quarta-feira, 21 de agosto de 2013

HERMANN HESSE

 
 
Hermann Hesse nasceu em Cawl, Floresta Negra, Alemanha, no dia 2 de Julho de 1877, e viveu até 9 de Agosto de 1962.
A partir de 1923, adquiriu a nacionalidade suíça.
Foi poeta, romancista e pintor. É considerado um dos mais importantes escritores alemães do século XX. 
Alguns dos livros que escreveu: “O Regresso de Zaratustra”;“Demian”; “Sidarta”; “O Lobo da Estepe”; “Narciso e Goldmunde “O Jogo das Contas de Vidro”, a sua obra máxima.
Em 1946, recebeu o “Prémio Nobel de Literatura” e o “Prémio Goethe”.
       
             A Meu Irmão
 
Quando revemos nossa casa, agora,
andamos encantados pelos cômodos,
ficamos longo tempo no jardim
onde – meninos levados – brincávamos.
 
E de todos os outros esplendores
que pelo mundo afora conquistamos,
nenhum mais nos alegra nem agrada
quando o sino da igreja faz-se ouvir.
 
Calados repisamos velhas trilhas
cruzando o verde terreno da infância:
e elas no coração tornam-se vivas,
grandes e estranhas, como um belo conto.
 
Mas tudo o que estaria à nossa espera
já não há de ter mais o puro brilho
de outrora – quando ainda rapazolas
no jardim caçávamos borboletas.
 
Hermann Hesse, in “Música da Solidão”.
 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

CECÍLIA MEIRELES

 
 
         Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, no dia 7 de Novembro de 1901, e viveu até 9 de Novembro de 1964.
       
       Foi poetisa, jornalista, pintora, tradutora e professora.
       
        Considerada uma das mais importantes poetisas de língua portuguesa, fez aos 9 anos de idade a sua primeira poesia.
       
          Diplomou-se no Curso Normal do Instituto de Educação, começando a exercer o magistério primário em escolas oficiais.
       
         Em 1919, publicou o primeiro livro de poesias, intitulado “Espectro”.
 
Viveu em Lisboa, onde publicou: “O Espirito Vitorioso”, um ensaio sobre a apologia do Simbolismo. Colaborou, assiduamente, num jornal diário, escrevendo artigos sobre educação. Publicou “Olhinhos de Gato”, um pequeno livro de memórias, que constitui uma narrativa autobiográfica de Cecília Meireles.
 
Proferiu, em várias cidades portuguesas, conferências sobre Literatura Brasileira.
 
Nos Estados Unidos, Ásia e África realizou colóquios sobre Literatura, Educação e Folclore.   
        
         Traduziu peças teatrais de Virginia Woolf, Garcia Lorca, Rabindranath Tagore, entre outros.
       
         A sua poesia está traduzida para várias línguas, incluindo a húngara, a urdu e hindu.
 
Em 1934, criou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro.
       
         Recebeu diversos galardões e grandes homenagens públicas, dos quais se salientam:
       
“Prémio de Poesia Olavo Bilac”, pela Academia Brasileira de Letras”; Sócia honorária do “Real Gabinete Português de Leitura”, no Rio de Janeiro; “Oficial da Ordem de Mérito”, do Chile; Sócia honorária do “Instituto Vasco da Gama”, em Goa; Título de Doutora Honoris Causa da Universidade de Délhi; “Prémio Jabuti de Tradução de Obra Literária”; “Prémio de Tradução e Teatro”, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte; “Prémio Machado de Assis”.
       
 
Canção
 
 
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.


vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
 
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
 
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
 
 Cecília Meireles, in "Viagem".

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

RUY BELO

 
 
Ruy Belo nasceu em S. João da Ribeira, Rio Maior, no dia 27 de Fevereiro de 1933 e viveu até 8 de Agosto de 1978.
 
Foi licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa. Doutorou-se em Direito Canónico na Universidade Gregoriana, em Roma, com uma tese intitulada “Ficção Literária e Censura Eclesiástica”.
 
Foi director literário da “Editorial Aster” e chefe de redacção da revista “Rumo”.
 
Participou na greve académica de 1962 e foi candidato a deputado, em 1969, pelas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática.
 
Foi leitor de Português em Madrid. Quando regressou a Portugal, o governo não permitiu que leccionasse na Faculdade de Letras de Lisboa, devido às suas actividades políticas como opositor do regime. Foi professor na Escola Técnica do Cacém, dando aulas no ensino nocturno.
 
