domingo, 31 de dezembro de 2017

LUÍS DE CAMÕES - O tempo acaba o ano, o mês e a hora




LUÍS DE CAMÕES
(Lisboa, Portugal, 1524 – 1580)
Poeta


O tempo acaba o ano, o mês e a hora

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.


Imagem: Luís de Camões – pintura: Costa Araújo


sábado, 30 de dezembro de 2017

AGOSTINHO DA SILVA - Queria que os Portugueses





AGOSTINHO DA SILVA
 (Porto, Portugal, de 1906 — Lisboa, 1994)

Filósofo, poeta e ensaísta

***
Palavras de Agostinho da Silva

“O grande defeito dos intelectuais portugueses tem sido sempre o só lidarem com intelectuais. Vão para o povo. Vejam o povo. Vejam como eles reflectem, como ele entende a vida, como eles gostariam que a vida fosse para eles.”

***

QUERIA QUE OS PORTUGUESES

Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião

que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

 se a nação analfabeta
 derrubou filosofia
 e no jeito aristotélico
 o que certo parecia

 deixem-na ser o que seja
 em todo o tempo futuro
 talvez encontre sozinha
 o mais além que procuro.




in “Poemas” 


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

JOSÉ GOMES FERREIRA - O nosso mundo é este




JOSÉ GOMES FERREIRA
(Porto, Portugal, 1900 — Lisboa, 1985)

Escritor, poeta


O NOSSO MUNDO É ESTE


O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este….

( Mas há-de ser outro.)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

JORGE DE SENA - Eternidade



JORGE DE SENA
(Lisboa, Portugal, 1919 Califórnia, EUA, 1978)

Poeta, dramaturgo, tradutor, professor universitário


ETERNIDADE

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo. 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

PABLO NERUDA – O Pai




PABLO NERUDA
(Chile, 1904 – 1973)

Poeta

O PAI

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.


Tradução:Rui Lage



terça-feira, 26 de dezembro de 2017

VINICIUS DE MORAES - Minha Mãe




VINICIUS DE MORAES
(Rio de Janeiro, Brasil, 1913 - 1980)

Poeta, cantor e compositor

MINHA MÃE

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe. in  "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa".




segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

EUGÉNIO DE ANDRADE - Último Poema



EUGÉNIO DE ANDRADE 
(Póvoa de Atalaia, Portugal, 1923 — Porto, 2005)

 Poeta

ÚLTIMO POEMA

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia. 


in “Rente ao Dizer”



domingo, 24 de dezembro de 2017

FERNANDO PESSOA - Como a noite é longa!




FERNANDO PESSOA
(Lisboa, Portugal, 1888 – 1935)

Poeta, filósofo, dramaturgo, tradutor


COMO A NOITE É LONGA!

Como a noite é longa!
Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem p’r’ao pé de mim...

Amei tanta coisa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim. 



sábado, 23 de dezembro de 2017

ARY DOS SANTOS - Quando um homem quiser



ARY DOS SANTOS 
(Lisboa, Portugal, 1937 - 1984)

Poeta e declamador


QUANDO UM HOMEM QUISER

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão





sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

NATÁLIA CORREIA - Balada para um Homem na Multidão




NATÁLIA CORREIA  
 (São Miguel, Açores, Portugal, 1923 - Lisboa, 1993)

Escritora e poetisa


BALADA PARA UM HOMEM NA MULTIDÃO

Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

 Muitos mortos foram necessários
 para formar seus dentes um cabelo
 vai movido por pés involuntários
 e endoidece ser eu a percebê-lo.

 Sentam-no à mesa de um café
 num andaime ou sob um pinheiro
 tanto faz desde que se esqueça
 que é homem à espera que cresça
 a árvore que dá dinheiro.

 Alimentam-no do ar proibido
 de um sonho que não é dele
 não tem mais que esse frasco de vidro
 para fechar a estrela do norte.
 E só o seu corpo abolido
 lhe pertence na hora da morte.




quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

MUSEU NACIONAL DA MÚSICA - Portugal




MUSEU NACIONAL DA MÚSICA

O Museu Nacional da Música possui uma das mais ricas colecções da Europa de instrumentos musicais (cerca de 1.000 na sua maioria de origem europeia) dos séculos XVI a XX, de tradição erudita e popular, alguns deles classificados como Tesouros Nacionais.

