sábado, 25 de maio de 2019

PERCY BYSSHE SHELLEY – A Filosofia do Amor



PERCY BYSSHE SHELLEY
(Reino Unido, 1792 – Itália, 1822)
Poeta

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Foi um dos mais importantes poetas românticos ingleses.

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A FILOSOFIA DO AMOR

Correm as fontes ao rio
os rios correm ao mar;
num enlace fugidio
prendem-se as brisas no ar…
Nada no mundo é sozinho:
por sublime lei do Céu,
tudo frui outro carinho…
Não hei-de alcançá-lo eu?

Olha os montes adorando
o vasto azul, olha as vagas
uma a outra se osculando
todas abraçando as fragas…
Vivos, rútilos desejos,
no sol ardente os verás:
- Que me fazem tantos beijos,
se tu a mim mos não dás?


Tradução: Luiz Cardim

sexta-feira, 24 de maio de 2019

JOSÉ GOMES FERREIRA – O lado de trás do cenário



JOSÉ GOMES FERREIRA
(Porto, Portugal, 1900 - Lisboa, 1985)
Poeta, escritor

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Pertenceu à geração dos poetas militantes do Novo Cancioneiro identificados com a corrente neo-realista.

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O lado de trás do cenário

Todos os dias, mal salto da cama e escancaro a janela de par em par, entra-me pelos olhos dentro, ainda remelados do pasmo do sono, a paisagem das traseiras do meu quarto – mistura cubista de saguões, pátios, arroz-dos-telhados, chaminés, retalhos de céu, capoeiras, roupa estendida, escadas de salvação…

De pijama, meio tonto com a claridade da manhã, começo por me debruçar no peitoril para ver se descubro o cão da vizinha da cave que ladrou, torcionário, a noite inteira. Olha! Lá está ele, o maldito!, agora a dormir, cinzento e enrolado, à sombra da nespereira que estoirou a placa de barro do jardinzeco – enquanto no quintal ao lado as galinhas, com a aplicação teimosa dos pesquisadores metafísicos, procuram no terreiro grãos inexistentes.

Depois, a abrir a boca, ponho-me a analisar, com cuidados de pintor ultra-realista (desses que sonham ter máquinas fotográficas de carne exacta nas retinas), as minúcias do panorama que recebi por meu quinhão de beleza no mundo.

Nas varandas das casas em frente, as criadas lavam montes de peúgas, cuecas e lenços que prendem nos arames com grandes gestos repuxados. Aqui e ali surgem, de vez em quando, vultos rápidos de damas de roupão chinês a sacudirem panos moles para pretextos de ondear os braços nus. Dos poços dos saguões rompem vozes de crianças, sujas de gritos descompostos, bolas de trapos e caixotes de lixo. A água dos contadores canta a sua longa frescura monótona nos tanques de cimento. Os lençóis pingam prata e sabão. E os pássaros das gaiolas entoam as mesmas canções dos pássaros livres com ferrugem.

Oh! como compreendo o entusiasmo do meu vizinho do segundo esquerdo, um ser balofo, de camisola de lã, pêlos no peito, carne de cogumelo e suspensórios caídos. Assim que rapa a barba, abre a varandinha de ferro que deita para a escada de salvação e ali fica, durante minutos suspensos, a gozar a felicidade de existir, esquecido de destinos e preso às manchas verdes das ervas, à ternura da roupa a escorrer nos alguidares e, sobretudo, ao céu azul que não se cansa de ser azul.

Às vezes repara em mim e dá-me os «bons dias». E a sua voz feliz completa a música concreta da manhã magnífica, em que se confundem os assobios encaracolados dos canários com a água das torneiras a rumorejar nas talhas, o cacarejo das galinhas, o ruído do sol no zinco e aquele pregão que vem do lado de lá da rua, por cima dos telhados, e sabe tão bem a legumes frescos e a imitações do Cesário…

Sim, compreendo, até ao frio mais fundo do esqueleto, a alegria daquele pobre diabo, habituado desde o bibe a extrair beleza das goteiras, das manilhas, do casinhoto dos pombos do rés-do-chão, dos cartuchos de espinhas atiradas aos gatos, dos muros salitrosos, das pias, do sabão amarelo e das canastras a brilharem peixe.

Compreendo-o tão bem que não acharia extraordinário que aquele mamífero de enorme volume romântico, enternecido pela visão das urtigas, dos talos de couve e dos vasos de salsa, exclamasse, deslumbrado, como se estivesse diante da Serra de Sintra:

- Que lindo panorama!

Ou concluísse, a apontar para a fileira de camisas enforcadas na corda:

- E que belo espectáculo o da natureza! 

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Mas a escada de salvação do meu prédio não se limita a ser o mirante favorito daquele bicho de carne esponjosa. Serve também de Anfiteatro de Reunião das senhoras vizinhas que ali se concentram em má-língua de convívio, durante as melhores horas do dia.

