sexta-feira, 7 de agosto de 2020

TOSCANINI, HERÓI DA GUERRA



TOSCANINI, HERÓI DA GUERRA   

A 31 de Agosto de 1916, Arturo Toscanini, um dos músicos mais admirados do seu tempo, é condecorado pelas autoridades italianas com uma medalha de mérito por ter dirigido uma banda de música durante o assalto a Monte Santo, um sangrento episódio da Primeira Guerra Mundial.




in “Crónica da Música”

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

ANDRÉ MALRAUX - Ideais Fatais



ANDRÉ MALRAUX
(Paris, França, 1901 - Créteil, 1976)
Escritor

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Figura central da cultura francesa do século XX, participou activamente nas lutas revolucionárias do seu tempo e sobre elas produziu algumas das mais marcantes obras da literatura mundial, entre elas A Condição Humana (1933), centrado na revolução comunista chinesa, e A Esperança (1937), onde reflecte a sua participação na Guerra Civil de Espanha. 

Membro da Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, dedicou-se à vida política no pós-guerra, tendo desempenhado o cargo de ministro da Cultura nos governos de Charles de Gaulle, entre 1959 e 1969.

in “Livros do Brasil”

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IDEAIS FATAIS

Não há ideal a que possamos sacrificar-nos, porque de todos eles conhecemos a mentira, nós os que ignoramos em absoluto o que seja a verdade. A sombra terrestre que se alonga por detrás dos deuses de mármore basta para nos afastar deles. Ah, com que amplexo o homem se estreitou a si próprio! 

Pátria, justiça, grandeza, piedade, verdade, qual das suas estátuas não traz em si os sinais das mãos humanas para que não desperte a mesma ironia triste que os velhos rostos outrora amados? Compreender não significa necessariamente aceitar todas as loucuras. E, no entanto, quantos sacrifícios, quantos heroísmos injustificados dormem em nós...



in “A Tentação do Ocidente” (citador)


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

AMBROSE BIERCE – Uma visita inofensiva



AMBROSE BIERCE
(Ohio, EUA, 1842 – 1913)
Escritor, crítico satírico

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UMA VISITA INOFENSIVA


Numa reunião da Liga Dourada do Mistério uma Mulher foi vista a escrever num caderno de apontamentos. Um dos membros chamou a atenção do Excelentíssimo e Magnífico Presidente para tal facto, tendo a Mulher sido instada a explicar a sua presença e actuação naquele lugar.

- Vim aqui para me deleitar e para me instruir – disse a Mulher -, e de tal modo me impressionou a sabedoria dos oradores que não resisti a tomar algumas notas.

- Minha Senhora – disse o Excelentíssimo e Magnífico Presidente -, não pomos qualquer objecção à presença de visitantes desde que estes se comprometam a não publicar nada do que ouvem. Diga-me, pela sua honra: tem alguma ligação a jornais ou a qualquer outra publicação?

- Juro que não! – exclamou a Mulher, muito séria. – Trabalho na Associação da Imprensa Feminina!

Foi autorizada a permanecer, com vários pedidos de desculpa.





in “Esopo emendado & outras fábulas fantásticas”



terça-feira, 4 de agosto de 2020

CAMILO CASTELO BRANCO - Anel



CAMILO CASTELO BRANCO
(Lisboa, Portugal, 1825 — Vila Nova de Famalicão, 1890)
Escritor, poeta

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Considerado o expoente do romantismo em Portugal, autor de obras centrais na história da literatura nacional, como Amor de Perdição, A Queda dum Anjo e Eusébio Macário.

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ANEL

Dá-me um anel; mas que seja
Como o anel em que cingida
Tem gemido toda a minha vida.
Dá-me um anel; mas de ferro,
Negro, bem negro, da cor
Desta minha acerba dor,
Deste meu negro desterro!

Dá-me um anel; mas de ferro...
Sempre comigo hei-de tê-lo;
Há-de ser o negro elo,
Que me prenda à sepultura.
Quero-o negro...seja o estigma,
Que decifre o escuro enigma,
Duma grande desventura.

Dá-me um anel; mas de ferro,
Que resista mais que os ossos
Dum cadáver aos destroços
Do roaz verme do pó.
Entre as cinzas alvacentas,
Como espólio das tormentas
Apareça o ferro só.

E o teu nome impresso nele,
Falará dum grande amor,
Nutrido em ânsias de dor,
Pelo fel da sociedade...
Que teu nome nele escrito,
Nesse padrão infinito,
Vá comigo à Eternidade.



segunda-feira, 3 de agosto de 2020

OCTAVIO PAZ - Destino de poeta



OCTAVIO PAZ
(Cidade do México, México, 1914-1998)
Poeta

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DESTINO DE POETA


Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.




in "Liberdade sob Palavra"
Tradução: Luís Pignatelli




domingo, 2 de agosto de 2020

JOSÉ CARDOSO PIRES – João Abel Manta (III)



JOSÉ CARDOSO PIRES
(Vila de Rei, Portugal, 1925 - Lisboa, 1998)
Escritor, crítico literário

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JOÃO ABEL MANTA (III)

(continuação)

Quem vê os portugueses de cartola e de barbas honradas saídos da pena sábia de João Abel é tentado imediatamente a pensar numa crítica directa às glórias da caldeira a vapor, papéis do Estado a 3,5 por cento, bem-estar social repousado em cotações assentes. Será um pouco isso e muito mais, parece-me. 

Semelhante mensagem mostra-se simplista e imediata em demasia para que possa justificar tamanha abundância de símbolos; o tecido dos figurinos seria excessivamente «um tecido» depois de desenhado com tantas fibras. 

Além de que poderia perguntar-se: crítica a que época? E a que país? Mais ainda: se de crítica à burguesia se trata, não é verdade que os antiburgueses de João Abel, os operários por exemplo, aparecem limpos e muito, mas mesmo muito, «convenientes» e instalados – arrumados, digo antes – na «condição que lhes compete»? Ou tratar-se-á então de uma elegia de valores de um mundo em equilíbrio estável?


(continua)



in “Cartilha do Marialva”




sábado, 1 de agosto de 2020

ALEXANDRE O'NEILL – Persiana para janela de Maluda



ALEXANDRE O'NEILL
(Lisboa, Portugal, 1924 - 1986)
Poeta

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Foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa.

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PERSIANA PARA JANELA DE MALUDA


Esta janela já não tem enredos,
ninguém por ela espreita, ninguém espera
vê-la semicerrar, semiabrir
o olhoblíquo verde do ciúme;

nem por ela passarão as trajectórias
do suicida e do escalador.
Romeu morreu e a doce expectação
de Julieta é comprimido sono.

Sequer uns braços nus de janeleira,
hasteada brancura, nela podem
demorar o gozo dum voyeur,
que esta janela já não serve para...

Esta janela é uma finta, é uma jogada
no xadrez de quem a pinta e assina.





MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...