sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

ADALGISA NERY – Eu te amo!!!




ADALGISA NERY
(Rio de Janeiro, Brasil, 1905 - 1980)
Poetisa

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Apesar de acompanhar de perto o movimento modernista nas décadas de 1920 e 1930, sendo musa de artistas plásticos e escritores, o primeiro livro de Adalgisa Nery só é publicado em 1937, com o título Poemas

Este e o livro seguinte, A Mulher Ausente, de 1940, levam a autora a ter sua obra comparada, pelo poeta Manuel Bandeira, à obra da poeta grega Safo de Lesbos (século VII a.C.), pelo erotismo libertário, e do poeta português Antero de Quental (1842 - 1891), pelo tom trágico.

in “Templo Cultural Delfos” (excerto)


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EU TE AMO!!!

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.




quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

JÚLIO BRANDÃO - Cantares



JÚLIO BRANDÃO
(Famalicão, Portugal, 1869 - Porto, 1947)
Escritor, poeta, crítico literário

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Um dia quando alguém lhe perguntou como e quando se sentiu escritor, ele terá respondido que foi o Minho que o fez escritor. E mais do que escritor, poeta. É que no «Minho – como ele disse – tudo canta – gente, aves, paisagens. Tudo canta. A vida é dura nos trabalhos da gleba, o camponês duma sobriedade espartana – mas canta quase sempre, talvez para tornar menos pesada a sua tristeza. (…) 

Em pequenito, ia eu ouvindo as trovas, que voavam em plena labuta dos campos – e, sobretudo nas espadeladas, nas esfolhadas, nas romarias cheias de sol. Havia desafios à viola, cantadeiras que se batiam galhardamente, com adversários que vinham de longe e eram repentistas de nomeada. 

Algumas dessas quadras, ardentes como cravos vermelhos, irónicas como picadas de ortigas, mas a maior parte falando de amores e de saudades, deixavam-me no ouvido um doce zumbido musical, para me descerem depois à alma infantil, onde instilavam o seu perfume e o seu mel…»

in “Dicionário de Literatura Portuguesa”

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CANTARES
Há duas coisas no mundo
Que se não podem contar:
Beijos que as mães dão aos filhos,
Areias que tem o mar.

Berços, a vossa diferença
Qual é, dizei-mo, afinal:
Todos nascemos chorando…
Reparai neste sinal.

Ó mães que embalais os filhos
Com olhar de amor profundo,
De vagar! Num berço às vezes
Anda o destino do mundo!

Quem tiver filhos pequenos
Tem os mais lindos amores:
Deve trazê-los ao peito,
Que o mesmo se faz às flores.

Que linda estrêla tam alta,
Quem me dera lá chegar!
Talvez que lá chegue um dia
Quem anda ao peito a mamar.

Coração que tens bondade
Sê bendito, coração!
És do tamanho do mundo,
Cabes na palma da mão.





quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

SALETTE TAVARES - Soneto pateta



SALETTE TAVARES
(Moçambique, 1922 - Portugal, 1994)
Poetisa, escritora

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Em 1949 dedicou-se, em Paris, a estudos de filosofia e frequentou na Sorbona um curso de arte. Em 1959 dedicou-se, em Itália, a estudos de estética, linguagem e teoria de arte. 
Colaboradora de Poesia Experimental 122 e de Hidra 1, participou na exposição Visopoemas (1965).

in “Livro dos Portugueses”


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SONETO PATETA


Entrou um serafim
                      no meu jardim
que cheiro a alecrim…


Da rosa carmim
                     para o jasmim
o canto do clarim
tramp´lim
            do arlequim
                        p´ra mim.














terça-feira, 17 de dezembro de 2019

MURILO MENDES - O namorado e o tempo




MURILO MENDES
(Brasil, 1901 - Portugal, 1975)
                                        Poeta               

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Expoente do surrealismo na literatura brasileira.


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O NAMORADO E O TEMPO

O namorado contempla
O corpo da namorada.
Vê o corpo como está,
Não vê como o corpo foi
Nem com o corpo será.

Se aquele corpo amanhã
Mudar de peso, de forma,
Mudar de ritmo e de cor,
O namorado, infeliz,
Vai sofrer mesmo demais:
Não calculou o futuro,
A mulher quebrou o encanto,
Ele só vê a mulher
No momento em que a vê.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

ALMADA NEGREIROS – Mãe



ALMADA NEGREIROS
(Trindade, São Tomé e Príncipe, 1893 - Lisboa, de 1970)
Artista plástico, poeta, romancista

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Com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, formou o grupo da revista Orpheu.


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MÃE!

      Mãe
      Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
      Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
      Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.


      Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei,
tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.


     Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

      
     Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


domingo, 15 de dezembro de 2019

AQUILINO RIBEIRO - Escritor



AQUILINO RIBEIRO
(Sernancelhe, Viseu, Portugal, 1885 — Lisboa, 1963) 
Escritor

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De 1902 a 1904 frequentou Teologia no Seminário de Beja, donde foi expulso. Em 1906 veio para Lisboa, onde se ocupou no jornalismo e em actividades revolucionárias, que o obrigaram a exilar-se em 1907; de 1910 a 1914 estudou na Sorbona, em Paris. 

Regressado a Lisboa, ensinou no Liceu de Camões. Contribuiu para fundar a Seara Nova. Estreou-se nas letras com o livro de contos Jardim das Tormentas. 

Escreveu romances, novelas, contos, biografias, crónicas, evocações históricas, páginas de polémica, estudos etnográficos, ensaios literários, notas de viagem, obras de literatura infantil e traduções de autores consagrados. 

Com um singular sentido pícaro, o seu estilo, servido por uma forte imaginação sensorial, é dos mais representativos das letras portuguesas. Revelou valores verbais inexplorados da língua portuguesa.




in “Grande Livro dos Portugueses”



sábado, 14 de dezembro de 2019

LUÍS DE ALBUQUERQUE - Historiador



LUÍS DE ALBUQUERQUE
(Lisboa, Portugal, 1917 – 1992)
Professor, historiador

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Para além de ter sido um notável professor e investigador de saber profundo e abrangente, Luís de Albuquerque distinguiu-se ainda através de uma intensa actividade cívica e política.

Participou nos movimentos estudantis e intelectuais de Coimbra, envolvendo-se nas famosas tertúlias da “Brasileira”, da revista “Vértice” e frequentando regularmente a famosa casa de J. J. Cochofel (hoje Casa da Escrita), na companhia de outros vultos importantes da cultura portuguesa da época. Desenvolveu ainda uma assídua actividade literária, com especial relevo para a sua ligação à “Vértice”, na qual, além de colaborador regular, foi também secretário.

Nos finais da década de cinquenta, dedica à História muito do seu labor. Neste âmbito, viria concretamente a distinguir-se como um dos mais conceituados e fecundos historiadores dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa.



Fonte: “Universidade de Coimbra” (excertos)


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...