sábado, 7 de outubro de 2017

ALBERTO DE LACERDA - A secreta fraternidade

 

 
ALBERTO DE LACERDA
(Ilha de Moçambique, 1928 — Londres, Inglaterra, 2007)

Poeta, professor e crítico de arte

 ***
A SECRETA FRATERNIDADE
 
Fiquei crucificado noutros gritos
noutras formas de amor mais verdadeiras
Eu sou irmãos o cego autêntico
ébrio demais da luz de outros caminhos
filho secreto de mundos que perdi
irmão de nada - depois de ter morrido
em cada ser humano que trazia
olhos de criança e mãos vermelhas
de sangue.

 

 
 


 
 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

JEAN COCTEAU - Dorso de anjo

 

 
JEAN COCTEAU
(Maisons-Lafitte, França, 1889 - Milly-la-Forêt, 1963)

Romancista, dramaturgo, poeta, actor e cineasta

Exerceu uma considerável influência sobre os músicos franceses do seu tempo, dado que foi o personagem fundamental na constituição do Grupo dos Seis.
Começou a admirar Debussy e, a partir da primeira visita dos Ballets Russos a Paris, em 1909, começou a colaborar com diversos compositores. Mas quando ouviu A sagração da Primavera de Stravinsky, o seu ideal estético ficou definido pela volta ao impressionismo e ao romantismo.
As suas ideias sobre música reflectiram-se nas obras do Grupo dos Seis (Auric, Durey, Honegger, Milhaud, Poulenc e Tailleferre), para quem escreveu numerosos textos, tanto destinados a peças dramáticas como de concerto. Mas a sua influência é patente tanto naquelas composições em que colaborou escrevendo libretos como naquelas em que não colaborou, pois foi o principal mentor e elemento de coesão do Grupo.

in “Auditorium”
***
 Palavras de Jean Cocteau
“A juventude é uma conquista da maturidade.”
***
DORSO DE ANJO

 
Em sonhos rua que encanta
e uma trombeta irreal
mentiras são que levanta
um anjo celestial.

Que seja sonho ou não seja,
logo a mentira se afunda,
se a gente de cima o veja,
que todo o anjo é corcunda.

Pelo menos é-o a sombra
na parede do meu quarto.

 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

FERNÃO DE MAGALHÃES - Navegador

 
 
FERNÃO DE MAGALHÃES
(Sabrosa, Portugal, 1480 - Filipinas, 1521)

 Navegador

Veio muito novo para Lisboa, tornando-se escudeiro ao serviço de D. Manuel I.
Em 1505, fez parte da armada de D. Francisco de Almeida para a Índia, onde permaneceu vários anos.

Durante esta permanência no Oriente, participou em campanhas militares no Índico, lutando na conquista de Sofala, Quiloa e na tentativa falhada da conquista de Malaca.
Em 1513, Fernão de Magalhães embarcou para Portugal.

Enquanto aqui permaneceu, tomou parte em campanhas no norte de África.
Em 1517, devido a desentendimentos com D. Manuel I, saía de Portugal rumo a Espanha, oferecendo os seus serviços a Carlos I, futuro imperador Carlos V. Propôs-lhe atingir as Molucas por Ocidente. Comandando uma armada de cinco navios, ultrapassou o estreito situado no extremo sul do continente sul-americano, que ficará com o seu nome.
 
Era sua pretensão realizar a primeira viagem de circum-navegação, objectivo que não cumpriu, pois morreu a lutar contra populações indígenas de uma ilha do arquipélago das Filipinas, em pleno oceano Pacífico.

