segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ARMANDINHO - Guitarrista

 
 
 
ARMANDINHO
(Lisboa, Portugal, 1891 - 1946)

 GUITARRISTA

Armandinho, apresentou-se pela primeira vez em público em 1905, com apenas 14 anos, no velho Teatro das Trinas, na Madragoa. Mas a sua estreia como guitarrista profissional tem lugar no Olímpia Club, situado na Rua dos Condes, acompanhado à viola por João da Mata Gonçalves.

Em 1925 acompanha cantadores e cantadeiras no Solar da Alegria, local de culto dos amantes do Fado que, amiúde, ali se deslocam para se deliciarem com as "improvisações" de Armandinho ou para ouvi-lo interpretar as composições do seu Mestre, Luís Petrolino.

Em 1926 faz a primeira gravação em Portugal em microfone de bobine eléctrica móvel. Grava seis composições, acompanhado na viola por Georgino de Sousa.

Armandinho foi dos primeiros a realizar digressões artísticas fora do continente português.

Músico autodidacta, toca de ouvido e, para além de um excelente executante, é também compositor de grandes melodias. Autor de muitos Fados e variações que sobrevivem até aos dias de hoje criou temas que se tornaram "clássicos", casos de "Fado Armandinho",  "Fado do Bacalhau", "Fado Mayer", "Fado Estoril", "Variações em Ré Menor", "Fado Fontalva", entre muitos outros.

São inúmeras as vozes fadistas que acompanhou quer em actuações em espectáculos e casas de fado quer em gravações discográficas.

Armandinho actuou nas mais emblemáticas casa de Fado de Lisboa.

As suas interpretações são suaves e subtis, incluem pianinhos que retirava da guitarra tocando com as suas próprias unhas e, para determinados efeitos tímbricos, recurso à surdina. Armandinho revelou-se um marco na execução da guitarra portuguesa, criando "escola" onde se filiaram outros grandes nomes como José Marques Piscalareta, Carvalhinho, José Nunes, Jaime Santos, Raul Nery ou Fontes Rocha, entre outros.

As suas interpretações tinham tal força que inspiraram ao poeta Silva Tavares as seguintes quadras:

 “A guitarra - alma da raça,
Amante do meu carinho,
Tem mais perfume e desgraça
Nas mãos do nosso Armandinho.


Benditos os dedos seus
Que arrancam assim gemidos
Tal como se a voz de Deus
Falasse aos nossos ouvidos.”

 ***
Palavras de Armandinho

A terceira «tournée» em que entrei, porventura a mais importante, já pelo número de artistas, já pelo reportório, foi ao Brasil, Argentina e Uruguai. Era a Embaixada do Fado, embaixada luzidia em que figuravam, além da minha humilde pessoa, Maria do Carmo, Maria do Carmo Torres, Lina Duval, Branca Saldanha, José dos Santos Moreira, Alberto Reis, Felipe Pinto, Joaquim Pimentel e Eugénio Salvador."

 
in “Museu do Fado” (excertos)

 

domingo, 24 de setembro de 2017

CASTRO ALVES - A cruz da estrada

 
 
 
CASTRO ALVES
(Bahia, Brasil, 1847 - 1871)

 Poeta

 A CRUZ DA ESTRADA

 
Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.

 
Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.

 
É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

 
Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.

Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.
 
Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.


Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.


 

 


 


sábado, 23 de setembro de 2017

IRENE LISBOA - Jeito de escrever

 
 
 
IRENE LISBOA
(Casal da Murzinheira, Portugal, 1892 – Lisboa, 1958)

Pedagoga, escritora e poetisa

Professora primária, especializou-se em questões pedagógicas na Bélgica, em França e na Suiça.
Na Seara Nova publicou uma série de estudos, depois reunidos em  Inquérito ao Livro em Portugal, 1945-1946, em dois volumes.
Como ficcionista estreou-se em Treze Cantarelos, 1926.
No campo da poesia surgiu com Um Dia e Outro Dia, Outono, Havias de Vir e Folhas Volantes.
Publicou poemas, contos, crónicas e diários.
 

in “Grande Livro dos Portugueses”

***

Palavras de Irene Lisboa
“Peguei nesta pena e olhei para esta folha de papel tão grande que me parece que jamais terei com que a encher… e veio-me um desejo infantil de me livrar de mim mesma, de me esquecer de como vivo e de como sou, de deixar de me sentir o meu eterno centro e periferia… É uma desejo de ruptura de certa coisa permanente, invisível, em mim; de um estado moral nefasto.”
 
