quarta-feira, 22 de novembro de 2017

INGMAR BERGMAN – Dramaturgo e cineasta



INGMAR BERGMAN
(Suécia, 1918 - 2007)

Dramaturgo e cineasta

Estudou na Universidade de Estocolmo, onde se interessou por teatro e, mais tarde, por cinema. 

Discípulo de Victor Sjöström e de Mauritz Stiller, herdou de seus mestres o gosto pelo expressionismo poético, característica maior e melhor do cinema mudo sueco dos anos vinte. Ressuscita, assim, para o mundo, a cinematografia da Suécia e, a partir de 1950, perfeitamente senhor de si e de seu ofício , desenvolve uma temática de preocupações metafísicas. 

Estranho, requintado, apuradíssimo, o cinema de Ingmar Bergman singulariza-se muito mais pelo conteúdo do que pela forma, embora esta, fundamentando-se na melhor tradição fílmica, atinja por vezes uma beleza e uma perfeição raras.

Alguns dos seus filmes: Morangos Silvestres; Uma Lição de Amor; O Sétimo Selo; Sorrisos de uma Noite de Verão; O Ovo da Serpente; Fanny & Alexander; Persona; O Silêncio; A Flauta Mágica.


in”Enciclopédia de Cultura”

***
Palavras de Ingmar Bergman

“Nossas relações sociais são limitadas, a maioria do tempo, a fofocar e criticar o comportamento das pessoas. Esta observação lentamente empurrou-me para o isolamento da chamada vida social. Meus dias se passam na solidão.“



terça-feira, 21 de novembro de 2017

CÉSAR VALLEJO – Os passos distantes




CÉSAR VALLEJO
(Santiago de Chuco, Peru, 1892 – Paris, França, 1938).
Poeta
Foi um dos maiores poetas hispano-americanos do século XX.

***

OS PASSOS DISTANTES  
Meu pai repousa. Seu semblante augusto
semelha um aprazível coração;
parece-me tão puro...
se há nele algo de amargo, serei eu.

Há solidão em toda casa; rezam;
não há notícia de seus filhos hoje.
Meu pai desperta,  atenta os olhos
à fuga para o Egipto, o lancinante adeus.
Parece-me tão próximo;
se há nele algo distante, serei eu.

E minha mãe passeia nos jardins,
saboreando um sabor já sem sabor.
Parece-me tão suave,
tão asa, tão saída, tão amor.

Há solidão na casa silenciosa,
sem notícias, sem verde, sem infância.
E se algo há de quebrado nesta tarde,
que baixa e que se parte,
são dois velhos caminhos curvos, brancos.
Por eles vai meu coração a pé.

Tradução: Ivo Barroso.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

JOÃO CABRAL DE MELO NETO - Difícil ser Funcionário



JOÃO CABRAL DE MELO NETO
(Recife, Brasil, 1920 — Rio de Janeiro, 1999)

Poeta

DIFÍCIL SER FUNCIONÁRIO

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu



Imagem:João Cabral de Melo Neto, por Homero Sérgio.


domingo, 19 de novembro de 2017

MARGRAVIAL OPERA HOUSE – Alemanha




MARGRAVIAL OPERA HOUSE


A Margravial Opera House é considerada uma obra-prima da arquitectura barroca de teatros do século XVIII. A decoração colorida e esplendorosa do interior da ópera é de tirar o fôlego do visitante. O mais belo teatro barroco conservado na Europa foi construído por Giuseppe Galli-Bibiena e seu filho Carlos de Bolonha, os mais famosos arquitectos de teatros da época.

O Ópera Margravial House foi adicionado à lista do Património Mundial da UNESCO em 2012.




sábado, 18 de novembro de 2017

JOÃO DE MELO - Poema encontrado por aí




JOÃO DE MELO
(Achadinha, Ilha de São Miguel, Açores, Portugal, 1949)

Escritor e poeta

Licenciado em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa em 1981, exerceu depois a actividade de director editorial e de crítico literário.
É autor de obras de ficção, antologias, poesias e ensaios.
Gente Feliz com Lágrimas, o seu romance mais conhecido, foi adaptado ao teatro pelo grupo “O Bando”, e a telefilme pelo realizador José Medeiros.

