segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

GLÓRIA DE SANT´ANNA - Pequeno poema a uma borboleta morta


 
 
 
Glória de Sant´Anna (Lisboa, Portugal, 1925 – Válega, Ovar, Portugal, 2009).

Foi professora, poetisa e conferencista.
Em 1951 partiu para Moçambique e regressou a Portugal, em 1974. Colaborou em diversos jornais de Portugal, Moçambique e Brasil. Na Rádio Clube de Lourenço Marques animou, durante 16 anos, um programa de duas horas com programação cultural.


Palavras de Glória de Sant´Anna:
 
Em Portugal tudo é diferente e terrível, porque se vive em círculos fechados.”
 
 
Pequeno poema a uma borboleta morta
 
 
Pálida
e tam levemente desbotada
tua asa quieta!
 
Brotaste
não sei de que sentimento
trazendo
um vago sonho permanecido
 
Sinto-te
como uma pequena bruma
descolorida ao vento
 
Sem pensamento:
inútil e frágil
no tempo
 
tua atitude inacabada
permanecendo.
 
 
Glória de Sant’Anna, in “Música Ausente”

domingo, 6 de dezembro de 2015

ANTÓNIO REIS - É domingo hoje

 
 
 
 
 
 

António Reis (Valadares, Portugal, 1927 – Lisboa, Portugal, 1991).

Foi poeta, cineasta, pintor e escultor.
O seu primeiro filme, Jaime, filmado durante o ano de 1973, consagra, na opinião da crítica especializada, uma das mais completas encenações poéticas que o cinema português alguma vez conseguiu.


                                                Palavras de António Reis:
“É interessante como as pessoas preferem o prazer momentâneo do que a felicidade duradoura.”

 
 
É domingo hoje

 
É domingo hoje
mas nós não saímos

é o único dia
que não repetimos

e que dura menos

Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa

não como quem
de ilusão
precisa

Tomaremos chá
leremos um pouco

e iremos à varanda
absortos

António Reis  in, “Novos Poemas Quotidianos
 
 

sábado, 5 de dezembro de 2015

CARLOS QUEIRÓS - Anti-Soneto - Ao Mário Saa

 
 
 
 
 

Carlos Queirós (Lisboa, Portugal, 1907 – Paris, França, 1949).

Crítico literário e de arte, ensaísta e poeta do segundo modernismo português, foi um dos grandes nomes da revista “Presença”.


Anti-Soneto -  Ao Mário Saa

 
O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
- Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.

Carlos Queirós, in “Cadernos de Poesia”

 
 
 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

MÁRIO SAA - Quadras da Minha Vida

 
 
 
 
 
 

Mário Saa (Caldas da Rainha, Portugal, 1893 – Ervedal, Portugal, 1971).
Poeta e escritor, dedicou-se à filosofia, à geografia antiga, à astrologia, à grafologia e à arqueologia.
Publicou na revista “Presença” e colaborou no primeiro número da revista “Tempo Presente”.

 

Quadras da Minha Vida

 
Os ecos nos meus sentidos

Dos meus afectos doentes

São mais longos, mais compridos

Do que rastos de serpentes.

 

Nasci profundo e pegado

A turbilhões de aflição:

Na cara trago estampado

O meu perfil de obsessão.

 

Não creio que possa amar

Nem neste mundo ter jeito

De me encostar a outro leito

Sem desatar a chorar.

 

Enterro os dias e os ais,

Sou uma pilheira de mortos,

Não tenho espaço pra mais!

Que se comam uns aos outros...

 

Mário Saa, in “A Poesia da Presença”

 

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

CRUZEIRO SEIXAS - A tua boca adormeceu

 
 
 
 

Cruzeiro Seixas – (Amadora, Portugal, 1920).

Poeta e pintor é uma das figuras maiores do surrealismo português.
 
 
Palavras de Cruzeiro Seixas:

“Picasso, Pascoaes, Mário de Sá-Carneiro foram geniais. Temos mais figuras geniais. Gente que abriu portas tão admiráveis que não apareceu ainda quem lhe chegue aos calcanhares.”

 

 A tua boca adormeceu

 

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

 

Cruzeiro Seixas, in “Homenagem à realidade”

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

ISABEL MEYRELLES - O Complexo do Armário

 
 
 
 
 
 
Isabel Meyrelles – (Matosinhos, Portugal, 1929).

Escultora e poetisa Surrealista. Vive, desde 1950, em França.

 
 
Palavras de Isabel Meyrelles:

“Conheci a Natália Correia numa festa em casa de amigos. Ela pediu-me que fizesse uma escultura dela nua, pois não o queria pedir a um escultor homem. Acedi ao seu desejo e fiz um nu que nunca mais foi visto, pois o futuro marido, Alfredo Machado, escondeu-o imediatamente. Ficámos amigas durante 30 anos ou mais.”

 
Fonte desta declaração: entrevista concedida pela poetisa a António Cândido Franco – A Ideia.

 

 
O Complexo do Armário

 
Se é infeliz,
insone, angustiado,
cardíaco, dipsomaníaco,
melancólico
ou hipocondríaco,
se anda deprimido
pelo tempo morto dos sonhos
e se acredita
que um na mão
vale mais
que dois a voar,
faça como eu:
arranje um armário.
O meu tem protecção
contra o nevoeiro, as traças,
a amnésia.
possui o tudo-é-d’esgo(s)to,
ar condicional
e muros acolchoados
para cabeças sensíveis.
Previ também
uns ganchos no tecto
para o excedente dos bolsos:
óculos, amores mortos,
sapatos velhos,
casa dos antepassados
e várias outras coisas
de que não direi o nome.
Para as horas de ócio,
escolhi um pedaço de mar,
a biblioteca de Babel,
a praça St. Germain des Prés
às 5 da manhã
e uma florestado Plistoceno
com inúmeros mamutes
e macairódus,
sem esquecer o fundo sonoro ad hoc,
rugidos, uivos
e barridos extremamente típicos.
Muito repousante.
Experimente
e depois diga se gostou.

 

Isabel Meyrelles

 


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ANTÓNIO GOMES LEAL - As aldeias

 
 
 
 
 
 

António Gomes Leal (Lisboa, Portugal, 1848 – 1921).

Foi poeta, jornalista e crítico literário.
A sua poesia oscila entre os três arquétipos literários do final do século XX: romantismo, parnasianismo e simbolismo.
 
                     
                    As aldeias

Eu gosto das aldeias sossegadas,
com seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.

Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...

As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
da agreste solidão das suas ruas.

Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios de que um ninho;
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.

Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.


António Gomes Leal

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...