domingo, 25 de junho de 2017

JOÃO MARIA DOS ANJOS - Guitarrista

 
 
 
JOÃO MARIA DOS ANJOS
(Lisboa, Portugal,1856 – 1899)

Guitarrista

No que se refere à evolução do fado, uma figura importante há que destacar. Trata-se de João Maria dos Anjos, um sapateiro de Alfama (como também o fora seu pai, com quem aprendeu a tocar guitarra), que se tornou um exímio guitarrista. Autor de um “Novo Método de Guitarra” (1889), foi executante de música erudita e o provável criador da afinação do fado (Si, Lá, Mi, Si, Lá, Ré).
João Maria dos Anjos, artista de reconhecido mérito graças à sua apurada sensibilidade e aos seus dotes de executante, foi um verdadeiro reformador, não só da velha escola da guitarra portuguesa mas do próprio fado.

Ficaram célebres os concertos realizados em 1873 no Casino Lisbonense, no Teatro Ginásio, no Palácio de Cristal do Porto e no Café Chinês da Póvoa do Varzim.
Tido como o maior guitarrista português do século XIX, foi também autor de músicas e compôs, entre outros, o fado que tem o seu nome, o Fado das Salas, o Fado do Casino Lisbonense e Meu Segredo ou Canção de Cascais.
 

in “Lisboa, O Fado e os Fadistas” – Eduardo Sucena

 

sábado, 24 de junho de 2017

GIORGIONE - Pintor

 
 
 
GIORGIONE
(Castelfranco Veneto, Itália, 1477 - Veneza, 1510)

Pintor do Renascimento

Tão misteriosa e incerta como a sua vida é a sua obra: há notícia de 43 pinturas suas, perdidas; e são-lhe atribuídas umas dezoito, actualmente.
Se, porém, a sua obra é, hoje, muito reduzida, a sua importância é imensa, e bastaria A Tempestade ou O Concerto Campestre, tão imitado nos séculos seguintes, para elevar Giorgione ao primeiro plano da pintura europeia.
Os temas das suas composições são frequentemente misteriosos ou obscuros; talvez em resultado de nova compreensão do mundo oriental, já tentada por Bellini e Carpaccio, mas apenas o aspecto pitoresco.
O seu interesse pela natureza, desligado de quaisquer compromissos simbólicos, revela-se na maneira indefinida, romântica, com que pinta a paisagem, em que a atmosfera tem o papel predominante na obtenção da unidade da obra, e onde as figuras humanas, libertas de todo o aparato mitológico do Renascimento, aparecem desligadas de qualquer acção.
 

in “Enciclopédia de Cultura”
Imagem: auto-retrato (?)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O OVO DE GALINHA

 
 
 
 
O OVO DE GALINHA
 
 I
 
Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.
 
II
 
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.
 
III
 
A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.
 
IV
 
Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspecta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.



in "João Cabral de Melo Neto - Obra Completa"

JOÃO CABRAL DE MELO NETO (Recife, Brasil, 1920 — Rio de Janeiro, 1999), poeta e diplomata brasileiro.

Imagem: fotografia de Dyce Poesias– Brasil

quinta-feira, 22 de junho de 2017

RENÉ CREVEL – Poeta

 


RENÉ CREVEL
(Paris, França, 1900 – 1935)

 Poeta, romancista e ensaísta

O mais conhecido dos escritores surrealistas é talvez Éluard, o mais surrealista dos escritores surrealistas pode ser Breton, e o mais esquecido dos escritores surrealistas é René Crevel. Mas mesmo com essas lacuna, o jovem René sempre teve grandes adeptos entre minorias alternativas.
Crevel era um homem torturado. Aos catorze anos, assistiu ao suicídio do pai, que se enforcou. Surrealista fiel a André Breton, que tinha como um pai espiritual, era tuberculoso e passou temporadas em sanatórios. Inquieto, andou pelas bandas da psicanálise, mas continuava a sentir-se domador e fera de si mesmo. Tumultuoso e frágil, escreveu em 1925 que a inteligência incita ao suicídio. Cumpriria essa vocação dez anos depois.

Algumas das suas obras: Mon Corps et moi, La Mort difficile, L'Esprit contre la raison, Le Roman cassé et derniers écrits.

in “Ecos do Nada” (excertos)
 
***
OLHAR
 
Teu olhar cor de rio
É água que muda, em arranjo
Com o dia saciado no cenário.
Madrugada, Vestido de anjo
Um naco do manto celestial
Sob teus cílios, entre as margens
Se fez. Flui, flui viva água em paragens.
A noite parte, mas o amor permanece
E minha mão sente bater um coração.
A alvorada quis adornar nossos corpos com sua acalmação.
Corpo-de-Deus.
O desejo matinal retomou nossos corpos nus
Para esculpir uma carne que acreditávamos cansada.
Sobre os rios ao longe barcas já desancoradas.
Nossas peles depois do amor têm cheiro de pão quente.
Se a água dos rios está pelos nossos membros,
Teus olhos lavarão minha alma;
Mas teu olhar líquido ao meio-dia que eu temo
Se transformará em chumbo?
Eu tenho medo do dia, do dia pesado como um jumbo
Do dia que sacia teu olhar cor de rio
Ou numa noite pavimentada por gêmeos triunfos
Se a vitória grita a volúpia dos anjos,
Revele-se nela a Majestade de um Ganges.
 
