sábado, 27 de julho de 2019

EUGÉNIO DE ANDRADE - Se vens à minha procura




EUGÉNIO DE ANDRADE
(Póvoa de Atalaia, Portugal, 1923 - Porto, 2005)
Poeta

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Pelo depurado sentido do ritmo e pelo aproveitamento dos símbolos ao serviço de uma emoção extremamente lúcida, é um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.

in "Portugal Século XX"

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SE VENS À MINHA PROCURA


Se vens à minha procura,
eu aqui estou. Toma-me, noite,
sem sombra de amargura,
consciente do que dou.
 
Nimba-te de mim e de luar.
Disperso em ti serei mais teu.
E deixa-me derramado no olhar
de quem já me esqueceu.
 






sexta-feira, 26 de julho de 2019

KOSZTOLÁNYI DEZSŐ – Que Comovente, um Mau Poeta




KOSZTOLÁNYI DEZSŐ
(Sérvia, 1885 – Hungria, 1936)
Poeta, escritor

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QUE COMOVENTE, UM MAU POETA


Que comovente, um mau poeta. Não falam dele
há muitos anos; depois, lentamente, esquecem-no.
Inspirado e branco, agora cambaleia, vacilam
os botões no sobretudo roto e assobia poemas inéditos
ao vento de Inverno.
Que orgulho e força. No seu rosto,
ódio e inveja semelham, de longe, algo como
tristeza etérea. A seu lado, os famosos,
que incensaram artigos pagos e celebram
plateias selvagens, mercadores, ou aventureiros.
Na calva, na fronte altiva de apóstolo, pôs-lhe a vida
coroa de lágrimas, divinizando
sonhos da mocidade, em que prefere acreditar.
Até a má alimentação e magreza que dá
a tísica é uma questão de estilo. Como nos seus livros.
Crítica, literatura – em vão falais.
Ele é o idealismo. Ele é o poeta verdadeiro.

 

Tradução: Ernesto Rodrigues




quinta-feira, 25 de julho de 2019

ALEXANDRE HERCULANO - Escritor



ALEXANDRE HERCULANO
(Lisboa, Portugal, 1810 - Santarém, 1877)
Escritor, historiador, poeta

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Com Alexandre Herculano, co-introdutor com Garrett do Romantismo, surge a historiografia crítica em Portugal. Espírito dos mais progressistas da sua época, de uma intrepidez intelectual que só possui paralelo com a sua intrepidez moral de homem íntegro, onde a ética se sobre puja à paixão – mesmo quando empunhava a pena de polemista -, Herculano mantém, a mais de um século de distância da sua morte, o mesmo prestígio que granjeou enquanto vivo. 

Ao exercer o seu mister de historiador, e baseando-se no critério de rigor que o distinguiu, refuta a veracidade da aparição de Cristo em Ourique. Esta atitude provoca da parte do clero as mais acesas reacções a que Herculano responde com vários opúsculos como Eu e o Clero, Considerações Pacíficas e Solemnia Verba. 

Em 1859, recolhe-se desiludido à sua Quinta de Vale de Lobos, perto de Santarém, confessando-se pessimista na «possibilidade de redenção do país».




in “Filosofia – Enciclopédia”
 







quarta-feira, 24 de julho de 2019

GUERRA JUNQUEIRO – O teu Aniversário




GUERRA JUNQUEIRO
(Freixo de Espada à Cinta, Portugal, 1850 — Lisboa, 1923)
Escritor, poeta
                                  
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O TEU ANIVERSÁRIO

Pediste-me sorrindo, ó minha flor gentil,
Uns versos às tuas vinte alvoradas de Abril.
Vinte anos já!... não creio, estás equivocada...
Enganas-te. Eu irei perguntar à alvorada
Quantas vezes pousou em êxtase, ao de leve,
A sua boca de rosa em tua fronte de neve.
Vinte anos! Podes crer, pomba que eu idolatro,
Que se o corpo fez vinte, a alma, não: fez quatro.
A tua alma nasceu inefável, divina,
Para ser sempre grande e sempre pequenina.
É como a estrela d'alva; enche o seu esplendor
O Mundo, e ela não enche o cálix duma flor!...






terça-feira, 23 de julho de 2019

TRISTAN CORBIÈRE – Pobre Rapaz



TRISTAN CORBIÈRE
(França, 1845 - 1875)
Poeta

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POBRE RAPAZ
A Besta-Fera

Ele que assobiava altivo, seu desafinamento,
Perto de mim minguava; ele procurava,
Não achava, e… eu gostava de ver que o tento
Lhe faltava, o herói não soube ver que me amava.

Provoquei ricochetes no peito em tormento.
Ele só olhava… É isso que o estragava?…
Que difícil é tocar o poeta, este instrumento!…
Eu o toquei, E isso – de fato – me alegrava.

Morreu!… Ah – até que era um rapaz engraçado.
Levou então a sério o papel destinado
Para si, nem me contou… – E morreu, assim?…

Teria se deixado fluir de poesia?…
Morte de chic, de tísica, ou porque bebia,
Ou, talvez, enfim de nada…
talvez de Mim!




Tradução: Marcos António Siscar
 







MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...