quinta-feira, 7 de setembro de 2017

ENCICLOPÉDIA DA VIDA DAS MULHERES

 

 
ENCICLOPÉDIA DA VIDA DAS MULHERES

Gyuhapchongseo (Enciclopédia da Vida das Mulheres) é um indispensável manual repleto de conselhos para a dona de casa, escrito por Lady Bingheagak Yi em 1809, o nono ano do governo do Rei Sunjo (reinado de 1800-34) durante a Dinastia Joseon.
Ela cobre cinco tópicos:
Jusaui - fazer molho de soja e pasta de soja, bebidas alcoólicas domésticas, bap (arroz cozido), bolinhos de arroz e pratos secundários servidos com o bap.
Bongimchik - fazer roupas, tingimento, tecelagem manual, bordado, criação do bicho-da-seda, soldar panelas e chaleiras e como fazer fogo.
Sangarak - como arar um campo e como criar gado (cavalos, vacas e galinhas).
Cheongnanggyeol -treinamento para pré-natal, métodos educativos para crianças, métodos de primeiros socorros, medicamentos a serem evitados e modos de limpeza da casa. 
Sulsuryak modos folclóricos de espantar espíritos demoníacos e demônios através de talismâs e encantamentos.
O livro era um item imprescindível às senhoras da aristocracia.
 

in ”Biblioteca Digital Mundial”

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CASA-MUSEU AFONSO LOPES VIEIRA

 



CASA-MUSEU AFONSO LOPES VIEIRA

A casa onde viveu Afonso Lopes Vieira, e onde escreveu grande parte da sua obra literária, é da autoria do Arquitecto Raul Lino.
O seu recheio consta de vários objectos pessoais, colecção de desenhos e diversas obras de arte.
No seu espólio estão também diversas obras de poesia, teatro e romance do autor.
Depois da morte de Afonso Lopes Vieira, em 1946, a casa foi entregue à Câmara Municipal da Marinha Grande, para que esta dinamizasse colónias de férias para os filhos dos operários vidreiros e guardas florestais, tendo sido criado, também, um espaço museológico à memória de Afonso Lopes Vieira, que é a actual Casa-Museu.     

Morada:  
Rua Dr. Adolfo Leitão, nº 4
São Pedro de Moel
Portugal

 

in “ Museus e Espaços Museológicos”  

 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O DESTINO DO CABRITO

 
 

 
O DESTINO DO CABRITO

Rabindranath Tagore contou esta curta história, vinda provavelmente da tradição popular indiana:
O cabrito foi um dia ter com Brama, o criador, e queixou-se amargamente da sua condição.

- Todas as criaturas – diz ele – querem fazer de mim seu alimento. Como pode isto ser, ó poderoso Brama, servir-lhes eu assim de alimento? Achas justo?

Brama escutou-o e respondeu:

- Que queres que te diga, meu filho? Eu próprio, quando te vejo, sinto água na boca.

 

in “Tertúlia de Mentirosos” de Jean-Claude Carrière
Imagem: Brama, primeiro deus Trimuti, da trindade do hinduísmo composta por Vixnu e Shiva. Ele é a força criadora de todo o universo.

 
 
 
 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

ANTERO DE FIGUEIREDO - Escritor

 
 
 
ANTERO DE FIGUEIREDO
(Coimbra, Portugal, 1866 - Porto, 1953)

 
Escritor
Em 1890, por doença, interrompeu os estudos de Medicina na Universidade de Coimbra. Viajou pela Europa e em 1891 passou a ser secretário particular do ministro do Brasil em Washington.
Em 1893 matriculou-se, em Lisboa, no Curso Superior de Letras, que concluiu em 1895.
Estreou-se com o diário lírico Tristia, 1895, e obteve o Prémio Ricardo Malheiros com o romance Miradouro, 1934. Non sum dignus, 1948, seria o seu último romance.
Foi um escritor sensorial, obsessionado pela paleta das cores e pelo requinte da linguagem.

 

in “Portugal Século XX”

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Palavras de Antero de Figueiredo
“A casa é o retrato do seu dono.”

 

 

 

 
 

domingo, 3 de setembro de 2017

RAINER MARIA RILKE – A morte do poeta

 

RAINER MARIA RILKE
(Praga, República Tcheca,1875 - Valmont, Suíça, 1926)

                          Poeta                            

Um dia, quando recolhia rosas no seu jardim, preparando-se para oferecê-las a uma amiga, feriu-se com um espinho. A picada do espinho infeccionou e sobreveio a leucemia fatal. Nos últimos dias, Rilke negava-se a tomar injecções, dizendo: «Não, deixem-me morrer de minha própria morte. Não quero a morte dos médicos».

