quarta-feira, 26 de julho de 2017

AMÁLIA – O refúgio

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
O REFÚGIO

A casa era o refúgio. Uma casa amarela, a meio da rua de S. Bento. Agora é um museu.
 
A casa é diferente da “Casa Portuguesa” que cantou nos anos 1950. Já não há cheiro a alecrim, mas há flores em todos os cantos. Do boudoir já não vem o cheiro do perfume Jean Patou, mas estão ainda os frascos sobre uma pequena cómoda. Das gavetas entreabertas, saem lápis e batons, blush e pincéis. E rente, na mesma concavidade, as blusas de seda dependuradas, cobertas com um pano branco que as protege do pó.

O quarto tem uma antecâmara suficientemente larga para aí caberem as condecorações que recebeu, a pedraria de pechisbeque com que gostava de se enfeitar – os diamantes, não os exibia, e aquelas jóias reluzentes, falsas, permitiam-lhe pôr ora uma, ora outra, variar… Na casa de banho, está em exposição uma túnica larga e colorida, confortável. Na sala de estar, o espaço amplo permitia estar com um grupo numeroso, entrar pela noite fora.

Amália gostava de receber, a sua casa era um centro. As paredes estão revestidas de retratos seus, pintados ao longo dos anos. Nos recantos há bonecas, bonequinhas – que não teve quando era criança. Vestidos de cena montados num pedestal, os sapatos a condizer – aí se percebe como o pé era pequeno e estreito, número 36.
Sobre qualquer mesa, há oratórios e referências religiosas. A sua Fé era grande. Onde antes era a garagem, é agora a loja do museu e vende-se material relativo a Amália. As visitas são sempre guiadas.

A casa está morta desde que Amália partiu, em Outubro de 1999. Portugal inteiro chorou as “talhas do seu caixão” – que tão emotivamente cantava no fado “Povo que Lavas no Rio”.

Que história contamos dela? “Sei que a minha história vai ser aquela que escolherem, aquela que é mais interessante, aquela que não é a minha” – previu, em conversa com o seu biógrafo. O seu lugar era na tragédia – disseram-lhe em Hollywood. Foi uma personagem trágica? Dela sai vida.


Anabela Mota Ribeiro – 2008
Imagem: mural urbano de Odeith na Damaia - Lisboa

terça-feira, 25 de julho de 2017

AMÁLIA - Ai Esta Pena de Mim

 


AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
AI ESTA PENA DE MIM

Ai esta angústia sem fim
Ai este meu coração
Ai esta pena de mim
Ai a minha solidão

Ai a minha infância dorida
Ai o meu bem que não foi
Ai minha vida perdida
Ai lucidez que me dói

Ai esta grande ansiedade
Ai este não ter sossego
Ai passado sem saudade
Ai a minha falta de aprego

Ai de mim que vou vivendo
Em meu grande desespero
Ai tudo o que não entendo
Ai o que entendo e não quero

 

Amália Rodrigues
Imagem: pintura de Meire Gomes

 

 

 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

AMÁLIA - Uma Estranha Forma de Vida

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA

 
Amália falava português, espanhol, francês, inglês, alemão e italiano. Fluentemente. E cantava. Não só isso como lia e conhecia poesia de cada país. E, depois, tinha uma intuição a propósito da qual acho que se pode falar mesmo de genialidade. A Amália era a única cantora que, por exemplo, percorria a Itália toda, da Sicília a Milão, e cantava nos vários dialectos: siciliano, napolitano (gravou um disco muito bonito, Anema e Core, a última gravação que ela fez, em 1995, com o Roberto Murolo), romano, por aí fora... E tinha uma intuição, uma inteligência na compreensão dos poetas que não era nada estudada. É isso que, depois, passa muito para a música e que atinge as pessoas em qualquer parte do mundo.

Foi isso que levou à criação do filme a partir de uma entrevista só com ela. Na origem, eu tinha marcado uma série de entrevistas com outros artistas (Pavarotti, Caetano Veloso...) que iriam falar sobre ela. Tinha uma equipa de cinco pessoas a fazer pesquisa de imagem. Sabia que, por exemplo, no Japão, no México e nos EUA havia muita coisa. Tínhamos todas as listas dos concertos. Começaram a chegar imagens de televisão, de fãs que tinham Super 8... (existe agora um arquivo fantástico, um património de 150 horas de imagens, e obviamente não pude utilizar tudo).

