quinta-feira, 19 de julho de 2018

FERNANDA DE CASTRO – Ao Fim da Memória



FERNANDA DE CASTRO
(Lisboa, Portugal, 1900 – 1994)
Escritora

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É difícil realizar um poema, tecnicamente perfeito, sem que a técnica deturpe, diminua ou empobreça a Ideia. É difícil construir uma obra musical sem que a carpintaria invisível perturbe a pureza ideal dos sons; mais difícil, porém, é que dois seres humanos se aproximem, na ânsia de se encontrarem, sem que fique reduzida a estilhaços o puro cristal das suas almas!

Acordei esta manhã com dores de cabeça e logo pensei que fosse um princípio de gripe. Mas não, eram os sonhos, os sonhos desta noite, que não cabiam nem cabem nas quatro paredes da minha cabeça. Desta vez não havia nestes sonhos nem monstros apocalípticos, nem florestas eriçadas de setas ou de lanças, havia estrelas, havia música, havia perfumes. Onde estaria? No Céu? Não, porque cheirava a mimosa, porque havia o marulhar, quase o ciciar das ondas contra os rochedos. Na terra? Também não, porque não sentia o chão debaixo dos pés, porque flutuava sem peso numa atmosfera mais ténue, mais fluída. Onde, então? A meio caminho entre a Terra e o Céu, onde os pesadelos se transformam em sonhos e os braços em asas?



in “Ao Fim da Memória”






quarta-feira, 18 de julho de 2018

PEDRO DA SILVEIRA – Em Macau à procura de Camilo Pessanha



PEDRO DA SILVEIRA
(Fajã Grande, Açores, Portugal, 1922 — Lisboa, 2003)
Poeta, tradutor, investigador

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Publicou artigos de crítica literária e vários trabalhos de investigação, sobretudo recolhas do folclore açoriano.

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Em Macau à procura de Camilo Pessanha

Onde foi a casa do poeta
agora é um pátio de escola em que brincam crianças
e tem à frente um baloiço
e lá atrás duas árvores.

Na esquina da rua com o seu nome
um mendigo serrazina a sua viola
e o som alonga-se chorado,
chora e perde-se devagar
nas outras ruas que levam
à travessa do Pagode,
à porta da loja onde ainda o espera
o amigo antiquário Ah-Men.

Já ninguém sabe o destino
do cachimbo com que inventava
paraísos e princesas
ou sereias, com seus cantos,
músicas e campos de liliáceas,
cores de mil maravilhas
ao mundo que bem sabia
que era mais o daquele mendigo
aquela esquina para a Sam Má-lô
e a sua viola chorando
pela moeda de meia pataca
que eu também me esqueci de deitar
na tigela que tinha ao lado.




terça-feira, 17 de julho de 2018

BEATRIZ COSTA – Três gigantes



BEATRIZ COSTA
(Charneca do Milharado, Portugal, 1907 - Lisboa, 1996)
Actriz de teatro e cinema

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Três gigantes

1973 ceifou dois homens que marcaram na minha vida: Pablo Picasso e Pablo Casals

Pablo Neruda também foi nesse mesmo ano e a sua morte foi uma grande tragédia. Ainda insepulto, saquearam-lhe a casa e roubaram recordações duma vida fabulosa! Quadros valiosíssimos, esculturas, tapetes e peças raras de artesanato do mundo inteiro, que o grande poeta conhecia e admirava, porque era um viajante incansável. 

Neruda lia muito sobre Portugal, que conhecia mal e desejava visitar… Quem teria levado aquele lindo galo de Barcelos, que ele dizia ser umas das suas peças mais queridas? Aquele galo antigo, que, graças a um amigo do Norte, consegui e levei comigo para Paris, quando o grande poeta era embaixador do Chile. 

Pablo Neruda, Prémio Nobel da Literatura, merecia mais respeito da sua gente, porque o Prémio Nobel não é dado a qualquer «sujeitinho».

Pablo Picasso, por quem «tive a honra» de ser apalpada em casa de Madame Skiaparelli, esse génio malaguenho, que se fartou de gozar com a malta «indinheirada», deixou mais de um bilhão de dólares, a maior fortuna que um artista já acumulou. 

