quarta-feira, 25 de abril de 2018

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - A opinião em palácio



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
(Itabira, Brasil, 1902 - Rio de Janeiro, 1987)
Poeta, contista

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A OPINIÃO EM PALÁCIO

O Rei fartou-se de reinar sozinho e decidiu partilhar o poder com a Opinião Pública.

― Chamem a Opinião Pública ― ordenou aos serviçais.

Eles percorreram as praças da cidade e não a encontraram. Havia muito que a Opinião Pública deixara de frequentar lugares públicos. Recolhera-se ao Beco sem Saída, onde, furtivamente, abria só um olho, isso mesmo lá de vez em quando.

Descoberta, afinal, depois de muitas buscas, ela consentiu em comparecer ao Palácio Real, onde Sua Majestade, acariciando-lhe docemente o queixo, lhe disse:

― Preciso de ti.

A Opinião, muda como entrara, muda se conservou. Perdera o uso da palavra ou preferia não exercitá-lo. O Rei insistia, oferecendo-lhe sequilhos e perguntando o que ela pensava disso e daquilo, se acreditava em discos voadores, horóscopos, correcção monetária, essas coisas. E outras. A Opinião Pública abanava a cabeça: não tinha opinião.

― Vou te obrigar a ter opinião ― disse o Rei, zangado.

― Meus especialistas te dirão o que deves pensar e manifestar. Não posso mais reinar sem o teu concurso. Instruída devidamente sobre todas as matérias, e tendo assimilado o que é preciso achar sobre cada uma em particular e sobre a problemática geral, tu me serás indispensável.

E virando-se para os serviçais:

― Levem esta senhora para o Curso Intensivo de Conceitos Oficiais. E que ela só volte aqui depois de decorar bem as apostilas.




in “Contos Plausíveis”
Imagem: Carlos Drummond de Andrade - pintura de Mazé Leite.




terça-feira, 24 de abril de 2018

FRANZ KAFKA – A porta da lei



FRANZ KAFKA
 (Praga, Império Austro-Húngaro, 1883 Áustria, 1924)
Escritor

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A porta da lei

DIANTE da lei está o guarda da porta. Apresenta-se um aldeão, que pede para entrar na lei. Mas o guarda diz-lhe que de momento não lhe pode permitir a entrada. O homem põe-se a reflectir, e depois pergunta se o deixarão entrar mais tarde. «É possível, diz o guarda, mas não agora». O guarda sai de diante da porta, aberta como sempre, e o homem baixa-se para espreitar o interior. O guarda dá conta disso, e ri. «Se tanto te seduz, experimenta entrar sem o meu consentimento. Mas fixa bem isto: sou muito poderoso. E sou apenas o último dos guardas. Diante de cada sala há guardas cada vez mais poderosos, e eu próprio não posso suportar o olhar do terceiro depois de mim». 

O aldeão não contava com tais dificuldades; então a lei não deve ser acessível a todos? Mas olhando com mais atenção o guarda, o casaco de peles, o nariz afilado, a barba de Tártaro comprida, rara e negra, acaba por preferir esperar, até que lhe permitam a entrada. O guarda dá-lhe um banco e fê-lo sentar diante da porta, um pouco de lado. E ali ele fica sentado, dias e anos.

Faz numerosas tentativas para ser admitido no interior, e aborrece o guarda com as suas súplicas. Por vezes o guarda submete-o a pequenos interrogatórios, faz-lhe perguntas sobre a sua terra e sobre muitas outras coisas, mas são perguntas que lhe lança com indiferença, com ares de grande senhor. E acaba sempre por lhe repetir que ainda não o pode deixar entrar. O homem, que se tinha bem para a viagem, emprega todos os meios, mesmo os mais dispendiosos, para subornar o guarda. Este aceita tudo, é certo, mas diz-lhe sempre: «Aceito, mas é para que tu fiques bem certo de nada teres omitido». 

Durante anos e anos, o homem observa o guarda, quase sem interrupção. Esquece os outros guardas. O primeiro parece-lhe o único obstáculo. Nos primeiros anos, amaldiçoa em altas vozes a sua pouca sorte. Mais tarde, começando a envelhecer, limita-se a resmungar por entre dentes. Torna-se infantil e, como à força de observar o guarda durante anos e anos, acabou por conhecer até as pulgas do seu casaco de peles, pede às pulgas que o auxiliem e façam o guarda mudar de opinião; por fim a sua vista começa a diminuir, e já não sabe se faz escuro à sua volta ou se são os olhos que o enganam. 

Mas agora distingue bem na obscuridade uma gloriosa luminosidade que jorra eternamente da porta da lei. Já lhe não resta muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências de tantos anos, acumuladas na sua cabeça, vão culminar numa pergunta que até aí nunca se atrevera a fazer ao guarda. Faz-lhe um sinal, porque já não pode endireitar o corpo anquilosado. 

