domingo, 22 de novembro de 2015

KENZABURO OE – Uma questão pessoal

 
 
 
 
Kenzaburo Oe(Ehime, Japão, 1935).

É um dos mais populares romancistas do Japão.

Escreveu um importante ensaio sobre Hiroshima.
As suas obras expressam a desilusão e a revolta da sua geração após a Segunda Guerra Mundial.

Em 1994, recebeu o “Prêmio Nobel de Literatura”.


                                         Palavras de Kenzaburo Oe:

“Hiroshima é como uma ferida aberta exposta, infligida em toda a Humanidade.”

 
Uma questão pessoal (excerto)

 
«O sonho com que Bird acordou era duro, o oposto do inocente sonho que o acompanhara enquanto se afundava no sono, uma coisa armada com rebarbas que inspirava angústia.
O sono para Bird era um funil no qual entrava pela entrada larga e fácil e do qual tinha de sair pela extremidade estreita. Insuflando-se como um dirigível, o seu corpo atravessava lentamente a escuridão do espaço infinito.
Fora citado pelo tribunal do outro lado da escuridão, e estava a pensar numa forma de os cegar em relação à sua responsabilidade pela morte do bebé. Em última análise, sabia que não seria capaz de ludibriar os membros do júri, mas sentia ao mesmo tempo que gostaria de apresentar um apelo.
Foi aquela gente do hospital a culpada! Não haveria nada que ele pudesse fazer para escapar ao castigo? Mas o seu sofrimento só se vai tornando mais ignóbil à medida que ele continua a vogar, um patético zepelim.»

 
Kenzaburo Oe, in “Uma questão pessoal”
Imagem: pintura de Christopher Richard Wynne Nevinson (Reino Unido,1889-1946).

 

 


sábado, 21 de novembro de 2015

MARIA KEIL - Menina sábia em sua varanda

 
 




Maria Keil (Silves, Algarve, Portugal, 1914 – Lisboa, Portugal, 2012).

Pintora, ilustradora, decoradora de interiores, ceramista, poetisa, autora de vários painéis de azulejos, foi uma figura marcante na publicidade em Portugal desde a década de 1930.
Foi a mais multifacetada artista do Modernismo em Portugal.
 

                          Palavras de Maria Keil:
“Faço 80 anos, sim, e é de propósito”.

 
Texto da escritora Matilde Rosa Araújo sobre Maria Keil:

 
Menina sábia em sua varanda

 
“Maria fica sempre fora de todos os discursos.
Há algo de imponderável, de não tocável ou que possa ser descrito na pessoa física, na personalidade tão rara de Maria Keil.

E, contudo, como os seus pés frágeis estão bem assentes na terra, como o seu espírito crítico tão agudo, enriquecido pela lâmina fina do humor, olha o Mundo – Mundo mais belo e justo se fosse cumprido o seu sonho.

Maria (que tesouro tê-la como amiga há tantos anos!) nunca envelheceu. É aquela Menina sempre criança, que tem a sabedoria de muitos anos e a humildade digna de um ser humano que recusa ser importante, consciente do Bem e do Belo que lhe são intrínsecos.

Por vezes, penso na Maria e tenho, junto de mim, uma ave, leve, de asas luminosas que, naquele instante, está emigrada para muito longe. Só.
E na solidão procurada, chora.
 
Depois, volta e sorri. Ri. Dá aquelas gargalhadas fininhas, como só Maria sabe dar.

Quebram-se estrelas.
 
– Eu não valho nada. O que é que eu sou?
– Oh, Maria!!!
 
Não vale, pois não. Porque tanto é, tanto está. E não dá por isso.
Tanto a sua obra é pura, força de uma natureza de todas as estações, seus traços, suas cores levitam aéreos – mas reais e presentes.

Lembro a sua casa na Travessa do Abarracamento de Peniche, o seu quartinho por detrás das descarnadas traves pombalinas.