Adorava apalpar a mulher dos outros, mas ai de quem apalpasse a sua… Um dia passou por uma pequena e graciosa aldeia encarrapitada na Côte d´Azur, que tinha sido famosa pelas olarias que lá existiram. No momento da visita do génio andaluz, tudo parecia adormecido. Os velhos oleiros já não tinham forças nem imaginação e os jovens queriam era Paris, porque «lá é que é bom!...» Picasso resolveu espevitar aquela gente de aparência desanimada e instalou-se lá. Apaixonou-se pelo barro e num abrir e fechar de olhos criou peças que hoje valem o que os donos quiserem pedir por elas…

Pablo Casals, quando quis casar comigo, já tinha bastante idade. O casamento com mulher jovem era uma ideia fixa. Acabou por dar o seu nome ilustre a uma discípula de vinte e um anos, que foi sua viúva por pouco tempo, pois casou a seguir com o pianista do falecido marido…

Vinicius de Moraes, um dos homens mais sensacionais da minha época, fez um poema, que é uma jóia, de homenagem a esses três Pablos, que o mundo perdeu e de que não volta a conhecer outros…

                    Que no ano mais sem critério,
                    Esse de setenta e três,
                    Levou para o cemitério
                    Três Pablos de uma vez,
                    Três Pablões, não Pablitos,
                    No tempo, como no espaço;
                    Pablos de muitos caminhos:
                    Neruda, Casals, Picasso…



in “Quando os Vascos eram Santanas” - 1977



segunda-feira, 16 de julho de 2018

ANTÓNIO TORRADO - A gaivota que gostava de ser pomba



ANTÓNIO TORRADO
(Lisboa, Portugal, 1939)
Poeta, escritor

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A sua obra ultrapassa os 120 títulos, onde sobressai a produção literária para crianças, amplamente galardoada em Portugal e no Brasil (Prémio da Associação Paulista dos Críticos de Arte de 1994). Ao conjunto da sua obra foi atribuída, em 1988, o "Grande Prémio Gulbenkian da Literatura Infantil".

Partidário da «pedagogia do imaginário», foi fundador de uma escola infantil e básica, pioneira em Portugal do Movimento da Escola Moderna (técnicas Freinet).

Em 1995, O Mercador de Coisa Nenhuma foi incluído no “The White Ravens” da “Internacional Children's Library in Munich”. Foi nomeado para o “Hans Christian Andersen Award” de 2000, atribuído pelo “International Board on Books for Young People”.

in “DGLAB” (excerto)
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A gaivota que gostava de ser pomba

Era uma vez uma gaivota que gostava de ser pomba.
Dizia ela que as gaivotas não servem para nada, ao passo que as pombas sempre servem para alguma coisa.

— Levam cartas, mensagens, avisos de um lado para o outro — explicava ela às outras gaivotas. — São as pombas ou os pombos-correios.

— Também há quem as cozinhe com ervilhas — interrompeu-a uma gaivota trocista.

— Essa serventia a nós não nos interessa — arrepiaram-se as outras gaivotas, que voaram, alarmadas.

Ficou sozinha a gaivota que queria ser pomba. Servir de cozinhado também não estava nas suas ambições, mas à falta de outro préstimo… E pensou: “Gaivota estufada”, “Gaivota de cabidela”, “Gaivota guisada com batatas”…

Realmente, não lhe soava bem. E menos bem devia saber, porque nunca lhe constara que os humanos, de boca aberta para todos os gostos, tivessem incluído tais receitas nos seus livros de cozinha.

A gaivota que queria ser pomba ficou a olhar o mar. Ia abrir as suas asas para as lançar sobre as ondas, à cata de peixinho para o almoço, quando um estranho torpor lhe tomou o corpo. Deteve-se. Encolheu-se. Tapou a cabeça com uma asa. Aquilo havia de passar.
As outras gaivotas, que há pouco tinham debandado, regressavam à praia, apanhadas pelo mesmo entorpecimento que atingira a gaivota desta história.

Formaram um bando tiritante, rente ao mar. Umas, levantadas numa só pata, outras escondidas numa cova da areia, olhavam as águas esverdinhadas, espumosas, como turistas descontentes com a paisagem.