O Museu é particularmente notável pela quantidade e qualidade dos instrumentos manufacturados em Portugal, como o cravo de Joaquim José Antunes (1758), os violinos e violoncelos de Joaquim J. Galrão, as guitarras de D. J. Araújo e as flautas da família Haupt.

Pelo seu valor e raridade merecem ainda destaque outros instrumentos, como o cravo de Pascal Taskin construído em 1782 para o Rei D. Luís XVI de França, o piano (Boisselot & Fils) que Franz Liszt trouxe de França em 1845, o oboé de Eichentopf, os cornes ingleses de Grenser e de Grunman & Floth ou o violoncelo de António Stradivari que pertenceu e foi tocado pelo rei D. Luís.

Além de instrumentos, o Museu integra ainda vários espólios documentais e colecções fonográficas e iconográficas.




in “Património Cultural”

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

JUAN JAMÓN JIMÉNEZ – Como, Morte, Temer-te


JUAN JAMÓN JIMÉNEZ
(Moguer, Espanha, 1881-Porto Rico, EUA, 1958)

Poeta

Autor de poemas de inspiração simbolista e uma das maiores figuras do lirismo espanhol (Almas de Violeta, Ninfeas, Eternidades).
Como prosador, destaca-se pelas narrativas de Platero y yo.
Exerceu grande influência nos escritores espanhóis e hispano-americanos.
Recebeu, em 1956, o Prémio Nobel de Literatura.

***
Palavras de Juan Jamón Jiménez
"O poema deve ser como a estrela que é um mundo e parece um diamante.”

***

COMO, MORTE, TEMER-TE?

Como, morte, temer-te?
Não estás aqui comigo, a trabalhar?
Não te toco em meus olhos; não me dizes
que não sabes de nada, que és vazia,
inconsciente e pacífica? Não gozas,
comigo, tudo: glória, solidão,
amor, até tuas entranhas?
Não me estás a sustentar,
morte, de pé, a vida?
Não te levo e trago, cego,
como teu guia? Não repetes
com tua boca passiva
o que quero que digas? Não suportas,
escrava, a gentileza com que te obrigo?

in "La Muerte"
Tradução: José Bento


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

MARCEL THlRY - Ciclo




MARCEL THlRY
(Bélgica,1897 – 1977)

Poeta

Tentou trazer para a poesia todo o mundo moderno da velocidade, das conquistas da física, e até do banco e da bolsa, dando-lhes uma realidade por assim dizer metafísica, extremamente original.
O poema que segue faz parte dum volume publicado em 1950, Ages, que contém alguns poemas admiráveis (Prose dans Paris sombré), entre outros. Mostra-nos que o poeta dos algarismos, do automóvel e do átomo não perdeu o sentido cósmico da natureza.


CICLO

A neve, irmã tardia dos trigos mortos,
Desce do céu, de encontro às antigas searas.
Cresce nos campos do céu sem papoilas nem joio
E vai de encontro às gabelas recolhidas.

Vens tarde, irmã inversa; já morremos.
Todo o verão erguemos as nossas túmidas espigas,
Ofertando-te o nosso oiro em grandes desejos sonoros;
Depois, foi o lúgubre dobrar das foices que se afiam.

E tu, surda ao nosso encapelar, e cega,
Encantada no mais alto das alturas etéreas,
Adormecida noiva que acordou viúva,
Lanças agora os teus gélidos grãos à terra.

Tarde de mais; estende-te na eira onde vens atrasada
Para juntares aos nossos caules os teus,
E cobre de tristeza o grão futuro
Que tenderá todo o verão para outras surdas neves.



Tradução e Nota de ANDRÉE CRABBÉ ROCHA



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

ANTÓNIO NOBRE - Enterro de Ofélia


ANTÓNIO NOBRE
(Porto, Portugal, 1867 -Foz do Douro, 1900)

Poeta

ENTERRO DE OFÉLIA

Morreu. Vai a dormir, vai a sonhar... Deixá-la!
(Falai baixinho: agora mesmo se ficou...)
Como Padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ela se afogou.

Toda de branco vai, nesse hábito de opala
Para um convento: não o que Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, horror! que tem por nome Vala,
De onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!

O doce Pôr-do-Sol, que era doido por ela,
Que a perseguia sempre, em palácio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...

Como damas de honor, Ninfas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no Céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ela vai desfiando as suas contas, Astros!