terça-feira, 19 de junho de 2018

ARMANDO DA SILVA CARVALHO - Varanda de Pilatos



ARMANDO DA SILVA CARVALHO
(Óbidos, Portugal, 1938 – Caldas da Rainha, 2017)
Poeta, escritor, tradutor

***

Varanda de Pilatos

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
Há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
Numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
As horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
De nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
A chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
Que me liga ao saber acumulado. 




segunda-feira, 18 de junho de 2018

ARTHUR SCHOPENHAUER – A essência da música



ARTHUR SCHOPENHAUER
(Polónia, 1788 - Alemanha, 1860)
Filósofo

***
                        
A essência da música

Depois de meditar muito tempo sobre a essência da música, recomendo o prazer dessa arte como a mais requintada de todas.
Nenhuma outra age de modo mais directo, mais profundo, porque não há outra que revele de forma mais objectiva e profunda a verdadeira natureza do mundo.

Ouvir grandes e belas melodias é como um banho para o espírito: purifica-o, do que é mau e mesquinho; eleva o homem e coloca-o em sintonia com os mais nobres pensamentos de que é capaz, e só assim ele sente claramente tudo o que vale, ou melhor, tudo o que poderia valer.    



domingo, 17 de junho de 2018

MÁRIO VARGAS LLOSA - Palavras



MÁRIO VARGAS LLOSA
(Arequipa, Peru, 1936)
Escritor, professor universitário, político

***
É um dos mais importantes escritores da América Latina e do mundo. Foi agraciado com o Prémio Nobel de Literatura em 2010.

***

Palavras de Mário Vargas Llosa

“Sem ficções, seríamos menos conscientes da importância da liberdade para que a vida seja vivida e do inferno em que ela se transforma quando é pisada por um tirano, uma ideologia ou uma religião.”

*

"Nenhum escritor digno desse nome escreve romances só para fazer propaganda de suas convicções políticas. A literatura fica muito deformada se for julgada somente pela ideologia de seu autor.”

*
"Se tivesse que salvar do fogo apenas um de meus romances, salvaria Conversa no Catedral."

*
“O desaparecimento do intelectual significa também o desaparecimento das ideias e da razão como um factor central da vida social e política. Hoje em dia, as ideias foram trocadas pelas imagens, que são mais facilmente manipuláveis. Isso é uma grande ameaça para a democracia, pois uma sociedade com escassez de ideias tem suas instituições sob forte risco.”

*
“Algo anda mal na cultura de um país se os seus artistas, em lugar de se proporem mudar o mundo e revolucionar a vida, se empenham em alcançar protecção e subsídios do governo.”




sábado, 16 de junho de 2018

EUGÉNIO DE CASTRO - Em que emprego o meu tempo?


EUGÉNIO DE CASTRO
(Coimbra, Portugal, 1869 - 1944)
Poeta

 ***

Com a publicação de Oaristos, 1890, e Horas, 1891, introduziu o simbolismo em Portugal.
O seu temperamento sensorial levou-o depois a um neoclassicismo dotado e um excepcional sentido de beleza plástica.


in “Livro dos Portugueses” (excerto)

***
        
EM QUE EMPREGO O MEU TEMPO?


Em que emprego o meu tempo? Vou e venho,

Sem dar conta de mim nem dos pastores,  

Que deixam de cantar os seus amores,  

Quando passo e lhes mostro a dor que tenho.  



É de tristezas o torrão que amanho,  

Amasso o negro pão com dissabores,  

Em ribeiros de pranto pesco dores,  

E guardo de saudades um rebanho.  



Meu coração à doce paz resiste,  

E, embora fiqueis crendo que motejo,  

Alegre vivo por viver tão triste!  



