Sarah Bernhardt e a sua companhia, em Novembro de 1895. Relativamente aos bailados, registe-se a passagem da companhia Bolshoi, da Royal Ballet e da Ópera de Paris. Mais recentemente passaram pelo S. Carlos notáveis intérpretes do espectáculo operático entre os quais se destacam Maria Callas, Renata Tebaldi, Plácido Domingo, Alfredo Kraus e Monserrat Caballé.



Fonte: Instituto Camões (excertos e adaptação)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

CARLOS HARRINGTON - “O Bocage do Fado”




CARLOS HARRINGTON
(Lisboa, Portugal, 1870 – 1916)

Cantador e poeta espontâneo

Boémio impenitente, que passou a sua curta vida em continuada estúrdia foi também figura de destaque no processo da evolução do fado.
Dotado de um poder de improvisação e de um sentido de oportunidade raros, a sua veia poética permitia-lhe glosar quaisquer motes com extrema facilidade, produzindo uma torrente de décimas, motivo pelo qual foi conhecido por o “Bocage do Fado”.

Cantando num estilo sentimental a sua poesia recheada de conceitos, Carlos Harrington foi, além de cantador e poeta espontâneo, um homem de alma nobre e enternecida, que teve como inseparável companheira uma cadelinha (a Pérola). 

Desapareceu prematuramente do número dos vivos, com 46 anos, ou não tivesse ele presidido ao “Grupo dos Desgraçados” de que foi secretário outro boémio incorrigível, Augusto Bastos. Reunia-se esse grupo de amigos da vida airada numa casa de pasto de um tal António Ribas, conhecida por a Desgraça devido a estar situada num prédio das Escadinhas da Rua de Santa Justa, esquina da Rua da Madalena, que fora pasto de um pavoroso incêndio, e também por causa da sua pouca clientela. 

O “Grupo dos Desgraçados” realizando ali aos sábados suculentas jantaradas de cabrito assado e de belas galinhas do campo, conseguia ir mantendo aberta a casa, onde após as comedorias e com o sentimentalismo exacerbado pelas libações, o bom Carlos Harrington dava o lamiré para a função, com a sua frase sacramental: “Vou pregar o meu sermão!”. 
A partir daí as cantigas sucediam-se na sua voz melancólica, escutadas com enlevo pelos companheiros. 

E a rapiocada não terminava às vezes ali: alta madrugada, iam todos para a Floresta, a adega que ficava ao lado do também desaparecido Café Martinho, vizinha do Teatro Nacional de D. Maria II e lá continuava a cantoria até ao romper do dia.

Frequentador assíduo do Águia Roxa, da Estrada de Sacavém, Carlos Harrington participou na festa de homenagem a D. João da Câmara, realizada nesse retiro a propósito da 15.ª representação do drama Alcácer- Quibir daquele dramaturgo. Nessa festa, como aliás noutras ocasiões, acompanhando-se à guitarra, improvisou com mote de Henrique Lopes de Mendonça:

Se foi Alcácer-Quibir
A perda da nossa glória,
Tal nome hoje representa
A mais completa vitória.
              
                I

Se um poeta é uma estrela
E a poesia um firmamento,
De D. João o talento
Compõe a estrela mais bela.
Inspirou-me a luz singela
Dessa lira e o seu sentir,
Mas não posso definir
Qual tomei como pretexto,
Se foi D. Afonso sexto
Se foi Alcácer-Quibir.

             II

Em versos cadenciosos
E de sublime primor
Burila o grande escritor
Um dos fastos lutuosos.
Matizam tão bem a História
Que na chaga da memória
Vertem bálsamo e prazer
Fazendo mesmo esquecer
A perda da nossa glória.

              III

Mas de que podem servir
Cantos feitos num momento
Saudando o fino talento,
Cantor de Alcácer- Quibir!
É dessa estrela a luzir
Que a minha canção alenta,
E com voz bem rouca e lenta
Eu direi com alegria,
Tudo o que há em poesia
Tal nome hoje representa

             IV

Dos notáveis escritores
O seu nome é decantado
Tendo o caminho alfombrado
De frescas e belas flores.
Eu, um dos admiradores,
Ergo um brinde à pura glória
Desse que cantou a História
Com vigor e singeleza,
É da musa portuguesa
A mais completa vitória



in “Lisboa, o Fado e os Fadistas” de Eduardo Sucena
Imagem: Cartaz do Ciclo “A Cantar e a Contar”, inserido na programação “Há Fado no Cais”, produzido pelo CCB.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

ARMANDO JORGE – Coreógrafo e bailarino





ARMANDO JORGE
(Cadaval, Portugal, 1938)

Bailarino, coreógrafo, director artístico e professor 

Começou a estudar dança com Margarida de Abreu, quando ainda era aluno do curso especial de pintura da Escola de Belas-Artes de Lisboa. Iniciou a sua carreira no Círculo de Iniciação Coreográfica de 1959 e, dois anos depois, já como profissional, integra o elenco do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio, onde rapidamente ascendeu a uma posição de destaque. 

Em 1962 ingressou nos Grands Ballets Canadiens, como solista, por influência directa do antigo bailarino da Companhia do Marquês de Cuevas, o francês Daniel Sellier, com quem trabalhara em Lisboa durante algumas temporadas.

A convite da Fundação Gulbenkian, deslocou-se a Portugal em 1964 para dançar o “pas de deux” do III acto do Lago dos Cisnes (o “Cisne Negro”), no VIII Festival Gulbenkian de Música, acompanhado por Margery Lambert. De volta ao Canadá, retomou o seu trabalho nos GBC tendo regressado definitivamente a Portugal (e ao GGB) em 67, também acompanhado de Margery Lambert.

Interpretou alguns papéis do reportório clássico, como Albrecht, em “Giselle”, o Poeta nas “Sílfides”, o Príncipe no “Quebra Nozes”, Siegfried no “lago dos Cisnes” e ainda o papel titular de Petruchka”. Coreografou os bailados “Movimentos Sinfónicos” (mus. Haydn, 1971), “Canto da Solidão” (música Álvaro Cassuto, 1973), “Hossana Para Um Tempo Novo” (música Rachmaninov, 1977), “Carmina Burana” (música Carl Orff, 1979), “Sonho de Uma Noite de Verão” (música Mendelssohn, 1995), etc.



Fonte: Centro Nacional de Cultura (excertos)