domingo, 27 de maio de 2018

ANTÓNIO MANUEL PIRES CABRAL – A gaveta do fundo




ANTÓNIO MANUEL PIRES CABRAL
(Chacim, Macedo de Cavaleiros, Portugal, 1941)
Escritor, poeta, dramaturgo, professor

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A gaveta do fundo

A gaveta do fundo: onde guardava
brasas e jóias de família –
ou seja, reservas de calor
para os dias do frio que aí vêm.

A gaveta do fundo:
forçada a fechadura, saqueada,
desmantelada em tábuas e ferragens.

Dada a beber às altas labaredas
que, bebendo, multiplicam a sede,
em vez de a extinguir.


sábado, 26 de maio de 2018

MARIA BÁRBARA JÚDICE DA COSTA – Cantora lírica


MARIA BÁRBARA JÚDICE DA COSTA
(Lisboa, Portugal, 1870 – 1960)
Cantora lírica

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Cantora lírica, uma das mais famosas do séc. XIX, com uma fabulosa carreira no estrangeiro. Estudou dez anos no Conservatório Nacional e estreou-se no Teatro Nacional de São Carlos, em Abril de 1888, numa récita de caridade e depois em 1890 em "La Gioconda", ao lado de Eva Tetrazzini.

Fez uma carreira brilhante actuando em Roma, Nápoles, Moscovo, México, Madrid, Buenos Aires, Amesterdão, Málaga, Trieste, numa carreira apenas interrompida para ter os três filhos. Foi mãe da actriz de cinema Brunilde Júdice (1898-1979), nascida em Milão. 

A sua carreira levou-a várias vezes a Madrid, Barcelona, Palma de Maiorca e esteve em Portugal no Coliseu dos Recreios, em 1906, durante dois meses, novamente em 1910 e 1913. 

Em 1933 esteve com Amélia Rey Colaço no São Carlos, fazendo teatro declamado. 
Fixou residência em Milão, tendo regressado a Portugal em 1943. 


in “O Leme”


sexta-feira, 25 de maio de 2018

CRISTOVAM PAVIA - Ao meu cão



CRISTOVAM PAVIA
(Lisboa, Portugal, 1933 – 1968)
Poeta

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Publicou, em 1959, 35 Poemas, a única obra poética editada em vida, na qual se reconhece a originalidade da sua poesia.

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AO MEU CÃO

Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo... e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.

E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.




quinta-feira, 24 de maio de 2018

AGUSTINA BESSA-LUÍS – VIEIRA DA SILVA (pintora)



                 

AGUSTINA BESSA-LUÍS
(Vila Meã, Portugal, 1922)
Escritora

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VIEIRA DA SILVA
(Lisboa, Portugal, 1908 — Paris, França, 1992)
Pintora

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Vieira da Silva

Os portugueses são a gente mais insincera que há. Por isso são raramente grandes artistas. Em Vieira da Silva há o desafio extremamente íntegro que é a sinceridade. Mais do que uma virtude, ele representa e facto a síntese do diálogo com o divino, quase a provocação de alguém cujo métier é corromper-nos. Deus não se aceita senão a partir desse capricho humano levado ao limite que é a sinceridade. Em Vieira, a sinceridade tem um carácter e punição. Ao mesmo tempo que é capaz de apreciar a vida, mantém-se alheia aos seus favores cono se se tratasse duma corrupção.




in “Longos dias têm cem anos” (excerto)
Imagem: Vieira da Siva (autoretrato)  



                     

quarta-feira, 23 de maio de 2018

DANIEL FARIA - As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões



DANIEL FARIA
(Baltar, Paredes, Portugal, 1971 – 1999)
Poeta

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Escolheu a vida monástica, sendo considerado, por muitos críticos, o maior poeta místico português do século XX.
A sua poesia fundamenta-se na procura do Mistério de Deus.

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AS MULHERES ASPIRAM A CASA PARA DENTRO DOS PULMÕES

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.




terça-feira, 22 de maio de 2018

JOÃO VILLARET – Condecoração no Brasil


JOÃO VILLARET
(Lisboa, Portugal, 1913 - 1961)
Actor, encenador, declamador

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Festa do Itamarati, na qual João Villaret foi condecorado pelo Governo Brasileiro com as insígnias do oficialato do “Cruzeiro do Sul”, em 27 de Julho de 1957.

A este propósito transcrevo as seguintes palavras de Villaret:

“Vou-lhes contar uma história minha passada no Brasil para mostrar o que é a mentalidade, o que é a simplicidade, o que é a graça brasileira. Na minha última estada no Brasil em 1957 – vou lá desde 1939 – foi-me conferida, pelo Governo da Nação Brasileira, o Oficialato do Cruzeiro do Sul. 

Eu recebi uma carta protocolar pedindo para passar no Ministério dos Negócios Estrangeiros, para receber essa condecoração. E fui. Alguns amigos meus quiseram fazer o favor de me acompanhar. Muitos portugueses, muitos brasileiros e eu senti-me muito rodeado nessa altura tão expressiva para mim.

Quando lá cheguei, o Ministro dos Estrangeiros que era então o Dr. Macedo Soares, recebeu-me com toda a sua amabilidade e na sala onde me ia ser dada a condecoração, mandou chamar todos os funcionários do Hitamarati para assistirem ao acto, o que profundamente me sensibilizou. 

Indaguei do protocolo – eu nunca sei muitas coisas de protocolo, devo dizer, nem de coisas oficiais, nem burocráticas – mas perguntei como é que devia agradecer.

Disseram-me que no final eu me dirigisse ao Ministro e fizesse o meu agradecimento. Assim se passou e no final, quando ia agradecer dizendo: Senhor Ministro, eu quero agradecer a V.Exª… ele volta-se para mim, e com a maior das simplicidades, diz-me assim: João Villaret, não agradeça, recite, para nós ouvirmos. Foi recitando três poemas que eu agradeci a condecoração que o Governo Brasileiro me dava: o primeiro, Camões, o segundo, Manuel Bandeira e o terceiro Olavo Bilac.

 1º - Aquela triste e leda madrugada…
 2º - Irene Boa
 3º - Soneto: Aos meus amigos.”




in “João Villaret – Sua Vida… Sua Arte…
Autor: Mário Baptista Pereira




domingo, 20 de maio de 2018

AGUINALDO FONSECA – Mãe Negra



AGUINALDO FONSECA
(Mindelo, Cabo Verde, 1922 - Lisboa, Portugal, 2014).
Poeta

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Foi o primeiro poeta a utilizar a «África» como substância poética cabo-verdiana.
Publicou um único livro de poesia, intitulado Linha do Horizonte.

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MÃE NEGRA

A mãe negra embala o filho.
Canta a remota canção
Que seus avós já cantavam
Em noites sem madrugada.
Canta, canta para o céu
Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,
Que o céu
Às vezes também é negro.

No céu
Tão estrelado e festivo
Não há branco, não há preto,
Não há vermelho e amarelo.
— Todos são anjos e santos
Guardados por mãos divinas.
A mãe negra não tem casa
Nem carinhos de ninguém…
A mãe negra é triste, triste,
E tem um filho nos braços…

Mas olha o céu estrelado
E de repente sorri.
Parece-lhe que cada estrela
É uma mão acenando
Com simpatia e saudade…