quarta-feira, 22 de julho de 2015

Este Não-Futuro que a Gente Vive

 
 
 
 
 

Al Berto (Coimbra, Portugal, 1948 – Lisboa, Portugal, 1997).

Poeta, pintor e editor.

 

 Este Não-Futuro que a Gente Vive

 

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça.
Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...)
Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada…
De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.

 

Al Berto, in "Entrevista à revista Ler "

Imagem: pintura de John Randall Bratby (Inglaterra, 1928 – 1992).

 

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