segunda-feira, 15 de outubro de 2018

LUCIAN BLAGA – O Cão de Pompeia



LUCIAN BLAGA
(Roménia, 1895 – 1961)
Poeta, filósofo, dramaturgo

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Formou-se em Filosofia em Viena. Lá descobriu o expressionismo, a corrente artística que condicionou o seu trabalho poético.
De volta à Roménia, publicou um vasto trabalho: sete volumes de versos, numerosos ensaios filosóficos, obras teatrais e uma laboriosa tradução do Fausto de Goethe.
Lucian Blaga é uma personalidade de referência da cultura romena do século XX. 

in “Biografias y Vidas” (excerto/adaptação)
                                   
***
O CÃO DE POMPEIA

Eu vi em Pompeia aquele cão romano.
Assim o quiseram as Deusas da sorte:
Um molde guardado na massa da morte,
Que o não apodreça nem chuva, nem ano.

 Escapara à nuvem da porta, correndo
 À noite caída do monte co'o fogo.
 Porém, sobre si dando volta, foi logo
 Extinguir-se a rosnar e em cinza mordendo.

 Mas - chumbo e cinza e nuvem - Senhor,
 Vos vejo, até mim pela porta irrompendo,
 Do monte dos céus, com ar devastador.

 Só escapo até à saída. E após,
 A cinza do mundo, em Vós vou mordendo,
 E guardo este molde p'ra sempre em Vós




Tradução; Doina Zugravescu
in ”Rosa do Mundo”







domingo, 14 de outubro de 2018

FERNANDO ECHEVARRÍA - Domingo



FERNANDO ECHEVARRÍA
(Santander, Espanha, 1929)
Poeta

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É filho de pai português e mãe espanhola. Poeta metafísico do grupo Poema Livre é um dos mais premiados escritores portugueses.

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DOMINGO 

Ficou-lhe a paz. Do tempo 
em que, movido o olhar à santidade, 
parávamos no campo vendo 
correr a água e adubar-se o caule 
que abrirá sua roda de sustento 
à fadiga do homem, que uma coroa de aves 
reconhece no ar, de estar aberto 
à cálida saúde da passagem. 
Depois da missa, pelo domingo adentro, 
crescia esta saudade 
fresquíssima de estarmos tão atentos 
à tarefa que, sem nós, a tarde 
cumpre na terra. E mesmo ao pensamento 
que amadurece nas árvores, 
tocadas longe, no estremecimento 
que se enreda por nós e em nós se abre. 
Ficou-lhe a paz. O doce movimento 
que nos inclina para a primeira idade.





sábado, 13 de outubro de 2018

RAUL BRANDÃO – O Nevoeiro no Mar



RAUL BRANDÃO
(Porto, Portugal - 1867 - Lisboa, 1930)
Escritor, jornalista

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O Nevoeiro no Mar

As névoas anunciam o inverno. Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo. Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte. 

O sino tange. Não se vê palmo adiante do nariz. Lá fora os barcos, como cegos, só se guiam pelo som. O mar é um misterioso fantasma que os envolve. Cerração cada vez mais mole e espessa… Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo. Às vezes adelgaça-se um pouco na costa, e grandes rolos de fumaceira crescem do mar sobre a terra. É o Inverno que vem aí. 

A voz imensa tem já plangências de dor – desabafar infinito de lágrimas. De sul para o norte as nuvens correm sempre, coortes que saem das profundas, e avançam, deslizam sobre as águas sem ruído, enchendo o céu de farrapos enormes, de fantasmas criados naquele mar salgado e que se seguem em tropel num galope monstruoso para uma batalha desconhecida. E de quando em quando o sino chama, chama sempre pelos homens perdidos na névoa espessa que leva dias a passar.



in “Os Pescadores”
Imagem: retrato de Raul Brandão (1928), por Columbano Bordalo Pinheiro. 



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

CARL SANDBURG – Caixas e Sacos



CARL SANDBURG
(EUA, 1878 – 1967)
Poeta, historiador

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Carl Sandburg:


“Estou ainda a estudar os verbos e a misteriosa maneira como se ligam aos substantivos. Desde que me conheço, nunca como hoje tive tantas suspeitas em relação aos adjectivos. Esqueci o significado de vinte ou trinta poesias escritas há trinta ou quarenta anos. As minhas preferências vão ainda para poesias bem fáceis publicadas há muito e que continuam a atrair as pessoas simples.”

