quarta-feira, 10 de março de 2021

A MÃE DAS CRIANÇAS DO HOLOCAUSTO




A MÃE DAS CRIANÇAS DO HOLOCAUSTO


O holocausto nazista expôs os dois extremos do comportamento humano, a crueldade mais intensa e a generosidade mais dadivosa. É a sensação que se tem com o livro A história de Irena Sendler - A Mãe das Crianças do Holocausto que oferece uma ampla visão de alguns dos momentos mais dramáticos da Segunda Guerra. Nele, a crueldade nazista se revela em todos os seus aspectos mais ferozes, ao mesmo tempo em que emerge a grandeza de heróis que se arriscaram para salvar os perseguidos.

É o caso da polonesa IRENA SENDLER, uma assistente social que se dedicou inteiramente a salvar os judeus confinados no Gueto de Varsóvia e conseguiu, muitas vezes chegando aos limites da sanidade, da fome e da própria vida, resgatar mais de duas mil crianças condenadas à morte a pedido do próprio Hitler.

"As crianças estavam vestidas com roupa de festa seguindo em grupos de quatro para a praça da morte. Quem tinha o direito de dar uma sentença como aquela? Adolf Hitler: ele havia condenado crianças, idosos e doentes judeus a serem mortos em câmaras de gás", conta um dos depoimentos do livro."

"As ruas do Gueto estavam repletas de crianças mendigando. Nós as víamos quando entrávamos lá e, algumas horas depois, quando saíamos, com frequência elas já eram corpinhos caídos no chão, cobertos com jornais", conta Irena, no livro.

Ela enfrentou a mais cruel das dúvidas: separar os filhos de seus pais, com a consciência de que essa era a única alternativa. Sabia que os judeus do gueto seriam, cedo ou tarde, dizimados e dedicou-se, como outros heróis poloneses e católicos, a levar as crianças, de bebés a adolescentes, para o lado "ariano" de Varsóvia, dando-lhes abrigo, alimentação, educação e principalmente conforto emocional junto a famílias católicas, orfanatos e conventos. Para isso, escondia-as em caixas de papelão, armários e cestas com alimentos, testemunhando cenas de desespero. 

"Promete que o meu filho viverá?", era a pergunta que ouvia nesse momento dramático de separação. Irena nunca prometeu nada, mas todas as crianças que salvou sobreviveram à guerra.

O Gueto de Varsóvia chegou a abrigar 380 mil judeus, confinados e destinados a morrer de fome e frio. Em 1942, ocorreu a Grande Acção, em que 300 mil desses judeus foram enviados a Treblinka, o famoso campo de extermínio, de onde pouquíssimos voltaram com vida. O restante permaneceu trabalhando como escravos para os alemães e - com a certeza de que acabaria também sendo exterminado - promoveu o Levante do Gueto de Varsóvia, quando tentaram resistir ao exército nazista. 

Foi mais um gesto de auto respeito e honra do que uma tentativa de sobrevivência. Depois do Levante, o gueto foi destruído; algumas cenas desses momentos são retratadas com razoável fidelidade no filme O Pianista, do realizador Roman Polanski, de 2002.

Irena Sendler testemunhou tais momentos e lutou tenazmente na clandestinidade para salvar suas crianças, adoptando o pseudónimo de Irmã Jolanta e operando por meio do Zegota, organização do governo polonês exilado. 

"A única forma da humanidade renascer é por meio do amor omnipotente", disse ela à autora do livro. Acabou sendo presa, torturada e condenada à morte por fuzilamento. Mas ela não podia morrer: era a única que guardava o registo das crianças foragidas, com seus nomes verdadeiros e falsos. Assim, num esforço desmedido, membros do Zegota conseguiram subornar um oficial alemão para que ela fosse libertada.

Irena viveu na clandestinidade até o fim da guerra, procurada incansavelmente pelo exército nazista. Mas as crianças estavam salvas e foram, para sempre, suas filhas.

Em 2006 Irena foi apresentada como candidata para o prémio Nobel da Paz pelo governo polaco.



IRENA SENDLER (Varsóvia, Polónia, 1915 – 2007)

in “Planeta Sustentável - Estante”






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