A história da gravação do concerto para a televisão americana, por exemplo, é curiosa. O Vítor Pavão dos Santos (co-autor comigo do filme) tinha uma fotografia desse programa, em 1953, quando ela estava a cantar no "La Vie En Rose". Ligámos à NBC, que era a produtora de televisão, confirmaram a data, mas não tinham registo. Museu de Television Broadcast, o MoMa, museus de cinema, Los Angeles, tudo o que existia no mundo dos arquivos de televisão... Até que o italiano, chefe desta equipa de cinco pessoas, se lembrou de que, nos anos 50, quem ficava com as gravações eram os próprios artistas.

Conseguimos o número de telefone do Eddie Fisher (que, nesse programa, juntamente com o Don Ameche, aparecia com a Amália), na altura ainda vivo. Telefonámos-lhe e, naturalmente, ele não fazia ideia de quem éramos.

Recordava-se perfeitamente dela (tinha, aliás, estado cá, em casa da Amália, com a mulher, a Debbie Reynolds, em lua-de-mel), embora já não falasse com ela há vinte anos. Confirmou que tinha a gravação, mas disse-nos "têm de pôr a Amália ao telefone comigo". Pus os dois em contacto e, assim que ela se riu e ele a ouviu, o assunto ficou resolvido. Esta é, aliás, uma gravação histórica: é a primeira gravação de um artista português em televisão. Nessa altura, a televisão não existia ainda em Portugal.

À medida que eu ia recebendo as cassetes, telefonava-lhe e pedia para ela ver as imagens. Ela viu a totalidade das 150 horas de imagens! Pela primeira e última vez. Recordava-se de imensos pormenores impressionantes. Era uma época em que o grupo dos artistas da música, dos "crooners", era muito mais pequeno, conheciam-se todos. Os tipos do "ratpack" (o gang do Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis...), Eddie Fisher, Vic Damone, os italo-americanos... encontravam-se nos mesmos bares e iam beber copos por aí.

A Amália ia-me contando que andou a cantar para eles... Era evidente que não precisava de fazer entrevistas a outras pessoas. Tinha de ser ela a falar perante aquele espelho. Já depois do visionamento das imagens todas, fiz-lhe uma entrevista durante cinco dias, no Brejão, sempre à noite, das onze às cinco da manhã. Ela era um vampiro, vivia de noite...

Ela aprovava umas versões e recusava outras. Havia, por exemplo, dez gravações da "Gaivota". Ela nunca cantava o mesmo fado da mesma forma (aliás, na versão de cinco horas, meti cinco versões todas diferentes do "Povo Que Lavas no Rio"). Em cada música, a Amália tomava uma trajectória diferente, que depois analisava. Está tudo nesse arquivo, hoje na Valentim de Carvalho, mas que espero que, um dia, algum governo, se decida a classificar como património cultural nacional ou internacional.

É fundamental conservar aquelas imagens todas e passá-las para digital. Dentro de dez, quinze anos, a fita magnética vai começar a deteriorar-se e será tarde de mais.

 
Bruno de Almeida, realizador do filme  “Amália, Uma Estranha Forma de Vida” (1995).

 
 

domingo, 23 de julho de 2017

AMÁLIA – Um nome, um fado em muitos fados, uma voz.

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
UM NOME, UM FADO EM MUITOS FADOS, UMA VOZ

- Sinto que nunca canto hoje igual a ontem. Tenho a intuição do fado. Foi qualquer coisa que Deus me deu, mas depois o fado sai dentro de mim consoante o meu estado de alma, os meus nervos, as minhas emoções. Tudo se prende com a nossa interioridade. O fado ou é isso ou não é nada…

- Deus, para mim, é Deus. Sinto essa força dentro de mim. Acredito em Deus mesmo que não exista o céu. Não vale a pena tentar explicar. Não encontro explicação em palavras ou em teorias, tal como, por mais que uma pessoa me tente explicar o que é uma árvore, também não encontro uma explicação inteira.