***

POEMA ENCONTRADO POR AÍ

Sento-me em Lisboa, nasce-me a dor
precisamente ao centro: sinto o eixo
rasgar-se em mim. E depois meu amor
desisto e pronto: há como que um desleixo
nisto de estar vivo - sentado à vida
e nada já aqui me pertencer.
Revejo-a ao longe atenta e comovida
conheço a casa, a rua, a mesa e o ser.
E o ser é uma longa desistência,
amor, o saber só nosso e secreto
de que para isto não há ciência
nem cura. Como um desejo concreto
de partir e não saber para onde,
assim a vontade é um abandono:
um não-estar aqui que em mim se esconde,
uma passagem entre a vigília e o sono.
Como hei-de chorar por ti se afinal
nada de mais belo há do que o modo
altivo de um rosto que além do mal
do amor e seus trabalhos acomodo
dentro de mim? Meu Deus como eu te amo
no pranto e na alegria! O pensamento
dói-se do que sente, o meu desengano
pensa a dor, o coração o sentimento.
Não me basta o elogio da amada.
Ela virá e eu todo em mim a cantarei.
Canto a menina, digo, a mulher sentada
no leito e aberta à flor que nela amei.
Senhora, ir do canto à eternidade
é o que mais desespera o trovador;
Para morrer por si não tenho idade,
mas como viver sem o seu amor?

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

SIBILA





SIBILA

Um grito surgiu na noite da Grécia Antiga
Não era um deus que gritava, era Ela.
Límpida como a água das fontes.
Pura como a terra.
O grito da Sibila
(O grito da mãe terra? Ou o grito
das mães da terra? Ou o grito
da tua ou da minha mãe?)
O deus nunca grita, faz gritar.


ANTÓNIO PINHEIRO GUIMARÃES (Porto, Portugal), poeta.
in Revista “Pirâmide” - 1959


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

FERNÃO MENDES PINTO – Escritor e explorador




FERNÃO MENDES PINTO
(Montemor-o-Velho, Portugal, 1510 - Almada, 1583)

Escritor, explorador e aventureiro

Veio muito cedo para Lisboa, servindo vários amos, até que, em 1537, consegue, após várias tentativas malogradas, embarcar para a Índia. Percorre os mares e as terras do Oriente, onde é protagonista das mais fantásticas peripécias durante vinte e um anos, no decurso dos quais foi treze vezes cativo e dezassete vendido como escravo. 

O seu temperamento aventureiro adapta-se a todas as situações: é comerciante, é pirata, é soldado e marinheiro, mas também embaixador. 

Entra como noviço para a Companhia de Jesus, impressionado com a vida de S. Francisco Xavier, a quem entrega uma grande soma para as suas missões no Japão, mas não chega a receber os votos definitivos e de novo se lança na aventura, ganhando e perdendo sucessivamente grandes fortunas. 

Com dois companheiros, Diogo Zeimoto e Simão Borralho, é dos primeiros Portugueses que chegam ao Japão.

Finalmente, em 1558, cansado da vida aventurosa e violenta, regressa pobre a Portugal, e fixa-se em Almada. Aí escreve o seu empolgante e humaníssimo livro, obra ímpar da nossa literatura, só editado trinta e um anos após a sua morte: a Peregrinação.




in “Selecta Literária”

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

DAVID MOURÃO-FERREIRA - Alvorada




DAVID MOURÃO-FERREIRA
(Lisboa,  Portugal, 1927 - 1996)

Escritor e poeta

ALVORADA

Era de novo um corpo! Alvorada sombria,
alvorada nefasta envolta nuns cabelos...
Eram negros e vivos. Quem sofria,
dentro de mim, e assim tremia
só de vê-los?

Eram negros; e vivos como chamas.
Brilhavam, azulados, sob a chuva.
Brilhavam, azulados, como escamas
de sereia sombria, sob a chuva...

Veio cedo de mais a trovoada:
o vento me lembrou
de quem eu sou.

- Alvorada infecunda!, abandonada
por quem a entreviu de uma sacada
mas que, logo a seguir, se retirou.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

O LIVRO DAS CANÇÕES




O LIVRO DAS CANÇÕES


Al-Isbahani chamou à sua obra  O livro das canções pois baseou-a principalmente em 100 músicas, originalmente seleccionadas pelo renomado músico e cantor Ibrahim Al-Mosili, para serem cantadas por seus patronos, os califas Abássidas Harun Al-Rashid e Al-Wathiq.
Diz-se que Al-Isbahani levou 50 anos para completar o livro, antes dele dedicá-lo a Seif ud-Dawla, o emir de Alepo.

O livro é composto de três partes: uma selecção de músicas que Al-Mosili fez para seus patronos califas, histórias de califas e de seus familiares que compuseram as melodias da música, e outras músicas da própria selecção de Al-Isbahani.

O livro das canções é muitas vezes considerado a sua obra-prima. Inúmeras outras obras dele são conhecidas. A maioria delas descreve a vida social indulgente de sua época, uma escolha temática que levantou críticas consideráveis, especialmente de clérigos, alguns dos quais chegaram até a questionar o seu rigor académico e autenticidade.



