sexta-feira, 6 de setembro de 2019

EDUARDO GALEANO - Celebração do Riso



EDUARDO GALEANO
(Montevideu, Uruguai, 1940 – 2015)
Escritor

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CELEBRAÇÃO DO RISO

José Luís Castro, o carpinteiro do bairro, tem muito boas mãos. A madeira, que se sabe amada por ele, deixa-se moldar.
 
O pai de José Luís chegara ao rio da Prata vindo de uma aldeia de Pontevedra. O filho recorda o pai, o rosto inflamado sob o chapéu panamá, a gravata de seda no colarinho do pijama azul-celeste, e sempre, sempre a contar histórias divertidas. Onde ele estava, recorda o filho, o riso acontecia. 

Vinham de toda a parte para se rirem, quando ele contava contos, e o gentio amontoava-se. Nos velórios, era necessário levantar o caixão, para que todos coubessem - e assim o morto ficava de pé, para ouvir com o devido respeito aquelas coisas ditas com tanta graça.
 
E de tudo o que José Luís aprendeu com o pai, isto foi o principal:
- Importante é rirmo-nos — ensinou-lhe o velho. - E rirmo-nos juntos.



in “O Livro dos Abraços” (Citador)

 





quinta-feira, 5 de setembro de 2019

A MALDIÇAO DO NÚMERO 13


                         
                      A MALDIÇÃO DO NÚMERO 13


Nascido em 13 de Setembro, o compositor austríaco Arnold Schönberg sempre se tinha mostrado convencido de que morreria num dia 13. Este temor chegou a converter-se numa obsessão, até que finalmente se cumpriu: o músico morre em Los Angeles a 13 de Julho de 1951.



in “Crónica da Música”



quarta-feira, 4 de setembro de 2019

THÉOPHILE GAUTIER - A Nuvem




THÉOPHILE GAUTIER
(França, 1811 - 1872)
Escritor, poeta, crítico literário, pintor

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A NUVEM

As roupas deslaçando, entra no banho
A lânguida sultana enamorada:
Livre do pente, os ombros nus lhe beija
A longa e fina trança desatada.

Atrás dos vidros o sultão a espreita;
E consigo murmura: como é bela!
"Ninguém a vê, ninguém! o negro eunuco
Do harém na torre solitário vela!"

- Eu a vejo, uma nuvem lhe responde
Do sereno e alto azul iluminado:
- Vejo-lhe os seios nus, vejo-lhe o dorso,
- E o seu corpo de pérolas colmado.

Fez-se pálido Ahmed bem como a lua,
E erguendo o seu kandjar de folha rara,
Desce, e apunhala a nua favorita...
Quanto à nuvem... no azul se dissipara...




Tradução: Gonçalves Crespo





terça-feira, 3 de setembro de 2019

MARIA ONDINA BRAGA - Natal Chinês



MARIA ONDINA BRAGA
(Braga, Portugal, 1932 - Braga, 2003)
Escritora, tradutora, professora, poetisa

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NATAL CHINÊS

Menino Jesus vestido
De quimono de brocado,
No Velho Império nascido,
Como pareces cansado…

Eu, sim, que venho da calma
E das neves dos caminhos;
Dei a volta ao mundo: a alma
Trago-a coroada de espinhos…

Mas tu, de olhinhos estreitos,
Jesus Menino dos chins,
Tu que recebes respeitos
De culis e mandarins.

Tu que derrubas os budas
Dos seus tronos levantados,
Tu tão triste? – É do Judas
Que te trai em meus pecados.

Nessa face de marfim
Quanta fadiga se encerra!
– Será da morte de mim
Ou da morte desta terra?

Vestes de preto encarnado,
Bodas de amor anuncias,
Porém o gesto magoado
Não diz senão agonias…

Emprestou-te o escultor
Sua própria e amarga sina.
Menino Jesus de dor,
Tu és a alma da China.
 






segunda-feira, 2 de setembro de 2019

ARY DOS SANTOS – Retrato de Guerra Junqueiro



ARY DOS SANTOS
(Lisboa, Portugal, 1937 – 1984)
Poeta, declamador, publicitário

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RETRATO DE GUERRA JUNQUEIRO


As palavras são cascos.  A pátria é uma égua
quem na sabe montar leva à arreata
este país de espera  este luar de prata
esta secreta mula que desata
mondegos de erva  e arraiais de nata.

És a guerra dos versos. O rafeiro
o estrumado poeta  és o primeiro
filho da pata que se pôs em todos.
Tens de juncar de cardos o canteiro
parir os simples primeiros
e depois torná-los godos.

Assim malandro.  Assim maldito.  Assim canção
levantas o poema até ao gume
e cortas a cabeça da nação
enquanto a pões ao lume.

Neste lugar se morre a fogo lento.
Neste poema as rimas se entreodeiam.
É preciso cobrir o desalento;
Ah  macho das palavras que escouceiam!




domingo, 1 de setembro de 2019

OLAVO BILAC - Setembro


OLAVO BILAC
(Rio de Janeiro, Brasil, 1865 -1918)
Poeta, contista, cronista, jornalista

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Coro de crianças:

Passem os meses, desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!

SETEMBRO:

Eu trago a primavera;
Trago a aprazível era
De universais festins;
Mais belas, mais viçosas,
Surgem sorrindo as rosas
E as dálias nos jardins.

Sou o jovial Setembro!
E as brasileiros lembro
A data sem rival,
Em que o Brasil potente,
Ficou independente
Do velho Portugal.

As vozes elevemos
Em hinos, e beijemos
O pavilhão gentil,
Que nos seu lema encerra
O ideal da nossa terra,
A glória do Brasil!

Coro de crianças:

Adeus, Setembro! Já descubro,
Cheio de flores, a cantar,
Lépido e alegre, o mês de Outubro,
Que em nossa roda quer entrar!

 




MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...