quarta-feira, 5 de junho de 2019

SOPA DE PATO



SOPA DE PATO


Um conterrâneo de Nasrudin veio do interior visitá-lo e trouxe-lhe um pato. Muito grato pelo presente, Nasrudin cozinhou a ave e compartilhou-a com sua visita. Não tardou para que chegasse outra visita. Era um amigo, conforme disse, “do homem que lhe dera o pato”. Nasrudin igualmente recebeu-o e deu-lhe de comer. Isso aconteceu várias vezes. 

A casa de Nasrudin tornou-se uma espécie de restaurante para visitantes de fora da cidade. Todo mundo era, em algum grau, amigo daquele primeiro sujeito que havia presenteado o pato. Finalmente, Nasrudin esquentou-se. Um dia, um estranho bate-lhe à porta:

- Sou amigo do amigo do amigo do homem que lhe deu o pato – disse.

- Entre – disse Nasrudin.

Sentaram-se à mesa e Nasrudin pediu à sua mulher que trouxesse a sopa. Assim que o visitante deu o primeiro gole, pareceu-lhe estar tomando nada além de água quente.

- Que tipo de sopa é esta? – perguntou ao mulá.

- Esta – respondeu Nasrudin – é a sopa da sopa da sopa do pato.





in “Parábolas e Contos de Nasrudin” – organizado por Alexander Rangel.

 





terça-feira, 4 de junho de 2019

EDUARDA CHIOTE – Fica comigo




EDUARDA CHIOTE
(Bragança, Portugal, 1930)
Escritora, poetisa

***
FICA COMIGO

Mãe,
arqueia os joelhos
para que o crepúsculo do medo
possa ceder ao berço
onde repouse.
E não me toques. Não me toques,
não me beijes.
Deixa-me permanecer aninhado no vazio
qual bicho de
sono.
Não me despertes.
Mãe, sou um menino de leite.
Apaga o seio.
Fica comigo: a noite
começa.







segunda-feira, 3 de junho de 2019

ARY DOS SANTOS – Retrato de Frederico Garcia Lorca


ARY DOS SANTOS

(Lisboa, Portugal, 1937 – 1984)
Poeta, declamador, publicitário
   
 *** 
RETRATO DE FREDERICO GARCIA LORCA

Aperta   a porca  Lorca   aperta a porca
(se não tomas cuidado cais no charco)
corpo andaluz  mas de polícia à porta
morto sem culpa  mas também sem garbo.

Quem mandou Frederico que chamasses
à tua Andaluzia a ciganice
dos limões  dos toureiros  dos trespasses
de Inácio Sanchez à las cinco? (E disse).

Gostavas era de homens  meu panasca
de  toiros  de machões  de macarenas
de animais quase à morte  quase à rasca
de corintos e balas nas arenas.

Mataram-te por isso  ou por engano.
Não te iludas Garcia  o mal não erra
ou pensavas haver sangue cigano
na chaga duma Espanha aberta em guerra?


in “Obra Poética”    



domingo, 2 de junho de 2019

AS CRIANÇAS DURANTE O HOLOCAUSTO (II)





AS CRIANÇAS DURANTE O HOLOCAUSTO (II)

 (continuação)


O destino das crianças, judias e não-judias, pode ser classificado da seguinte maneira:

1 - Crianças assassinadas assim que chegavam aos campos de extermínio;
2 - Crianças mortas assim que nasciam ou mortas nas instituições onde viviam;
3 - Crianças que nasciam nos guetos e campos, mas que sobreviviam porque os prisioneiros as escondiam;
4 - Crianças, normalmente maiores de 12 anos, que eram usadas como escravas ou em experiências “médicas”;
5 - Crianças que morriam devido às represálias nazistas nas chamadas operações anti-partisans.

Nos guetos, as crianças judias morriam de inanição e por exposição aos elementos.

(continua)



in “Holocaust Encyclopedia”
Imagem: Crianças à espera da execução pelo Einsatzgruppen - Unidade móvel de Extermínio.




sábado, 1 de junho de 2019

OLAVO BILAC - Junho



OLAVO BILAC
(Rio de Janeiro, Brasil, 1865 -1918)
Poeta, contista, cronista, jornalista

***
Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!


JUNHO:

Em chamas alviçareiras,
Ardem, crepitam fogueiras…
— E os balões de São João
Vão luzir, entre
as neblinas,
Como estrelas pequeninas,
Entre as outras, na amplidão.
Não há casinha modesta
Que não se atavie, em festa,
Nestas noites, a brilhar:
Não se recordam tristezas…
Estalam bichas chinesas,
Estouram foguetes no ar.
Fogos alegres, pistolas,
Bombas! ao som das violas,
Ardei! cantai! crepitai!
Num largo e claro sorriso,
Seja a terra um paraíso!
Folgai, crianças, folgai!

Coro de crianças:

Aí vem Julho, o mês do frio…
Vamos os corpos aquecer,
Acelerando o rodopio…
— Pode outro mês aparecer!



MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...