quinta-feira, 16 de julho de 2015

A Necessidade da Compaixão

 
 
 
 

Santo Agostinho (Argélia, 354 d.C. – 430 d.C.)

Foi escritor, filósofo, teólogo e bispo de Hipona. Exerceu uma influência fundamental sobre a teologia ocidental, tornando-se o mais célebre dos Padres da Igreja latina.

 
 
Palavras de Santo Agostinho:
“A necessidade não conhece leis.”

 

 
A Necessidade da Compaixão

 
Arrebatavam-me os espectáculos teatrais, cheios de imagens das minhas misérias e de alimento próprio para o fogo das minhas paixões. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presenceia cenas dolorosas e trágicas, se de modo algum deseja suportá-las?
Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constitui um prazer. Que é isto senão rematada loucura?
Com efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afectos (deletérios).
Mas ao sofrimento próprio chamamos ordinariamente desgraça, e à comparticipação das dores alheias, compaixão. Que compaixão é essa em assuntos fictícios e cénicos, se não induz o espectador a prestar auxílio, mas somente o convida à angústia e a comprazer o dramaturgo na proporção da dor que experimenta?
E se aquelas tragédias humanas, antigas ou fingidas, se representam de modo a não excitarem a compaixão, e espectador retira-se enfastiado e criticando. Pelo contrário, se se comove, permanece atento e chora de satisfação.
Amamos, portanto, as lágrimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ninguém apraz ser desgraçado, apraz-nos contudo a ser compadecidos.
Não gostaremos nós dessas emoções dolorosas pelo único motivo de que a compaixão é companheira inseparável da dor? A amizade é a fonte destas simpatias.

 
Santo Agostinho, in “Confissões”

 
 
 

terça-feira, 14 de julho de 2015

A Inveja Passeia pelas Ruas

 
 
 
 

Francis Bacon (Reino Unido, 1561 – 1626).
Foi político, filósofo e ensaísta.
 
Palavras de Francis Bacon
“Nada provoca mais danos num Estado do que homens astutos a quererem passar por sábios.”
 

 
A Inveja Passeia pelas Ruas

 

O homem que não tiver virtude própria sempre invejará a virtude dos outros. A razão disso é que a alma humana nutre-se do bem próprio ou do mal alheio, e aquela que carece de um, aspira a obter o outro, e aquele que está longe de esperar obter méritos de outrem, procurará nivelar-se com ele, destruindo-lhe a fortuna.

 As pessoas que são curiosas e indiscretas são geralmente invejosas; porque conhecer muito a respeito da vida alheia não pode resultar do que concerne os próprios negócios. Isso deve provir, portanto, de tomar uma espécie de prazer teatral a admirar a fortuna dos outros.

Aliás, quem não se ocupa senão dos próprios negócios não encontra matéria para invejas. Porque a inveja é uma paixão calaceira, isto é, passeia pelas ruas e não fica em casa.

 

 
Francis Bacon, in “Ensaios - Da Inveja”
Imagem: pintura de Babs Redpath (1924 – 2003)

 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Códices Alcobacenses

 
 
 
 
 

 
Códices Alcobacenses

 

São designados por Códices Alcobacenses os 465 manuscritos levados do Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Alcobaça, após a extinção das ordens religiosas em 1834, que se guardam na Biblioteca Nacional de Lisboa e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Estes Códices tiveram princípio no século XII, constituindo uma das mais ricas colecções portuguesas, não só pelo seu valor histórico como pela sua importância literária e artística.

São considerados os mais antigos e preciosos que possuímos.

Estes Códices, como todos os demais manuscritos, são em pergaminho, com ricas iluminuras e artísticas vinhetas, além de letras e títulos iniciais iluminados.

O mais antigo catecismo português, que até agora se conhece, encontra-se num dos Códices Alcobacenses cuja autoria é atribuída a Frei Zacarias de Paio de Pele, monge do Real Mosteiro de Alcobaça.
 
Imagem: Página do pergaminho do 1.º catecismo dos Monges de Alcobaça - códice séc. XIV/XV.


 
 





 

                                          


domingo, 12 de julho de 2015

Felicidade, Glória, Imaginação, Inteligência e Inspiração

 
 
 
 
 

Joaquim Nabuco (Pernambuco, Brasil, 1849Washington, EUA, 1910).

Foi historiador, jurista, político e jornalista.