***
JEITO DE ESCREVER

 
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.

Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.

Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!

E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro! Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...

Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.

Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.


in “Antologia Poética”



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ALBERT CAMUS – O Mito de Sísifo

 
 
 
ALBERT CAMUS
(Mondovi, Argélia, 1913 – Villeblevin, França, 1960)
 
Escritor, dramaturgo e filósofo
 
O MITO DE SÍSIFO
 
 
Sísifo, rei da Tessália e de Enarete, era o filho de Éolo. Fundador da cidade de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto, e também dos jogos de Ístmia (ou Ístmicos). Sísifo tinha a reputação de ser o mais habilidoso e esperto dos homens e por esta razão dizia-se que era pai de Ulisses.
 
Sísifo despertou a ira de Zeus quando contou ao deus dos rios, Asopo, que Zeus tinha sequestrado a sua filha Egina. Zeus mandou o deus da morte, Tanatos, perseguir Sísifo, mas este conseguiu enganá-lo e prender Tanatos. A prisão de Tanatos impedia que os mortos pudessem alcançar o Reino das Trevas, tendo sido necessário que fosse libertado por Ares. Foi então que Sísifo, não podendo escapar ao seu destino de morte, instruiu a sua mulher a não lhe prestar exéquias fúnebres.
 
Quando chegou ao mundo dos mortos, queixou-se a Hades, soberano do reino das sombras, da negligência da sua mulher e pediu-lhe para voltar ao mundo dos vivos apenas por um curto período, para a castigar. Hades deu-lhe permissão para regressar, mas quando Sísifo voltou ao mundo dos vivos, não quis mais voltar ao mundo dos mortos. Hermes, o deus mensageiro e condutor das almas para o Além, decidiu então castigá-lo pessoalmente, infligindo-lhe um duro castigo, pior do que a morte.
 
Sísifo foi condenado para todo o sempre a empurrar uma pedra até ao cimo de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Este processo seria sempre repetido até à eternidade.
 
 
in “Infopédia”
 
 

 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PALAU DE LA MÚSICA CATALANA

 
 
 
 
PALAU DE LA MÚSICA CATALANA

Construído entre 1905 e 1908 pelo arquitecto Lluís Domènech i Montaner, o Palau de la Música Catalana constitui um património simbólico e sentimental de todo um povo que se identifica com a sua história.
A Sala de Concertos – uma das mais singulares do mundo – foi durante mais de um século o privilegiado cenário da vida concertística, nacional e internacional da cidade de Barcelona. Esta joia arquitectónica do Modernismo catalão é a única sala de concertos modernista declarada Património Mundial pela UNESCO (4 de Dezembro de 1997).

A Fundação Orfeão Catalã – Palau de la Música é a única gestora desde Janeiro de 2012.

 
in “Palau de la Música Catalana”

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

NATHALIE SARRAUTE - Escritora

 

 
NATHALIE SARRAUTE
(Ivanovo, Rússia, 1900 – França,1999)
 
Escritora

Bastante cedo foi para França, tendo-se diplomado em Letras e Direito, em Paris. Frequentou também a Universidade de Oxónia.
É considerada mestre do novo romance e pertence ao grupo da Nouvelle Revue Française. É  uma ficcionista e romancista desconcertante, tendo partido do romance psicológico em que predomina o monólogo para o romance de tipo satírico e iconoclasta.
 
