segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CARLOS EURICO DA COSTA - Neste dia meu amor



CARLOS EURICO DA COSTA
(Viana do Castelo, Portugal, 1928 — Lisboa, 1998)

Poeta

Participou, com Mário Cesariny. António Maria Lisboa e Cruzeiro Seixas, na fundação do Grupo Surrealista.
Nunca deixaria de se mostrar fascinado e seduzido pelo «surreal», embora nunca tenha aderido ao surrealismo.
Trabalhou em jornais diários antes de se tornar profissional de relações públicas e de publicidade.
Obras principais: Sete Poemas da Solenidade e Um Requiem, Aventuras da Razão, A Fulminada Imagem e A Cidade de Palaguim.



in “Portugal Século XX”

***

NESTE DIA MEU AMOR

Neste dia meu amor
os meus dedos são o candelabro que te ilumina
o único existente.

E o homem
sua esfera perdida em mãos alheias
é o objecto de malabarismo
o insecto
voltejando cega a luz que lhe irradiam
o límpido cristal corrompido
o defunto.

E este patíbulo onde o próprio carrasco se enforcará
eu o digo
será erguido como símbolo de todos os homens.

Aqui a hora vai sendo longínqua meu amor e solene.
O caminho é grande o tempo tão pouco
tenhamos muita esperança e muito ódio
e vítreas flores a ornar o teu cabelo
porque serei o homem para as transportar
e tu a última mulher que as aceitará.

E enquanto assim for
erguer-se-á a nuvem de múltiplas estrelas
a nebulosa
que dizem estar a milhões de anos-luz
mas não acreditemos bem o sabes
porque em verdade a temos em nossas próprias mãos
oculta para a contemplarmos agora.


in “Sete Poemas de Solenidade e um Requiem”

domingo, 10 de dezembro de 2017

Poema de JOSÉ TERRA dedicado a MATILDE ROSA ARAÚJO - Descoberta

                                          

                           
   
                             
           DESCOBERTA


Sinto-me livre, fresco, auroreal,
neste rio de sombra e de silêncio.

Nele descubro a força e as origens
inevitáveis origens dos meus passos.

Nele me encontro total e verdadeiro
com meus claros olhos de animal
parentes das estrelas e dos limos.

Nele navega a minha noiva astral
toda coroada de flores carnais
num barco à imagem de minha alma.

Nele a beleza brinca, e precipito-me
no rastro da efémera flor
que tremula nos dedos da verdade.

No centro dele o coração liberta-se
e transborda das margens do meu corpo.

No centro dele um deus primaveril
com um diadema de flores de água
guarda a flauta, a irreal flauta,
onde assobiarei o hino da manhã.

No centro dele espera-me uma corça
- talvez a minha noiva, incompreendida
e aniquilada sobre o continente.

Nos seus líquidos olhos a amizade
é uma flor de orvalho que tremula.

No centro dele rio, choro, canto
e acaricio o dorso da ternura.

No centro dele o teu retrato, Mãe!
múltiplo e uno, é onde me liberto
e parto em pássaros para os quatro mundos!



JOSÉ TERRA - poeta, filólogo, historiador e professor catedrático (Prozelo, Arcos de Valdevez, Portugal, 1928 – Paris, França, 2014)).

MATILDE ROSA ARAÚJOescritora e poetisa (Lisboa, Portugal, 1921-2010).





                                   

sábado, 9 de dezembro de 2017

CASA-MUSEU PASSOS CANAVARRO




CASA-MUSEU PASSOS CANAVARRO

Com uma localização ímpar, a Casa-Museu da Fundação Passos Canavarro, sediada na Casa adquirida, em 1841, por Passos Manuel e Gervásia de Sousa Falcão e imortalizada por Almeida Garrett nas “Viagens na Minha Terra” situa-se onde, nas origens da nacionalidade, conforme confrontações históricas, se situava o Paço de D. Afonso Henrique. Neste propósito escreveu Garrett:

“Notável combinação do acaso! Que o ilustre e venerando chefe do partido progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convicções democráticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e adesão às formas monárquicas, esse homem, vindo do Minho, do berço da dinastia e da Nação, viesse fixar aqui a sua residência no alcáçar do nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada num dos feitos mais insígnes daquela era de prodígios!” [in “Viagens na Minha Terra”, Cap. XXVIII”].

