quarta-feira, 7 de maio de 2014

Um Morto Alegre

 
 
 

 
 
Um Morto Alegre

 

 

Numa terra sem vida, abandonada e dura,

 quero eu mesmo cavar um buraco profundo,

 onde possa esticar minha velha ossatura

 para dormir tranqüilo, esquecido do mundo.

 

Odeio o testamento, odeio a sepultura;

 a esmolar compaixão como um vil vagabundo,

 antes quisera ver minha carcaça impura, 

inda viva servir de pasto a um corvo imundo.

 

Vermes, amigos meus sem olhos, sem ouvidos,

 um morto vos procura alegre e descuidado! 

Filhos da podridão, asquerosos e tortos.

 

Sem pena percorrei meus restos corrompidos,

 e dizei-me se pode inda ser torturado

 este corpo sem alma e mais morto que os mortos!

 

 

 

Charles Beaudelaire

 
Tradução: Paulo César Pimentel

Ilustração: pintura rupestre com 14.000 anos localizada na região de Acacus, maciço rochoso no oeste da Líbia, no deserto do Saara. Esta área está inscrita na UNESCO, desde 1985, como Património Mundial, devido à importância das pinturas rupestres.

 

terça-feira, 6 de maio de 2014

John Keats

 

John Keats (1795-1821) nasceu em Londres, Inglaterra.

Foi o mais jovem dos grandes poetas do período romântico da literatura inglesa.

Em 1817, publicou o seu primeiro livro, “Poemas”.

A sua obra foi reconhecida, postumamente, em 1848, com a publicação dos seus poemas e de uma autobiografia.

As cartas  de John Keats para T.S.Eliot são consideradas notáveis, alguma vez escritas por um poeta inglês.

Vítima de tubeculose, faleceu em Roma, Itália. Ele próprio redigiu o seu epitáfio, que está esculpido no seu túmulo:

“Aqui descansa um homem cujo nome está escrito sobre a água”

O poeta inglês Percy Bysshe Shelley escreveu o poema “Adonaïs”, uma das suas melhores obras, em homenagem ao seu amigo John Keats.


 
Palavras de John Keats:
“Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo.”
 
 
  Sentado a Reler o Rei Lear
 
Ó romance de linguagem dourada, com sereno alaúde!
Bela Sereia emplumada, Rainha dos confins!
Deixa a melodia neste dia de inverno,
Cerra as velhas páginas, e te cala.
Adeus! Novamente, contenda feroz
Entre a maldição e o barro apaixonado
Devo abrasado passar; provando humilde mais uma vez
O agridoce desta fruta Shakespeariana.
Poeta maior! E vós nuvens de Albion,
Geradoras de nosso profundo e eterno tema!
Quando atravessar a antiga Floresta de carvalhos,
Não me deixeis divagar num sonho estéril,
Mas, quando no fogo me consumir,
Dai-me novas asas de Fênix para que voe a meu desejo. 
 
John Keats



 


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Quando eu era Pequenino

 

 
 
Quando eu era Pequenino

 

Quando eu era pequenino,
gostava de ouvir contar
histórias de princesinhas
encantadas ao luar.

 
Havia então lá em casa
uma criada velhinha,
a Sérgia contava histórias
- e que graça que ela tinha!
 
Lendas de reis e de fadas,
inda me incheis a lembrança!
Que saudades de vós tenho,
ó meus contos de criança!
 
“Era uma vez…” As histórias
começavam sempre assim;
e eu, então, sem me mexer,
ouvia-as até ao fim.
 
Lembro-me ainda tão bem!
Os irmãos à minha beira,
calados! E a boa Sérgia
contava desta maneira:
 
“Era uma vez…” E depois,
olhos fitos nos seus lábios,
ouvia contos sem conta
de gigantes e de sábios”.
 
“Era uma vez…” E, por fim,
a voz da Sérgia parava…
E assim como eu te contei
era como ela contava.
 
Ai! que saudade, que pena,
que nos meus olhos tu vês!
Eu sentava-me e ela, então,
começava: – “Era uma vez…” 

 

Adolfo Simões Muller
Ilustração: pintura digital, inspirada na pintura de vitrais góticos, da artista Mandie Manzano, natural de Nova Orleans. 

 


domingo, 4 de maio de 2014

Mãe

 
 
Mãe

 
 
 
Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

 
Miguel Torga, in “Diário IV”


sábado, 3 de maio de 2014

Jean Racine

 

Jean Racine (1639-1699)nasceu em La Ferté-Milon, França.  

Poeta, dramaturgo, matemático e historiador,  considerado como um dos mais notáveis autores de tragédias clássicas.

 
Estudou no Convento Jansenista de Port-Royal, onde aprendeu grego e latim. Ali descobriu os grandes poetas trágicos da Antiguidade (Sófocles, Eurípides e Ésquilo).

 
Junto com Molière e Corneille, formou o trio dos grandes dramaturgos clássicos franceses do século XVII.
 
Racine escrevia com grande elegância, sendo reconhecido como o maior mestre da língua francesa.

 
Algumas das suas obras: “Ester”; “Atalia”; “Mitrídates”; “Berenice; “A Tebaida”; “Alexandre”; “Andrômaca”; “Britânico”; “Fedra”.