As suas obras estão traduzidas em várias línguas, incluindo a portuguesa.
Alguns dos seus livros: Tropismos, Retrato de um Desconhecido, Os Frutos de Ouro, Dizem os Imbecis, A Era da Suspeita, O Silêncio, Para um Sim ou para um Não.

 
in “Dicionário de Mulheres Célebres”
 
***
Palavras de Nathalie Sarraute
“Não se pode escrever para todos os leitores. Um poeta não pode escrever para quem não gosta de poesia.”
 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

PEDRO NUNES - Matemático

 
 
 
PEDRO NUNES
(Alcácer do Sal, Portugal, 1502 - Coimbra, 1578)

Matemático

Pedro Nunes era de ascendência judaica e fez os seus estudos em artes, medicina e matemática, de 1520 a 1526, ano em que se tornou bacharel. Pensa-se que, posteriormente, terá frequentado a Universidade de Alcalá de Henares.
Já em Lisboa, foi nomeado, por alvará régio de 16 de Novembro de 1529, cosmógrafo do reino, sendo então admitido, através de concurso para a Universidade de Lisboa (4 de Dezembro de 1529) para leccionar filosofia  moral, vindo posteriormente a assegurar também as cadeiras de lógica e metafísica.
Pedro Nunes foi, sem dúvida, um competente mestre e um dos grandes expoentes da ciência portuguesa do século XVI.
Publicou numerosas obras, como o Tratado da Sphera(1537), De Crepusculis (Lisboa, 1542) e De Arte Navigandi libri duo, entre outros. Foi contudo a obra De Crepusculis, onde descreve a sua descoberta — o nónio, aparelho utilizado para medir fracções de grau no astrolábio — a que lhe valeu maior êxito.
"O século XVI pode ser chamado, na história da Matemática Ibérica, o século de Pedro Nunes. Portugal teve neste século a hegemonia das Matemáticas na nossa Península, não porque Pedro Nunes por si só vale por muitos. Nos variados ramos da referida ciência de que tratou, nenhum outro matemático português o igualou."

 
in “Panegíricos e Conferências” de Francisco Gomes Teixeira ( Armamar, Portugal, 1851 - Porto, 1933), matemático.

 

 

 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

MARTHA GRAHAM - A mulher que revolucionou a dança

 
 
 
MARTHA GRAHAM
(Pensilvânia, EUA, 1894 –Nova Iorque, 1991)

 Dançarina e coreógrafa

Doutora «honoris causa» pelo Hills College e pela Universidade de Harvard.
Inventora duma linguagem plástica da dança que acabou por dominar genialmente.
Fundadora e expoente máximo da chamada moderna dança norte-americana.
 
Formou companhia e com ela correu todo o mundo.
Em Abril de 1967, deu dois espectáculos, um no Teatro Nacional de S. Carlos e outro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, onde apresentou o seu moderno corpo de baile, que teve estrondos êxito.
 
Vinha de fazer uma digressão artística à Europa e tinha actuado em Londres, no Saville, durante mais de três semanas de enchentes.
 
Entre as muitas cenografias que este corpo de bailado apresentou no seu reportório, há várias das suas criações coreográficas. Assinalem-se: Poemas de 1917 e Imediaty Tragedie, entre outros.
 
Há vários livros acerca de Martha Graham e do movimento vanguardista da sua dança.

 

in “Dicionário de Mulheres Célebres”   

 ***
Palavras de Martha Graham
“Não aguento mais dançar divindades hindus ou ritos astecas. Quero tratar dos problemas actuais."

 


domingo, 17 de setembro de 2017

O ARTISTA PERANTE O ESTADO

 
 
 
O ARTISTA PERANTE O ESTADO

Em Abril de 1947, um tribunal americano declara «desnazificado» o compositor e director de orquestra alemão Wilhelm Furtwängler, requisito imprescindível para que lhe seja permitido iniciar a carreira.
Idêntico processo tiveram de seguir numerosas figuras da cena musical alemã, como o também director Herbert von Karajan, «desnazificado» e, 1945, o eminente compositor Richard Strauss, que o foi em 1948.
 