Contudo, e depois de uma série de desaires com os sobreviventes, a viagem concretizou-se, chegando a Sevilha um só navio dos cinco que compunham a armada inicial.

 
in “Padrão dos Descobrimentos”

 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

JOHN DRYDEN - À memória do Sr. Oldham

 
 
 
JOHN DRYDEN
(Northamptonshire, Inglaterra, 1631 – 1700)

Poeta e dramaturgo

Eminente autor dramático do século XVII, contribuiu de modo relevante para a renovação do teatro inglês do período barroco.
São magníficos os seus trabalhos nos libretos de diversas óperas com música de Henry Purcell, entre elas King Arthur (1691) e The indian queen (1695).
Além disso, duas importantes obras suas, Ode a Santa Cecília e O festim de Alexandre, inspiraram, anos mais tarde, dois oratórios notáveis de G.F.Haendel.

 
in “Auditorium”
***
 Palavras de John Dryden
“Os grandes espíritos são seguramente aliados da loucura, separam-nos finas paredes.”
 
***

À MEMÓRIA DO SR. OLDHAM

Adeus, ó tardiamente conhecido,
A quem pensei que meu houvera sido:
Por certo nossas almas são estreitas
E de um só molde poético são feitas.
Uma nota em comum em nossa lira
Causa de pronto aos imbecis a ira.
Nosso saber rumou à mesma raia,
Onde o primeiro é quem mais cedo saia.
Destarte em solo oleoso Nisus cai
E seu amigo em sua frente sai.
Fruto precoce!, em teu copioso estoque
O que mais tinha o tempo pra dar? O que
(Coisa que a natureza não dá aos moços)
Devia era ensinar a arte dos nossos.
Mas a sátira não precisa disso.
Ela reluz mesmo não tendo viço.
É um erro nobre, feito raramente,
Que o poeta queira a força tão somente.
Mesmo precoce, teu fruto sublime
É perspicaz, e, embora hoje se rime
Um doce nada, o tempo amadura e redime.
Uma vez mais, adeus; salve e adeus,
Já tão cedo, ó Marcellus entre os meus!
Encobrem teu rosto o laurel e a hera,
Mas a noite profunda te encarcera.

 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

JOSÉ RODRIGUES - Escultor

 
JOSÉ RODRIGUES
(Luanda, Angola, 1936 – Porto, Portugal, 2016)

Escultor, desenhador e gravador

Concluiu o curso de Escultura em 1963 na Escola Superior de Belas Artes do Porto, Portugal, onde foi professor.

Em 1968, com os colegas Ângelo de Sousa, Armando Alves e Jorge Pinheiro, que com ele terminaram o curso com a classificação máxima, formou o grupo Os Quatro Vintes. A inspiração para o nome usado nas exposições deste grupo de artistas foi encontrada num popular maço de tabaco, da marca "Três Vintes".

No Porto, fundou e presidiu à Cooperativa de Ensino Artístico Árvore que, desde 1963, é uma referência cultural da cidade. Também se ligou ao Minho, mais concretamente a Vila Nova de Cerveira, onde recuperou o convento de São Paio e ajudou a promover a Bienal Internacional de Cerveira, instituída no ano de 1978.

Além da escultura dedicou-se igualmente a outras expressões artísticas. Fez Ilustração para livros de escritores e poetas, como Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Vasco Graça Moura e Albano Martins. Produziu cerâmica e medalhística, executando centenas de medalhas para várias entidades.

É um dos maiores nomes das artes plásticas portuguesas. Está representado em várias colecções particulares e instituições, no país e no estrangeiro. Como artista que se prezava, a sua obra não deixou de gerar alguma controvérsia. Foram célebres as fortes críticas ao Cubo da Praça da Ribeira, de 1976, ou ao monumento ao empresário, de 1992, duas peças hoje aceites e respeitadas pelos portuenses.

 
in “Universidade do Porto” (excertos)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

POSSUÍDOS PELO DEMÓNIO

 
 