O guarda da porta tem de se inclinar muito, porque a diferença de estatura é inteiramente em prejuízo do aldeão. «Que mais queres tu saber? pergunta o guarda. És insaciável». «Se todos aspiram à lei, diz o homem, como é que durante todos estes anos ninguém senão eu pediu para entrar?». O guarda da porta, sentindo que o fim do homem está próximo, brada-lhe ao ouvido, para atingir melhor o tímpano quase inerte: «Aqui só tu podias entrar, porque esta entrada era feita só para ti. Agora vou-me embora, e fecho a porta».



Tradução: António Casais Monteiro 


segunda-feira, 23 de abril de 2018

MARIA ALBERTA MENÉRES - As pedras



MARIA ALBERTA MENÉRES
(Vila Nova de Gaia, Portugal, 1930)
Professora, jornalista, escritora

Tem uma vasta obra poética, estando representada em várias antologias literárias nacionais e estrangeiras. Foi professora dos Ensinos Básico e Secundário nas disciplinas de Língua Portuguesa e História. 

É autora de inúmeros programas televisivos para crianças, tendo sido Directora do Departamento de Programas Infantis e Juvenis da RTP de 1974 a 1986. 

Publicou mais de 69 livros para crianças (contos, poesia, BD, teatro e novela). 

Em 1986, recebeu o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças "pelo conjunto da sua obra literária e pela manutenção de um alto nível de qualidade".


in “Porto Editora” (excerto)
                                 
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As pedras

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.

domingo, 22 de abril de 2018

CARLOS DE OLIVEIRA - Soneto da Chuva


CARLOS DE OLIVEIRA
(Belém do Pará, Brasil, 1921 — Lisboa, Portugal, 1981)
Escritor e poeta

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Foi um dos iniciadores do movimento neo-realista.
Estreou-se com o livro de poemas Turismo, 1942 e o romance Casa na Duna, 1943.

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Soneto da Chuva

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?

Virá Abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.

Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.



sábado, 21 de abril de 2018

DANTE ALIGHIERI - Poema de Dante para Beatriz



DANTE ALIGHIERI
(Itália, 1265 – 1321)
Poeta e escritor

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Em Florença, cidade onde nasceu e cresceu e onde mais tarde desempenhou parte activa nas lutas políticas que dividiam a cidade. Foi no exílio que Dante escreveu a sua mais famosa obra, A Divina Comédia, tendo falecido pouco depois de a concluir; ao seu funeral compareceram os mais ilustres intelectuais da época.

in “Wook” (excerto)
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Poema de Dante para Beatriz

Tão longamente me reteve Amor
E acostumou-se à sua tirania,
Que, se a princípio parecia rude,
Suave agora me habita o coração.
Assim, quando me tira tanto as forças
Que os espíritos vejo me fugirem,
Então a minha frágil alma sinto
Tão doce, que o meu rosto empalidece,
Pois Amor tem em mim tanto poder
Que faz os meus suspiros me deixarem
E saírem chamando
A minha amada, para dar-me alento.
Onde quer que eu a veja, tal sucede,
E é coisa tão húmil que não se crê.


in “Vida Nova”

sexta-feira, 20 de abril de 2018

JOAQUIM NAMORADO - Prometeu



JOAQUIM NAMORADO
(Alter do Chão, Portugal, 1914 - Coimbra, 986)
Poeta

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Poeta do Novo Cancioneiro, foi um dos iniciadores do neo-realismo coimbrão.
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Prometeu

Abafai meus gritos com mordaças,
maior será a minha ânsia de gritá-los!

Amarrai meus pulsos com grilhões,
maior será minha ânsia de quebrá-los!

Rasgai a minha carne!
Triturai os meus ossos!

O meu sangue será a minha bandeira
e meus ossos o cimento duma outra humanidade.

Que aqui ninguém se entrega
- isto é vencer ou morrer -
é na vida que se perde
que há mais ânsia de viver!

quinta-feira, 19 de abril de 2018

NATÉRCIA FREIRE - Canção do Verdadeiro Abandono



NATÉRCIA FREIRE
(Benavente, Portugal, 1920 - Lisboa, 2004)
Poetisa e escritora

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Estreou-se com o livro de poemas  Meu Caminho de Luz, 1939.
A poesia envolve a sua obra de ficcionista, toda tecida de reminiscências saudosistas.

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Canção do Verdadeiro Abandono
Podem todos rir de mim,  podem correr-me à pedrada,  podem espreitar-me à janela  e ter a porta fechada.  Com palavras de ilusão  não me convence ninguém.  Tudo o que guardo na mão  não tem vislumbres de além.  Não sou irmã das estrelas,  nem das pombas nem dos astros.  Tenho uma dor consciente  de bicho que sofre as pedras  e se desloca de rastos.