sábado, 10 de agosto de 2013

CARLOS DE OLIVEIRA

 



Carlos de Oliveira nasceu em Belém do Pará, Brasil, no dia 10 de Agosto de 1921, e viveu até 1 de Julho de 1981.
 
Filho de imigrantes portugueses, veio para Portugal com dois anos de idade.
 
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
 
É um dos mais importantes poetas neo-realistas do século XX.
Colaborou nas revistas “Vértice” e “Seara “Nova”.
Participou na antologia de vários poetas, intitulada “Marchas, Danças e Canções”, editada por Fernando Lopes Graça, e na obra “Contos Tradicionais Portugueses”, organizada por José Gomes Ferreira.
O seu conhecido romance “Uma Abelha na Chuva”, foi adaptado ao cinema por Fernando Lopes.
 
Recebeu os Prémios: “Casa da Imprensa” e “Cidade de Lisboa”.

            Carta a Ângela

Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!


Carlos de Oliveira, in “Poesias”          

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

MÁRIO CESARINY

 
 
 
 
        Mário Cesariny nasceu em Lisboa, no dia 9 de Agosto de 1923, e viveu até 26 de Novembro de 2006.
        Poeta, pintor, e historiador, assumiu integralmente o surrealismo português, considerando-o um meio de rebeldia, tanto na arte, como na vida, sobretudo contra o regime salazarista.
Completou o curso de cinzelagem na Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde conheceu alguns dos futuros pintores surrealistas.
Estudou música com o compositor Fernando Lopes Graça.
        Em Paris, frequentou a “Académie de la Grande Chaumière”, onde conheceu André Breton, um escritor e poeta francês, teórico do surrealismo.
        A partir de meados dos anos 60, Cesariny dedicou-se exclusivamente à pintura.
        Da sua obra, destacam-se os livros: “Corpo Visível”, “Louvor Simplificação de Álvaro de Campos”, “Manual de Prestidigitação”, “Pena Capital”, “Nobilíssima Visão”, “As Mãos na Água a Cabeça no Mar”, “Primavera Autónoma das Estradas”, “Poesia, “Burlescas, Teóricas e Sentimentais”, “Titânia e a Cidade Queimada”, “O Virgem Negra”, “Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiros”.
          Recebeu o “Grande Prémio Vida Literária”, da Associação Portuguesa de Escritores.
        Foi galardoado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
Doou, em vida, o seu espólio à Fundação Cupertino de Miranda.
 
                      Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura.
 
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio.
 
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante.
 
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.
 
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola.
 
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come.
 
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
 
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora – rir de tudo.
 
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.
 
 
Mário Cesariny, in “Nobilíssima Visão”.
 
 
 
 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

MARIA TERESA HORTA

 



Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa, no dia 20 de Maio de 1937.

Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Ficcionista, dramaturga, poetisa e jornalista de profissão, Teresa Horta colaborou em diversos jornais e revistas.

        Foi militante do Movimento Feminista de Portugal.

Escreveu, com as suas companheiras de Movimento, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, as “Três Marias”, o livro “Novas Cartas Portuguesas”, cuja temática (a exaltação do corpo, a libertação feminina e as repressões sociais), lhes causou um processo em tribunal, pela ousadia da desobediência dos códigos morais que dominavam a sociedade da época. Este livro teve larga difusão a nível internacional.

Fez parte do grupo “Poesia 61”. Este movimento foi importante na descoberta de jovens talentos que viriam a ter destaque no panorama poético português.

Maria Teresa Horta publicou 18 livros de poesia.

 

Pequena Cantiga à Mulher

 

Onde uma tem
O cetim
A outra tem a rudeza

Onde uma tem
A cantiga
A outra tem a firmeza

Tomba o cabelo
Nos ombros

O suor pela
Barriga

Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga

Tapa a nudez
Com as mãos

Procura o pão
Na gaveta

Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra
A pele seca

Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na
Enxada

Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa

 

Maria Teresa Horta in, "Cronista não é Recado".


 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

GIUSEPPE UNGARETTI




          Giuseppe Ungaretti, filho de emigrantes italianos, nasceu em Alexandria, Egipto, em Fevereiro 1888 e viveu até Junho de 1970.
        Lutou na Primeira Grande Guerra Mundial.
        Em 1912 foi para Paris, onde estudou na Sorbonne.
        Publicou a sua primeira poesia, em 1915, na revista “Lacerba”.
         Foi o criador e principal inspirador da poesia hermética italiana.
        Entre 1937 e 1942 viveu no Brasil, onde leccionou italiano na Universidade de S. Paulo.
         Algumas das obras publicadas: “A Guerra”; “Poesia Dispersa”; “Vida de um Homem” e “Razões de Uma Poesia”.
       