Em 1937, nasceu aqui, no quarto onde pernoitou Garrett, Pedro Canavarro, fundador e doador da Colecção que constitui o espólio desta Casa-Museu.

Esta Colecção é composta maioritariamente por artes decorativas, incluindo pintura, mobiliário, porcelanas e outros objectos. Pedro Canavarro, viveu em meados da década de 60 no Japão, pelo que a arte oriental tem um destaque central…

Morada: Largo da Alcáçova, Santarém, Portugal.


in “Casa-Museu Passos Canavarro"

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

VIRGÍNIA VITORINO - Amor



VIRGÍNIA VITORINO
(Alcobaça, Portugal, 1895 - 1967)

Professora, poetisa e dramaturga

Trabalhou na Emissora Nacional onde dirigiu o teatro radiofónico. Publicou vários livros de versos e peças teatrais, muitas das quais foram levadas à cena no Teatro Nacional D. Maria II. Recebeu o prémio Gil Vicente do SNI pela peça Camaradas. Tem vasta colaboração espalhada por jornais e revistas portuguesas e brasileiras.


in “Biblioteca Nacional de Portugal” (excerto)

***
AMOR

O amor! O amor! Ninguém o definiu.
É sempre o mesmo. Acaba onde começa.
Quem mais o sente menos o confessa,
e quem melhor o diz nunca o sentiu.


Conhece a todos mas ninguém o viu.
Se o procuramos, foge-nos depressa.
Se o desprezamos, todo se interessa,
só está presente quando já fugiu.


É homem feito sendo criança.
E quanto mais se quer menos se alcança,
ninguém o encontra, e em toda parte mora.



Mata a quem dele vive. É sempre assim.
Só principia quando chega o fim,
morreu há muito e nasce a cada hora.




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

PAUL ÉLUARD - A poesia será feita por todos...



PAUL ÉLUARD
(França, 1895 – 1952)

Poeta

A POESIA SERÁ FEITA POR TODOS...

Os verdadeiros poetas jamais acreditaram que a poesia lhes pertencesse exclusivamente. Na boca dos homens, a palavra jamais se extinguiu: as palavras, os cantos, os gritos sucedem-se sem fim, cruzam-se, chocam-se e confundem-se. O impulso da função-linguagem foi levado ao exagero, atingiu a exuberância e a incoerência. As palavras dizem o mundo e dizem o homem, o que o homem viu e sente, o que existe, o que existiu, o que existirá, a antiguidade do tempo, o passado, o futuro da idade e do momento, o voluntário e o involuntário, o medo e o desejo do que não existe, do que vai existir. As palavras destroem, as palavras predizem, encandeadas ou sem ordem - é inútil negá-las. Elas participam todas na elaboração da Verdade.

Os objectos, os factos, as ideias que elas descrevem podem extinguir-se por falta de vigor, mas logo serão substituídos por outros objectos, factos e ideias que as próprias palavras acidentalmente suscitarem realizando assim a sua inteira evolução.

Os homens devoraram um dicionário e o que eles nomeiam existe. O inominável, o fim de tudo só começa na impensável fronteira da morte. Pouco importa saber quem fala e pouco importa mesmo o que diz. A linguagem é comum a todos os homens e não são as diferenças de línguas, por mais prejudiciais que se nos afigurem, que arriscam comprometer gravemente a unidade humana, mas muito mais esse interdito eternamente formulado, em nome da razão prática, contra a liberdade absoluta da palavra. 

Passam por loucos os que ensinam que há mil maneiras de ver um objecto, de o descrever, mil maneiras de dizer o seu amor, a sua alegria e a sua dor, mil maneiras de nos entendermos sem partir sequer um ramo da árvore da vida. Inúteis, loucos, malditos os que revelam, reproduzem, interpretam a humilde voz que se queixa ou que canta na multidão, sem saber que ela é sublime. Ah! não, a poesia pessoal não morreu ainda.

