quinta-feira, 20 de julho de 2017

AMÁLIA - Amália no Mundo

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 AMÁLIA NO MUNDO
 
O livro “Amália no Mundo – Sinais de uma vida nos sulcos do vinil”, dá a conhecer a grande maioria das capas dos discos de vinil de Amália, listando os vinis da fadista desde as primeiras gravações, em 1945, até 1990, quando publicou “Obsessão”. São diversas edições internacionais, com o pormenor de anotar a data, o alinhamento e os músicos que a acompanham.
São mais de 500 imagens que dão a conhecer a história da discografia de Amália Rodrigues e da sua carreira musical por todo o mundo. Centenas de edições, compilações e reedições editadas em Portugal, França, Itália, Chile, Argentina, Espanha, Inglaterra, África do Sul, Japão e muitos outros países, em diferentes formatos: Discos de 78 rotações, os discos de longa duração (LP’s), os EP’s e os singles.

Em casa ouvia-se Amália desde muito pequenino, pois o meu pai descobriu-a nos anos 60, passando muito tempo à procura dos seus discos. Só no Rio de Janeiro, nos anos 80, é que adquiriu o seu primeiro LP. No início dos anos 90, os meus pais foram de férias a Lisboa e enquanto caminhavam pela rua de São Bento deram com a diva à porta da sua casa no Nº 193. Ela, espantada pela altura do meu pai, viu logo que aquele casal só queria cumprimentá-la. Depois duma pequena conversa Amália convidou os meus pais a acompanhá-la a sua casa… e assim nasceu uma linda amizade que durou até 1999.
Por vezes penso que não é possível que qualquer pessoa que tenha passado ao pé dela, ou partilhado uma conversa qualquer, tenha ficado indiferente. Pois era tão grande o seu génio e o seu magnetismo que sem dúvida alguma coisa mudava, pelo menos, a maneira de perceber a música. No meu caso, Amália abriu muitas portas novas na minha cabeça, ela e a sua memória, transformou-se com o tempo numa espécie de musa inspiradora, um ponto de partida para explorar a poesia e o fado e uma necessidade quase natural de honrar a sua memória.
Recordo-me de uma visita de dois dias a sua casa em Lisboa, em que fiquei deslumbrado com a facilidade com que comunicava com as pessoas, fosse com o meu pai, que é médico-cirurgião, como comigo, um miúdo. Abordava com enorme à-vontade os mais diversos temas, da filosofia à arte, da literatura à medicina.
As histórias ao redor desta “grande pesquisa” são muitas! Os discos iam aparecendo quase de maneira mágica à venda na Internet, em diversas feiras em Espanha e Portugal… Por exemplo, em certa altura a cantiga “Vieste Depois” dum disco da Columbia de 78 rpm atingiu um preço de quase dois mil euros num leilão da internet!
Por acaso contei isto a um companheiro de trabalho e ele lembrou-se que num velho armário que estava ao pé de mim na antiga casa onde ficava o meu escritório, havia discos antigos. Fui lá ver e que grande foi a surpresa! Apareceram dois dos mais raros discos que tenho encontrado! Estiveram durante anos ao pé de mim sem eu saber…

Ramiro Guiñazú coleccionador de discos e autor do livro “Amália no Mundo”.
 
 
 

 
 
 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

AMÁLIA – A Ressurreição

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
A RESSURREIÇÃO

 
As luzes apagam-se. Sob o luar, num teatro em ruínas, em Cartago, Amália caminha lentamente recortada por focos brancos.
Faz-se silêncio. O mesmo silêncio que cairá após o seu canto se extinguir, antes de os aplausos explodirem em ressonâncias cósmicas.
Os dedos naufragam-se-lhe na écharpe sobre o longuíssimo vestido negro. Levanta a cabeça, a voz eleva-se, eleve-a, vai aos abismos do indizível, assombrando os milhares que esgotam a terra onde ela pára a noite e a aflição.
O milagre rebenta depois, lágrimas num choro de deuses por haver.