Rainer Maria Rilke terminou seus dias no castelo de Muzot, na Suíça, que lhe fora presenteado por um amigo. O castelo elevava-se «num panorama de montanhas tristes, onde o poeta abusava de sua intimidade com o silêncio», como disse seu amigo Paul Valéry.

 
in “Mundo Literário” – Semanário de Crítica e Informação Literária, Científica e Artística – 1947

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A MORTE DO POETA

Jazia. A sua face, antes intensa,
pálida negação no leito frio,
desde que o mundo, e tudo o que é presença,
dos seus sentidos já vazio,
se recolheu à Era da Indiferença.

Ninguém jamais podia ter suposto
que ele e tudo estivessem conjugados
e que tudo, essas sombras, esses prados,
essa água mesma eram o seu rosto.

Sim, seu rosto era tudo o que quisesse
e que ainda agora o cerca e o procura;
a máscara da vida que perece
é mole e aberta como a carnadura
de um fruto que no ar, lento, apodrece. 






in “Novos Poemas”
Tradução: Augusto de Campos 

 

sábado, 2 de setembro de 2017

CONDE DE LAUTRÉAMONT - Cantos de Maldoror

 
 
 
CONDE DE LAUTRÉAMONT
(Montevidéu, Uruguai, 1846 — Paris, França, 1870)

 
Poeta

É considerado pela escola surrealista como um de seus precursores.
Obras principais: Cantos de Maldoror e Poesias.

 
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Palavras de Conde de Lautréamont
“A dúvida é uma homenagem prestada à esperança.”
 
 
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Os meios virtuosos e bonacheirões não levam a nada. É preciso utilizar alavancas mais enérgicas e mais sábios enredos. Antes de te tornares célebre pela virtude e de atingires o teu objectivo, haverá cem que terão tempo de fazer piruetas por cima das tuas costas e de chegar ao fim da corrida antes de ti, de tal modo que deixará de haver lugar para as tuas ideias estreitas. É preciso saber abarcar com mais amplitude o horizonte do tempo presente.

Nunca ouviste falar, por exemplo, da glória imensa que as vitórias alcançam? E, no entanto, as vitórias não surgem sozinhas. É preciso que o sangue corra, muito sangue, para serem geradas e depostas aos pés dos conquistadores.
 
Sem os cadáveres e os membros esparsos que vês na planície onde se desenrolou sabiamente a carnificina, não haverá guerra, e sem guerra não haverá vitória. Estão a ver que, quando alguém se quer tornar célebre, tem que mergulhar graciosamente em rios de sangue, alimentados com carne para canhão. O fim justifica o meio.

 
 
in “Cantos de Maldoror”

 

 
 
 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

ALMADA NEGREIROS – As Quatro Manhãs – SEGUNDA MANHÃ

 


ALMADA NEGREIROS
(Trindade, São Tomé e Príncipe, 1893 — Lisboa, 1970)

Artista plástico, poeta, dramaturgo, romancista

 
SEGUNDA MANHÃ

P'ra que me meteria eu a ver por onde ia a vida
que dei por onde ia
e não em meu favor!
Eu perdi a vez de ser simples,
perdi a vez feliz de ignorar,
perdi a sábia ignorância,
perdi a graça de não saber.
Deixei passar a vez de ir na corrente
e de ser como toda a gente
às carambolas da sorte.

            ***
Eu perdi a vez de ser analfabeto,
esse segredo para não ser doutor
e para não saber também
o que as letras sabem
do mundo e de mim.

            ***
Eu perdi a vez de não ter instrução,
a vez sagrada de não saber ler,
a vez daquele que não sabe
que é como a de quem não vê.
Mas ser ignorante não doi
não dói tanto como não ignorar!

            ***
Eu deixei passar a vez de ir na onda
e de ter o entendimento repartido pelos mais,
começaram por ensinar-me as letras
e as letras acabaram por dar comigo
e eu vi-me então diante de mim
despegado da onda e da corrente
diferente de toda a gente
independente da multidão.

            ***
Eu perdi a vez de ser da multidão
(esta comodidade por mim perdida);
já deixei de fazer parte,
inteiro o destino que me fez
inteiro a vida me tornou.

            ***
Os meus gestos metade são meus
e metade ainda da multidão.
Eu incomodo-me a mim próprio,
é pequeno o meu corpo para mim!
Sou pior do que eu próprio
ou eu próprio não caibo em mim?
Como se eu estivesse no cinema
e visse do meu lugar
ser eu próprio o personagem
do enredo que está no programa;
como se eu estivesse diante do espelho
e no espelho a minha imagem
tivesse vida própria
que não dizia comigo
imóvel diante do espelho;
como se um disco de gramofone
ou a T.S.F.
dissesse com a minha voz
e eu ouvisse
o que nunca eu disse com a minha própria boca;
assim me encontrei a mim-mesmo
um dia
quando eu julgava fazer parte ainda da multidão.

