segunda-feira, 13 de abril de 2015

CHRISTINA ROSSETTI – “Remember”


 
 
 
 
 
 

Christina Rossetti (Londres, Inglaterra, 1830 – 1894).

A sua poesia distinguiu-se pela originalidade, simplicidade e religiosidade. Versou temas como: amor, morte, vida além-túmulo, renúncia, etc.

Destaque para um dos seus mais notáveis livros de poesia: Mercado dos Duendes e outros poemas.

 

Palavras de Christina Rossetti :

 “O silêncio é mais musical do que qualquer canção.”
 
                 "Remember"

Recorda-te de mim quando eu embora
for para o chão silente e desolado;
quando não te tiver mais ao meu lado
e sombra vá chorar por quem me chora.
Quando não mais puderes, hora a hora,
falar-me no futuro que hás sonhado,
ah! de mim te recorda e do passado,
delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
e depois te lembrares novamente,
não chores: que, se em meio aos meus pesares,

um resto houver do afeto que em mim viste,
- melhor é me esqueceres, mas contente,
que me lembrares e ficares triste.


Christina Rossetti
Tradução: Manuel Bandeira
 
 

 

 

 
 

domingo, 12 de abril de 2015

CARTA do Poeta Álvaro de Campos ao Director da Revista Literária “Contemporânea”

 
 
 
 
 
 
Extractos da carta dirigida a José Pacheco, director da revista literária “Contemporânea”, pelo poeta Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa):
 
Meu querido José Pacheco:
Venho escrever-lhe para o felicitar pela sua “Contemporânea” para lhe dizer que não tenho escrito nada e para pôr alguns embargos ao artigo do Fernando Pessoa.
Quereria mandar-lhe também colaboração. Mas, como lhe disse, não escrevo. Fui em tempos poeta decadente; hoje creio que estou decadente, e já o não sou.
 (…) Agora o artigo do Fernando. Com o intervalo entre a primeira palavra desta carta e a primeira palavra deste parágrafo, já quase me não lembra o que é que lhe queria dizer do artigo. Talvez pensasse em dizer exactamente o que vou escrever a seguir. Enfim, prometi, e digo o que sinto agora, e segundo os nervos deste momento.
Continua o Fernando Pessoa com aquela mania, que tantas vezes lhe censurei, de julgar que as coisas se provam. Nada se prova senão para ter a hipocrisia de não afirmar. O raciocínio é uma timidez — duas timidezes talvez, sendo a segunda a de ter vergonha de estar calado.
Ideal estético, meu querido José Pacheco, ideal estético! Onde foi essa frase buscar sentido? E o que encontrou lá quando o descobriu?
(…) Estética, José Pacheco? Não há beleza, como não há moral, como não há fórmulas senão para definir compostos. Na tragédia físico-química a que se chama a Vida, essas coisas são como chamas — simples sinais de combustão.
(…) O resto é o mito das Danaides, ou outro qualquer mito — porque todo o mito é o das Danaides, e todo o pensamento (diga-o ao Fernando) enche eternamente um tonel eternamente vazio.
(…) Relembro saudosamente — aqui do Norte improfícuo — os nossos tempos do «Orpheu», a antiga camaradagem, tudo em Lisboa de que eu gostava, e tudo em Lisboa de que eu não gostava — tudo com a mesma saudade.
Saúdo-o em Distância Constelada. Esta carta leva-lhe a minha afeição pela sua revista; não lhe leva a minha amizade por si porque V. já há muito tempo aí a tem.
Diga ao Fernando Pessoa que não tenha razão.
Um abraço do camarada amigo
 
Álvaro de Campos
 
Carta enviada à revista “Contemporânea”- Arquivos da “Casa Fernando Pessoa”.
Imagem: Álvaro de Campos visto por Almada Negreiros
 

sábado, 11 de abril de 2015

REVISTAS LITERÁRIAS - “Contemporânea”

 
 
 
 
 
 