AL-ISBAHANI (Isfahan, Irão, 897–967 d.C.), estudioso literário, poeta e genealogista.

in  “Biblioteca Digital Mundial” (excerto/adaptação)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

LAMENTO POR HIROXIMA




LAMENTO POR HIROXIMA

Em Setembro de 1961, no quadro do Festival Outono de Varsóvia, o director de orquestra Andrzej Markowski dá a conhecer uma obra que causa profundo impacto no auditório: Trenos, de Krzystof Penderecki, dedicada às vítimas de Hiroxima. 

Escrita para um conjunto de 52 cordas (24 violinos, 10 violas-de-arco, 10 violoncelos e 8 contrabaixos), a partitura não só apresenta uma inovadora escrita para os instrumentos, mas acima de tudo, impressiona pela sua surpreendente capacidade expressiva. 

Penderecki afirmou a propósito dela: «Com Trenos, quis expressar a minha firme crença de que o sacrifício de Hiroxima não deverá ser nunca esquecido.»



in “Auditorium”

domingo, 12 de novembro de 2017

FERNANDO GUIMARÃES - Poesia, Pintura e Realidade




FERNANDO GUIMARÃES
(Porto, Portugal, 1928)

Poeta, ensaísta, tradutor, crítico literário


POESIA, PINTURA E REALIDADE

A linguagem poética ou artística, que nada representa, aparece, entre todas, como aquela que está mais próxima do conhecimento do ser, na medida em que ela é, e não significa, o próprio ser. Tal linguagem é, pois, criação. O poeta, como criador, é de si que desvela essa realidade, não porque esta seja apenas ele, mas porque ela está também nele.

Neste momento, podemos perguntar se a pintura é distinta da poesia por ser não criação mas contemplação. A atitude do pintor seria contemplativa e, como contemplativa, distinguir-se-ia da do poeta que, como vimos, é criativa.

Enquanto um exprimia a realidade, o outro representá-la- ia. Uma das descobertas do artista plástico foi a cor. Mas a cor, ao ser descoberta, representa, não aquilo para que serve - porque então não seria já ela -, mas o que ela é em si mesma. Deste modo surge como linguagem, mas como essa linguagem nada nos representa além dela mesma, porque encontra em si a sua plenitude, podemos dizer que ela é, também, criação ou poesia. O mundo criado é a própria realidade. 

É aí, nessa realidade, que se encontram o autêntico religioso, ou seja, o místico, e todo o artista. Mas só este, estrangeiro entre os outros dessa realidade, pode dela regressar, criando-a. 

O religioso - pelo contrário – ficará inevitavelmente acorrentado à sua essencial ausência de limites. Por isso ele é, como diria Nietzsche, rico de mais para que possa dar.



in “Árvore” – revista literária


sábado, 11 de novembro de 2017

Poema de EGITO GONÇALVES dedicado a LEDO IVO



OUTUBRO


Os mortos estão esperando o frio de Novembro
enquanto as pétalas dos crisântemos se vão definindo
neste meio de Outubro, hereditariamente mortiço.
Os mortos estão esperando! Os cardíacos, os fuzilados,
os arrogantes, os tuberculosos, os suicidas
estão esperando as suas flores, o seu pretexto
para se imporem ao coração dos existentes
e manejarem a saudade como um látego,
rasgando a carne dos joelhos que amaram.
É a hora de nos ditarem a contemplação de pequenos objectos
sepultados no fundo de gavetas incómodas ...
É a hora de se transformarem em flechas
e apresentarem os retratos fidelíssimos
para serem salgados de lágrimas veementes.
Ridículo oferecer-lhes passeios sobre o rio,
constelações em marcha, conferências sobre o sexo,
magazines ilustrados, coloridos foguetes luminosos.
O choro é essencial; Novembro não esquece,
reforça os seus pilares, não tardará a erguer-se.
Com os relógios quebrados contra o tempo
os mortos aguardam, embrulhados nas horas que não têm,
enquanto as pétalas dos crisântemos já se torcem, disformes,
como a dor que depositaremos sobre os túmulos.




sexta-feira, 10 de novembro de 2017

HENRY DAVID THOREAU - Escritor




HENRY DAVID THOREAU
(Concord, EUA, 1817 – 1862)

Escritor, poeta, historiador  e filósofo

Para os seus contemporâneos, Henry Thoreau não passava de um discípulo menor do filósofo e seu amigo íntimo Ralph Waldo Emerson, mais velho catorze anos e autor já então muito conhecido. 