 

 
Palavras de Joaquim Nabuco:

“Uma das maiores burlas dos nossos tempos terá sido o prestígio da imprensa. Atrás do jornal, não vemos os escritores, compondo a sós o seu artigo. Vemos as massas que o vão ler e que, por compartilhar dessa ilusão, o repetirão como se fosse o seu próprio oráculo.”

 

 
Felicidade, Glória, Imaginação, Inteligência e Inspiração

 
Numa vida profundamente atormentada seria possível muitas vezes encontrar-se felicidade para várias outras existências. Da felicidade que um homem malbarata, sem lhe suspeitar o valor, outros homens tirariam alegria para toda a vida, assim como as sobras da mesa do rico dariam para sustento de mais de um pobre.

A glória é um processo de apuramento que nunca pára. À medida que a humanidade envelhece e que as suas recordações se vão amontoando, tornam-se necessárias novas selecções. Séculos inteiros são depurados nesses escrutínios, sem que sobreviva um nome sequer. Um dia os imortais irão unir-se aos anónimos no esquecimento final.

É a imaginação, tocha divina apensa ao espírito do homem, que lhe permite mover-se nas trevas da criação. Assim os peixes das profundezas oceânicas trazem um facho que os ilumina na noite eterna. Sem isto para que lhes serviriam os olhos? Sem imaginação, que utilidade teria para o homem a inteligência?

O homem de letras tem falhas pronunciadas de inteligência, a ponto de parecer estúpido ao homem de negócios. Não deixa porém por isso de se considerar, onde quer que se encontre, o mais inteligente da roda. Nada é mais absurdo do que essa superioridade, afectada pelo artista ou poeta de qualquer categoria diante de, por exemplo, um matemático cujos cálculos ele seria incapaz de acompanhar.

A arte dramática é, realmente, pura estereotipia. O actor fixou o seu papel de uma vez, e limita-se, em cada representação, a tirar nova prova. Em arte alguma pode o artista anunciar uma demonstração de génio e de inspiração, diariamente, à hora do cartaz. O que ele faz é reproduzir a sua criação, como o impressor reproduz uma gravura.

 
 
Joaquim Nabuco, in “Pensées Détachées et Souvenirs”
Imagem: pintura de Gwen John (Reino Unido, 1876 – França, 1839).


sábado, 11 de julho de 2015

Revistas Literárias – A ÁGUIA

 
 
 
 
 
 

 A Revista A ÁGUIA foi publicada entre os anos 1910 e 1932. Abordava diversos temas, tais como: literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social.

Teve a sua origem na cidade do Porto, Portugal, e foi dirigida, entre outros,  por Teixeira de Pascoaes, Álvaro Pinto e Leonardo Coimbra.
Foi um importante órgão da Renascença Portuguesa, no qual convergiram diversas tendências literárias.

Alguns dos nomes importantes do panorama cultural da época foram colaboradores da Revista: Mário Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Afonso Duarte, Correia de Oliveira, João de Barros, Augusto Mendes Correia, , Raul Brandão, Ezequiel de Campos, Afonso Lopes Vieira, Raul Proença, António Sérgio, Mário Beirão, Damião Peres, Augusto Santa Rita,

O pintor António Carneiro foi director artístico desde o primeiro número.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Floriram por Engano as Rosas Bravas

 
 
 
 
 

Camilo Pessanha (Coimbra, Portugal, 1867 – Macau, República Popular da China, 1926).

É o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa.

          

 
      Floriram por Engano as Rosas Bravas


Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

 

 Camilo Pessanha, in “Clepsidra e outros poemas

          


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Simão e Teresa

 
 
 
 
 
 
 

Simão e Teresa fazem parte de uma das eternas histórias de amor trágico da literatura: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco.

Simão Botelho e Teresa de Albuquerque são membros de famílias inimigas da cidade de Viseu, em Portugal.

Apaixonam-se, mas os seus pais não permitem o casamento. Mantêm contacto por cartas.

Simão, ao tentar libertar Teresa do convento, acaba por balear o primo de Teresa e é condenado a dez anos de desterro na Índia.

Teresa morre tuberculosa ao ver partir Simão. Este, durante a viagem, adoece, morre e é lançado ao mar.

Este romance, publicado em 1862, foi baseado, segundo Camilo Castelo Branco, na história real de seu tio paterno Simão António Botelho.


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...