 
A Revista “Contemporânea” foi publicada, em Lisboa, entre 1922 e 1926.
Saíram 13 números, dirigidos por José Pacheco. Nela colaboraram, entre outros, Almada Negreiros, Américo Durão, Fernando Pessoa, João Ameal, Mário de Sá-Carneiro, Virgílio Correia, Marinetti, Eugénio de Castro, Teixeira de Pascoaes, António Sardinha.
Revista reconhecida pela qualidade gráfica e conteúdo, apresentava artigos sobre música, política, pintura, crítica de arte e textos de autores portugueses e estrangeiros, aglutinando diversas tendências literárias.
Alguns do textos principais que foram publicados: “O Banqueiro Anarquista”, de Fernando Pessoa; “Poemas de Paris”, de Mário Sá-Carneiro; “A Cena de Ódio”, de Almada Negreiros; “A Gesta da Raça”, de António Sardinha; “O Soneto da Decadência”, de Alfredo Pimenta. 
A revista “Contemporânea” foi uma das mais importantes do modernismo português.
O político e intelectual Afonso de Bragança escreveu, em 1922,no primeiro número da revista:  “Vamos viver de novo Portugal, com outros olhos, com outras tintas, outra alma.”
 
Imagem: Revista Contemporânea
 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA - Madrigal

 
 
 
 
 
 
António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, Portugal, 1923 – Lisboa, Portugal, 2010).
Foi poeta, dramaturgo, ensaísta, empresário teatral, director artístico, actor, encenador, tradutor. 
 
  
 
Palavras de António Manuel Couto Viana:
“A homenagem a um poeta que morreu é decorar-lhe os versos!”
 
 
 
          Madrigal
 
Ainda é possível este amor
Como um regresso ao paraíso?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso?
Ainda é possível este amor?
Qual a resposta que preciso?
E nada digo! E nada dizes!
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...
Com pouco somos tão felizes
Que é já demais pedir luar!
E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor!
 
António Manuel Couto Viana
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

CAFÉS DE TERTÚLIA - Marrare

 
 
 
 
 
 
Café Marrare
 
Inaugurado em 1820, o Café Marrare era o mais requintado e famoso estabelecimento comercial de Lisboa do Romantismo.
A luxuosa decoração de madeira polida, valeu-lhe o sobrenome de “Marrare do Polimento”.
Tinha sala de bilhar e um pátio coberto.
 O café era servido, por criados de libré, em cafeteiras de prata.
Frequentavam o Café Marrare, entre outros, Almeida Garrett, José Estevão, Alexandre Herculano, Passos Manuel.
Encerrou em 1866.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

BILLY COLLINS - Tu, Leitor

 
 
 
 
 
 
 
Billy Collins (Nova Iorque, EUA, 1941).
 
Em 2002, foi convidado a escrever um poema para comemorar o primeiro aniversário da queda das Torres Gêmeas do World Trade Center, em 11 de Setembro.



Palavras de Billy Collins:
"Considero que a poesia é, na verdade, a casa de ambiguidade, ambivalência e incerteza."
 


         Tu, Leitor

Pergunto-me como te vais sentir
quando descobrires
que fui eu que escrevi isto em vez de ti,

que fui eu que me levantei cedo
para me sentar na cozinha
e mencionar com uma caneta

as janelas ensopadas pela chuva,
o papel de parede com heras,
o peixe-dourado circulando no aquário.

Vá lá, dá a volta,
morde o lábio e arranca a página,
mas, escuta - era só uma questão de tempo

até que um de nós casualmente
reparasse nas velas apagadas
no relógio murmurando na parede.

Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –
uma canção na rádio,
um carro assobiando na estrada lá fora –

e eu simplesmente pensando
no saleiro e no pimenteiro
colocados lado a lado num mantel individual.

Perguntei-me se se haviam feito amigos
depois de todos estes anos
ou se ainda eram estranhos um para o outro

como tu e eu
que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos
um para o outro ao mesmo tempo –

eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,
tu encostado algures na entrada de uma casa
junto a umas hortênsias azuis lendo isto.

Billy Collins


 
 



 
 
 

 
 
 


 

terça-feira, 7 de abril de 2015

EGITO GONÇALVES - Com Palavras

 
 
 
 

Egito Gonçalves (Matosinhos, Portugal, 1920- Porto, Portugal, 2001).
 
Palavras de Egito Gonçalves:
“Sou um lírico. Os meus poemas de combate são sempre poemas de amor, porque, vendo bem, em qualquer combate o amor é sempre a chama que nos alimenta.”
 
               Com Palavras
 
Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...

Egito Gonçalves, in “Antologia Poética”
 
 
 

 

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...