- Cá dentro de mim, uma árvore é qualquer coisa mais forte, mais grandiosa, que a Botânica não consegue definir. Da mesma forma acredito em Deus plenamente. Ainda que tudo se acabe cá na terra. Acredito em Deus mesmo que a minha alma não vá para o Céu, nem para o Inferno, nem para o Paraíso… Sou uma pessoa inculta, não tenho vergonha de o dizer, mas esta é a minha forma de estar na vida. É a minha filosofia.

- Gostava de ser culta para exprimir a minha própria sensibilidade, para dizer uma palavra sem ter de dar uma volta ao Rossio até encontrar a palavra mais expressiva. Não tenho outras ambições. Não sou política, não gosto de vidas mundanas, nunca alterei a minha maneira de ser. Deixem-me ser quem sou…

- Colegas, compositores, intelectuais… Magoaram-me profundamente. Tanta calúnia, tanta mentira. Ao princípio, eu estava de olhos fechados, e não consegui entender porquê…

- Só não me perdoa quem não me conhece bem. Mas deixe-me chorar se não rebento!... Julgo que desejaram queimar-me dizendo que eu era um produto do fascismo, que era uma espia, uma contrabandista, uma bêbeda… Tantas mentiras horrorosas! Como hei-de curar essa ferida? Eu quero esquecer, mas dói-me muito este desencanto…

- Até chegaram a dizer que havia um subterrâneo no meu quintal por onde eu ia ter com o Salazar para ele se aconselhar comigo!... Disseram também que tentei envenenar Humberto Delgado, no Brasil… Isto é de uma imaginação incrível! Nunca admiti que pudesse haver tanta maldade.

- Foram calúnias! Foram mentiras tremendas que me destruíram a alegria e a saúde. Terei de pedir desculpa por já cantar o fado há 45 anos?... Não devia cantar o nosso fado só porque o regime era salazarista ou marcelista?

- Não sou servilista, tal como não sou uma revolucionária. Por mim, sempre cantei o fado sem pensar em políticas. Nunca apanhei nenhum comboio ou avião, a não ser aqueles em que me deslocava e desloco para ir cantar a qualquer terra. Cantar do jeito que eu sei e sinto. Cantar o nosso fado e o nosso folclore de que tanto gosto. Nunca tive apoios de nenhum governo nem do anterior, nem dos de depois do 25 de Abril.

- Nunca fui nem nunca serei uma revolucionária. Nunca quis fazer acreditar o contrário. Nunca me mascarei ( a não ser pelo Carnaval). Canto o fado que sinto, que gosto de cantar. Canto as letras que se identificam com a minha sensibilidade. Onde quer que eu esteja, onde quer que eu vá, é para cantar os meus fados e não para ir debater questões políticas com os governos… Quero ser o que sempre fui: a Amália que canta para toda a gente.

- Choca-me a fome em tantos países. Não sou insensível aos problemas do mundo que me rodeia. Mas sou por temperamento uma pacifista.

- Nunca mendiguei vistos para o meu passaporte. Nunca mendiguei contratos. Um dia, a minha empresária em Paris contratou-me para ir à União Soviética. Fui e cantei lá como em qualquer outro sítio. Estive no Circo Popov, estive com os coros do Exército Vermelho. O público soviético ouviu-me cantar e aplaudiu-me, como aconteceu em tantos outros países.

- Há uma coisa que é universal e toda a gente entende: é a força do sentimento que uma voz expressa; é a carga dramática do fado; é a melodia: é o timbre da voz.

- Eu gosto da minha terra, da minha casa, da minha família, dos meus amigos. Como é que eu, num país estrangeiro, ia viver sem a minha broa e a minha sardinha assada, sem as minhas sopas de feijão?! Como é que eu ia passar sem ver o Alentejo, sem ver Trás-os-Montes?! Tinha lá paciência para andar todos os dias em jantares e almoços de sociedade!

