quarta-feira, 7 de novembro de 2018

AS AVENTURAS DE UMA FAMÍLIA




AS AVENTURAS DE UMA FAMÍLIA


A 16 de Novembro de 1959, no Teatro Lunt-Fontanne, de Nova Iorque, Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II dão à cena uma nova comédia musical: Música no Coração. O público acolhe com entusiasmo este trabalho, baseado no livro The Trapp Family Singers, de Maria Augusta von Trapp. 

Nesta obra narra-se a história de uma noviça que abandona o convento para tomar conta, como preceptora, da educação dos filhos de um autoritário militar, o seu casamento com este e a transformação de toda a família numa companhia de cantores que alcança notável repercussão na Áustria, até que a ascenção do nazismo ao poder a obriga ao exílio. 

O sucesso coroa esta aventura, tanto no teatro, onde alcançou as 1443 representações, como no cinema, ao qual foi adaptada em 1965 por Robert Wise. A trágica morte de Oscar Hammerstein II, acontecida a 23 de Agosto de 1960, converteu Música no Coração no inesperado testamento musical da bem sucedida parceria que formou com Rodgers.



in “ Crónica da Música”






terça-feira, 6 de novembro de 2018

RAUL DE LEONI - Argila



RAUL DE LEONI
(Petrópolis, Brasil, 1895 - 1926)
Poeta

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Na sua obra, situada em momento de mudanças no panorama estético brasileiro e mundial, há elementos que podem ser relacionados ao parnasianismo, como o gosto pela descrição nítida, em versos luminosos e plenos de paisagens gregas, florentinas, pagãs. Os seus últimos poemas, entretanto, em que se destacam as abstracções filosóficas, apresentam modulação simbolista.


in “Enciclopédia Itaú Cultural” (excerto)

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ARGILA

Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs nas carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heróicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila...

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis)

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E do teu ventre nasceriam deuses...


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

NELLY SACHS – “Nas Moradas da Morte”



NELLY SACHS
 (Berlim, Alemanha, 1891 - Estocolmo, Suécia, 1970)
Escritora

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Descoberto o horror dos campos de concentração nazis, o filósofo Theodor W. Adorno perguntava-se: “É possível a poesia alemã depois de Auschwitz? 

Exilada na Suécia, uma obscura escritora de filiação judaica e língua alemã, Nelly Sachs, não se mostrou de acordo. Nunca passara por um campo da morte, mas tinha sido testemunha, ao longo de sete anos, do sofrimento do seu povo, arrastado para lugares de onde não havia regresso. Ela própria escapou à tangente: já a ordem de deportação havia sido emitida em seu nome quando os bons ofícios de Selma Lagerlöf, produziram os seus efeitos. Nelly, com quase cinquenta anos, foi autorizada a voar para Estocolmo com a sua mãe.

Estas Moradas da Morte foram habitadas nas frias noites de Inverno de 1943-44, enquanto, à cabeceira da mãe doente, Nelly esperava a luz do dia para poder passá-las ao papel. Viram a publicação em Berlim, em 1947, para provando que Adorno não tinha razão e transformando Nelly Sachs na “grande poetisa do destino judaico”.

Recebeu o “Prémio da Paz da Associação de Livreiros Alemães” e o “Prémio Nobel de Literatura”.


in “Mulheres Século XX” (excerto)

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Oh as Chaminés

Sobre as moradas da morte
engenhosamente inventadas,
   Quando o corpo de Israel
desfeito em fumo partiu
   Pelo ar –
   Como limpa-chaminés uma
estrela o recebeu
   Que se fez negra
   Ou era um raio de sol?

   Oh as chaminés!
   Vias da liberdade para o pó
de Jeremias e de Job –
   Quem vos inventou e com-
pôs pedra sobre pedra
   De fumo o caminho aos
fugitivos ?
   Oh as moradas da morte,
   De arranjo convidativo
   Para o hospedeiro, outrora
hóspede –
   Ó dedos,
   Pondo a soleira de entrada
    Como uma faca entre vida
e morte –

   Ó vós chaminés,
   Ó vós dedos,
   E o corpo de Israel em
fumo pelo ar!



in “Nas Moradas da Morte” (excerto)


domingo, 4 de novembro de 2018

PABLO NERUDA - O Poço



PABLO NERUDA
(Chile, 1904 - 1973)
Poeta

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É um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX.
Recebeu, em 1971, o Prémio Nobel de Literatura.

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O POÇO

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.







sábado, 3 de novembro de 2018

CHARLES BUKOWSKI - Então queres ser um escritor?


CHARLES BUKOWSKI
(Alemanha, 1920 – EUA, 1994)
Poeta, contista, romancista

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O seu trabalho relata o desespero da classe trabalhadora, dos menos afortunados. Os temas tratados são os mesmos em todo o espectro da sua literatura: violência, desespero, pobreza, alcoolismo, loucura, sexo, solidão e suicídio. O que o prendia à escrita era a realização de que sem ela, a sua vida seria tão absurda e tão sem significado, como as personagens e os temas que tratava.

in “Cultura e Arte” (excerto)

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ENTÃO QUERES SER UM ESCRITOR?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.

se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.

se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.



Tradução: Manuel A. Domingos




sexta-feira, 2 de novembro de 2018

NATÁLIA CORREIA - Queixa das almas jovens censuradas



NATÁLIA CORREIA
(São Miguel, Açores, Portugal, 1923 - Lisboa, 1993)
Escritora e poetisa

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Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte




quinta-feira, 1 de novembro de 2018

ANTÓNIO RAMOS ROSA - Poema dum Funcionário Cansado



ANTÓNIO RAMOS ROSA
(Faro, Portugal, 1924 – Lisboa, 2013)
Poeta, tradutor, desenhador

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A sua produção poética ultrapassa as duas dezenas de volumes galardoados vários deles com os mais prestigiosos prémios nacionais, dando-lhe jus a ser considerado um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.

in “Portugal Século XX”(excerto)

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POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...