domingo, 7 de outubro de 2018

HÉLDER MACEDO – O Lamento de José



HÉLDER MACEDO
(África do Sul, 1935)
Poeta, romancista, crítico e investigador literário

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É Emeritus Professor do King´s College na Universidade de Londres, onde, até Setembro de 2004, foi titular da Cátedra Camões, Director Associado do Instituto de Estudos Românicos e editor da revista "Portuguese Studies". Professor visitante da Universidade de Harvard e de Universidades em França, Espanha e no Brasil, esteve ainda como professor e escritor residente em Berkeley, na Universidade da Califórnia. 

Reconhecido poeta, romancista e ensaísta, é membro da Academia de Ciências de Lisboa e do King's College, na Universidade de Londres.

Os seus actuais interesses de investigação incluem a arte da ficção e da poesia, Literatura e Cultura Britânica e Portuguesa e Pintura Portuguesa Contemporânea.


in “Universidade de Coimbra” (excerto)

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O Lamento de José

Amei. Não fui amado. Sem paixão.
O mundo que inventaste não permite
nem que o rancor defina o meu amor.
Teu corpo fecundei
inchou de mim
mas como um estupro do que te ofereci
recusaste a verdade do meu corpo
no filho que pariste
em vez do meu.
Meu destino cumpri em não ter sido.
Estou velho e só.
Que venha a morte
Mas que seja minha.











sábado, 6 de outubro de 2018

WILLIAM FAULKNER - Loucura Subjectiva



WILLIAM FAULKNER
(EUA, 1897 - 1962)
Romancista, poeta

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A decadência do sul dos Estados Unidos da América, onde sempre viveu, está no centro de grande parte dos seus romances, entre os quais se destacam O Som e a Fúria, Luz em Agosto e Absalão, Absalão! Autor central da literatura norte-americana e um dos maiores escritores do século XX, foi distinguido com o Prémio Nobel de Literatura em 1949.

in “Wook” (excerto)
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LOUCURA SUBJECTIVA

Às vezes não tenho tanto a certeza de quem tem o direito de dizer quando um homem é louco e quando não é. Às vezes penso que não há ninguém completamente louco tal como não há ninguém completamente são até a opinião geral o considerar assim ou assado. É como se não fosse tanto o que um tipo faz, mas o modo como a maioria das pessoas o encara quando o faz.



in “Na Minha Morte”




sexta-feira, 5 de outubro de 2018

MIGUEL TORGA - Somos Cidadãos Sem Laços de Cidadania



MIGUEL TORGA
(São Martinho de Anta, Portugal, 1907 - Coimbra, 1995)
Poeta, escritor

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Somos Cidadãos Sem Laços de Cidadania

É escusado. Em nenhuma área do comportamento social conseguimos encontrar um denominador comum que nos torne a convivência harmoniosa. Procedemos em todos os planos da vida colectiva como figadais adversários. 

Guerreamo-nos na política, na literatura, no comércio e na indústria. Onde estão dois portugueses estão dois concorrentes hostis à Presidência da República, à chefia dum partido, à gerência dum banco, ao comando de uma corporação de bombeiros. 

Não somos capazes de reconhecer no vizinho o talento que nos falta, as virtudes de que carecemos. Diante de cada sucesso alheio ficamos transtornados. E vingamo-nos na sátira, na mordacidade, na maledicência. Nas cidades ou nas aldeias, por fás e por nefas, não há ninguém sem alcunha, a todos é colado um rabo-leva pejorativo. 

Quem quiser conhecer a natureza do nosso relacionamento, leia as polémicas que travámos ao longo dos tempos. São reveladoras. A celebrada carta de Eça a Camilo ou a também conhecida deste ao conselheiro Forjaz de Sampaio dão a medida exacta da verrina em que nos comprazemos no trato diário. Gregariamente, somos um somatório de cidadãos sem laços de cidadania.


in “Diário”



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

ANGELINA VIDAL - Escritora




ANGELINA VIDAL
(Lisboa, Portugal, 1853 -1917)
Poetisa, ficcionista, professora

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Foi propagandista das ideias republicanas e dos direitos dos operários, nomeadamente das mulheres operárias.
Foi-lhe recusada a pensão a que tinha direito por morte do marido (1894), pelas suas actividades políticas de combate à Monarquia. Só em 1917 lhe seria finalmente concedida pelo governo republicano poucos dias antes da sua morte.

Trabalhou como jornalista, como tradutora e como professora. 

