quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

GLÓRIA DE SANT´ANNA - Pequeno poema a uma borboleta morta




GLÓRIA DE SANT´ANNA
(Lisboa, Portugal, 1925 –Ovar, 2009)

Poetisa, professora, conferencista


Em 1951 partiu para Moçambique e regressou a Portugal, em 1974.
Colaborou em diversos jornais de Portugal, Moçambique e Brasil. Na Rádio Clube de Lourenço Marques animou, durante 16 anos, um programa de duas horas com programação cultural.

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Palavras de Glória de Sant´anna
“Em Portugal tudo é diferente e terrível, porque se vive em círculos fechados.”

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Pequeno poema a uma borboleta morta

Pálida
e tam levemente desbotada
tua asa quieta!

Brotaste
não sei de que sentimento
trazendo
um vago sonho permanecido

Sinto-te
como uma pequena bruma
descolorida ao vento
Sem pensamento:
inútil e frágil
no tempo

tua atitude inacabada
permanecendo.



in “Música Ausente”

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

CRUZEIRO SEIXAS – A tua boca adormeceu




CRUZEIRO SEIXAS
(Amadora, Portugal, 1920)

Poeta e pintor
É uma das figuras maiores do surrealismo português

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Palavras de Cruzeiro Seixas

“Picasso, Pascoaes, Mário de Sá-Carneiro foram geniais. Temos mais figuras geniais. Gente que abriu portas tão admiráveis que não apareceu ainda quem lhe chegue aos calcanhares.”


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A tua boca adormeceu

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.



in “Homenagem à realidade”



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

ISABEL MEYRELLES - O Complexo do armário




ISABEL MEYRELLES
(Matosinhos, Portugal, 1929)

Escultora e poetisa surrealista

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Palavras de Isabel Meyrelles

“Conheci a Natália Correia numa festa em casa de amigos. Ela pediu-me que fizesse uma escultura dela nua, pois não o queria pedir a um escultor homem. Acedi ao seu desejo e fiz um nu que nunca mais foi visto, pois o futuro marido, Alfredo Machado, escondeu-o imediatamente. Ficámos amigas durante 30 anos ou mais.”


Fonte desta declaração: entrevista concedida pela poetisa a António Cândido Franco – A Ideia.


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O complexo do armário

Se é infeliz,
insone, angustiado,
cardíaco, dipsomaníaco,
melancólico
ou hipocondríaco,
se anda deprimido
pelo tempo morto dos sonhos
e se acredita
que um na mão
vale mais
que dois a voar,
faça como eu:
arranje um armário.
O meu tem protecção
contra o nevoeiro, as traças,
a amnésia.
possui o tudo-é-d’esgo(s)to,
ar condicional
e muros acolchoados
para cabeças sensíveis.
Previ também
uns ganchos no tecto
para o excedente dos bolsos:
óculos, amores mortos,
sapatos velhos,
casa dos antepassados
e várias outras coisas
de que não direi o nome.
Para as horas de ócio,
escolhi um pedaço de mar,
a biblioteca de Babel,
a praça St. Germain des Prés
às 5 da manhã
e uma florestado Plistoceno
com inúmeros mamutes
e macairódus,
sem esquecer o fundo sonoro ad hoc,
rugidos, uivos
e barridos extremamente típicos.
Muito repousante.
Experimente
e depois diga se gostou.


domingo, 14 de janeiro de 2018

RICHARD NIXON CANTA NA CHINA




Richard Nixon canta na China


O presidente americano Richard Nixon, o secretário de Estado Henry Kissinger, o guia da revolução na China Mao e as respectivas esposas são as personagens de uma ópera apresentada em Houston a 22 de Outubro de 1987: Nixon in China.

Nada de personagens mitológicas, literárias ou históricas de épocas pretéritas: para a sua primeira incursão no género operático, o compositor John Adams escolheu um argumento que quase poderia classificar-se de actual, como é a histórica visita que Nixon fez à China comunista entre os dias 21 e 25 de Fevereiro de 1972.

Alice Goodman encarregou-se de escrever o libreto, enquanto Peter Sellars se ocupou da encenação. Adams, por sua vez, escreveu uma música que, partindo dos pressupostos do minimalismo (breves estruturas melódicas ou rítmicas cuja incessante repetição gera todo o material musical), deriva para um estilo mais tradicional, com árias, duetos, concertantes e coros claramente perceptíveis, com um piscar de olhos ao bel-canto.



in “Crónica da Música”



sábado, 13 de janeiro de 2018

CECÍLIA MEIRELES – A avó do menino




CECÍLIA MEIRELES
(Rio de Janeiro, Brasil, 1901 - 1964)

Poetisa, pintora e professora


A avó do menino


A avó
vive só.
Na casa da avó
o galo liró
faz “cocorocó!”
A avó bate pão-de-ló
E anda um vento-t-o-tó
Na cortina de filó.

A avó
vive só.
Mas se o neto meninó
Mas se o neto Ricardó
Mas se o neto travessó
Vai à casa da avó,
Os dois jogam dominó.




sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

MIGUEL DE UNAMUNO – Portugal




MIGUEL DE UNAMUNO
(Bilbau, Espanha, 1864 – Salamanca, 1936)

Romancista, dramaturgo, poeta e filósofo 


É considerado um dos expoentes da chamada "geração de 98" e precursor do existencialismo em seu país. 

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              Portugal

Do atlântico mar na praia areosa
uma matrona descalça e desgrenhada
senta-se ao pé de uma serra coroada
por triste pinheiral. Nos joelhos pousa

os cotovelos e nas mãos a ansiosa
face, e olhos de leoa desconfiada
crava no poente; o mar dá a toada
trágica, de altos feitos sonorosa.

Fala de vastas terras e de azares
enquanto ela, seus pés nessas espumas
banhando, sonha no fatal império

que se sumiu nos tenebrosos mares,
e olha como entre agoureiras brumas
se ergue D. Sebastião, rei do mistério.



Tradução: José Bento


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

MONUMENTOS PORTUGUESES NO MUNDO - Fortaleza de Mazagão - Marrocos




Fortaleza de Mazagão

A cidade portuguesa de Mazagão, actual El Jadida, localiza-se em Marrocos, na costa ocidental africana, a sul de Casablanca. Foi fundada pelos portugueses nos inícios do século XVI como entreposto comercial e militar na rota marítima para a Índia. A cidade manteve-se na posse da coroa até 1769, data em que foi conquistada em definitivo pelos marroquinos.

Em 2004 a cidade de Mazagão foi classificada pela Unesco como Património Mundial, constituindo um importante exemplo do intercâmbio das culturas europeia e marroquina.

As primeiras obras portuguesas em Mazagão foram realizadas por ordem do rei D. Manuel, que aí mandou erguer um castelo em 1514, traçado pelos irmãos Diogo e Francisco de Arruda.

A fortaleza de Mazagão apresenta a forma de um quadrilátero irregular, rematado por quatro frentes abaluartadas. Duas das faces estão viradas à costa e duas ao eixo terrestre, facto que traduz o carácter iminentemente militar e defensivo da construção.

Atestando a sua robustez, o fosso da fortaleza permitia a entrada de embarcações através do sistema de comportas.

No interior da praça localizavam-se vários equipamentos de assistência como o hospital, a vedoria, os celeiros, o palácio do governador, os armazéns, a cisterna, o chafariz, igrejas e ermidas.

A cisterna, localizada no pátio interior da primitiva fortaleza manuelina, foi construída por João de Castilho, tendo sido concluída em 1547 por Lourenço Franco.





in”Direcção-Geral do Património Cultural” (excerto)