- Não tenho pretensões a poeta. Deus me livre! Mas ao escrever algumas letras para os meus fados, agora que estou desiludida de todos os meus sonhos, talvez seja, sim, uma forma de gritar, de dizer o que me vai na alma. Tenho pena de mim… Sonhei um mundo tão diferente… Sou uma pessoa de mãos abertas. Entrego-me à amizade sem tomar precauções. Mas há gente que engana tanto!...

 
(Excertos da entrevista feita, em 1985, pela jornalista Maria Augusta Silva)
Imagem: pintura de Camilo Ramos

 

sábado, 22 de julho de 2017

AMÁLIA – A aventura soviética

 
 
 
 AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

A AVENTURA SOVIÉTICA

A permanente vigilância do KGB durante a sua digressão à União Soviética levou-a a comentar: «Tinha sempre à porta da suíte do hotel dois homens. Ou desconfiavam de mim, ou tinham medo de mim.» Foi a terceira vedeta mundial (depois de Maria Callas e Marlène Dietrich) que o Politburo autorizou a actuar na então URSS.

A sua popularidade havia chegado à Cortina de Ferro por intermédio da Roménia, onde, em 1968, tivera um sucesso estrondoso. A televisão estatal do país transmitira o seu concerto na cidade de Brasov, projectado para todos os estados da União. Para a deslocação foi conveniente escamotear a sua nacionalidade.

A sua estada, e a dos seus acompanhantes, revestiu-se de medidas de segurança semelhantes às prestadas aos chefes de Estado. Os homens da KGB, sempre solícitos, acompanhavam-na aonde quer que fosse, dos quartos aos bares dos hotéis, dos restaurantes aos teatros, nas idas aos ensaios, às festas, aos voos de ligação, com Amália metida no meio de polícias, sem poder contactar com as centenas de pessoas que pretendiam autógrafos, ou simplesmente vê-la de perto. Ela adorou a digressão. A tournée esgotou sete vezes um teatro de 2000 lugares, em Leninegrado.
 
Recentemente descobriu-se que a gravação (única) dum concerto seu em Moscovo estava intacta nos arquivos do ex-KGB. O documento, a cores, representa algo de muito precioso, pelo que várias entidades, caso do Valentim de Carvalho, têm tentado adquiri-lo.
 
Amália comentou: «Viajei pelo mundo, cantei em quase todos os países, a minha vida tem sido assim, e cheguei à conclusão de que é tudo igual, só mudam os cenários, as comidas, as línguas, no resto, nas roupas, nos gostos, nos sentimentos, nos medos, nas traições, é tudo idêntico.»
 
 
Fernando Dacosta, in “Amália – A Ressurreição”



sexta-feira, 21 de julho de 2017

AMÁLIA – Uma palavrinha apenas

 


AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)
 
 
UMA PALAVRINHA APENAS
 
«Uma tarde, quando conversava no “Luso” com um grupo de velhos amigos, fadistas, toureiros, gente da Imprensa, apareceu-lhe o conde de… que lhe pediu, muito açodado, “uma palavrinha apenas”.
 
– Por amor de Deus! É assim tão urgente? Sente-se, faça favor.
 
– É francamente urgente.
 
Sentou-se ao lado de Amália, e ali mesmo declarou-lhe que a princesa de… manifestava vontade em jantar com ela no "Machado".
 
– Oh! Sabe? Não sei se poderei ir, pois estava a combinar um jantar com estes amigos…
 
– Mas a princesa insiste…
 
Amália tinha-se mostrado até ali gentil, extremamente bem humorada, mas naquele momento cravou os olhos no conde e acrescentou com certo azedume:
 
– Muito bem! O meu “cachet” são 5 contos…
 
– Perdão, Amália. Não é para cantar…
 
– Não é para cantar?! Nesse caso, passo a levar dez contos…
 
– Como? – exclamou o senhor, confundido.
 
