segunda-feira, 7 de setembro de 2020

LOURENÇO DE MÉDICI – Canção de Baco



LORENZO DE MEDICI
(Florença, Itália, 1449 – 1492)
Poeta, estadista

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Foi o verdadeiro senhor de Florença, dominando a sua política e mesmo a de Itália, através de alianças que conduziram a um estável equilíbrio de forças na península. Protegeu as artes e as letras rodeando-se de uma corte que animou a vida cultural florentina.

Fonte: “Nova Enciclopédia Portuguesa”

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CANÇÃO DE BACO

Quanto é bela a mocidade
que se escapa tão andeja!
Aí seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este é Baco mais Adriana,
belos ambos, mui ardentes:
porque o tempo foge e engana,
sempre um do outro vão contentes.
Estas ninfas e outras gentes,
não há del’s triste quem esteja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Estes sátiros joviais,
destas ninfas namorados,
por cavernas e pinhais,
mil ardis lhes têm lançados,
ou por Baco já esquentados
saltam de amor que lampeja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Estas ninfas têm temor
de sofrer um desacato:
mas só se queixa do amor
quem seja rude e ingrato.
Ora em tumulto gaiato
dançam de fazer inveja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este monstro que vem pronto
sobre um burro, esse é Sileno,
assim velho e alegre e tonto,
de carne e anos bem pleno:
se não monta sem empeno,
ao menos ri-se e festeja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Este a seguir é o rei Midas
que o que toca ouro se faz.
Mas que importam tais validas,
se tesouros não dão paz?
Tem prazer quem sempre jaz
na sede de que vasqueja?
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.

Abram todos as orelhas:
do amanhã não haja empachos,
hoje sejam novas, velhas,
ledos todos, fêmeas, machos!
Tristezas vão prós diachos,
e contente tudo esteja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.
Damas e jovens amantes,
viva Baco e viva Amor!
Haja bailes e descantes!
Arda o peito em doce ardor!
Fora coitas, fora a dor!
O que tem de ser que seja.
Ai seja alegre quem seja:
de amanhã nada se sabe.



Tradução de Jorge de Sena





domingo, 6 de setembro de 2020

LIMA DE FREITAS – VIEIRA DA SILVA e os seres dos espelhos (IV)



LIMA DE FREITAS
(Setúbal, Portugal, 1927 — Lisboa, 1998)
Pintor, desenhador, escritor

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VIEIRA DA SILVA E OS SERES DOS ESPELHOS (IV)

(continuação)

Vieira da Silva expõe no Rio de Janeiro, em Nova Iorque, em Estocolmo, em Londres, em Basileia, em Amesterdão, em Hanover, em Paris, etc. 

Em 1954 obtém o primeiro prémio no concurso para uma tapeçaria destinada à Universidade de Basileia. Executa cenários para «La Parodie», de Adamov. 

As suas obras figuram nos museus de arte moderna de Paris, de Nova Iorque, de Londres, de Basileia, de Lausana, de Zurique, de Amesterdão, de São Paulo, de Jerusalém, de Melbourne, de Michigan; na colecção Peggy Guggenheim, em Veneza; em incontáveis colecções particulares. 

Quanto a Portugal, o país onde nasceu, nele está representada com dois quadros, no Museu do Caramulo, e um guache no Museu de Arte Contemporânea, afora as peças existentes em colecções particulares.    

(continua)


in ”Voz Visível” – Ensaios – 1971





sábado, 5 de setembro de 2020

UM QUARTETO PARA PROUST




UM QUARTETO PARA PROUST


Em 1816, um transeunte aproxima-se de um quarteto de cordas que toca nas ruas de Paris e pede-lhe que venha ao seu apartamento para interpretar uma peça em privado. 

Trata-se do escritor Marcel Proust, que estava a ultimar a sua grande obra Em busca do tempo perdido, e a peça era o Quarteto de cordas, de César Frank. 




in “Crónica da Música”



sexta-feira, 4 de setembro de 2020

PINA BAUSCH – Coreógrafa



PINA BAUSCH
(Solingen, Alemanha, 1940 - Wuppertal, 2009)
Coreógrafa, bailarina

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Segundo fontes do próprio Tanztheater Wuppertal, nos anos 1973/74, época em que a Pina Bausch assumiu a direcção do corpo de baile do Wurppertaler Bühne, geraram dúvidas sobre a forma como naquele período desenvolvia a sua criação em dança. 

Graças à sua audácia e vontade de fazer surgir algo diferente no universo da dança é que se estabeleceu uma nova linguagem, o Tanztheater.

A coreógrafa Pina Bausch possibilitava aos seus Darsteller – intérpretes - não só o dançar, como também, a representação de uma linguagem viva, onde se misturavam oralidade, canto, choro, risadas e movimentos diversos, às vezes nem digno de ser considerado dança. 

Mas foi desse conjunto de criação artística que a coreógrafa foi revolucionando e conquistando o mundo com a emancipação da dança e a sua nova definição. 

O Tanztheater, a partir da Pina Bausch, ultrapassou as fronteiras da crítica e passou a influenciar novos coreógrafos internacionais, actores e as companhias de ballet clássico. 





Fonte: “Centro Cultural Brasil - Alemanha”

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

ANTÓNIO REIS - Mudamos esta noite



ANTÓNIO REIS
(Valadares, Portugal, 1927 — Lisboa, 1991)
Poeta, cineasta
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"Originário de uma aldeia próxima do Porto e de origens muito humildes, António Reis passou a sua infância e adolescência junto de camponeses, operários e pescadores; experiência que lhe seria essencial para a justeza dos diálogos que escreveria mais tarde em Mudar de Vida, de Paulo Rocha.
Seria em 1973 que a sua carreira conheceria o balanceamento decisivo com Jaime, retrato de um louco que se revelava um génio plástico, que João César Monteiro classificaria como «um dos mais belos filmes da história do cinema".


António Cabrita, in “António Reis – Vida e Obra do Grande Cineasta Português" (excerto)
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MUDAMOS ESTA NOITE
E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões
onde levar as plantas
e como disfarçar os móveis velhos
Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam
e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem
Vai descendo tu
Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias





quarta-feira, 2 de setembro de 2020

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO



FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
(Lisboa, Portugal, 1938-2007)
Poetisa, dramaturga, encenadora, crítica teatral

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DA VOZ DAS COISAS

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.







terça-feira, 1 de setembro de 2020

ALEXANDRE O'NEILL – Rua André Breton



ALEXANDRE O'NEILL
(Lisboa, Portugal, 1924 - 1986)
Poeta

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RUA ANDRÉ BRETON


Deflagraste em nós na sempiterna circunstância: a pasmaceira.
E por pouco não nos chamaram de Os Franceses.
Nas pequenostes a hora era (e agora?) a dos remorsos  engajados.
A imitação do isto, a gangazul, a variz da varina
- pretextos e mais pretextos para lágrima-tinta -
eram o trapo que comíamos ainda.


A rua André Breton está sempre a mudar de rua.
Entendidos, desentendidos, como, ó rapaz, mudámos,
quando desfechaste o teu revólver de cabelos brancos
sobre cada um de nós, os comedores de trapo!

Por uma questão de desgosto,
desde então que desavindos com a vidinha!







MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...