— Estão as gaivotas em terra — disse uma voz humana, abrindo uma janela, junto à praia. — Vai haver tempestade. Sendo assim, já não me arrisco a ir para o mar.

De facto, quando as gaivotas ficam em terra, os pescadores sabem que o tempo vai mudar. Elas é que dão o sinal. Elas é que sabem. Elas é que pressentem quando a tempestade se aproxima.

“Afinal, sempre tenho alguma utilidade”, pensou a gaivota que queria ser pomba, toda enrolada numa bola de penas, e, daí em diante, preferiu continuar a ser gaivota.

   





domingo, 15 de julho de 2018

JANET FRAME – O Palhaço



JANET FRAME
(Nova Zelândia, 1924 – 2004)
Poetisa, romancista

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O PALHAÇO       

A sua cara está manchada por lágrimas maquilhadas.
Eu e os outros aplaudimo-lo, sabendo
que é de bom tom aprovar quando um palhaço chora
e de mau tom  quando o faz uma cara persistentemente
dorida sejam ou não pintadas as suas lágrimas.

Também é de bom tom, entre guerras,
dizer que o ódio é amor e o amor é ódio,
argumentar que tudo é mais complexo do que sonhámos
e depois dizer que não o sonhámos
sempre o soubemos e somos sensatos.

Caro palhaço choroso caro velho infantil
caro assassino gentil caro e inocente culpado
cara simplicidade odeio-vos por causarem que eu finja
que há vários mundos para uma verdade quando
eu sei, eu sei que não há. 

Pessoas como eu e vocês, meus caros,
que têm mau hálito, que adormecem e de intestinos
ruidosos que controlam a fé
que chegam à casa vazia ou entre a família,
cara família, caro homem solitário no mundo despedaçado de ninguém,
será para essa desolação que acumulámos palavras durante tantos
milhões de anos, desde o primeiro, gememos
e olhamos para as estrelas. Oh oh o céu é demasiado amplo para dormir debaixo!



Tradução: José Alberto Oliveira






sábado, 14 de julho de 2018

CARNEGIE HALL – Nova Iorque




CARNEGIE HALL

Sala de concertos de Nova Iorque fundada em 1891. A ideia de construir uma sala estável para a música sinfónica surgiu do industrial e filantropo norte-americano Andrew Carnegie. 

O actual complexo compreende três espaços: a sala principal (com uma capacidade de 2800 lugares), a sala de recitais (1200) e a sala de música de câmara (250). 

Na sua inauguração interveio Damrosch e Tchaikovsky, que interpretou a sua Marcha solemne. No Carnegie Hall têm lugar os melhores concertos sinfónicos e instrumentais que se realizam nos Estados Unidos, tanto de música clássica como de jazz e música popular.



in “Dicionário da Música”  



sexta-feira, 13 de julho de 2018

ANTÓNIO CABRAL – A Solidão



ANTÓNIO CABRAL
(Castedo do Douro, Portugal, 1931 - Vila Real, 2007)
Escritor, poeta, dramaturgo, etnógrafo

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Iniciou a actividade literária aos 19 anos com a publicação do livro de poesia Sonhos do meu anjo
Ao longo de 56 anos de carreira dedicada à escrita, publicou mais de 50 livros em nome próprio, abraçando géneros tão diversos como a poesia, o teatro, a ficção e o ensaio, e dedicando-se em paralelo ao estudo apurado e divulgação das tradições populares portuguesas. As suas raízes transmontano-durienses e a ligação à terra que o viu nascer, “paraíso do vinho e do suor”, são presença incontornável em toda a sua obra.


in”António Cabral” (site)

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A Solidão 
(O Isolamento da Condição Humana)

Quando voltares, põe na tua voz
aquela flor azul que te ofereci.
Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te
e os olhos se encham, outra vez.
Ainda tens no gesto aquele susto
que se enrolava todo nos meus dedos
e punha à nossa volta
um colar de silêncios ardendo?
Tudo mudou, bem sei. Naquela tília
o Outono já começou;
e nas tuas palavras
algumas folhas devem ter caído.
Mas, se voltares, põe a flor azul,
põe o passado no gesto e na voz.
Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te
e os olhos se encham. É tão fácil!



Imagem: fotografia – Escritos do Douro