Fernando Dacosta, in “Amália – Ressurreição”
Imagem: pintura de Meire Gomes

 

terça-feira, 18 de julho de 2017

AMÁLIA - Gostava de Ser Quem Era

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
GOSTAVA DE SER QUEM ERA


Tinha alegria nos olhos
Tinha sorrisos na boca
Tinha uma saia de folhos
Tinha uma cabeça louca

Tinha uma louca esperança
Tinha fé no meu destino
Tinha sonhos de criança
Tinha um mundo pequenino

Tinha toda a minha rua
Tinha as outras raparigas
Tinha estrelas tinha a lua
Tinha rodas de cantigas

Gostava de ser quem era
Pois quando eu era menina
Tinha toda a Primavera
Só numa flor pequenina


Amália Rodrigues
Imagem: retrato de Silva Nogueira

 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

AMÁLIA - Dos poetas populares aos cultivados

 

 
 AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
DOS POETAS POPULARES AOS CULTIVADOS

 
Em grande parte graças a Amália, a grande literatura portuguesa entrou no fado, com a não pequena ironia de, muitas vezes, um francês, Alain Oulman, a partir de certa altura ter contribuído para isso, numa excepcional articulação criadora de duas formações, a francesa e a portuguesa. A ambos se deve uma importante inflexão dos rumos da poesia e da música do fado, a partir de princípios dos anos sessenta.

É com Amália que o passo decisivo é dado, logo nos primeiros anos em que se afirma como uma estrela de primeira grandeza. Sem abandonar as letras do fado tradicional e os seus derivados, que de resto continuou a cantar ao longo de toda a sua carreira, é ela quem começa a procurar, a fazer musicar e a cantar uma série de autores que não se confundiam com os letristas típicos do fado.

Os mais cantados, como Pedro Homem de Melo e David Mourão-Ferreira, transportavam essa sensualidade para o plano dos impulsos genesíacos e da transfiguração erótica, o primeiro, aliás, mais ligado a uma tradição peninsular a que Jorge de Sena chamava tão desdenhosa quanto injustamente de “garcilorquismo minhoto”, e o segundo aliando todas as técnicas do Parnasianismo para a exploração da dialéctica amorosa, da esperança e do desespero e da explosão da sensualidade.

Mas outros autores devem ser considerados. Por exemplo, Sidónio Muralha ou Luís de Macedo, um mais próximo dos neo-realistas, outro pertencente ao grupo da Távola Redonda. E também autores a que poderíamos chamar “de fronteira”, gente ligada ao espectáculo e ao jornalismo, como Reinaldo Ferreira e Norberto de Araújo, que Amália também já canta por essa altura.

A voz de Amália, as suas intenções de leitura interpretativa, o recorte imponderável do fraseado musical e o equilíbrio mais ou menos instável posto na dicção, a colocação certeira dos melismas nos momentos em que o fado carece de expressividade, a transparente franqueza com que tudo é agenciado e que, felizmente, podemos apreciar hoje em excelentes recuperações discográficas, tudo isso transfigura versos que por vezes são perfeitamente banais em momentos de grande intensidade poética e… fadista.

É a partir de Amália, mesmo antes da colaboração genial que ela recebeu de Alain Oulman, estando ainda por estudar o papel que a canção francesa desempenhou na génese das músicas que ele escreveu para a nossa artista, que os fadistas passam a tornar-se muito mais exigentes quanto à qualidade literária e à autoria das novas letras que procuram arranjar para os seus fados.

Será injusto esquecer que Amália cantou excelentes letras populares e escreveu excelente poesia, que umas vezes cantou (Lágrima, Estranha forma de vida...) e outras se limitou a publicar. São poemas instintivamente relacionados com a sua maneira de estar na vida.

Nos seus versos, ela soube lançar mão de uma escrita poética intuitiva e certeira, formalmente muito ancorada na tradição da matriz popular, com uma grande fluência, belos achados e, por vezes, algumas agudezas quase maneiristas.

Amália soube incutir como mais ninguém um acento profundamente dramático à expressão daquilo que cantava. Não apenas por ser dotada de uma voz absolutamente extraordinária. A sua articulação por vezes centrava-se mais no significante do que no significado, mas acabava restituindo misteriosamente a este último todo o seu valor, e encontrou ou inventou melismas, inflexões verbais, tensões intra-silábicas, portamentos, arabescos e outros efeitos vocais, alguns porventura de uma inspiração mediterrânica bebida da Andaluzia à Córsega, mas todos eles únicos, pessoais, intransmissíveis e sobretudo singularmente adequados a traduzir uma entrega total à intensidade dos sentimentos, das dilacerantes violências da paixão à angústia mais torturada, à ternura mais límpida, ou à alegria simplesmente ingénua dos fados que ela cantava.

