segunda-feira, 7 de julho de 2014

NÃO SEI SE OS ASTROS MANDAM NESTE MUNDO

 
 



Não sei se os astros mandam neste mundo


 

Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas —       
As de jogar ou as do Tarot —
Podem revelar qualquer coisa.

Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.

Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante.
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo,
Acreditar em qualquer outro sol —
Outro que ilumine até de noite. —
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada...

Por enquanto
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro.
Seguro com a mão —
O corrimão que me não pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... Ascendo
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...

 

Álvaro de Campos, (heterónimo de Fernando Pessoa) in “Livro de Versos”

domingo, 6 de julho de 2014

QUEM POLUIU, QUEM RASGOU OS MEUS LENCÓIS DE LINHO

 
 


 
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho

 
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

 
Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

 
Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

 
Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

 

 
Camilo Pessanha, in “Clepsidra e outros Poemas”

sábado, 5 de julho de 2014

JOSÉ RÉGIO

 
 

 
José Régio (1901-1969) nasceu em Vila do Conde, Portugal.

Iniciou a sua carreira literária com notáveis obras poéticas. Mais tarde, dedicou-se ao teatro, à critica e ao ensaio.

Em 1927, fundou, com outros escritores, a revista “Presença” que iniciou a segunda geração de intelectuais do Modernismo português. A primeira geração esteve ligada à revista literária “Orpheu”.

Publicou, entre outras, as obras: As Encruzilhadas de Deus, Jacob e o Anjo, Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa, Jogo da Cabra Cega, Fado, Benilde e a Virgem Mãe, O Príncipe com Orelhas de Burro, Há Mais Mundos.

Recebeu os galardões: “Grande Prémio da Novelística”; “Prémio Diário de Notícias”; “Prémio Nacional de Poesia”.
 
 

Palavras de José Régio:
“Procurei fugir de mim, mas sei que sou meu exclusivo fim.”
 

       
            Soneto de amor
 
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua..., — unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
 
José Régio, in “Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Eugénio de Andrade”                         


sexta-feira, 4 de julho de 2014

O QUE UMA CRIANÇA SOFRE

 
 
 

 
 
O que uma Criança sofre

 

 

Larguei o canário

no meu aquário

para ele nadar.

Em vez de ficar

contente comigo,

à noite, o meu pai

pôs-me de castigo.

Deitei o peixinho

no meio do ninho

para descansar.

Em vez de ficar

contente comigo,

à noite, o meu pai

pôs-me de castigo.

Enterrei dinheiro

dentro do canteiro

para o semear.

Em vez de ficar

contente comigo,

à noite, o meu pai

pôs-me de castigo.

Eu dei ao bebé

só um pontapé

para ele voar.

Em vez de ficar

contente comigo,

à noite, o meu pai

pôs-me de castigo.

 

Luísa Ducla Soares, poetisa portuguesa, in "Poemas da Mentira e da Verdade”

 


quinta-feira, 3 de julho de 2014

BALADA DAS DAMAS DOS TEMPOS IDOS

 
 

 
 
 
Balada das damas dos tempos idos

 

 
Dizei-me em que terra ou país
Está Flora, a bela romana;
onde Arquipíada, ou Taís
que foi sua prima germana;
eco, a imitar na água, que mana
de rio ou lago, a voz quente a aflora,
e de beleza sobre-humana?
Mas onde estais, neves de outrora?

 

  E Heloisa, a mui sábia e infeliz
pela qual foi enclausurado
Pedro Abelardo em São Denis,
por seu amor sacrificado?
Onde, igualmente, a soberana
que a Buridan mandou pôr fora
num saco ao Sena arremessado?
Mas onde estais, neves de outrora?

 

Branca, a rainha, mãe de Luís,
que com voz divina cantava;
Berta Pé-Grande, Alix, Beatriz
e a que no Maine dominava;
e a boa Lorena, Joana,
queimada em Ruão? Nossa Senhora!
Onde estão, Virgem soberana?
Mas onde estais, neves de outrora?

 

 
François Villon - Poeta francês
Tradução: Modesto de Abreu
Imagem: fotografia de Otavio Schipper, brasileiro.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

MIGUEL DE CERVANTES

 
 

 
 
Miguel de Cervantes (1547-1616) nasceu em Alcalá de Henares, Espanha.
Romancista, dramaturgo e poeta, é um dos principais nomes da literatura espanhola, tendo sido o precursor do realismo em Espanha.

Em 1570, viajou para Itália. No ano seguinte, uma frota turca invadiu Chipre, provocando o confronto entre os turcos e a infantaria espanhola que se encontrava localizada em Itália. Cervantes lutou na batalha de Lepanto, ficando gravemente ferido na mão esquerda.

Em 1587, Cervantes decidiu voltar para Espanha. O navio onde viajava foi atacado por piratas e ele foi encarcerado em Argel, durante cinco anos.
Regressado, definitivamente, a Espanha, iniciou a sua actividade literária.
 
Cultivou, praticamente, todos os géneros narrativos que preponderavam no seu tempo, tais como: comédias, poesias, sátiras.
 
A sua obra-prima, “D. Quixote de La Mancha”, um clássico da literatura, publicada em 1605, foi um enorme sucesso: conta as aventuras e desventuras do fidalgo D. Quixote e do seu criado Sancho Pança. O primeiro, idealista e aventureiro; o segundo, realista e sensato.

Em 1976, foi instituído o “Prémio Miguel Cervantes”, considerado um dos principais galardões da língua espanhola.
 
 

 
Palavras de Miguel de Cervantes

“Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo.”

 
                                              

Oração
 

 
 
A Ti recorro, grão Senhor, que alçaste,
à custa de teu sangue e tua vida,
a mísera de Adão primeira caída,
e onde ele nos perdeu, lá nos cobraste;
 
a Ti, Pastor bendito, que buscaste
dentre as cem ovelhinhas a perdida,
e, encontrando-a do lobo perseguida,
sobre os teus ombros santos a deitaste.
 
A Ti recorro na aflição amarga,
e a Ti cabe, Senhor, o dar-me ajuda:
cordeiro sou de teu aprisco ausente
 
e temo que na via estreita ou larga,
quando a meu mal teu braço não acuda,
venha alcançar-me essa infernal serpente.
 
 
 
 
Miguel de Cervantes
Tradução: Anderson Braga Horta
Imagem: retrato de Miguel Cervantes, atribuído ao pintor Juan Jáuregui.
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 

 

                                 

terça-feira, 1 de julho de 2014

NA BIBLIOTECA

 
 
 
 

 
     Na biblioteca
 
 
O que não pode ser dito
guarda um silêncio feito
de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiado tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

 
Manuel António Pina, in “Poesia, Saudade da Prosa”.
 
Imagem: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Algumas das obras literárias mais valiosas do mundo estão nesta Biblioteca. É um património acumulado ao longo dos 500 anos que estão a ser celebrados. A primeira edição de “Os Lusíadas” é um dos seus tesouros.

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...