O caso de Furtwängler, no entanto, faz duvidar da legitimidade de processos desta índole. Embora seja certo que renunciou ao exílio e continuou a desempenhar as suas funções artísticas durante todo o conflito bélico, a sua atitude foi sempre claramente antinazi (negou-se sempre a efectuar a saudação obrigatória, de mão estendida, em qualquer dos seus aparecimentos públicos) e ajudou mesmo  a fugir do país  numerosos artistas e intelectuais, com grave risco para a sua própria segurança pessoal.
 
Poucas vezes na história se deu um caso tão indiscutível de um artista que nas circunstâncias do seu tempo tenha sido colocado perante o difícil dilema de apoiar a sua arte e a sua pátria contra as instituições que controlam uma e governam a outra.
 
in “Crónica da Música”
***
Imagem: ilustração da capa do catálogo da exposição de Música degenerada de 1938.

O catálogo da exposição de Música degenerada deixa clara a questão. Elaborada pelo diretor do Teatro Nacional de Weimar, Hans Severus Ziegler, o catálogo é um verdadeiro ataque grosseiro e aleatório a algumas tendências e indivíduos, tornando-se um documento revelador do vazio intelectual e do discurso ensandecido e violento dos nazistas. A própria capa da exposição revela o tamanho da brutalidade. Nela podemos observar um saxofonista negro portando na lapela uma estrela de Davi, simbolizando em uma só imagem algumas das principais vítimas dos ataques nazistas: o judeu, o negro e, enquanto música, o jazz.

in ”Música e Sociedade” (excerto)

sábado, 16 de setembro de 2017

CAROLINE HERSCHEL - Astrónoma

 
 
 
CAROLINE HERSCHEL
(Hanôver, Alemanha,1750 - 1848)

 Astrónoma

Em 1772 juntou-se a seu irmão, Sir Guilherme Herschel, astrónomo, criador da astronomia estelar, dedicando-se, com ele, a estudos da astronomia.
Descobriu sete cometas (1786 a 1797).

Foi nomeada astrónoma-assistente da corte inglesa de Jorge III.
Em 1875, foi publicado, em Londres, um volume autobiográfico: Memoir and Correspondence of Caroline Herschel.

 

in “Dicionário de Mulheres Famosas”

 ***
Em 1968, a poetisa e feminista Adrienne Rich  (EUA, 1929 – 2012) publicou, em homenagem à vida e à contribuição de Caroline Herschel para a ciência, um poema intitulado Planetarium.

***
Palavras de Caroline Herschel
“Assim como necessitamos de prosperidade económica, também necessitamos de prosperidade no comportamento e na decência.”

 


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

PAIXÃO PELOS RITUAIS

 
 

 
PAIXÃO PELOS RITUAIS

Natália Correia bate-se pela recuperação do sagrado, do politeísmo, do feminismo, do barroco, do diferente, e pelo repúdio da crucificação, do consumismo, do descontrolo demográfico, da arrogância  indiferenciadora.
 
«Como atingir a paz com os olhos postos num só deus, se as guerras são fornecidas pela nossa fé na vitória sobre a fé dos outros?» interrogava-se.

Os grandes mitos portugueses encontraram nela uma celebrante incomum: o mito do Andrógino (o ser completo, uno e plural), do Desejado (o que contém a resistência, não a desistência), de Pedro e Inês (a paixão, a volúpia pela morte), da Ilha (o espaço da esfinge, da iniciação), do Espírito Santo (metáfora de um socialismo de raiz portuguesa), a todos dedicando obras próprias, reformuladas à dimensão do futuro.

 As causas, as pessoas do coração e do sonho, e da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação. Sabia indignar-se com grandeza – e indignar os outros à sua altura.

Muitas vezes perdia a cabeça connosco e nós com ela. Sufocava-nos. Muitas vezes apetecia-nos fugir. Não aguentávamos a sua lucidez, a sua exigência, o seu empenhamento, a sua implacabilidade. Muitas vezes tentámos matá-la em nós para sermos nós – até isso nos ajudou. Era uma mulher inigualável. Nos caprichos, nos excessos, nas iras, nas premonições, nos exibicionismos, na sedução, na coragem, na esperança. Cantava, dançava, declamava, improvisava, discursava, polemizava como poucos entre nós alguma vez o fizeram, o somaram.