Amor se mostra nesta dor que abrigo:  

Quero triste viver, pois vos não vejo,  

Nem sequer muito ao longe vos lobrigo.



sexta-feira, 15 de junho de 2018

ELISABETH BADINTER - "O Amor Incerto: História do Amor Maternal"


ELISABETH BADINTER
(Boulogne-Billancourt, França, 1944)
Filósofa, escritora

***

Elisabeth Badinter demonstra nesta obra, O Amor Incerto: História do Amor Maternal, que já fez correr muita tinta, que o amor maternal não é, contrariamente a uma ideia divulgada, um instinto: é, de acordo com o título deste livro, “incerto”e não inato. Baseando-se em dois exemplos retirados dos últimos séculos, do XVII ao XX, a autora sublinha que ser mãe não está inscrito na natureza das mulheres. A história do amor maternal revela-nos que se trata em primeiro lugar, de um sentimento que evolui ao longo dos tempos.


in "Mulheres Século XX"

***

“O amor maternal não é mais que um sentimento humano. E como todos os sentimentos é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente às ideias dominantes, talvez não se encontre inscrito em profundidade na natureza feminina. Quando observamos a evolução das atitudes maternais, verificamos que o interesse e a dedicação pela criança ora se manifestam, ora não se manifestam. A ternura ora existe, ora não existe. As diferentes maneiras de expressão do amor maternal vão do mais ou menos, passando pelo nada, ou pelo quase nada.”

“A mãe, no sentido habitual do termo (quer dizer, a mulher casada dotada de filhos legítimos), é um personagem relativo e tridimensional. Relativo, porque a mãe não é concebível a não ser por referência ao pai e à criança. Tridimensional, porque, para além desta dupla relação, a mãe também é uma mulher, quer dizer, um ente específico dotado de aspirações próprias que muitas vezes nada têm a ver com as do esposo e com os desejos da criança.”



in”O Amor Incerto: História do Amor Maternal"






quinta-feira, 14 de junho de 2018

ANA HATHERLY – Tisana 45


ANA HATHERLY
(Porto, Portugal, 1929 – Lisboa, 2015)
Professora, escritora, artista plástica

***

Tisana 45

De cada vez que respiro sei que alternadamente perco e recupero o meu corpo. Depois penso que é na praia-mar da respiração que o meu corpo de forma, nesse intervalo. (Quando as pessoas dormem ou estão no cinema, por exemplo, o ar do recinto fica alternadamente cheio e vazio de corpos!) Respirar o corpo para fora inspirar o corpo para dentro. Eis como a ginástica é uma forma de vampirismo. Penso nisto quando estou na praia olhando um homem deslizar numa prancha por uma onda fora. De repente desequilibra-se e cai. Tudo o que é profundo se revela à superfície.

Estou aqui e contemplo o suicídio dos objectos habituais. Na mutilação da própria cadeira em que me sento vejo a morte lenta e saturada que consiste na imolação pela comunicação. Na minha frente desmorona imperceptível uma mesa. Ia falar mas já era tarde. Os vidros estavam todos embaciados.









quarta-feira, 13 de junho de 2018

ANTÓNIO GEDEÃO - Poema da mulher dos cabelos brancos...



ANTÓNIO GEDEÃO
(Lisboa, Portugal, 1906 - 1997)
Poeta, professor

***

Poema da mulher dos cabelos brancos...

A mulher dos cabelos brancos estava à janela do primeiro andar
com os antebraços poisados no parapeito.
Tinha um xaile de malha sobre os ombros,
cruzado à frente e as mãos metidas nele.

Quentinha, a mulher dos cabelos brancos.

Postada à janela,
muito ocupada em fazer coisa nenhuma,
com os antebraços poisados no parapeito,
a mulher dos cabelos brancos
só seguia com os olhos quem passava na rua.
Ela nunca tinha ouvido falar no Aristóteles,
nem no Descartes, nem no Sigmund Freud,
mas sabia coisas concretas que a vida prática lhe ensinara.
Sabia que Eva tinha sido feita
de uma costela de Adão,
o que se prova
por os homens terem uma costela a menos do que as mulheres.
E também sabia que o Sol anda à volta da Terra
como é evidente,
e que as salamandras vivas,
postas no fogo,
não morrem nem sequer se queimam,
o que não é evidente mas é certo.
E por saber todas estas coisas,
e muito mais,
a mulher dos cabelos brancos sentia-se muito quentinha
com os antebraços poisados no parapeito.

Eis que,
porém,
o relógio do tempo despertou-a.
Então,
pausadamente,
a mulher dos cabelos brancos ergueu o busto,
fechou a janela,
e foi sentar-se na cadeira do costume,
aconchegadinha,
a ver televisão.