 
Tradução: Lucas Guimarães
 

 
 
 
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

FRANÇOIS DE MALHERBE - Poeta

 
 
 
 FRANÇOIS DE MALHERBE
(Caen, França,1555 - Paris, 1628)

Poeta e tradutor

Oriundo da magistratura protestante, frequentou as Universidades de Basileia e Heidelberga. Graças à protecção de Maria de Médicis será, a partir de 1605, o poeta oficial da corte.
Iniciando a sua carreira literária na peugada dos poetas da Plêiade, há-de, através de uma evolução lenta mas segura, caminhar para uma poesia impessoal, expressa numa forma pura e trabalhada, e técnica impecável, baseada na escrupulosa depuração da língua, na perfeição do ritmo e na harmonia da rima.
As suas formas expressivas foram o soneto, a ode, por ele arrancada ao esquecimento em que caíra depois de Ronsard, e o poema em estâncias regulares, cujo exemplo mais perfeito é a Consolation à M. du Périer.
Não menor do que a influência da sua poesia, aliás pouco quantiosa, foi a da teoria expressa nas notas lançadas à margem de um exemplar das obras de Desportes, reunidas depois por Recan no Commentaire sur Desportes.

in “Enciclopédia de Cultura”

 
***

 Por ocasião da morte da filha de um amigo, François de Malherbe escreveu o poema Consolation à Monsieur du Périer, do qual fazem parte os seguintesversos:

 
Mas ela pertencia a um mundo em que as mais belas coisas
têm vida curta e vã;
e, rosa, ela viveu o que vivem as rosas,
Uma breve manhã.

terça-feira, 20 de junho de 2017

SANTO ISIDORO DE SEVILHA

 
 
 
 
SANTO ISIDORO DE SEVILHA
(Cartagena, Espanha, 560 - Sevilha, 636)

Teólogo, historiador, erudito e filósofo

Considerado o derradeiro padre da Igreja Ocidental e a primeira personalidade marcante da Igreja da Alta Idade Média espanhola, sendo indiscutivelmente não só a individualidade mais proeminente da Igreja visigoda mas, também, um dos homens mais cultos da sua época, reunindo nas suas obras todo um conhecimento enciclopédico que inclui informação sobre todas as matérias conhecidas no seu tempo, com particular destaque quer para história sagrada, quer profana, citando inúmeros autores quer antigos – sobretudo romanos -, quer seus contemporâneos.
Reuniu também uma excepcional biblioteca, considerada a mais importante da sua época. As suas obras haveriam de servir como referência obrigatória a gerações de eruditos ao longo de toda a Idade Média, influenciando decididamente toda a cultura medieval, sobretudo nos aspectos relacionados com a hermenêutica que a sua obra Etimologias – Originum sive Etymologiarum libri XX – é paradigmática. Esta obra notável – a que S. Braulio, por morte do autor, deu os retoques finais – reúne e sistematiza todo o saber da sua época, conceptualizando, estabelecendo analogias; lançando no futuro, resgatando já então do inexorável esquecimento, inúmeros nomes da cultura clássica – alguns dos quais temos hoje conhecimento apenas porque ele os nomeia e cita.

Em 1722 o Papa Inocêncio XIII proclama-o Doutor da Igreja Universal.

 

in “Didacta – Filosofia”


segunda-feira, 19 de junho de 2017

TEATRO BOLSHOI – Moscovo

 
 
 
 
TEATRO BOLSHOI

 
Principal teatro lírico de Moscovo, cujo nome significa, em russo, «grande», foi inaugurado em 1825.
Em Março de 1853, um incêndio destruiu parcialmente a sala. O novo Bolschoi, cujo aspecto foi preservado até aos nossos dias, foi reinaugurado a 20 de Agosto de 1856. Com uma capacidade de 2100 lugares, a sua estrutura é de arco de ferradura, à italiana. E tem seis ordens de camarote, com uma decoração em que predominam os vermelhos e os dourados.
O Bolshoi tem sido palco de numerosas estreias históricas, incluindo a de 4 de março de 1877 do famoso bailado O Lago dos Cisnes de Tchaikovsky, e de várias composições de Rachmaninoff.

 

in “Auditorium”