E da varanda alta e florida de verdes, os longes do céu, dos telhados de Lisboa, do rio – longes que trazem o sagrado do silêncio.

E a Maria olha. O seu olhar de menina sábia. Suas mãos de leveza alada.
 
Maria na varanda.
Ave de espanto e de espantos.
Encantamento que ri, que recusa chorar.
E Maria tanto sente no silêncio do seu amar.
Maria, obrigada de todo o coração.
Encontrar seu voo em livros meus foi, para mim, um raro presente da vida que a sua generosidade nunca me recusou.
Maria, que suas mãos continuem, por muito tempo, a voar.
Menina sábia em sua varanda.”

 
Matilde Rosa Araújo, in “Biblioteca Nacional”

 
                         
                 Painel de azulejos A Figueira, 1955.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

ULISSES E PENÉLOPE

 
 
 
 
 
 
Ulisses, herói grego, rei de Ítaca, foi um dos mais activos no cerco de Tróia, no qual se destacou pela sua astúcia. Teve a engenhosa ideia do famoso estratagema do Cavalo de Tróia, construído em madeira.

Penépole é uma personagem da mitologia grega.

Por ocasião da guerra de Tróia, Ulisses deixa a sua ilha e Penélope, sua esposa.

Ela esperou, fielmente, ano após ano, sem qualquer notícia.

Todos pensavam que Ulisses tinha morrido e aconselhavam Penélope a escolher outro marido, que ela recusava por amor a Ulisses.

Ambos viveram múltiplas peripécias, até que um dia, após vinte anos de ausência, Ulisses regressa, disfarçado de mendigo.

A história de Ulisses e Penélope está integrada na Odisseia, contada por Homero, poeta grego.

 

Imagem: quadro do pintor inglês John William Waterhouse (1849-1917).

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

HENRI BERGSON - Conhecimento Interesseiro

 
 
 
 

Henri Bergson (Paris, França, 1859 – 1941).
 
Filósofo francês, filho de pais judeus de origem polonesa, apesar de sua excepcional aptidão para as ciências, optou pela filosofia.
 
Ensinou em Angers e, depois, em Clermont, até 1888. Retornando a Paris em 1889, ensinou no Liceu Henri 4º, na “École Normale Supérieure” e no “Collège de France”.
 
Bergson é um marco na filosofia moderna: substituindo pela visão biológica a visão materializante da ciência e da metafísica, ele representa o fim da era cartesiana.
 
Exprime, em nível filosófico, um novo paradigma baseado na consciência, adquirido pela cultura de seu tempo, das conexões entre a vida orgânica e a vida social e psíquica. Chamando a sua metafísica de "positiva", ele dá a essa palavra um significado tão original quanto o que atribui ao "dado imediato".
 
Sua originalidade reside, fundamentalmente, no tipo de ruptura que ele introduz no racionalismo do século XVII. Enquanto outros oporiam ao racionalismo a subjetividade ou a história, Bergson tem uma visão nova (que também o distancia de Hegel) da dialética e da existência.
 
Bergson constrói a sua filosofia sobre quatro idéias fundamentais: a "intuição", a "durée", a "memória" e o "élan vital". Para ele, a filosofia não só se distingue da ciência, como mantém com as coisas uma relação que é o oposto da relação científica. Uma é o conhecimento do absoluto, e outra, do relativo. Um absoluto não poderia ser dado senão numa intuição, ao passo que todo o resto depende da análise.(…)
 
Recebeu o “Prêmio Nobel de Literatura” em 1927.
 
Henri Bergson, in “Enciclopédia Mirador Internacional” (excerto)
 
 
 
Palavras de Henri Bergson:
 
“A inteligência é, antes de mais nada, a faculdade de relacionar um ponto do espaço com outro ponto do espaço, um objeto material a outro objeto material; aplica-se a todas as coisas, mas permanecendo exterior a elas, e não distinguindo nunca, duma causa profunda, senão a sua difusão em efeitos justapostos.”
 