Mas, pelo menos, nós compreendemos que nada pode romper o frágil fio da poesia impessoal. Nós compreendemos, sem duvidar um instante desta verdade que triunfará, que inúmeras coisas podem ser «todo um poema».

«Todo um poema», já não é apenas um objecto tosco ou a excentricidade duma elegante presumida, mas o que é dado ao poeta para simular, reproduzir, inventar, se ele crê que do mundo que lhe é imposto nascerá o universo que ele sonha. Não há nada de raro nem de divino no seu trabalho banal... O poeta, na mira das obscuras notícias do mundo, restituir-nos-á as delícias da mais pura linguagem, a do homem da rua e do sábio, da mulher, da criança e do louco. 

Se o quiséssemos, só haveria maravilhas. Escutemo-las sem reflectir e respondamos, pois seremos entendidos. Se não, apenas seremos espelhos partidos e, desejosos de rectificar as aparências, poetizaremos, perderemos a primeira e elementar vista das coisas, neste espaço e tempo que são nossos.

Se quiséssemos, nada nos seria impossível. O mais fraco de nós, como o mais rico, tem a possibilidade de nos oferecer com o trabalho das suas mãos e a confiança dos seus olhos um inestimável tesouro, os seus sonhos e a sua realidade, que razão, bom senso, maldade, não chegam a destruir. 

A poesia involuntária, por mais banal, imperfeita e grosseira que possa ser, é feita das relações entre a vida e o mundo, entre o amor e a necessidade. Ela produz a nossa emoção e dá ao nosso sangue a ligeireza do fogo. Todo o homem é irmão de Prometeu.
Nós não temos uma inteligência particular, nós somos seres morais e situamo-nos na multidão.



in “Árvore – folhas de poesia” – revista literária publicada em Lisboa, entre 1951 e 1953.

Imagem: retrato de Paul Éluard por Salvador Dalí

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CÂNDIDO DE FIGUEIREDO - Filólogo e escritor




CÂNDIDO DE FIGUEIREDO
(Lobão da Beira, Portugal, 1846 — Lisboa, 1925)

Filólogo, poeta, escritor e jornalista

Foi um ardente paladino do português vernáculo, do português livre de neologismos e estrangeirismos. E, como tal, manteve com regularidade em diversos jornais de Portugal e do Brasil os tão conhecidos consultórios linguísticos que muito contribuíram para o prestígio de que gozou junto da opinião pública.

Foi autor de “Novo Dicionário da Língua Portuguesa”.

A sua acção foi verdadeiramente notável como lexicógrafo e linguista, a ponto de dever ser considerado um benemérito da língua, tanto pela divulgação que dela fez em toda a sua vernacularidade, como da forma como contribuiu para a correcção de erros vulgares, comuns na ortografia, na prosódia e na sintaxe.

Fundou, em 1908, com Luciano Cordeiro e outros a Sociedade de Geografia.
Foi Presidente da Academia das Ciências de Lisboa. 


in” Dicionário da Literatura Portuguesa”

***
Palavras de Cândido de Figueiredo
“Inclino-me a crer que a ignorância é a mãe da felicidade.”

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

BERNARDO GOMES DE BRITO - História Trágico-Marítima



BERNARDO GOMES DE BRITO
(Lisboa, Portugal, 1688 – depois de 1759)


Editou a História Trágico-Marítima. Compõe-se de 12 narrativas que circulavam avulsas e que ele compilou, daí resultando dois volumes, publicados em 1735 e 1736.

Publicados inicialmente sob a forma de folhetos de cordel, foram escritas em grande parte por testemunhas oculares das catástrofes que descrevem, numa linguagem linear, directa, despida de atavios.

As mais impressionantes dessas narrativas parecem ser a do naufrágio de Sepúlveda na costa do Natal, em 1552, a da perda da nau S. Bento no cabo da Boa Esperança, em 1554, e a das vicissitudes da nau Santo António, vinda do Brasil em 1565 e que alguns pretendem tenha inspirado o romance tradicional da Nau Catrineta.


in “Grande Livro dos Portugueses”