 
FERNANDO DACOSTA (Caxito, Angola, 1945), romancista, dramaturgo e jornalista, in “O Botequim daLiberdade”

NATÁLIA CORREIA (Fajã de Baixo, São Miguel, Açores, Portugal, 1923 — Lisboa, 1993), poetisa, escritora, política, figura marcante da cultura e da literatura portuguesas contemporâneas.

Imagem: Natália Correia - escultura esculpida em pedra vulcânica dos Açores – Parque dos Poetas – Oeiras – Portugal.

 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ALBERTO CARNEIRO - Escultor

 
 
 
ALBERTO CARNEIRO
(São Mamede do Coronado, Portugal, 1937 – Porto, 2017)

 
Escultor e professor

Estreou-se a expor ainda nos tempos de estudante: colectivamente, em 1963; a título individual, em 1967, na ESBAP.

A sua atividade artística teve início na década de setenta. Foi professor de Escultura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (1972-1976), assumiu a direção pedagógica e artística do Círculo de Artes Plásticas da Universidade de Coimbra (1972-1985) e lecionou na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (1985-1994).   

É autor e co-autor de textos e livros sobre Arte e Pedagogia e participou em cursos, debates e seminários sobre Arte e dinâmica corporal.

Dedicou-se, também, ao estudo da Psicologia Profunda, do Zen, do Tantra e do Tao, matérias sobre as quais lecionou cursos, proferiu conferências e escreveu. Recebeu a influência da "poética da matéria", do filósofo e ensaísta francês Gaston Bachelard (1884-1962).

Foi o grande impulsionador da criação do Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso (MIEC), do qual foi director artístico nacional. Criado oficialmente a 20 de Outubro de 1996, o Museu tem por base o espólio recebido dos simpósios internacionais de escultura contemporânea ao ar livre, realizados em Santo Tirso desde 1991.
 
 
in “Universidade do Porto” (excertos)


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

ANATOLE FRANCE - A morte de uma libélula

 


ANATOLE FRANCE
(Paris, França, 1844 - Saint-Cyr-sur-Loire, 1924)

Escritor e poeta

Publicou o seu primeiro livro, Alfred de Vigny, em 1868. A sua produção literária é vasta e fecunda, especialmente entre 1876 e 1890, período durante o qual desempenhou funções como assistente na biblioteca do Senado e publicou o seu primeiro volume de poemas, instigado por Leconte de Lisle, Les Poémes Dorés (1873).
 
De facto, apesar de ser mais conhecido enquanto romancista, experimentou quase todos os géneros literários. Em 1881, e por Le Crime de Sylvestre Bonnard, recebeu o prémio da Académie Française, da qual se tornaria membro em 1896. Em 1890, já era France crítico literário no jornal Le Temps, surge Thaïs, a «história de uma pecadora salva por um eremita condenado», que conheceu um sucesso singular e a partir da qual, quatro anos mais tarde, Massenet compôs a ópera com o mesmo nome.
 
Nos últimos anos de vida, interessou-se cada vez mais pelas questões políticas e sociais, unindo a sua voz, em protesto, à de Émile Zola contra o veredicto do caso Dreyfus (1896), por exemplo, e escrevendo os quatro volumes (1897-1901) da Histoire Contemporaine, um retrato da Belle Époque.
 
Em 1921, apenas três anos antes de morrer, recebe o Prémio Nobel da Literatura, cujo discurso de apresentação o exortava nestes termos: «Hoje, quando, neste nosso velho país germânico, concedemos o prémio internacional dos poetas a este mestre gaulês, seguidor fiel da verdade e da beleza, herdeiro do humanismo, da linhagem de Rabelais, Montaigne, Voltaire, Renan, lembramo-nos das palavras que ele um dia disse aos pés da estátua de Renan – a sua profissão de fé fica assim completa: ‘De forma lenta mas segura, a humanidade realiza os sonhos dos sábios.’»

 
in “Antígona”

***

Palavras de Anatole France
“O dinheiro é um dos fins para se viver feliz: os homens transformaram-no no único fim.”

