sexta-feira, 5 de julho de 2019

JORGE BUCAY - Cobiça



JORGE BUCAY
(Buenos Aires, Argentina, 1949)
Escritor, psiquiatra

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COBIÇA

Ao cavar para erguer uma cerca que separasse o meu terreno do dos meus vizinhos, encontrei, enterrado no jardim, um velho cofre cheio de moedas de ouro.

Não foi pela riqueza que ele me interessou, mas pela estranheza do achado.

Nunca fui ambicioso, e os bens materiais não são muito importantes para mim.

Depois de desenterrar o cofre, tirei as moedas e dei-lhes brilho. Estavam tão sujas e enferrujadas, as pobres!

Enquanto as estava a empilhar ordenadamente em cima da minha mesa, comecei a contá-las…

Constituíam uma verdadeira fortuna. 

Só para passar o tempo, comecei a imaginar todas as coisas que poderiam comprar-se com elas…

Pensava no contentamento que sentiria um ambicioso que encontrasse semelhante tesouro…

Por sorte…

Por sorte não era o meu caso…


Hoje veio um homem reclamar as moedas.

Era meu vizinho.

Pretendia garantir, o grande miserável, que as moedas tinham sido enterradas pelo seu avô e que, portanto, lhe pertenciam.

Aborreceu-me tanto…
- que o matei!
Se não o tivesse visto tão desesperado por possuí-las
ter-lhas-ia dado porque não há nada que me importe menos do que as coisas que se compram com dinheiro…
Mas a grande verdade é que não suporto as pessoas gananciosas…




in “Contos para Pensar”

 







quinta-feira, 4 de julho de 2019

ARVID MÖRNE – O Imortal


                                   
                                 ARVID MÖRNE
(Finlândia, 1876 - 1946)
Poeta, escritor

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O IMORTAL

A estrela onde eu vivia já não existe.
O sol de cujo séquito
a estrela se movia à volta do mundo
já não existe.
A vida que tive,
a vida que era o prazer e a agonia do sangue,
já não existe.

Aquela estrela morta entre estrelas,
aquele sol morto entre sol entre sóis,
aquele rosto morto entre rostos
que era o meu.
Já não consigo lembrar.
Mas eu existo.




Tradução: José Agostinho Baptista




quarta-feira, 3 de julho de 2019

YANG WAN-LI – A Chuva na Bananeira


                                 YANG WAN-LI
(China, 1127 – 1206)
Poeta

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A CHUVA NA BANANEIRA

Como a bananeira está cheia de alegria ao receber a chuva!
O barulho, durante toda a noite, foi claro e agradável:
Ora sons ligeiros duma mosca embatendo num vidro de papel,
Ora estrépito potente de cascata precipitando-se das montanhas.

Com o tinido límpido dos pingos espaçados,
calou-se todo o rumor nesta calma noite de Outono.
A bananeira está feliz, mas o homem triste:
agradar-lhe-ia mais que o vento de oeste parasse
e que esta chuva cessasse.




Tradução: António Graça de Abreu


terça-feira, 2 de julho de 2019

ARY DOS SANTOS – Retrato de Alves Redol


ARY DOS SANTOS
Lisboa, Portugal, 1937 – 1984)
Poeta, declamador, publicitário

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RETRATO DE ALVES REDOL

Porém  se por alguém não foi ninguém
cantou e disse  flor  canção  amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu  cresceu  cantou  lutou consigo.

Homem que vive só  não vive bem
morto que morre  só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo  com todos  ficar vivo.

Nado-vivo da morte. É isso. É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer. E dar por isso.


 





segunda-feira, 1 de julho de 2019

OLAVO BILAC - Julho



OLAVO BILAC
(Rio de Janeiro, Brasil, 1865 -1918)
Poeta, contista, cronista, jornalista

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Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!


JULHO:

Mais curtos são os dias…
As noites são mais frias,
E custam a passar…
Que cómodo o descanso,
Na calma, no remanso,
Na placidez do lar…


Que paz, e que franqueza,
Quando, ao redor da mesa,
À luz do lampião,
A gente se congrega,
E ao júbilo se entrega
De doce comunhão!


Amigos, estudemos!
E esta estação saudemos
Bondosa, que nos traz
As longas noites calmas
Que dão às nossas almas
O Amor, o Estudo e a Paz!


Coro de crianças:
 

O mês de Julho oculta o rosto…
O seu encanto se desfez…
Entre na roda o mês de Agosto!
Entre na dança o oitavo mês!






MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...