E também na medida em que a grande fadista cantou um vastíssimo leque de obras literárias que se distribuem por sete séculos da nossa literatura e da nossa identidade, podemos dar razão a David Mourão-Ferreira quando ele afirmou, na morte de Amália, ser ela um “heterónimo” de Portugal, o “heterónimo” feminino de Portugal.

 
Vasco Graça Moura - (Comunicação apresentada à Classe de Letras na sessão de 12 de Novembro de 2009) (excertos)
Imagem: pintura de José Viola

 
 
 
 
 

domingo, 16 de julho de 2017

AMÁLIA - Quando Se Gosta de Alguém

 
 
 
 AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)
 
 
 QUANDO SE GOSTA DE ALGUÉM


Quando se gosta de alguém
Sente-se dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo o que é que se sente

Quando alguém gosta d'alguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amores andamos

Quando alguém gosta de alguém
Anda assim como ando eu
Que não anda nada bem
Com este mal que me deu

Quando se gosta de alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior a gente se sente

Quando se gosta de alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto


Amália Rodrigues

sábado, 15 de julho de 2017

AMÁLIA - Nunca lhes fiz a vontade

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)
 
NUNCA LHES FIZ A VONTADE

 «Se não fosse eu ter tanta força dentro de mim, cheirar com o meu nariz, olhar com os meus olhos, ouvir com os meus ouvidos, se não fosse ter o meu critério tão forte, tinha passado a vida a ceder às pessoas. Isto não, isto é que é, não cante isto, cante aquilo. Mas eu nunca lhes fiz a vontade, fiz sempre a minha. E foi a única maneira de fazer a vontade a toda a gente.»

 
in “Amália – Uma Biografia” de Victor Pavão dos Santos
Imagem: pintura de Maluda

 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

AMÁLIA - Amália na Broadway, o fado em Nova Iorque

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
 AMÁLIA NA BROADWAY, O FADO EM NOVA IORQUE

 
Quando Amália Rodrigues subiu, pela primeira vez, a um palco nova-iorquino era já uma estrela com estatuto internacional. Por essa altura tinha actuado em Madrid (onde fez a sua estreia internacional em 1943), no Rio de Janeiro, em Londres, em Paris, em Dublim. Já havia passado por palcos em África, de Angola e Moçambique ao então Congo Belga.
Em Setembro de 1952 a sua estreia em Nova Iorque fez-se no palco do La Vie en Rose, onde ficou 14 semanas em cartaz.
No ano seguinte a estreia na televisão norte-americana acontece no programa de Eddie Fischer, na NBC. Pouco depois, já em 1954, Hollywood escuta-a pela primeira vez, no Mocambo.
Amália Rodrigues semeou assim, em diversas viagens aos Estados Unidos, uma relação profunda com o público, os palcos e mesmo a indústria do disco norte-americana. Não foi por acaso que, apesar de ter uma carreira discográfica encetada nos anos 40 (ainda em discos de 78 rotações), foi nos EUA que editou o seu primeiro LP.
Ao longo da sua carreira, Amália regressou por diversas vezes aos Estados Unidos, frequentemente acolhida em triunfo. Em 1966 apresentou-se no Lincoln Center, em Nova Iorque, com o maestro Andre Kostelanetz frente a uma orquestra, num programa essencialmente feito de canções do folclore português numa das noites e num outro, feito de fados (também com orquestra), na seguinte.
Amália trabalhou o espectáculo directamente com o maestro, na casa deste, em Nova Iorque. Ele ao piano, ela cantando, juntos encontrando o registo a levar ao palco. O mesmo espectáculo foi encenado, dias depois, no Hollywood Bowl.
Estes concertos estão na base de três EP's, de folclore acompanhado por uma orquestra, que Amália edita simultaneamente, em Abril de 1967. A parceria com o maestro foi tão bem acolhida pelo público, crítica e pela própria Amália, que nova actuação, no mesmo Lincoln Center, aconteceu em 1968.
A relação com a América acabaria por marcar depois presença na própria música de Amália. Primeiro, numa colaboração com o saxofonista Don Byas no álbum Encontro - Amália e Don Byas (1974) e, mais tarde num disco de versões de clássicos populares da Broadway, Amália na Broadway (editado em 1984 usando gravações registadas em 1965 e nunca até então reveladas publicamente).
 

Nuno Galopim, in Portal do Fado
Imagem: fotografia de Armando França