Horas de trabalho, a descascar ervilhas e a discutir os preços dos géneros com as varinas e as hortaliceiras, e horas de recreio amargo, a trocar queixumes e suspiros a respeito das últimas catástrofes e lástimas públicas. Não param as gargalhadas, os comentários, os berros, as ameaças, os pedidos, as descomposturas: «Ó Dona Margarida, empresta-me aquilo?»… «Ó senhora Mariana: já veio o correio?»

As criadas levam recados, confidenciam poucas-vergonhas, esventram as casas dos patrões. As intrigas escorregam, nervosas, de degrau em degrau. E, volta e meia, vai tudo raso. «Sua desavergonhada! Bem a vi, há dias, entrar na casa do vizinho, sua esta! À socapa, sua porca! Pela escada de salvação, sua aquela!»

E à tardinha, quando a penumbra desdobra as asas de morcego verde-sombra do crepúsculo, os homens arrastam para os patamares as cadeiras predilectas e lêem em sossego o tumulto dos jornais.

Ninguém, em suma, parece lembrar-se da intenção camarária ao mandar construir aquela escada que devia apenas sugerir labaredas, mangueiras, apitos estrídulos, pânico, donzelas salvas por bombeiros-heróis, capacetes reluzentes…

Mas não.

As crianças descem-na a correr para irem jogar o berlinde. As mulheres enfeitam-na de manjericos que os maridos regam, no relento da noite, com lentidão lírica. Os namorados sobem-na com os olhos… (E para eles, aquela escada só acaba nas nuvens!).

Em resumo: se um dia houvesse incêndio no meu prédio, os inquilinos correriam alucinados para as janelas da frente – e atiravam-se para a rua!



in “O Irreal Quotidiano” – Histórias e Invenções




quinta-feira, 23 de maio de 2019

AMBROSE BIERCE – A Ratazana sagaz



AMBROSE BIERCE
(Ohio, EUA, 1842 – 1913)
Escritor, crítico satírico, jornalista


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A RATAZANA SAGAZ

Uma Ratazana que se preparava para sair do buraco vislumbrou um Gato nas imediações. Descendo novamente ao ninho, convidou uma Amiga a acompanhá-la numa visita a uma arca de milho próxima.

– Estava para ir sozinha – disse a Ratazana–, mas não podia privar-me do prazer de tão distinta companhia.

– Muito bem – disse a Amiga –, irei contigo. Segue em frente.

– À frente? – exclamou a outra. – O quê? Eu a preceder uma ilustre e magnânime ratazana como tu? De modo algum! Vós primeiro, senhora, vós primeiro.

Agradada com tanta deferência, a Amiga seguiu na frente e, saindo do buraco primeiro, foi apanhada pelo Gato, que logo se afastou com ela na boca. A outra pôde então sair sem ser molestada.



in “Esopo emendado & outras fábulas fantásticas”


 






quarta-feira, 22 de maio de 2019

ISABEL WOLMAR - "A Vida com um Sorriso"

 

ISABEL WOLMAR

(Lisboa, 21 de Março, 1933 – 21 de Julho, 2019)
Locutora, apresentadora, produtora de Rádio e Televisão

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REFLEXÕES DE ISABEL WOLMAR


“Posso dizer que tive uma infância feliz, mas era uma criança estranha, solitária, mais amiga dos livros e da natureza do que de outras crianças. Esses eram os meus dois mundos. Ao passar férias no campo, saía com uma merenda, deliciava-me sob uma árvore e chegava mesmo a falar com ela, enquanto escutava o ruído do vento por entre as folhas.”

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“Eu despertei interiormente para a vida ainda muito nova. Quando tinha 12 anos, a professora de Literatura deu-nos Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco para ler. Foi nessa altura que acordei para as Letras. Comecei a ter percepção do que estava à minha volta, até porque era observadora, via, ouvia e ficava com a informação cá dentro; pouco falava.”

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“A aviação não foi a única modalidade que me entusiasmou. Tirei a carta com 27 anos e comprei um Fiat 600. Fiz milhares de quilómetros ao volante. Quando a televisão começou a organizar corridas, eu participava. Houve um ano em que ganhei todas as provas. Acho que fui uma das primeiras mulheres a poder andar no autódromo do Estoril num Fórmula 5. Uma sensação única!”

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“Fiz muito desporto e também ballet, que é uma grande paixão minha. Fiz também karting e equitação. Cheguei a ter aulas de motonáutica, que ainda não era praticada por mulheres. Quando tive o primeiro acidente de viação, com 31 anos, tive que deixar os desportos. Custou-me sobretudo deixar a equitação, que me dava uma sensação de liberdade única, e ficou-me atravessado o pára-quedismo, que acabei por nunca poder experimentar.”

