domingo, 7 de setembro de 2014

Leopoldo de Almeida

 
 
 
 
 

Leopoldo de Almeida (1898-1975) nasceu em Lisboa, Portugal.
Foi escultor, autor de uma vasta obra, destacando-se a sua participação na “Exposição do Mundo Português”, em 1940, com a estátua “Soberania”.

Pertenceu à segunda geração de artistas modernistas portugueses.

Além dos inúmeros monumentos de diversas personalidades e acontecimentos da vida nacional, Leopoldo de Almeida foi o autor das seguintes estátuas de homens da literatura:

 
- Eça de Queiroz, Praça do Almada, Póvoa do Varzim

- Ramalho Ortigão, Jardim da Cordoaria, Porto

- António Feliciano de Castilho, Avenida da Liberdade, Lisboa

- Marcelino Mesquita, Cartaxo

- Guerra Junqueiro, Porto

- Oliveira Martins, Avenida da Liberdade, Lisboa

 
Leopoldo de Almeida tornou-se, pela qualidade dos seus trabalhos ao longo de cinquenta anos, uma das figuras mais marcantes da escultura portuguesa do século XX.
 

 


sábado, 6 de setembro de 2014

Sobre o regaço

 
 
 
 
 
 
 

Sobre o regaço

 

Sobre o regaço tinha

o livro bem aberto;

tocavam em meu rosto

seus caracóis negros.

Não víamos as letras

nem um nem outro, creio;

mas guardávamos ambos

fundo silêncio.

Por quanto tempo? Nem então

pude sabê-lo.

Sei só que não se ouvia mais que o alento,

que apressado escapava

dos lábios secos.

Só sei que nos voltámos

os dois ao mesmo tempo,

os olhos encontraram-se

e ressoou um beijo.

 

Gustavo Adolfo Bécquer (Sevilha, 1836 – Madrid, 1870).

 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Carta de Fernando Pessoa a Mário Sá-Carneiro

    
 
   
 



Carta de Fernando Pessoa a Mário Sá-Carneiro     

Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

 

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características...

Você acha-me razão, não é verdade?

 

Fernando Pessoa, in “Arquivo Pessoa”

 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Casimiro de Abreu

 
 
 
 
 

Casimiro de Abreu (1837-1860) nasceu na Barra de São João, Estado do Rio de Janeiro.

Poeta da segunda geração do romantismo, viveu em Portugal durante quatro anos, onde escreveu grande parte dos seus versos.

Utilizando uma linguagem simples, os seus poemas revelam a nostalgia da pátria, as saudades da vida familiar e os primeiros casos amorosos da adolescência.

Em 1959, publicou o seu único livro de poesia intitulado Primaveras, no qual estava incluído um dos poemas mais populares da literatura brasileira:“Meus Oito Anos”.

Escreveu a peça teatral “Camões e o Jau”, representada em Lisboa.

Casimiro de Abreu é patrono da cadeira nº6 da Academia Brasileira de Letras.

 

 
Palavras de Casimiro de Abreu:
“A primavera é a estação dos risos”




     Meus Oito Anos

 
Oh! Que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! Dias de minha infância!
Oh! Meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar!

Oh! Que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

 

Casimiro de Abreu, in “As Primaveras”.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Imagine

 
 
 
 


        Imagine

Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para hoje


Imagine que não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que lutar ou morrer
E nenhuma religião também
  Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se junte a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existir posses
Pergunto-me se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade humana
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se junte a nós
E o mundo viverá como um só


John Lennon (Liverpool,1940 - Nova Iorque, 1980), músico, cantor, compositor e escritor.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Rubén Darío

 
 
 
 
 

Rubén Darío (1867-1916) nasceu em Metapa, actualmente Ciudad Darío, Nicarágua.

Considerado um dos maiores poetas pan-americanos, precursor do Modernismo literário em língua espanhola, influenciou de forma decisiva o desenvolvimento da poesia de língua castelhana do século XX.

A sua poesia é estudada, na escola, por todas as crianças hispano-americanas.

Azul… (publicado em 1888), foi o primeiro livro do Modernismo hispano-americano, escrito em prosa e em verso.

Foi, também, um excelente contista, tendo sido publicado, postumamente, o livro Contos Fantásticos.

 
Palavras de Rubén Darío:
 
“A poesia existirá enquanto exista o problema da vida e da morte. O dom de arte é um dom superior que permite entrar no desconhecido de antes e no ignorado de depois, no ambiente do sonho ou da meditação. Há uma música ideal como há uma música verbal. Não há escolas; há poetas. O verdadeiro artista compreende todas as maneiras e encontra a beleza sob todas as formas. Toda a glória e toda a eternidade estão em nossa consciência.”.

 


                    Alma Minha

Alma minha, perdura em tua ideia divina;
tudo está sob o signo de um destino supremo;
segue em teu rumo, segue até o ocaso extremo
pelo caminho que até à Esfinge te encaminha.

Corta a flor ao passo, deixa o duro espinho;
no rio de ouro leva o compasso o remo;
sapuda o rude arado do rude Triptolemo,
e segue como um deus que seus sonhos destina…

E segue como um deus que a sorte estimula,
e enquanto a retórica do pássaro te adula
e os astros do céu te acompanham, e os

ramos da Esperança surgem primaveris,
atravessa impretérita pela bosque de males
sem temer as serpentes, e segue, como um deus…

 

Rubén Darío

Tradução: Floriano Martins

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Pequena Elegia de Setembro

 
 
 
 
 
 
 

Pequena Elegia de Setembro

 
 
Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim. 


 

Eugénio de Andrade, poeta português, in “Coração do Dia”.

Imagem: óleo sobre tela do pintor húngaro Joseph Kleitsch (1885-1931).

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...