***
CAIXAS E SACOS

Quanto maior é a caixa, mais leva.
As caixas vazias levam tanto como as cabeças vazias.
Muitas caixinhas vazias, que se deitam numa grande caixa vazia, enchem-na toda.
Uma caixa meio-vazia diz: «Ponham-me mais.»
Uma caixa bastante grande pode conter o mundo.
Os elefantes precisam de grandes caixas para guardar uma dúzia de lenços de assoar para elefantes.
As pulgas dobram os seus lencinhos e arrumam-nos com cuidado em caixas de lenços para pulgas.
Os sacos encostam-se uns aos outros e as caixas levantam-se independentes.
As caixas são quadradas e têm cantos, ou então são redondas e têm círculos.
Pode empilhar-se caixa sobre caixa até que tudo venha abaixo.
Empilhe caixa sobre caixa, e a caixa do fundo dirá: «Queira notar que tudo repousa sobre mim.»
Empilhe caixa sobre mim, e a que está em cima perguntará: «É capaz de me dizer qual de nós cai para mais longe quando caímos todas?»
As pessoas-caixas vão à procura de caixas e as pessoas-sacos à procura de sacos.


Tradução: Alexandre O´Neill

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

ALFREDO REGUENGO – Viagem


ALFREDO REGUENGO
(Viana do Castelo, Portugal)
Poeta

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VIAGEM

Se não vieres,
eu partirei
sozinho
pela estrada-de-noite
que se alonga
na planura
sem
fim.

Levarei nos meus olhos,
cansados
de esperar,
a tua imagem
- que ali ficou
à força de sonhada
- e ela será
a luz
que me há-de guiar
na noite
sem madrugada...


Partirei triste
- eu
sei -
por não teres chegado,
como tinhas dito
- e triste,
sobretudo
por ver
que não vieste
por não te merecer...


Mas o que ninguém consegue
é tirar
a tua imagem
dos meus olhos
deslumbrados!


Eu tenho-a,
viva,
lá dentro
e, para que ela não fuja,
hei-de levá-los... fechados!...






terça-feira, 9 de outubro de 2018

JOSÉ RÉGIO - Ámen



JOSÉ RÉGIO
(Vila do Conde, Portugal, 1901 - 1969)
Poeta, dramaturgo, professor

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Ámen

No circo cheio de luz
Há tanto que ver!…

“Senhores!”
— Grita o palhaço da entrada,
Todo listrado de cores —
Entrai, que não custa nada!”
À saída é que se paga…”

(E eu sou aquele palhaço
Com listras!, e estardalhaço,
Chamando público…)

Na arena,
Está toda a companhia.
E o público contracena
Com a arena,
Como a arena com o público,
Agonias de alegria…

Uma bailarina dança.

A bailarina que dança
Já correu França e Aragança
Dançando do mesmo modo
Com todo o seu corpo todo.
Mas sempre, de cada vez,
Seu pés,
Seus voláteis pés,
Tiveram diverso modo
De raptar da mesma forma
Seu corpo todo!

Os seus movimentos de hoje
São, talvez, iguais aos de ontem,
Aos olhos de quem não vê
Que o gesto feito uma vez
Já se não faz como fez.

Ai!, a vida! 
E eu que ouvi que a vida é um dia!

Mas acaba e principia
A cada instante do dia…

(E eu também sou bailarino:
Também danço!;
Também não tenho descanso;
Também cá vivo fingindo
Que só vivo repetindo,
Muito embora
Saiba como a toda a hora
Vario e crio,
Ruo e fluo,
Como um rio…)

Na plateia, um homem bêbado
Tem olhos vítreos do vinho.
Seus olhos vítreos
Pegaram-se às pernas ágeis
Da bailarina.
Seu olhar que foi subindo
A foi despindo…
E ali a cara de todos
Aquele bêbado a goza,
Gemendo, arquejando, rindo…

… De tal modo,
Que, súbito, o circo todo
é um grande leito em festa, a receber
O espasmo daquele homem
Que possui essa mulher.

Que mentira e que verdade
Que é a vida!

(E eu sou, também, esse bêbado
Que a força de desejar
Transformou em realidade
O seu desejo.
Na verdade…,
Sim, na verdade, não vejo
Porque me não enganar…)

O acrobata, que belo,
Cinturado de amarelo!
Que belo
Ser acrobata!
Seu corpo é de oiro e de prata,
Com fogo e gelo a correr…
Pendurado do trapézio,
Crucificado no ar,
Causa angústia e faz prazer
Ver esse corpo bailar,
Voar
Entre a vida e a morte…
E é belo ser assim forte,
Ficando assim delicado.

Ora esse alado elegante
Que sorri com tal desplante
Tem, no entanto,
Há já tanto!,
Uma loucura com ele
Que o impele:
Quer subir
Até onde puder ir;
Além do que puder ir;
Mais e mais!
Seus belos saltos mortais
Desenham cada vez mais
Voos cada vez mais trágicos.
Até que ele há-de chegar
À tristíssima vitória
De não ter mais que avançar.

Então…,
Ele há-de, ainda, sorrir.
Ora verão!
E há-de deixar-se cair.


E há-de deixar-se cair,
Do sétimo céu ao chão.
Ai!, a vida!
Poema da Tentação…

(E eu sou aquele acrobata:
Não subi nem me exibi;
Não me tapei de amarelo,
Nem meu corpo é de oiro e prata,
Nem eu sou belo…
Tenho dó de não ser belo!
Mas sou aquele acrobata.)

Ri, palhaço!