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“A minha vida profissional foi boa, se bem que eu não tivesse querido ir para a televisão. No início, eu não acreditava em mim, achava que não fazia nada de especial, que tinha um trabalho como outro qualquer, e não percebia o reconhecimento que as pessoas me davam. Esse reconhecimento marcou-me. Os amigos que fiz e a camaradagem também. Acho que podia ter tomado algumas decisões profissionais de forma diferente, podia ter sido mais ambiciosa, mas nunca fui. A vida é mesmo assim e eu não me queixo. Nada do que fiz foram sacrifícios, foram escolhas. Às vezes, más escolhas, mas não sacrifícios.”

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“Um dia, estava eu a fazer o telejornal e, no final, o presidente da televisão telefonou-me: «a senhora no ar disse isto assim, assim e assim…» Desculpe, senhor presidente, mas não disse. «Ai isso é que disse, que eu ouvi!» Desculpe, mas tenho absoluta certeza que não disse. O senhor tem a prova. Oiça a gravação e vai ver. No dia seguinte, ele mandou chamar-me ao gabinete: «eu peço-lhe imensa desculpa, minha senhora.» Senhor presidente, eu quando tenho a certeza de uma coisa, nem que venha Deus à terra, caso contrário, nunca afirmaria.

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“É um bocado difícil de dizer se gosto da vida. Nunca fui muito amante dela. Fui sempre uma criança muito solitária e em adulta sempre gostei de passar tempo sozinha. Gosto de ler, ouvir música, ouvir as ondas do mar, ouvir cavalos selvagens à solta, gosto de gaivotas, das árvores, das dunas no deserto, do riso de crianças, do teatro, do ballet. Gosto de tantas coisas… muitas posso, e gosto, de fazer sozinha.

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“Tive bons amigos, poucos mas bons, alguns deles já falecidos. Mas às vezes, apanhamos desilusões… eu apanhei grandes marteladas de pessoas a quem estimava do coração. Não se compreende. Como é que as pessoas conseguem mostrar uma coisa e depois ser o reverso?”

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“O Carlos Pinto Coelho chamou-me para directora do departamento internacional, mas eu recusei, em benefício de outra pessoa. Não vou fazer isso, disse eu. Vi-me tão aflita, que não dormia. Eu não posso fazer isto à outra pessoa, que tem problemas tão graves de família e precisa do trabalho mais do que eu. Não vou, não vou. Não aceitei, pensando que ajudava, mas tramei-me. Um ano depois de eu ter saído, essa pessoa a quem eu dei o meu lugar, disse-me: «eu sei que se reformou por minha causa, mas eu não lhe agradeço.» Não diga mais nada. Ficámos assim. O mal está feito, a pessoa já morreu e eu já lhe perdoei.”

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“Quando o Hotel Alvor, no Algarve, foi inaugurado, eu fazia lá três espectáculos diários ao vivo. Quase não dormia e trabalhava até às cinco da manhã todos os dias. Lembro-me que a Beatriz Costa estava no público num dos dias e ouviu-me cantar o Fado Hilário. As pessoas adoraram. “

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“Alguns temas da actualidade preocupam-me, sobretudo ao nível da educação de crianças e jovens.”

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“Às vezes, começo a pensar em que altura gostei mais da minha vida. Não sei… é que sempre que eu estava a ter uma altura boa, havia sempre qualquer coisa má que me acontecia. Portanto, eu estou cá porque naturalmente fiz coisas muito más, tenho um karma muito pesado e tenho obrigação de o pagar. Não acredito, sinceramente, que morremos e que tudo acaba!

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“Eu li muito sobre o assunto da morte. E digo que há pessoas que têm muito medo da morte. O momento mais feliz da minha vida foi quando estive do outro lado…Tenho muita pena de não ter ficado lá. A morte da minha mãe e da minha irmã são as maiores infelicidades que tive na vida.”


in “A Vida com um Sorriso”

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DEIXAI OS POETAS GRITAR O SEU SONHO


Que vento é este que sopra no coração dos homens,
que leva a matar, prendendo nas mãos convulsas pedras de sangue?

Que vento é este que sopra no coração dos homens
quando o sol grita nos metais das armas,
confundindo os gritos de dor com o sibilar das balas?

E o ritmo perturbador de solitários gemidos nocturnos?
E a fome das crianças de ventres inchados?
Que vento é este que sopra no coração dos homens?!!!

Oh! Jerusalém! Jerusalém!
Poderão meus rios de lágrimas
lavar o sangue derramado, em vão, por ELE?
Escutai poetas de todas as Terras, Raças e Credos.
Convocai Haduhd, o Pássaro maravilhoso,
e turbilhões de pombas batendo asas de neve
para levarem de Zenith até Nadir a vossa mensagedilatando o tempo num pulsar onírico.
E com a alvorada debruçada sobre um mundo novo,
os olhos húmidos das nuvens
cobrirão a Terra de Bênçãos de AMOR e PAZ.
Deixai os Poetas gritar o seu sonho…


Isabel Wolmar
20 Novembro 2009

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...