terça-feira, 24 de setembro de 2019

MARIA TERESA HORTA – Os silêncios da fala




MARIA TERESA HORTA
(Lisboa, Portugal, 1937)
Escritora, poetisa

***
OS SILÊNCIOS DA FALA

São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor


Silêncios de sílex
no corpo do silêncio
Silêncios de vento
de mar
e de torpor
De amor


Depois, há as jarras
com rosas de silêncio
Os gemidos
nas camas
As ancas
O sabor


O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.





segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA – Saudade de um corpo




ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA
(Viana do Castelo, Portugal, 1923 - Lisboa, 2010)
Poeta, dramaturgo, encenador

***

SAUDADE DE UM CORPO

Os nossos corpos tinham não sei que primavera,
Quando em noites de Maio, na influência da lua,
Florescia entre nós um silêncio de espera,
Se a minha mão pousava na tua.

Tímidos e febris, só os sentidos falavam,
Até que a tua voz, expulsando o torpor,
Receosa, talvez, de uns passos que passavam,
Se punha a divagar sobre a noite e o calor.

Nunca nos acalmou a frescura de um beijo
É feliz a amizade! E o amor é tão sério
Que cada um guardou, para si, o desejo,
Temendo ver voar a asa do mistério.

Arrependido? Sim: preferia recordar
Um corpo saciado, a um corpo reprimido;
O momento fremente de o despir e enlaçar
E de o sentir ranger, como range um vestido.










domingo, 22 de setembro de 2019

JOÃO GASPAR SIMÕES - Da Cultura e da Erudição (III)



JOÃO GASPAR SIMÕES
(Figueira da Foz, Portugal, 1903 — Lisboa, 1987)
Dramaturgo, crítico literário, tradutor

***

DA CULTURA E DA ERUDIÇÃO (III)

(continuação)

Entre o tradicionalista e o erudito há, portanto, este ponto de união: ambos obedecem a uma situação de facto – para continuar com Max Scheler – e ambos rejeitam a comunicação, quer dizer, o processus de recriação individual das experiências e ensinamentos alheios. 

E aqui lembramos Freud. A psicanálise faz consistir o seu processo de cura em trazer o doente até ao limiar dos acontecimentos recalcados. Uma vez aí, o doente revive esses acontecimentos – e liberta-se. Eis de que parecem o tradicionalista e o erudito: qualquer deles precisa de reviver as experiências acumuladas (recalcadas no tradicionalista; acumuladas, no erudito). 

É a falta de uma aceitação experimental, viva, que produz a secura e a esterilidade do erudito; é da recepção tácita do passado e da sua devolução para o subconsciente, que nasce o automatismo e o fatalismo do tradicionalista. A um e outro falta, em conclusão, a realização viva e individual das experiências e dos conhecimentos recebidos. 

Eis porque o homem culto é inimigo da tradição. A cultura é um progresso do espírito – uma permanente excitação das forças da inteligência. 

(continua)



in – “PRINCÍPIO” – Publicação de Cultura e Política – 1930 – Renascença Portuguesa

 




sábado, 21 de setembro de 2019

OSWALD DE ANDRADE - Erro de Português



OSWALD DE ANDRADE
(São Paulo, Brasil, 1890 - 1954)
Poeta

***

ERRO DE PORTUGUÊS

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.




sexta-feira, 20 de setembro de 2019

JORGE LUÍS BORGES - Em toda a biblioteca há espíritos



                          JORGE LUÍS BORGES
(Buenos Aires, Argentina, 1899 - Genebra, Suíça, 1986)
Escritor, poeta, tradutor

***

EM TODA A BIBLIOTECA HÁ ESPÍRITOS

Penso que em toda a biblioteca há espíritos. Esses são os espíritos dos mortos que só despertam quando o leitor os busca. Assim, o acto estético não corresponde a um livro. Um livro é um cubo de papel, uma coisa entre coisas. O acto estético ocorre muito poucas vezes, e cada vez em situações inteiramente diferentes e sempre de modo preciso.

(...) Detenhamo-nos nesta ideia: onde está a fé do leitor? Porque, para ler um livro, devemos acreditar nele? Se não acreditamos no livro, não acreditamos no prazer da leitura. (...) Acompanhamos a ficção como acontece, de alguma maneira, no sonho.




in “Citador”





quinta-feira, 19 de setembro de 2019

AMADEO DE SOUZA-CARDOSO - Pintor



AMADEO DE SOUZA-CARDOSO
(Manhufe, Amarante, Portugal, 1887 – Espinho, 1918)
Pintor

***

Iniciou a sua carreira como caricaturista. Tentou depois a pintura impressionista.

A partir de 1905 fixa-se em Paris. Em 1912 participa em exposições de vanguarda. 

Iniciada a I Guerra Mundial, em 1914, regressa a Portugal. 

Em 1917 participou com Almada Negreiros no Movimento Futurista Português.

O valor artístico da sua obra foi-lhe reconhecido passados anos.

Está representado no Museu de Arte Contemporânea, em Lisboa, e no Museu de Chicago.



in ”Portugal Século XX”




quarta-feira, 18 de setembro de 2019

MÁRIO DE ANDRADE – Ode ao Burguês




MÁRIO DE ANDRADE
(São Paulo, Brasil, 1893 - 1945)
Poeta, escritor, musicólogo, crítico de arte

***
Mário de Andrade foi um dos principais ideólogos do movimento modernista e da Semana de Arte Moderna, em 1922, integrando o grupo fundador da revista Klaxon.

in “Casa Mário de Andrade”


***


ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
“— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar… — Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…



MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...