Ruy Belo, apesar de breve período de actividade literária, foi um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX. As suas obras têm sido reeditadas várias vezes.
 
Os seus primeiros livros de poesia foram: “Aquele Grande Rio Eufrates” e “O Problema da Habitação”.
 
A sua obra que está organizada em três volumes sob o título “Obra Poética de Ruy Belo”, é considerada uma das mais importantes da poesia portuguesa contemporânea.
 
“Boca Bilingue” e “Homem de Palavras”, entre outras, são obras de temática religiosa e metafísica.
 
Obteve destaque como tradutor de escritores, tais como, Montesquieu, Jorge Luís Borges, Antoine de Saint-Exupéry e Frederico Garcia Lorca.
 
Em 1991 foi condecorado, a título póstumo, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant´iago da Espada.
 
       
          E Tudo era Possível
 
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo, in “Homem de Palavra (s).

domingo, 18 de agosto de 2013

DOBRADA À MODA DO PORTO

 
 
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
 
Álvaro de Campos, in "Poemas"
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

sábado, 17 de agosto de 2013

ANTÓNIO BOTTO

 



António Botto nasceu em Concavada, Abrantes, no dia 17 de Agosto de 1897 e viveu até 17 de Março de 1959.
Foi poeta, ficcionista e autor dramático, figura de referência do modernismo português.
Em 1924, viajou para Angola, onde trabalhou em Santo António do Zaire e Luanda.
 O livro de poesia, "Canções", é a sua mais conhecida e polémica obra literária.
Em colaboração com Fernando Pessoa, editou a “Antologia de Poemas Portugueses Modernos”.
Escreveu o “Livro das Crianças”, uma colecção de contos infantis, que obteve grande sucesso. Foi oficialmente aprovado como leitura escolar na Irlanda. Traduzido por Alice Lawrence Oram, o livro foi publicado com o título “The Childreen´s Book”.
Desgostoso com a sociedade conservadora e moralista em Portugal, emigrou para o Brasil, em 1947.
Residiu em S. Paulo e depois no Rio de Janeiro.
Escreveu artigos em jornais Portugueses e Brasileiros, participou em programas de rádio e organizou récitas de poesia em diversas instituições.
O seu espólio foi doado, postumamente, à Biblioteca Nacional, em 1989.
 
Poema de Cinza
 
Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
 
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
 Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!
 
Nota: Este poema foi escrito por António Botto, em homenagem ao seu amigo Fernando Pessoa.
 
 
 
 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ALEXANDRE PINHEIRO TORRES

 
 
        Alexandre Pinheiro Torres nasceu em Amarante, no dia 27 de Dezembro de 1923 e viveu até 3 de Agosto de 1999.
        Foi poeta, crítico literário do movimento neo-realista, romancista, tradutor, professor e historiador.
        Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra.
        Colaborou em várias publicações, tais como: “Seara Nova”; “Jornal de Letras”; “Artes e Ideias”; “Gazeta Musical e de Todas as Artes”; “A Serpente”.
        Proibido de exercer a sua actividade docente em Portugal, por motivos políticos, decidiu abandonar o País.
        Convidado pela Universidade de Cardiff, no País de Gales, leccionou a cadeira, por si criada, de "Literatura Africana de Expressão Portuguesa”.
        Em 1976, fundou, na mesma Universidade, o "Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros".
        Em 1983, recebeu o “Prémio de Poesia”, pela Associação Portuguesa de Escritores.
        Foi membro da Academia Maranhense de Letras de São Luís do Maranhão, no Brasil.
 
                    Homenagem Póstuma
 
        Pode acontecer que já esteja bem morto
        quando alguém disser que eu pudera ser grande;
        e, então, será inútil o póstumo conforto:
        nunca gozarei não ser o pobre Alexandre!
 
        Pode acontecer que as hipócritas dores
        que venham trazer ao pé do mausoléu,
        perpassem por ele em tão fortes clamores
        que façam abrir-me o ferrolho do Céu.
 
        Pode acontecer que eu, então, tenha o cúmulo
        de todas as coisas sonhadas e vãs,
        e que, assim, na vida começada no túmulo,
        venha a conhecer o esplendor das Manhãs!
 
       
Alexandre Pinheiro Torres, in “Novo Génesis”.
                          

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...