Dedicou-se também à poesia e à prosa e escreveu várias peças de teatro, quase todas representadas. Ganhou dois prémios internacionais. Discursou em comícios, escreveu artigos e realizou conferências propagandeando a causa republicana. 

Não se considerando feminista, defendia a emancipação das mulheres que só poderia acontecer pela educação e pelo trabalho. Não se afastava, no entanto, da ideia do papel primordial da mulher como mãe. Após o 5 de Outubro manteve-se sempre ao lado dos operários desiludidos com a política republicana. Colaborou em diversos jornais e revistas.


in”DGLAB”

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O GOVERNADOR AUSTERO




O GOVERNADOR AUSTERO

Um Preso interpelou um Governador que visitava uma prisão estadual, pedindo-lhe que por ele intercedesse.

- De que te acusam? – perguntou o Governador.

- Detinha um alto cargo e vendia as nomeações para os lugares subalternos – respondeu humildemente o Preso.

- Nesse caso recuso-me a intervir – disse o Governador asperamente. – Um homem que abusa do seu cargo, utilizando-o para fins privados e em seu próprio proveito, não merece ser livre. A propósito, sr. Carcereiro – atalhou o Governador para o guarda, enquanto o Preso se ia afastando, acabrunhado – quando o pus neste lugar foi-me dado a entender que os seus amigos exerceriam devida influência para que, na aproxima Convenção estadual a delegação de Shikane apoiasse a… a actual Administração. Estarei bem informado?

- Perfeitamente, senhor.

- Muito bem. Desejo-lhe muito bons dias. E tenha a bondade de nomear o meu sobrinho Capelão Nocturno e Vigilante de Madres e Irmãs.   



in “Esopo emendado & outras fábulas fantásticas”– AMBROSE BIERCE (Ohio, EUA, 1842–1913), escritor, crítico satírico, jornalista.

Imagem: pintura de Picasso



terça-feira, 2 de outubro de 2018

RENATA PALLOTTINI - O Grito



RENATA PALLOTTINI
(São Paulo, Brasil, 1931)
Dramaturga, poetisa, tradutora

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Cursou Direito, Filosofia e Dramaturgia. Escreveu e produziu trabalhos para teatro e televisão, entre os quais Vila Sésamo, Malu Mulher e Joana. Publicou livros de poesia, prosa, teatro e ensaios. Coordenou e participou da Anthologie de la poésie brésilienne, publicada em Paris, em 1998, e que reuniu quatro séculos de literatura brasileira. 

in “Blog de Renata Pallottini” (excertos)

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O GRITO

Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre tem o direito de não sofrer

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse



in “A Faca e a Pedra” 



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

JOÃO GASPAR SIMÕES - Da Cultura e da Erudição



JOÃO GASPAR SIMÕES
(Figueira da Foz, Portugal, 1903 — Lisboa, 1987)
Dramaturgo, crítico literário, tradutor

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DA CULTURA E DA ERUDIÇÃO

É lamentável o emprego que se faz em Portugal dos termos cultura e erudição. Chama-se, indiferentemente, a um homem culto ou erudito. E, no entanto, a diferença é flagrante, é irredutível. Entre nós abundam os eruditos. Os cultos são raros. E mesmo àqueles a quem com maior propriedade se chamaria cultos, a designação se não aplica convenientemente, porque, com frequência, a sua cultura não passa duma forma de erudição. 

Ser erudito é saber ou ter conhecimento memorativo de muitas obras, factos ou documentos. A erudição diz, pois, respeito à faculdade memorativa do homem; a cultura à sua capacidade de compreensão e assimilação – isto é, à totalidade das suas faculdades de re-criação individual das experiências alheias.

A erudição ensina o homem a reproduzir, com fidelidade, as formas – e apenas as formas – da cultura; a cultura filtra-lhe o seu espírito. Daí o erudito ser incapaz de transmitir do que aprendeu, aquela elasticidade, aquele fluxo de essências que estampa na conversa e na obra do não-erudito – um vaivém, uma amplidão, um contínuo regresso às fontes da sua vitalidade ideológica e sensível – que nos aproxima do universo e nos faz adivinhar a extensão da sua existência humana. 

O erudito aceita os conhecimentos alheios com a mesma passiva inactividade individual como o tradicionalista aceita a tradição. De resto um erudito é, sem excepção, tradicionalista. Tanto um como o outro recebem a massa de experiências pretéritas sem tentar reagir sobre elas.


in – “PRINCÍPIO” – Publicação de Cultura e Politica – 1930 – Renascença Portuguesa (excerto)





MALMEQUER

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