"Hino à morte"
 
Amor, meu emblema de jovem,
que volta a dourar a terra,
difuso no dia rupestre,
é a última vez que contemplo
(ao pé deste barranco, de impetuosas
águas, suntuoso, funesto
de antros) o rasto de luz
que, como a lastimosa rolinha
inquieta, meandra no gramado.

Amor, salvação fulgurosa,
pesam-me os anos do porvir.

Largado o bastão fiel,
resvalarei para a água sombria
sem um queixume.

Morte, árido rio...

Imêmore irmã, morte,
igual ao sonho me farás
beijando-me.

Terei teu mesmo passo,
irei sem deixar traço.

Tu me darás o coração indiferente
de um deus, serei inocente,
sem pensamentos, nem cuidados.

Com a mente murada,
com os olhos caídos em esquecimento,
far-me-ei guia da felicidade.
 

Giuseppe Ungaretti, in “The Feeling of Time”

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

EUGÉNIO DE ANDRADE

 
 
 
 
        Eugénio de Andrade nasceu na Póvoa de Atalaia, concelho do Fundão, no dia 19 de Janeiro de 1923 e viveu até 13 de Junho de 2005.
 
Aos vinte anos mudou-se para Coimbra, onde cumpriu o serviço militar.
 
Desempenhou as funções de Inspector Administrativo do Ministério da Saúde, durante 35 anos.
 
Fez várias viagens, satisfazendo uma série de convites para participar em eventos culturais.
 
Foi tradutor de Francisco Garcia Lorca, da poetiza grega Safo, de Jorge Luís Borges, entre outros.
 
Como reconhecimento pela sua excelente obra poética, traduzida para várias línguas, foi distinguido com prémios, tanto em Portugal como no estrangeiro.
 
Foi agraciado com o grau de “Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada” e a “Grã-Cruz da Ordem de Mérito”.
        Do livro “As Mãos e os Frutos”, o poema:
 
Tu és a esperança, a madrugada
 
Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais dourada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.
Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.
Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

domingo, 4 de agosto de 2013

NASA QUER LEVAR POEMAS A MARTE

 
 
 
          A agência espacial norte-americana abriu um concurso para que qualquer pessoa possa enviar um poema pela Internet. As obras dos vencedores serão levadas, num DVD, para o planeta vermelho.
         
          Quem estiver interessado deve ser maior de idade, registar-se no site da campanha Going to Mars e enviar uma composição na forma de um haicai. Este é um modelo japonês, de três linhas, com cinco, sete e cinco sílabas respetivamente, noticia a InfoBrasil.
 
         O concurso, organizado pelo Laboratório de Física Atmosférica e Espacial da Universidade do Colorado, nos EUA, prevê o envio dos poemas escolhidos pela comunidade num DVD na sonda Maven, em novembro.
 
      Os participantes que enviarem os seus poemas vão poder imprimir um certificado de participação para documentar o seu envolvimento na missão Maven.
 
 
Nota: O texto e a fotografia foram publicados na revista "Exame Informática", de 7 de Maio de 2013.
 
 
 
 


 


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

JOSÉ CRAVEIRINHA

 
 
 
 

           José Craveirinha nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, no dia 28 de Maio de 1922 e viveu até 6 de Novembro de 2003.

           Foi poeta, jornalista, ensaísta.

           Colaborou em diversas publicações, tais como: “O Brado Africano”; “Notícias”; “Mensagem”; “Notícias do Bloqueio”.

           É considerado um dos maiores escritores africanos e o maior poeta moçambicano.

           Está representado em todas as antologias de poesia africana de língua portuguesa.

           Recebeu vários prémios, entre eles: “Prémio Nacional”, em Itália; “Prémio Alexandre Dáskalos” e o “Prémio Lótus”, da Associação Afro-Asiática de Escritores. Foi o primeiro africano distinguido com o “Prémio Camões”.

           Em 2003, foi instituído o “Prémio José Craveirinha de Literatura”.

 
Um Homem Nunca Chora

 

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

 
Eu julgava-me um homem.

 
Na adolescência

meus filmes de aventuras

punham-me muito longe de ser cobarde

na arrogante criancice do herói de ferro.

 
Agora tremo.

E agora choro.

 
Como um homem treme.

Como chora um homem!

 
José Craveirinha, in “Obra Poética”.

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...