terça-feira, 27 de agosto de 2019

NUNO JÚDICE – Acordo Ortográfico




NUNO JÚDICE
(Portimão, Portugal, 1949)
Poeta, ensaísta, professor
                                     
***

ACORDO ORTOGRÁFICO



Gosto do teu rosto exacto,
com o cê bem desenhado,
mesmo quando não se vê,
para te pôr, como laço
nos cabelos, o circunflexo
em que nenhum traço há-de
sair, mesmo que um pacto
sem cê nem concessão te
roube o pê nessa pose
de pura concepção.




segunda-feira, 26 de agosto de 2019

PEDRO HOMEM DE MELLO - Fuga



                           PEDRO HOMEM DE MELLO
(Porto, Portugal, 1904 - 1984)
Poeta, folclorista, professor

***

FUGA

O músico procura
Fixar em cada verso
O cântico disperso
Na luz, na água e no vento.

Porém, luz, vento e água
Variam riso e mágoa,
De momento a momento.

E em vão a área dos dedos
Se eleva! Não traduz
Os súbitos segredos
Escondidos no vento,
Nas águas e na luz...

 



domingo, 25 de agosto de 2019

O DIA-A-DIA DAS CRIANÇAS ESCONDIDAS (V)




O DIA-A-DIA DAS CRIANÇAS ESCONDIDAS (V)

(continuação)


Quando os judeus eram forçados a se mudar para guetos, ou eram deportados para campos de concentração, os nazistas os privavam da maioria de seus pertences, limitando drasticamente a quantidade de objectos que poderiam levar consigo. Mesmo depois de já presos, os nazistas restringiam o fluxo de quaisquer coisas que pudessem chegar às mãos dos judeus (fossem elas enviadas pelas famílias no exterior ou por organizações de caridade).

A mudança das crianças que foram escondidas tinha que ser feita de forma rápida e discreta e, por isto, elas eram obrigadas a deixar para trás os poucos pertences que porventura tivessem. 

A maioria levava consigo pouco mais do que umas poucas roupas. Devido à escassez provocada pela Guerra, era difícil conseguir roupas novas, por isso, as famílias e as organizações que as recebiam as vestiam com roupas usadas ou feitas de retalhos.

(FIM)


in “Holocaust Encyclopedia”
Imagem: Crianças escondidas num gueto
 





sábado, 24 de agosto de 2019

MARIO VARGAS LLOSA – Poema para exorcista




MARIO VARGAS LLOSA
(Arequipa, Peru, 1936)
Escritor, ensaísta

***

POEMA PARA EXORCISTA

A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.


Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras – cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão – trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.

Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.

Mas os combates nocturnos

deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afecto e de amizade.




sexta-feira, 23 de agosto de 2019

MBOOM, O CRIADOR DO UNIVERSO



MBOOM, O CRIADOR DO UNIVERSO
(Congo)


No princípio dos tempos, Mboom, um enorme ser branco, reinava sobre as águas e as trevas primordiais.

Mboom, tomado de cólicas muito dolorosas, pôs-se a vomitar o sol, a lua e as estrelas. Sob a acção do sol, as águas começaram a evaporar.

Mboom vomitou em seguida nove animais, o raio, e, depois, os antepassados da humanidade.

Mboom estava estreitamente unido a um duplo de si mesmo, Ngaan. Mas estes dois reis do universo lutaram entre si por causa de uma mulher.

Mboom retirou-se para o céu, enquanto que Ngaan continuou a reinar sobre a terra e sobre as águas.




Tradução: Manuel João Ramos




quinta-feira, 22 de agosto de 2019

ISABEL WOLMAR – A Televisão (I)




ISABEL WOLMAR
(Lisboa, Portugal, 21 de Março, 1933 – 21 de Julho, 2019)
Locutora, apresentadora, produtora, repórter, actriz, poetisa, declamadora

***
                                 
A TELEVISÃO (I)


«O Rui Ferrão já colaborava com a minha família nas emissões infantis da Emissora Nacional e foi ele que me levou para a televisão para participar numa peça que ele ia realizar, A Carochinha e o João Ratão. Foi a primeira emissão de Teatro televisivo infantil que houve em Portugal, adaptada por Noel de Arriaga, com música do meu pai. Eu fazia de Carochinha e o Rui Luiz era o João Ratão.