O palhaço entrou em cena,
Ri, cabriola, rebola,
Pega fogo à multidão.

Ri, palhaço!

Corpo de borracha e aço,
Rebola como uma bola,
Tem dentro não sei que mola
Que pincha, emperra, uiva, guincha,
Zune, faz rir!

Ri, palhaço!

Ri…, ri de ti para os outros,
Ri dos outros para ti,
Ri de ti para ti… ri!,
Ri dos outros para os outros…,
Ri, arre!, ri, irra!, ri!

Não!, que não!, que eu não lamente
Quem então, mesmo que o tente,
Não deixa de se exprimir
Tão brutalmente.

Palhaço, ri!

Eu não sei ter dó de ti:
Por miserável que seja,
Não se tem dó do que é belo.

(… Porque,
Será preciso dizê-lo?,
Também sou esse palhaço
Feito de borracha
E aço…)

Ai!, a vida!
Que trambolhões na subida,
Que ascensões pela descida…!

Entre os mil espectadores,
Encolhido,
Pequenino,
— Meu menino, ino, ino… —
Sim, fixo aquele menino.

Seus olhos, duas estrelas,
Acesinhos como velas
E maiores
Que os dos mais espectadores,
São de Menino Jesus
Que dá lição aos doutores.

Esses olhos fazem luz
Sobre todo o circo… São
Duas varas de condão.

Eis como, a luz que eles dão,
Tudo, em redor, se enriquece
De outra significação:

Que linda história de fadas
Se não vai desenrolando!,
Com princesas encantadas
Desencantadas,
E jovens reis escalando
Que muralhas invencíveis
Ao ritmo de árias terríveis,
Enquanto um príncipe excêntrico
Engole espadas e chamas,
Vem divertir o seu povo,
Trava prélios
Com dragões,
Gigantes,
Bruxas,
Anões,
- Criações
Dum mundo novo…

Ai!, a vida!
Maravilhosa historieta!

(E eu sou aquele menino:
Sou poeta…)

Mas em frente,
Do outro lado da arena,
Certa cara mascarada
Foca a cena:
Mascarada de silêncio,
De serenidade e enigma.

Bailados e acrobacias,
Amazonas e corcéis,
Músicas, luzes, e cores,
— Não me parecem que existam
Naqueles ouvidos surdos
E naqueles olhos foscos
De lágrimas,
Sangue,
Suores…

Quem é que ali sabe a história
Destes olhos esvaziados.
Dessa testa de sepulcro,
Daqueles lábios selados?

Por que está ali essa máscara,
Sozinha na multidão,
Fechada no seu caixão
De solidão e silêncio?…

E ai, minha mãe e meu pai!,
Todos que me quereis… ai
Que eu sou também, afinal,
Todo esse frio mortal…!

… Porque eu sou tudo!, — afinal.

E, mais do que bailarino,
Clown, acrobata, menino,
Bêbado ou esfinge, sou
A terra,
O chão que eles pisam,
E o pó que sobe e os envolve…
Moro lá em baixo, enterrado,
Muito lá em baixo!, e calado.
Pairo por cima ondulando,
Ando
No ar
Espalhado…

Ai!, a vida!

Que a vida não tem limites,
E quem vive não tem paz,
Menino, por mais que sonhes!,
Por mais que desejes, bêbado!,
Palhaço, por mais que grites!,
Por ais que vás, acrobata!,
Por mais que vás…!

Ai!, a vida!

… Assim, me surge tão bela,
Tão digna de ser vivida,
Sorvida
Até se esgotar,
Que eu sei que é faminto dela
Que me hei-de matar.




in ”Antologia Poética”


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

BAI JUYI – O Velho Carvoeiro


BAI JUYI
(República Popular da China, 772 d.C.- 846 d.C.)
Poeta

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O VELHO CARVOEIRO

No monte do Sul o velho carvoeiro
    serra a madeira, faz carvão.
O rosto cor de fogo, coberto de fuligem,
    cinzentas as têmporas, negras as mãos.
Ganha tão pouco dinheiro, e para quê?
    Roupa para o corpo, comida para a boca,
mas tão pobre, vestido de andrajos
    Tem frio e deseja o frio, por causa do negócio.
Esta noite um palmo de neve sobre a cidade.
    De madrugada, conduz a carroça, rasgando o gelo,
ao meio-dia, o boi fatigado, o homem com fome.
    Na Porta Sul descansam ambos na lama gelada.
Ah, quem são esses fogosos cavaleiros?
    Um oficial vestido de amarelo, um rapaz de branco,
na mão um documento «Por ordem imperial».
    Puxam o boi, levam a carroça para norte.
Uma carrada, trinta arrobas de carvão,
    confiscadas pelos comissários do Palácio.
De nada servem protestos e lamentos.
    Um pedaço de tecido em gaze,
umas tiras de seda florida,
    tudo atado nos cornos do boi,
eis a paga do labor do carvoeiro.



Tradução: António Graça de Abreu



MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...