***
A MORTE DE UMA LIBÉLULA

Certa vez, vi essas esbeltas mocinhas,
Como as chamamos, orgulho das águas calmas,
Deliciando-se no ar puro do brilho de suas asas
Evadirem-se e se  procurarem por sobre os caniços.
 
Uma criança, o olho afogueado, veio até ao vaso,
E, através dos íris uma rede verde, estender
Sobre uma libélula e a rede de gaze
Impedir do inseto surpreendido o voo.

Foi, por um alfinete espetado, o fino corpinho verde;
Porém, a frágil criatura ferida, com um enorme esforço,
Alento recobrou e, alçando voo, estridente singrou,
Em direção aos juncos, levando o alfinete e a morte.

Sobre uma cortiça infame, não lhe convinha,
Aos olhos dos escolares, a beleza exibir:
Abriu, então, pra morrer, as quatro asas de chama
E, nos juncos familiares, o corpo secou.


Tradução: Cunha e Silva Filho

terça-feira, 12 de setembro de 2017

OS AMIGOS E A BAILARINA

 

 
OS AMIGOS E A BAILARINA

Eram dois amigos inseparáveis. Conheciam-se desde criança e mantinham laços indestrutíveis de amizade e carinho. Certo dia conheceram juntos uma bailarina. Que mulher aquela! Não só era amável como lindíssima e cativante. Nunca tinham visto uns olhos tão expressivos e de uma tão apelativa cor de âmbar como os dela. Chegara numa caravana. Quando os amigos a viram rodopiar à sua frente com a flexibilidade de um lírio e a energia duma torrente, apaixonaram-se de imediato por aquela jovem fascinante. Os dois amavam-na e estavam encantados com a jovem. Ela entregava-se a ambos com a mesma ternura e paixão. Passaram semanas e, um dia, um dos amigos disse ao outro:

- Vivo atormentado pela ideia de um dia podermos ficar sem ela.
- Mais cedo ou mais tarde, todos ficaremos sem tudo aquilo que temos – repôs com serenidade o outro amigo.

Passaram-se meses. Os amigos mantinham uma relação perfeita com a sugestiva bailarina. Aos amanheceres sucediam-se os entardeceres. Numa luminosa manhã estival, a mulher disse aos jovens que recebera um telegrama a anunciar-lhe que tinha trabalho como bailarina noutro país, e que devia partir para poder continuar a dançar para outras gentes. Fundiu-se num abraço de despedida cálido e afectuoso com os jovens apaixonados. Após a despedida, a bailarina partiu. Então, um dos amigos disse:

- Reparaste? Vivia atormentado porque um dia podíamos perdê-la, e assim aconteceu. Agora estou verdadeiramente desolado. Que sentido tem a minha vida? Não, não conseguirei viver sem ela. E tu, como te sentes?

O amigo respondeu com serenidade:
- Eu? Óptimo, muito bem.
- Mas como é possível? Acabas de perder uma mulher maravilhosa.

- Pensa um pouco comigo. Antes de ela ter aparecido na minha vida, eu sentia-me muito bem. Ela foi um belo presente do destino. Veio e desfrutei-a intensamente a cada instante. Enquanto esteve cá, nem por um momento, um só que fosse, deixei de senti-la e vivê-la no mais profundo de mim. Ela partiu e eu continuo a estar como estava antes que ela chegasse, ou seja, muito bem. Bem estava antes que chegasse, bem enquanto ela esteve aqui, e bem estou agora que partiu. Se estou bem comigo mesmo, poderia ser de alguma outra maneira? O destino trouxe-a; o destino levou-a. E eu sinto-me muito bem.
 
*
Quando tivermos superado as nossas carências emocionais e os nossos vazios de solidão e estivermos completos em nós mesmos, não criaremos laços de dependência, e poderemos desfrutar intensamente da relação de afecto sem estarmos subjugados e, ao mesmo tempo, sentindo-nos equilibrados e em harmonia.
 

in “Os melhores contos espirituais do Oriente” – Ramiro Valle
Imagem: pintura de Robert Heindel (USA, 1938 - 2005)