            ***
Mas quem escreveu esse enredo
que eu represento na personagem de mim?
(Não! não é isto que eu quero perguntar)
Quem me fez o protagonista de uma vida que eu não sonhei?
Quem filmou o meu ser enquanto eu me sonhava?

           ***
O meu sonho é bem melhor do que no programa
que hoje o destino me dá!
Eu sempre sonhei com ser Eu
mas não como me vejo no filme,
nem como me olho no espelho,
nem como me oiço no disco,
nem como digo na rádio!

            ***
Quem alterou o espelho?
quem falsificou o disco?
quem torceu o enredo?
quem mentiu a minha voz?
Eu não aqueci quimeras
nem preguicei fantasias
nem rabisquei confusões,
nada que não fosse eu
e dignidade.
Eu não viajei aventuras
senão legitimidade.

             ***
Porque me trocam então por outro igual a mim
tão igual a mim que eu próprio já m'os confundo?
Porque há-de ser esse, tão igual a mim,
e não eu próprio de quem ele se faz o igual?
Porque há-de ser precisamente esse eu que me inventaram
e não este mesmo que eu me ganhei?

            ***
Acaso não é legítimo que eu me tivesse ganho?
Quem mais cuidaria de mim
ou melhor do que eu próprio?
E quem é que tem mais tempo do que aquele que necessita para si-próprio?
Sabeis o que seria de mim se eu próprio me não tivesse ganho?
- Um simples,
um para quem se marca a direcção das setas,
um anjo no meio de parafusos,
mais cinquenta quilos de gente no peso da multidão!

            ***
Assim ao menos eu sei perfeitamente
que aquele que eu sou no film,
aquele que eu estou no espelho,
aquele que eu oiço no disco,
aquele que eu falo na rádio,
é uma tradução de mim
com jeitos de agora,
onde cada qual tem a idade de todos!
oh todos!
todos ainda não é ninguém!
Hoje todos não é nada!
Amanhã talvez.
No futuro sim.
Quando todos forem a soma dos cada uns
quando cada cada for cada qual
então sim
então bravo
então eureka
todos já serão alguém!

            ***
Entretanto não é o celuloide que mente
nem o mercúrio do espelho,
nem a cópia do disco,
nem as ondas do ar,
e eu assisto-me a mim próprio
representando o que não sou
um papel que não faço
num enredo onde não existo
senão para que não se desacerte a multidão,
senão para que não se corte a onda,
senão para que não se altere a corrente,
senão para que o público siga o programa
e passe mais umas horas deste mundo!

             ***
Como hei-de eu - o próprio
livrar-me do público e da multidão,
livrar-me da corrente e da onda,
livrar-me de todas as cores da multidão e do público, da onda e da corrente?
Se bem que eu não faça parte deles
as suas imensidades cobrem o mundo
e com a forma do mundo parecem inteiras!

             ***
Como hei-de eu - o próprio
levar-me a salvo
e deixar em terra firme
a minha legítima vida intacta?
Hei-de gastar a minha existência inteira
a guardar para quando
a minha legítima vida intacta?
Por quanto mais tempo
digam!
por quanto mais tempo
peço-lhes!
hei-de estar comigo à espera?
Digam lá que não há-de chegar-me a vez
da minha legítima vida intacta!

            ***
Ao sabor da corrente deixar-me-ei ir na onda
e estarei bem atento até que chegue a minha vez.
Já tenho o hábito de andar comigo no meio da multidão:
já sei fazer-me sua parte sem me perder de vista.
Leve-me para onde me leve a multidão
eu a trago sempre bem justa a mim
a minha legítima vida intacta!

            ***
Tenho um amigo que também vai na onda
e tem uma história igual à minha.
Diz o amigo que a nossa história é muito antiga
e já os antigos lhe puseram nome
p'ra não confundir com as outras histórias.
Chamavam-lhe Eternidade
e era o sonho daqueles que querem mais do que têm.
O sonho não acabava
nem acabava a onda
nem acabava a corrente
nem acabava a gente.
Quem acha pouco a onda,
quem acha pouco a corrente
e ainda por cima quer ser gente
fica assim eternamente.

            ***
Mas por hoje basta.
Hoje já é muito tarde
hoje já se esgotaram todas as esperanças que havia para hoje
não serve de nada insistir.
Ainda não foi hoje que chegou a vez
da minha legítima vida intacta.
Não deram resultado todas as esperanças
Que eu tinha posto no dia de hoje.
Mas amanhã se Deus quiser
logo de manhã muito cedinho
todas as minhas esperanças começam outra vez
à procura da minha vez.
Já sei que primeiro vê-se a estrela do futuro,
antes do futuro vê-se a estrela,
dizem que a estrela está quasi pronta
para ser vista pela primeira vez uma madrugada
e assim todos os dias
sempre
até que eu acabe.

 
Imagem: Almada Negreiros – auto-retrato

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...