– É que – explicou ela – para cantar qualquer pessoa me pode contratar. Para me exibir nem todos. Logo o preço é por força mais elevado…»
 
 

in, Revista Eva, 1952

Imagem: Criado pelo artista de arte urbana Alexandre Farto, que assina como Vhils, em colaboração com os Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa, o rosto de Amália foi executado integralmente em calçada portuguesa e instalado na Rua de São Tomé, em Alfama.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

AMÁLIA - Amália no Mundo

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 AMÁLIA NO MUNDO
 
O livro “Amália no Mundo – Sinais de uma vida nos sulcos do vinil”, dá a conhecer a grande maioria das capas dos discos de vinil de Amália, listando os vinis da fadista desde as primeiras gravações, em 1945, até 1990, quando publicou “Obsessão”. São diversas edições internacionais, com o pormenor de anotar a data, o alinhamento e os músicos que a acompanham.
São mais de 500 imagens que dão a conhecer a história da discografia de Amália Rodrigues e da sua carreira musical por todo o mundo. Centenas de edições, compilações e reedições editadas em Portugal, França, Itália, Chile, Argentina, Espanha, Inglaterra, África do Sul, Japão e muitos outros países, em diferentes formatos: Discos de 78 rotações, os discos de longa duração (LP’s), os EP’s e os singles.

Em casa ouvia-se Amália desde muito pequenino, pois o meu pai descobriu-a nos anos 60, passando muito tempo à procura dos seus discos. Só no Rio de Janeiro, nos anos 80, é que adquiriu o seu primeiro LP. No início dos anos 90, os meus pais foram de férias a Lisboa e enquanto caminhavam pela rua de São Bento deram com a diva à porta da sua casa no Nº 193. Ela, espantada pela altura do meu pai, viu logo que aquele casal só queria cumprimentá-la. Depois duma pequena conversa Amália convidou os meus pais a acompanhá-la a sua casa… e assim nasceu uma linda amizade que durou até 1999.
Por vezes penso que não é possível que qualquer pessoa que tenha passado ao pé dela, ou partilhado uma conversa qualquer, tenha ficado indiferente. Pois era tão grande o seu génio e o seu magnetismo que sem dúvida alguma coisa mudava, pelo menos, a maneira de perceber a música. No meu caso, Amália abriu muitas portas novas na minha cabeça, ela e a sua memória, transformou-se com o tempo numa espécie de musa inspiradora, um ponto de partida para explorar a poesia e o fado e uma necessidade quase natural de honrar a sua memória.
Recordo-me de uma visita de dois dias a sua casa em Lisboa, em que fiquei deslumbrado com a facilidade com que comunicava com as pessoas, fosse com o meu pai, que é médico-cirurgião, como comigo, um miúdo. Abordava com enorme à-vontade os mais diversos temas, da filosofia à arte, da literatura à medicina.
As histórias ao redor desta “grande pesquisa” são muitas! Os discos iam aparecendo quase de maneira mágica à venda na Internet, em diversas feiras em Espanha e Portugal… Por exemplo, em certa altura a cantiga “Vieste Depois” dum disco da Columbia de 78 rpm atingiu um preço de quase dois mil euros num leilão da internet!
Por acaso contei isto a um companheiro de trabalho e ele lembrou-se que num velho armário que estava ao pé de mim na antiga casa onde ficava o meu escritório, havia discos antigos. Fui lá ver e que grande foi a surpresa! Apareceram dois dos mais raros discos que tenho encontrado! Estiveram durante anos ao pé de mim sem eu saber…

Ramiro Guiñazú coleccionador de discos e autor do livro “Amália no Mundo”.
 
 
 

 
 
 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

AMÁLIA – A Ressurreição

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
A RESSURREIÇÃO

 
As luzes apagam-se. Sob o luar, num teatro em ruínas, em Cartago, Amália caminha lentamente recortada por focos brancos.
Faz-se silêncio. O mesmo silêncio que cairá após o seu canto se extinguir, antes de os aplausos explodirem em ressonâncias cósmicas.
Os dedos naufragam-se-lhe na écharpe sobre o longuíssimo vestido negro. Levanta a cabeça, a voz eleva-se, eleve-a, vai aos abismos do indizível, assombrando os milhares que esgotam a terra onde ela pára a noite e a aflição.
O milagre rebenta depois, lágrimas num choro de deuses por haver.