Cem anos depois, porém, Thoreau passou a ser considerado um dos gigantes da literatura norte-americana, admitindo-se universalmente que fala muito mais ao nosso tempo do que pôde falar ao seu. A sua vasta obra, em grande parte postumamente publicada, continua a mostrar-se influente em domínios diversos: no amor pelas belezas naturais, na sátira de costumes, na oposição às instituições estatais, na protecção e conservação da natureza e seus recursos, na estilística do ensaísmo moderno.

No dia 4 de Julho de 1845, aos 27 anos, enquanto a maioria dos estadunidenses agitava bandeirinhas por entre o ruído do fogo de artifício e dos sinos, Thoreau celebrava o Dia da Independência à sua própria maneira, inaugurando, com um grupo de amigos (entre os quais Emerson), a cabana que construíra junto ao Walden, um lago glaciar situado a uns 3 km de Concord.

Dera esse passo com vista a pôr em prática as suas exigências de uma vida simples e despojada, graças à qual, como depois há-de verificar, lhe será possível trabalhar, no máximo, seis semanas por ano. 

Thoreau, que levava muito a sério o lema «um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir», confirmava assim o que declarara alto e bom som aquando da sua licenciatura na Universidade de Harvard, invertendo as prescrições bíblicas: que o homem deveria trabalhar um dia por semana e descansar nos outros seis  ainda que este «descanso», no caso de Thoreau, deva ser matizado, visto ele o dedicar a escrever e a observar apaixonadamente a natureza. 

Um dos seus objectivos ao ir morar para os bosques era escrever uma obra sobre a viagem que em 1839 empreendera com seu irmão John pelos rios Concord e Merrimack. E, curiosamente, na cabana escreverá A Week on the Concord and Merrimack Rivers e Walden, os dois únicos livros que pôde publicar em vida. 

Curiosamente também, fez isso na altura da grande migração que levou à chamada «conquista do Oeste», sem esta o atrair. Thoreau, de facto, compreendera que necessitava de algo mais vital do que mudar de geografia: impunha-se-lhe modificar o seu modo de vida.
Para Thoreau, a verdadeira transformação é pessoal, interior, totalmente individual, correspondendo à descoberta da divindade em cada pessoa como elemento indissociável da natureza.


in “Antígona”

***
Palavras de Henry David Thoreau
“Se queres um escudo impenetrável, permanece dentro de ti mesmo.”



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

AUGUSTO ABELAIRA - Escritor




AUGUSTO ABELAIRA
(Ançã, Cantanhede, Portugal, 1926 - Lisboa, 2003)

Romancista, dramaturgo, jornalista

Licenciou-se em Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1953). Foi professor durante alguns anos, tendo-se dedicado posteriormente apenas à escrita, ou como jornalista ou como ficcionista e dramaturgo e mais esporadicamente como tradutor. 

Desempenhou alguns cargos, entre outros: director das revistas Seara Nova (1969-1973) e Vida Mundial (1974-1975).

A sua estreia literária data de 1947 com um pequeno ensaio «Sinceridade e falta de convicções na obra de Fernando Pessoa».

Recusado pelas editoras, por razões políticas, A Cidade das Flores foi publicado em edição de autor (1959), tendo sido sucessivamente reeditado ao longo dos anos (a última em 2004). Romance que marcou toda uma geração, Florença, cidade onde se situa a narrativa, tornou-se uma «cidade abelairiana», como lhe chamam numerosos leitores e amigos.

Como ficcionista publicou 11 obras, tendo o seu último romance Nem Só Mas Também sido publicado postumamente.

Como dramaturgo publicou três peças de teatro, uma delas – A Palavra é de Oiro (1961) – foi proibida de representação pela Comissão de Exame e Classificação dos Espectáculos.

A sua intervenção política data dos tempos da Faculdade (MUD Juvenil), tendo integrado os movimentos de oposição ao regime. Em 1965 foi preso por alguns dias juntamente com outros membros do júri que atribuiu o Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Autores a Luandino Vieira, na altura preso no Tarrafal.

Fez parte das tertúlias dos cafés «Bocage», «Chiado», «Monte Carlo», entre outros, e mais tarde da «Nobreza» (a figura de Carlos de Oliveira sempre presente mesmo quando já ausente) e da «Cister».



in “Biblioteca Nacional de Portugal” (excertos)


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

PROBLEMAS DO TEATRO: Traições e interpretações





TRAIÇÕES E INTERPRETAÇÕES

Arte de sínteses, o teatro amplia o significado das mais simples frases na linguagem da atitude, da cor, do som, da luz.
Há portanto que prolongar a ideia na interpretação, e que a classificar na expressão. E para isso não deve o actor, sob pena de atraiçoar a obra, recorrer a processos pessoais, aqueles processos naturalmente aconselhados pela sua sensibilidade de homem, mas sim aos processos que se coadunam com o espírito e com a índole da peça.

