sábado, 4 de maio de 2019

MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE - Camões, grande Camões, quão semelhante



MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE
(Setúbal, Portugal. 1765 – Lisboa, de 1805)
Poeta

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Irmão de Camões na «má fortuna», nas andanças pelo Oriente e nos amores infelizes, foi o maior poeta português do século XVIII.

in “Portugal Século XX”

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CAMÕES, GRANDE CAMÕES, QUÃO SEMELHANTE

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante.

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo.
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura,
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.




sexta-feira, 3 de maio de 2019

THOMAS RANDOLPH – Sobre o seu retrato



THOMAS RANDOLPH
(Reino Unido, 1605 – 1635)
Poeta, dramaturgo

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SOBRE O SEU RETRATO


Quando a idade fizer de mim o que agora não sou:
E cada ruga me disser onde o arado
Do tempo sulcou; quando um Gelo fluir
Atravessando cada veia e toda a minha cabeça se cobrir de neve:
Quando a morte exibir o seu frio sobre as minhas faces,
E eu, a mim mesmo no meu próprio Retrato procurar,
Não encontrando o que sou, mas o que fui;
Duvidando em qual acreditar, neste ou no meu espelho;
Embora eu mude, este permanecerá o mesmo:
Tal como foi desenhado, reterá a compleição primitiva
E a tez primeira; aqui poderão ainda ver-se
Sangue nas faces e uma Penugem sobre o queixo.
Aqui a testa permanecerá lisa, o olhar intenso,
O Lábio rosado e o cabelo de cor jovem.
Contemplai que fragilidade podemos ver no homem,
Cuja Sombra é menos do que ele propensa à mudança.


Tradução: Cecília Rego Pinheiro



quinta-feira, 2 de maio de 2019

ARY DOS SANTOS – Retrato de Natália


ARY DOS SANTOS
(Lisboa, Portugal, 1937 – 1984)
Poeta, declamador, publicitário

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RETRATO DE NATÁLIA

Hierática  cromática  socrática
passas branca de neve pela sala
nebulosa da pele  via láctea
do único percurso que nos falta.

No teu andar há ventres há tecidos
de leve lã  circuitos do brocado
duma seda tecida na manhã
dos raios dos teus olhos deslumbrados.

Nos teus quadris há cisnes há pescoços
de virgens degoladas  há indícios
do alabastro quente dos teus ossos
iluminando claros precipícios.

É isso. Uma vestal iluminada
uma deusa rangendo uma secreta
porta barroca aberta para o nada
que é o docel da cama do poeta.

Ali deitas crianças  animais
gemidos e maçãs  vagidos e atletas
pois que amas as coisas naturais
com tua carne impúbere e erecta.

Porém tu acalentas   tu alentas
nossa senhora lenta  mãe do escândalo
ave de carne  lírio de placenta
com aroma de nardos e de sândalo.

Desinfectante e amante eis que transformas
em teus olhos de cânfora as orgias
e o teu corpo ânfora é a forma
em que a lira da noite  vaza o dia.





in “Obra Poética”    




quarta-feira, 1 de maio de 2019

OLAVO BILAC - Maio



OLAVO BILAC
(Rio de Janeiro, Brasil, 1865 -1918)
Poeta, contista, cronista, jornalista

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Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!


MAIO:

Dai-me vivas! Dai-me palmas!
Exultem todas as almas,
Cheias de um vivo fulgor
Todo o Brasil, congregado,
Saúde o mês consagrado
da Liberdade e do Amor!
A grande raça oprimida
Abri as portas da vida,
As portas da redenção!
Mudei em risos as dores,
Mudei em tufos de flores
Os ferros da escravidão!
Treze de Maio! A desgraça
Findou de toda uma raça!
– Aos beijos, dando-se as mãos
Os brasileiros se uniram,
e o cativeiro aboliram,
Ficando todos irmãos.


Coro de crianças:

Maio já deu o seu recado…
Prossiga, em danças, a função!





MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...