Fernando Dacosta, in “Amália – Ressurreição”
Imagem: pintura de Meire Gomes

 

terça-feira, 18 de julho de 2017

AMÁLIA - Gostava de Ser Quem Era

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
GOSTAVA DE SER QUEM ERA


Tinha alegria nos olhos
Tinha sorrisos na boca
Tinha uma saia de folhos
Tinha uma cabeça louca

Tinha uma louca esperança
Tinha fé no meu destino
Tinha sonhos de criança
Tinha um mundo pequenino

Tinha toda a minha rua
Tinha as outras raparigas
Tinha estrelas tinha a lua
Tinha rodas de cantigas

Gostava de ser quem era
Pois quando eu era menina
Tinha toda a Primavera
Só numa flor pequenina


Amália Rodrigues
Imagem: retrato de Silva Nogueira

 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

AMÁLIA - Dos poetas populares aos cultivados

 

 
 AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
DOS POETAS POPULARES AOS CULTIVADOS

 
Em grande parte graças a Amália, a grande literatura portuguesa entrou no fado, com a não pequena ironia de, muitas vezes, um francês, Alain Oulman, a partir de certa altura ter contribuído para isso, numa excepcional articulação criadora de duas formações, a francesa e a portuguesa. A ambos se deve uma importante inflexão dos rumos da poesia e da música do fado, a partir de princípios dos anos sessenta.

É com Amália que o passo decisivo é dado, logo nos primeiros anos em que se afirma como uma estrela de primeira grandeza. Sem abandonar as letras do fado tradicional e os seus derivados, que de resto continuou a cantar ao longo de toda a sua carreira, é ela quem começa a procurar, a fazer musicar e a cantar uma série de autores que não se confundiam com os letristas típicos do fado.

Os mais cantados, como Pedro Homem de Melo e David Mourão-Ferreira, transportavam essa sensualidade para o plano dos impulsos genesíacos e da transfiguração erótica, o primeiro, aliás, mais ligado a uma tradição peninsular a que Jorge de Sena chamava tão desdenhosa quanto injustamente de “garcilorquismo minhoto”, e o segundo aliando todas as técnicas do Parnasianismo para a exploração da dialéctica amorosa, da esperança e do desespero e da explosão da sensualidade.

Mas outros autores devem ser considerados. Por exemplo, Sidónio Muralha ou Luís de Macedo, um mais próximo dos neo-realistas, outro pertencente ao grupo da Távola Redonda. E também autores a que poderíamos chamar “de fronteira”, gente ligada ao espectáculo e ao jornalismo, como Reinaldo Ferreira e Norberto de Araújo, que Amália também já canta por essa altura.

A voz de Amália, as suas intenções de leitura interpretativa, o recorte imponderável do fraseado musical e o equilíbrio mais ou menos instável posto na dicção, a colocação certeira dos melismas nos momentos em que o fado carece de expressividade, a transparente franqueza com que tudo é agenciado e que, felizmente, podemos apreciar hoje em excelentes recuperações discográficas, tudo isso transfigura versos que por vezes são perfeitamente banais em momentos de grande intensidade poética e… fadista.

É a partir de Amália, mesmo antes da colaboração genial que ela recebeu de Alain Oulman, estando ainda por estudar o papel que a canção francesa desempenhou na génese das músicas que ele escreveu para a nossa artista, que os fadistas passam a tornar-se muito mais exigentes quanto à qualidade literária e à autoria das novas letras que procuram arranjar para os seus fados.

Será injusto esquecer que Amália cantou excelentes letras populares e escreveu excelente poesia, que umas vezes cantou (Lágrima, Estranha forma de vida...) e outras se limitou a publicar. São poemas instintivamente relacionados com a sua maneira de estar na vida.

Nos seus versos, ela soube lançar mão de uma escrita poética intuitiva e certeira, formalmente muito ancorada na tradição da matriz popular, com uma grande fluência, belos achados e, por vezes, algumas agudezas quase maneiristas.