 
POSSUÍDOS PELO DEMÓNIO

A invenção do demónio. Se estamos possuídos pelo demónio, não pode ser só por um, porque então viveríamos, pelo menos na terra, em paz, como se fosse com Deus, em união, sem contradições, sem reflexão, sempre seguros do homem atrás de nós.
O seu rosto não nos amedrontaria, porque, como seres diabólicos, teríamos, mesmo que um pouco sensíveis à vista, a esperteza suficiente de preferir sacrificar uma mão para lhe tapar a cara com ela.
Se estivéssemos possuídos apenas por um demónio, um que tivesse uma visão tranquila, calma, de toda a nossa natureza, e liberdade para dispor de nós em qualquer momento, esse demónio teria também poder suficiente para nos manter durante o âmbito de uma vida humana muito acima do espírito de Deus em nós, e mesmo para nos balançar de um lado para o outro para que assim não víssemos nenhum sinal dele e consequentemente não fôssemos perturbados por esse lado.
Só uma multidão de demónios pode ser responsável pelas nossas desgraças terrenas.
Porque não se matam eles uns aos outros até só ficar um, ou porque não ficam subordinados a um grande demónio?
Qualquer das duas hipóteses estaria de acordo com o princípio diabólico de nos enganar tanto quanto possível.

Faltando unidade, para que serve a atenção escrupulosa que todos os demónios nos prestam? Deve importar muito mais a um demónio que nos caia um cabelo do que a Deus, uma vez que o demónio perde na realidade esse cabelo e Deus não.
Mas não conseguimos atingir um estado de bem-estar enquanto houver dentro de nós tantos demónios.

FRANZ KAFKA (Praga, actual República Tcheca, 1883 – Áustria, 1924), escritor, in “Diário” (Citador).
Imagem: manuscrito de Praga, primeira pintura feita sobre o demónio no período medieval.
 

 

 

domingo, 1 de outubro de 2017

ALMADA NEGREIROS – As Quatro Manhãs – TERCEIRA MANHÃ

 
 
 
ALMADA NEGREIROS
(Trindade, São Tomé e Príncipe, 1893 — Lisboa, 1970)

 
Artista plástico, poeta, dramaturgo, romancista


TERCEIRA MANHÃ

Quando cheguei aqui
o que havia estava no fim
e o que estava por vir
andava disperso pelo sonho de alguns.
Mas a maioria
vivia
o seu dia a dia
e todos contentes
por serem todos assim.
Eles não davam pelo fim
quanto mais pelo que já assomava mais além
- isto que já começava nos sonhos de alguém.

                         ***
E foi terrível isto de viver o que há-de vir
entre os que apenas usam o que ainda há.
Era como se tivessem apostado todos
em não me deixarem chegar
ao que eu andava a sonhar.
Enquanto pude fiz-me louco medido,
destes que andam à solta
sem ser preciso encerrá-los.
Encontrei exactamente a medida de escapar à medida deles
e sem estragar a medida de ninguém.
Sem eu o saber fiz todo um método
toda uma arte de atravessar a multidão.
Fiz-me invisível no simulacro de mim.
Mas guardava-lhes a surpresa
que tinha guardada em mim.
E foi aqui que eu me enganei:
A minha surpresa só serve para mim e para o futuro
e não cabe nestes dias de hoje
que já foram os sonhados por outros.
A minha surpresa ainda é só para mim
ainda é só o meu sonho que já nasceu para mim e para o futuro
e que tem apenas côr,
côr que ainda não tem nome,
nome que ainda não tem feitio,
feitio que ainda não tem perfil,
perfil que ainda não se desvenda,
é apenas inconfundível,
e apesar de ainda não estar registado
apenas o tempo sabe que já aqui chegou.

                          ***
E aqui me tendes chegado
ao único a que eu quis chegar:
saber o sítio da estrela
que ilumina o meu lugar.
Oh estrela do meu sonhar!
Sem a tua luz própria
sem o teu distante cintilar
tão fixo lá do teu lugar
eu não podia chegar aqui
o sítio do meu mistério.
Aqui me tendes alfim chegado
diante do meu próprio mistério.
Agora tudo é concorde e imenso
tudo se liga e conclui.
Nada do que eu faço é ainda provisório
como na minha meia vida de ontem,
a metade de espera da nova metade que vale por duas!
E assim tinha de ser:
eu jamais saberia nada
senão através das minhas próprias dimensões,
senão à luz da minha estrela,
à luz da aurora do meu mistério.
Que o pobre do mundo clama
para que desvendemos cada qual os nossos próprios mistérios!

 
Imagem: Almada Negreiros – auto-retrato

 

 



MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...