terça-feira, 7 de janeiro de 2020

EDUARDO GALEANO - Chorar



EDUARDO GALEANO
(Montevidéu, Uruguai, 1940 - 2015)
Escritor, poeta

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CHORAR

Foi na selva, na Amazónia equatoriana. Os índios shuar choravam uma avó moribunda. Choravam sentados, na beira da sua agonia. Uma testemunha, vinda de outros mundos, perguntou:

- Porque choram diante dela, se ainda está viva?

E responderam os que choravam:

- Para que saiba que a amamos muito.




in “O Livro dos Abraços”





segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

PLATÃO – O Banquete



PLATÃO
(Atenas, Grécia, 428/427 – 348/347 a.C.)
Filósofo, matemático

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O BANQUETE

O banquete, fundamental dentro da filosofia platónica, é um diálogo concebido como elogio do amor. Poucos textos da Antiguidade revelam, de forma tão clara, um tributo a Eros, assim como poucos incidiram, tão marcadamente, numa forma de concepção amorosa que atingiu o seu auge no Renascimento. Isto quer dizer que a influência de O Banquete é longa e bastante profunda, sendo que a sua visão, de extraordinária amplitude, permitiu analisar o amor como uma forma de transcendência do ser humano.

Para lá das paixões, o amor pode formar-se num caminho da verdade, num estado de virtude: o amor não é posse, mas sim generosidade; o desejo é um simples instinto, porque «enquanto se deseja, não se possui», de modo que aquele que ama deve permanecer intacto na sua essência. Em Platão, o amor é sobretudo um símbolo de mediação entre os seres, por isso, é frequentemente referido como o «intermediári», como um portador da bondade que não compete somente aos seres humanos, mas também à relação estabelecida entre estes e os deuses.

A tradição faz de Eros o filho de Poros (a Riqueza) e de Pénia «a Pobreza», aprofundando e sublinhando Platão, no contexto deste mito, o carácter dual do amor, a sua dupla e diferente herança, que o obriga a procurar continuamente o equilíbrio, o que pressupõe dinamismo. O amor é, por sua vez, acção e contemplação, audácia e prudência, virilidade e feminilidade. 





in “ Grandes Pensadores”


domingo, 5 de janeiro de 2020

A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL (I)




A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL (I)


A Inquisição nasceu no coração do Renascimento português. Era um dia do início de Outubro de 1536, no reinado de D. João III. 

Em Évora, onde residia a corte, o franciscano D. Diogo da Silva, bispo de Ceuta e confessor de D. João III, recebeu a visita de João Monteiro, canonista, desembargador do paço e homem de confiança do rei. Trazia consigo algo longamente desejado: a bula Cum ad nil magis, que fundava a Inquisição, promulgada pelo papa Paulo III a 23 de Maio. Nela nomeava-se D. Diogo da Silva para inquisidor-mor, juntamente com o bispo de Coimbra D. Jorge de Almeida, o de Lamego D. Fernando de Meneses Coutinho e Vasconcelos, e um quarto a ser escolhido pelo monarca. 

Monteiro perguntou a D. Diogo da Silva se prestava obediência ao mandado apostólico. Este tomou a «bula em suas mãos e com todo o devido acatamento e reverência, a beijou e pôs sobre a sua cabeça». Depois de a ler perante testemunhas, aceitou o cargo. 

Assim nascia o Santo Ofício em Portugal.  

(continua)



in “História da Inquisição Portuguesa” – Giuseppe Marcocci e José Pedro Paiva.
Imagem: fogueira de judeus e cristãos-novos relapsos em Lisboa (panfleto alemão anónimo)






sábado, 4 de janeiro de 2020

NIETZSCHE PERANTE PARSIFAL





NIETZSCHE PERANTE PARSIFAL


Em 1869, Richard Wagner lê ao jovem filósofo Friedrich Nietzsche um esboço de Parsifal, a sua nova ópera. Nietzsche vê na música de Wagner uma excelente reunião dos elementos da tragédia grega com as novas formas românticas, tese que desenvolveu na sua obra A Origem da Tragédia (1872). 




in “Crónica da Música”





sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

HAROLDO DE CAMPOS – O neoliberal



HAROLDO DE CAMPOS
(São Paulo, Brasil, 1929 - 2003)
Poeta, tradutor

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O NEOLIBERAL

1.

o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo /(leo) libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha

2.
o neoliberal
neodelibera
o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a morte-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

3.

no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super
(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas
(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não
-neoliberado
come pão
com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-
mansão em miami

4.

o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego é um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís- tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números

5.

o neoliberal
sonha um mundo higiénico:
um ecúmeno de ecónomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundiários
de banqueiros
-banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
desde que circule
auto-regulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atentos ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil

6.

a contramundo o
mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiénico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
subservis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus /mamonas)

7.

o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes /coronéis políticos milenaristas (cooptados) /do perpétuo status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre-festa /estática (ainda que se sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)





quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

RAUL PROENÇA – Tradições no nosso país



RAUL PROENÇA
(Caldas da Rainha, Portugal, 1884 – Porto, 1941)
Escritor, bibliotecário, filósofo

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TRADIÇÕES DO NOSSO PAÍS


Tradições, no nosso país, são o empenho, a falta de iniciativa, de solidariedade, de coragem moral, o egoísmo dos homens de fortuna (que se sentem socialmente desobrigados quando deixam seus bens intactos ou acrescidos), o direito que cada um se reconhece, que lhe reconhecem os tribunais, de desatar aos tiros à autoridade legítima, porque não concorda com a maneira como ela decretou, por exemplo, sobre o aguilhão dos bois… 

Devemos amar, respeitar, consagrar, perpetuar essas tradições (que o são inegavelmente), só porque são tradições? O dever do mestre não consistiria – ao contrário do que pretende Barrès – em mostrar a sua fealdade, o seu dano, a sua ilegitimidade? 

Poderemos ter algum prazer ou alguma glória em continuar a ver desenrolar-se a «procissão nacional» dos subservientes, dos apáticos, dos pusilânimes, dos egoístas, dos inadaptados a toda a ordem social? Bons ou maus, os nossos gostos são nossos – prega Maurras. 

Que se diria, porém, de um pai que desejasse conservar os vícios dos seus filhos pelo fútil motivo de que são deles e não doutro? Decerto que a hipótese da loucura nos acudiria ao espírito. 

Contrariar os vícios nacionais – pode lá haver programa mais sensato, mais útil, mais benemerente de educação nacional?



in “Seara Nova” -1929 
Imagem: Raul Proença por Carlos Botelho (Lisboa, 1899 -1982)





quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

ALEXANDRE O'NEILL - Auto-Retrato




ALEXANDRE O'NEILL
(Lisboa, Portugal, 1924 - 1986)
Poeta

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Foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa.
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AUTO-RETRATO

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
    Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
    do que neste soneto sobre si mesmo disse...




MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...