Amália soube incutir como mais ninguém um acento profundamente dramático à expressão daquilo que cantava. Não apenas por ser dotada de uma voz absolutamente extraordinária. A sua articulação por vezes centrava-se mais no significante do que no significado, mas acabava restituindo misteriosamente a este último todo o seu valor, e encontrou ou inventou melismas, inflexões verbais, tensões intra-silábicas, portamentos, arabescos e outros efeitos vocais, alguns porventura de uma inspiração mediterrânica bebida da Andaluzia à Córsega, mas todos eles únicos, pessoais, intransmissíveis e sobretudo singularmente adequados a traduzir uma entrega total à intensidade dos sentimentos, das dilacerantes violências da paixão à angústia mais torturada, à ternura mais límpida, ou à alegria simplesmente ingénua dos fados que ela cantava.

E também na medida em que a grande fadista cantou um vastíssimo leque de obras literárias que se distribuem por sete séculos da nossa literatura e da nossa identidade, podemos dar razão a David Mourão-Ferreira quando ele afirmou, na morte de Amália, ser ela um “heterónimo” de Portugal, o “heterónimo” feminino de Portugal.

 
Vasco Graça Moura - (Comunicação apresentada à Classe de Letras na sessão de 12 de Novembro de 2009) (excertos)
Imagem: pintura de José Viola

 
 
 
 
 

domingo, 16 de julho de 2017

AMÁLIA - Quando Se Gosta de Alguém

 
 
 
 AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)
 
 
 QUANDO SE GOSTA DE ALGUÉM


Quando se gosta de alguém
Sente-se dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo o que é que se sente

Quando alguém gosta d'alguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amores andamos

Quando alguém gosta de alguém
Anda assim como ando eu
Que não anda nada bem
Com este mal que me deu

Quando se gosta de alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior a gente se sente

Quando se gosta de alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto


Amália Rodrigues

sábado, 15 de julho de 2017

AMÁLIA - Nunca lhes fiz a vontade

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)
 
NUNCA LHES FIZ A VONTADE

 «Se não fosse eu ter tanta força dentro de mim, cheirar com o meu nariz, olhar com os meus olhos, ouvir com os meus ouvidos, se não fosse ter o meu critério tão forte, tinha passado a vida a ceder às pessoas. Isto não, isto é que é, não cante isto, cante aquilo. Mas eu nunca lhes fiz a vontade, fiz sempre a minha. E foi a única maneira de fazer a vontade a toda a gente.»

 
in “Amália – Uma Biografia” de Victor Pavão dos Santos
Imagem: pintura de Maluda

 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

AMÁLIA - Amália na Broadway, o fado em Nova Iorque

 
 
 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
 AMÁLIA NA BROADWAY, O FADO EM NOVA IORQUE

 
Quando Amália Rodrigues subiu, pela primeira vez, a um palco nova-iorquino era já uma estrela com estatuto internacional. Por essa altura tinha actuado em Madrid (onde fez a sua estreia internacional em 1943), no Rio de Janeiro, em Londres, em Paris, em Dublim. Já havia passado por palcos em África, de Angola e Moçambique ao então Congo Belga.
Em Setembro de 1952 a sua estreia em Nova Iorque fez-se no palco do La Vie en Rose, onde ficou 14 semanas em cartaz.
No ano seguinte a estreia na televisão norte-americana acontece no programa de Eddie Fischer, na NBC. Pouco depois, já em 1954, Hollywood escuta-a pela primeira vez, no Mocambo.
Amália Rodrigues semeou assim, em diversas viagens aos Estados Unidos, uma relação profunda com o público, os palcos e mesmo a indústria do disco norte-americana. Não foi por acaso que, apesar de ter uma carreira discográfica encetada nos anos 40 (ainda em discos de 78 rotações), foi nos EUA que editou o seu primeiro LP.
Ao longo da sua carreira, Amália regressou por diversas vezes aos Estados Unidos, frequentemente acolhida em triunfo. Em 1966 apresentou-se no Lincoln Center, em Nova Iorque, com o maestro Andre Kostelanetz frente a uma orquestra, num programa essencialmente feito de canções do folclore português numa das noites e num outro, feito de fados (também com orquestra), na seguinte.
Amália trabalhou o espectáculo directamente com o maestro, na casa deste, em Nova Iorque. Ele ao piano, ela cantando, juntos encontrando o registo a levar ao palco. O mesmo espectáculo foi encenado, dias depois, no Hollywood Bowl.
Estes concertos estão na base de três EP's, de folclore acompanhado por uma orquestra, que Amália edita simultaneamente, em Abril de 1967. A parceria com o maestro foi tão bem acolhida pelo público, crítica e pela própria Amália, que nova actuação, no mesmo Lincoln Center, aconteceu em 1968.
A relação com a América acabaria por marcar depois presença na própria música de Amália. Primeiro, numa colaboração com o saxofonista Don Byas no álbum Encontro - Amália e Don Byas (1974) e, mais tarde num disco de versões de clássicos populares da Broadway, Amália na Broadway (editado em 1984 usando gravações registadas em 1965 e nunca até então reveladas publicamente).
 