O actor tem que estudar, principalmente quando se trata de teatro clássico, o reajustamento de processos, devendo ter em consideração a época, o estilo do autor e a formação do público para quem representa. Este deve ser o trabalho intelectual de todo o intérprete digno deste nome.

O autor confia ao talento do intérprete qualquer coisa de muito precioso, que não é só a obra materialmente contida num caderno de papel, que não é só a ideia logicamente exposta, que é também e principalmente uma confidência de sensibilidade, mais do que um estado sentimental, uma potencialidade de sentir. Quando um homem tem a honra de receber de outro homem um depósito destes e o deforma para o adaptar a si próprio, comete pura e simplesmente um delito moral que o devia encher de vergonha.

Rouba mais do que um pensamento porque rouba uma alma, empobrece mais do que um homem porque delapida uma obra, mata mais do que um sonho porque compromete a perenidade de uma ideia. 

À luz portanto de um juízo objectivo, calmo e imparcial, todas essas adaptações de personagens, todas essas inspirações momentâneas de intérpretes, todas essas habilidades histriónicas dos chamados mestres de êxitos que se arrastam com o cabotinismo por grande parte dos palcos de todo o mundo e de todos os séculos, são afinal apenas uma infame espoliação do espírito.

Não suponha ninguém que é grande actor pelo simples facto de ser aplaudido, é preciso apenas que siga de perto, lado a lado, o destino da obra que interpreta.

O actor que tem um êxito pessoal numa peça falhada, pode ter a certeza absoluta que cometeu um abuso de confiança. E quantas vezes ofuscado pelo clarão de glória que envolve o autor, não foi o intérprete elemento essencial do êxito!

O actor não é um criador puro, é um instrumento de expressão do autor, é mármore plasticizado por um génio alheio, é tinta de uma paleta que outro compôs e só tendo a noção disso a personalidade do actor passa com incólume nobreza por tudo o que na sua arte se pode parecer com vaidosa exibição, com hábil aproveitamento de dotes físicos, com torpe cabotinismo de vaidades ocas. E só despindo-se de cabotinismos e vaidades, se pode chamar a um homem com talento – artista.

Não nos iludamos portanto com a dignidade artística de determinados actores que aplicam a sua elegância, a sua vibração dramática, ou o seu físico especial para enlevarem o público, sendo sempre eles próprios em todas as peças.

Nestes seres não há paixão por uma ideia, mas simplesmente ignóbil narcisismo, e sem paixão não há arte.

Eleonora Duse na sua companhia ambulante, pobre e ignorada, sem dinheiro para se vestir de luto quando se viu só no mundo, persistia sob os apupos de toda a vilanagem dos palcos, a dar a sua alma nua aos poetas; hoje falar na Duse é invocar toda a grandeza de uma profissão e de uma arte.

Por muito cruel que seja a subalternidade imposta pelo arbítrio das empresas, que não desanimem os novos com verdadeiro amor ao teatro, porque os que se amam a si próprios morrerão e a arte é imortal.

A vida do teatro oferece frequentemente exemplos desta verdade: não é preciso ser-se cabeça de cartaz para que o público saiba onde estão os grandes artistas.

É evidente que deve haver horas tenebrosas nessa arte tornada profissão, quando sistematicamente aos artistas são distribuídos papeis que não lhes convêm porque os empresários conhecem as suas próprias deficiências; mas não se corta o caminho do génio mesmo quando se distribuem rábulas. Basta o eco de uma inflexão justa num diálogo de cabotinos artificiais, para que o rabulista varra os astros com uma vassourada de verdade.

Fora do ambiente da peça, da convenção entre autor e público, que Sarcey via na colocação do problema teatral, todas as habilidades por maiores que sejam soam a falso, pois esbracejam apenas moinhos sem grão.

Desde que as empresas se desinteressam do real valor artístico das suas peças, compreende-se até que caos de desordem e de empobrecimento mental chegou ao teatro português, abrindo as portas pela sua voluntária acefalia, a toda e qualquer habilidade vistosa do mais despudorado cabotino.


ANTÓNIO DA COSTA FERREIRA (Elvas, Portugal, 1918 - Lisboa, 1997), actor, encenador e dramaturgo.

in “Mundo Literário” – Semanário de crítica e informação literária, científica e artística -1947 (excertos)