 
Racine foi nomeado historiador oficial pelo rei Luís XIV, um título honorífico de grande prestígio, raramente concedido aos homens de letras.

 
Com trinta e três anos de idade foi eleito para a Academia Francesa.


 
Palavras de Jean Racine:
"Os mais infelizes são os que menos ousam chorar."      
 
 
Excerto de uma cena  da peça trágica  “Fedra” :
 
(Fedra dirige-se a Enone, sua ama e confidente)
Fedra: Os teus pedidos fizeram-me esquecer o meu dever.
Eu evitava Hipólito e tu fizeste-mo ver.
Com que direito te encarregaste disso?
Porque é que a tua boca ímpia
Acusando-o, ousou denegrir a sua vida?
Ele morrerá, talvez, e o voto sacrílego
Dum pai exaltado, será realizado.
Eu não te escuto mais. Vai-te, monstro execrável:
Vai, deixa-me o cuidado do meu destino deplorável….”
 
Jean Racine, in “Fedra”
 








sexta-feira, 2 de maio de 2014

Vitorino Nemésio


Vitorino Nemésio (1901-1978) nasceu na Praia da Vitória, Açores, Portugal.
Poeta, romancista, ensaísta, cronista, ficcionista, biógrafo, jornalista, professor, investigador, historiador e conferencista, é considerado um dos escritores mais expressivos do século XX.

Foi Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. 

Com quinze anos de idade publicou o primeiro livro de poemas “Canto Matinal”.

Em 1927, pertenceu ao movimento da “Presença”. Dez anos depois, fundou a “Revista de Portugal”.

Algumas das suas obras: “O Bicho Harmonioso”; “O Verbo e a Morte”; “Canto de Véspera”; “Varanda de Pilatos”; “Conhecimento de Poesia”; “Corsário das Ilhas”.

Em 1944, foi publicado o famoso romance  “Mau Tempo no Canal”.
Foi  colaborador habitual de revistas e jornais, comunicador de rádio e televisão.
Em 1969, apresentou o programa televisivo, de sua autoria, “Se bem me lembro…”.

Foi Membro da Academia das Ciências de Lisboa e correspondente da Academia Brasileira de Letras .

Na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, está situado o “Centro Internacional de Estudos Nemesianos”.

Em Lugar da Portela de Oliveira, na Serra do Buçaco, está localizado o “Museu do Moínho Vitorino Nemésio”. Este Moínho foi doado pelos herdeiros do escritor à autarquia, que o recuperou. O escritor possuía três moínhos no concelho de Penacova, tendo sido “Presidente da Associação Portuguesa dos Amigos dos Moínhos”.
 
Recebeu o “Prémio Nacional de Literatura” e o “Prémio Montaigne”.

Palavras de Vitorino Nemésio:
“Sou contraditoriamente religioso e ateu. Religioso nas horas vagas.”

 

Quando Toda és Terra a Terra

Marga, teu busto tufa,
Dois gomos e véus de ilhal
Palpitam palmo de gente
Nesse tefe-tefe igual
E há qualquer coisa de ardente
Que se endireita e que rufa
Nem tambor a general.

Marga, teu peitinho estringes,
Toca a quebrados na praça
De armas que empunham rapazes
De guarda a uma egípcia esfinge,
E um vento de guerra passa
E o pau da bandeira ringe
Antes de fazer as pazes.

Marga, que deusa de guerra,
A Miosótis se interpôs
Quando toda és terra a terra
Cálice de rododendro
Zango nunca em ti se pôs
Em estames senão tremendo...

 
Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga".

 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Herbert Marcuse

 
 

Herbert Marcuse (1898-1979) nasceu em Berlim, Alemanha.

Filósofo, sociólogo e professor universitário, pertenceu ao movimento filosófico denominado “Escola de Frankfurt”.
No livro “Homem Unidimensional”, Marcuse acusa tanto os países comunistas quanto os países capitalistas, pelos erros cometidos, sendo que nenhum destes dois tipos de sociedade foram competentes de proporcionar condições de igualdade para os seus cidadãos.

As suas ideias influenciaram as revoltas estudantis da década de 60.    

Filho de pais judeus, Marcuse foi reconhecido em todo o mundo como o “filósofo da libertação e da revolução”.

Em 1934, perseguido pelo nazismo, emigrou para os Estados Unidos da América, onde se naturalizou norte-americano.

Obras: “Razão e Revolução “; “Hegel e o Advento da Teoria Social”; “Cultura e Sociedade”; “ Eros e Civilização”.


 
Palavras de Herbert Marcuse:
“A livre escolha entre a larga quantidade de bens e serviços não significa liberdade quando estes bens e serviços mantêm o controlo social sobre uma vida de esforços e medo, ou seja, de alienação.”




Excerto da obra: “Ensaio sobre a Libertação”:

“A expressão social da pulsão de trabalho libertada é a cooperação, que, fundada sobre a solidariedade, orienta a organização do reino da necessidade e o desenvolvimento do reino da liberdade.
Há uma resposta à pergunta que perturba os espíritos de tantos seres humanos de boa vontade: o que as pessoas devem fazer numa sociedade livre?

A resposta que, creio eu, acerta em cheio, vem de uma menina negra: “Pela primeira vez em nossa vida seremos livres para pensar a respeito do que iremos fazer.”

Herbert Marcuse

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...