Nuno Galopim, in Portal do Fado
Imagem: fotografia de Armando França



 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

AMÁLIA – Comparada a Nijinsky

 
 
 
 AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
AMÁLIA COMPARADA A NIJINSKY
 
«Os portugueses não se deram conta da popularidade que tenho lá fora. Só não fui à Índia, à China e à Áustria, talvez por aí saberem verdadeiramente de música», brinca.

André Maurois escreve: «Amália é um fenómeno só comparável a Nijinsky». O jornal francês Le Figaro chama-a «Madonna ibérica», a lembrar «Electra pelo seu nobre imobilismo» e pelo seu «perfil de sacerdotisa»; o italiano La Stampa afirma que ela «está para o público da música como o Couraçado de Potemkin para o de cinema». Augusto de Castro anota no Diário de Notícias que «com ela de franjas negras e sol nos olhos, anda Portugal no mundo».

O Médio Oriente siderou ao ouvi-la cantar, em 1963 na Igreja de São Francisco de Assis, na missa de acção de graças pela independência de Beirute; e arrepiou-se com o seu Incha´Allah vindo do cosmos. O Extremo Oriente, caso do Japão, amou-a, por sua vez, para sempre, havendo quem tenha aprendido português para melhor a comungar.

«Tenho um certo tipo de magnetismo. Chego a um palco e o público fica logo comigo, seja lá onde for. Às vezes eu própria arrepio-me toda, quase que chego a atingir a tragédia, Tenho qualquer coisa em mim de Portugal que as pessoas sentem, como se fosse uma erva.»
 
 
Fernando Dacosta, in “Amália – A Ressurreição”  
Imagem: Amália, obra do mosaicista Miguel Gouveia. Calçada à portuguesa.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

AMÁLIA – É génio mesmo!



 
AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

É GÉNIO MESMO!

Os Portugueses não têm a noção da qualidade musical de Amália Rodrigues. Um reportório que ninguém suspeitava no mundo que existisse antes dela. Estamos a falar de génio, já não é só talento, é génio mesmo, é fazer uma dramaturgia completa com o texto que tem à frente. A Amália a cantar é muito mais erudita do que qualquer cantor erudito português. 
A Amália tem meios vocais como eu não encontro em mais nenhum cantor.

Estas coisas da música não são só éter, um é um dó, um é um , há uma maneira científica de apurar isto, e a Amália tinha capacidades vocais de afinação, de legato, até de coloratura, que é uma maneira de ornamentar o canto, que não há outro cantor popular que tenha, ela não o aprendeu, ela nasceu assim, mas tem.
 
Ela tinha noção que o fado, que é sobretudo poesia, se não for compreendido, se as palavras não forem compreendidas, torna-se maçador. Para o fado acontecer ele não pode ser assim tão repetido.

 
Frederico Santiago, pesquisador e coordenador das edições discográficas de Amália Rodrigues.
Imagem: fotografia de Augusto Cabrita



terça-feira, 11 de julho de 2017

AMÁLIA - Ó Gente da Minha Terra

 
 
 
 AMÁLIA RODRIGUES
(Lisboa, Portugal, Julho de 1920 – Outubro de 1999)

 
Ó GENTE DA MINHA TERRA

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi.

 
Amália Rodrigues
Imagem: pintura de ArtinMebyCrisNovo