A partir daí interpretei várias peças na TV: A Sapateira Prodigiosa, com Amália Rodrigues e Barreto Poeira; em O Ídolo de Ouro protagonizei um par romântico com Carlos José Teixeira; e participei em muitos programas infantis.


*

Devo muito na televisão ao Fernando Pessa, ao Luís Andrade e ao seu irmão, Vítor Manuel.

Fernando Pessa foi um mestre e um grande amigo. Aprendi com ele a fazer ´cabine`. Eu estava habituada ao teatro radiofónico, a saber dizer, a falar, a respirar, porque tinha tido essa educação, sobretudo do Manuel Lereno, mas o Fernando Pessa ensinou-me a fazer reportagem, por exemplo.

Depois, quando passei para a produção e nada sabia daquele mundo, o Vítor Manuel, que já tinha feito filmes, veio ter comigo: «eu já percebi que você gosta e quer aprender, mas não sabe como. Eu mostro-lhe.» Ele e o Luís Andrade foram pessoas que viram que eu gostava de aprender e ensinaram-me. E eu, na televisão, fiz tudo.
Até varri o chão! 

*

E só posso dizer que estava escrito que a minha sina era mesmo a TV, porque no dia em que assinei o contrato, cheguei a casa e tinha um recado: o Raul de Carvalho tinha telefonado para me dizer que a Dona Amélia Rey Colaço tinha um papel para mim. para interpretar a protagonista de Miss Julie, de Strindberg! 

Estava fora de questão eu aceitar, porque o contrato com a televisão obrigava-nos à exclusividade. Ora, bastava aquele telefonema ter sido meia hora mais cedo e hoje podia ser actriz. Por isso costumo dizer que houve uma mão divina que me levou para a televisão. E por muito que eu quisesse o teatro, quando faço uma coisa, tenho que a fazer bem feita.
E fiz boa televisão.»






in “A Vida com um Sorriso” – Patrícia Costa Dias (excertos)


JUDITE TEIXEIRA - A Bailarina Vermelha




JUDITE TEIXEIRA
(Viseu, Portugal, 1880 - Lisboa, 1959)
Escritora, poetisa
                                    
***
Judite Teixeira representa um caso singular na história literária em Portugal não só pelo escândalo suscitado aquando a condenação e apreensão da sua colectânea poética de 1923, Decadência, mas também pelo injusto esquecimento da sua contribuição literária, especialmente no discurso modernista das letras portuguesas. 

No entanto, como observou um dos poucos críticos que soube avaliar objectivamente a sua escrita - o poeta António Manuel Couto Viana - Judite Teixeira poderia ser considerada. dentre as escritoras portuguesas, a "única poetisa modernista". 

René P. Garay


                                         ***


A BAILARINA VERMELHA

Ela passa,
a papoila rubra,
esvoaçando graça,
a sorrir…
Original tentação
de estranho sabor:
a sua boca – romã luzente,
a refulgir!…

As mãos pálidas, esguias,
dolorosas soluçando,
vão recortando
em ritmos de beleza
gestos de ave endoidecida…
Preces, blasfémias,
cálidas estesias
passam delirando!…

Mordendo-lhe o seio
túrgido e perfurante,
delira a flama sangrenta
dos rubis…
E a cinta verga, flexuosa,
na luxuria dominante
dos quadris…

Um jeito mais quebrado no andar…

Um pouco mais de sombra no olhar
bistrado de lilás…

E ela passa
entornando dor,
a agonizar beleza!…
Um sonho de volúpia
que logo se desfaz,
em ruivas gargalhadas
dispersas… desgrenhadas!…

Magoam-se os meus sentidos
num cálido rubor…

E nos seus braços endoidecem
as anilhas d’oiro refulgindo
num feérico clamor!…

E ela passa…

Fulva, esguia, incoerente…
Flor de vício
esvoaçando graça
na noite tempestuosa
do meu olhar!…
Como uma brasa ardente,
e infernal e dolorosa,
… a bailar…

a bailar!…




MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...