 
 
Conhecimento Interesseiro
 
 
Conhecer uma realidade é, no sentido habitual do termo «conhecer»: tomar conceitos já feitos, doseá-los, combiná-los até obter um equivalente prático do real. Mas não se deve esquecer que o trabalho da inteligência está longe de ser um trabalho desinteressado. Não visamos em geral conhecer por conhecer, mas conhecer para tomar uma decisão, para tirar algum proveito; enfim, para satisfazer algum interesse.
 
 
Henri Bergson, in “O Pensamento e o Movente”
Imagem: pintura de Francisco de Goya (Fuendetodos, Espanha, 1746 – Bordéus, França, 1828).

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

MARIA ARCHER - Macau, uma cidade famosa no oriente

 
 
 
 
 

Maria Archer (Lisboa, Portugal, 1899-1982).

Foi escritora, dramaturga, conferencista, tradutora e jornalista.
Publicou, em Luanda, o seu primeiro livro de parceria com Pinto Quartim Graça – Três Mulheres.

Além de Angola, viveu em Moçambique e na Guiné Bissau, o que lhe possibilitou tratar com a sua experiência, o enorme problema das antigas províncias ultramarinas portuguesas.

Viveu também no Brasil, onde publicou quatro livros: Fronteira da África, Brasil, África sem Luz e Terras onde se fala Português.

A sua obra está frequentemente ligada a problemas sociais e às questões da condição feminina.

Regressou a Portugal em 1979.

Passou os seus três últimos anos de vida internada num asilo, em Lisboa, sofrendo o isolamento e a injustiça da sociedade da época.


 
Palavras de Maria Archer:

“A minha obra literária tem sido norteada pelo princípio vital de rebater o conceito arcaico da inferioridade mental da mulher.”
 
 
Macau, uma cidade famosa no oriente (1960)
 
Macau, hoje em dia, é uma cidade famosa no Oriente, e tão alegre, tão luxuosa, tão urbanizada, como as cidades portuguesas ou brasileiras de primeira categoria.
As suas ruas e avenidas são largas, de bom pavimento de asfalto ou cimento, perfeitamente sinalizadas e de circulação regulamentada. Possui parques arrelvados, jardins floridos, e profusa arborização. É uma cidade policroma, elegante e moderna, que se impõe ao primeiro olhar. Os forasteiros gabam os hotéis de Macau, luxuosos, cômodos, e adaptados, uns à vida européia, outros à vida chinesa.
Cabo submarino, que a liga, na profundidade dos mares, a toda a Terra, estação de Rádio, com que comunica, pelos ares, com Portugal e o mundo civilizado, rede de telefones automáticos, instalada um ano antes da de Lisboa, ascensores nos edifícios, iluminação elétrica, indústrias movidas a eletricidade, água canalizada, esgotos, serviços de autocarros, camionagem e automóveis, estabelecimentos comerciais dignos de Paris, bancos, fábricas, hospitais, asilos, escolas, tribunais, cinemas, clubes, edifícios magníficos, uma intensa vida elegante, um forte movimento comercial — eis o expoente da beleza, do conforto e da riqueza da Leal Cidade.
A população é enorme, comprimida na pequena área. Orçava, antes da guerra, por uns 200 mil indivíduos, dos quais 4 mil portugueses, 500 de nacionalidades diversas, e chineses os restantes. Agora tem uma enorme população de refugiados chineses, grande parte vivendo em cima de barcos ancorados no porto interior.
 
 
Maria Archer
Macau, uma cidade famosa no oriente, in “Terras onde se fala Português”.
Imagem: Macau anos 60

 
 

 
 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

SELMA LAGERLÖF – A Marcha Nupcial

 
 
 
 
 

Selma Lagerlöf (Suécia, 1858 – 1940)

Foi escritora, poetisa e professora.

Publicou, durante muitos anos, pequenos contos, em jornais e revistas.

Ficou célebre no seu país a partir da publicação do romance A Saga de Gösta Berling.

Algumas das suas obras mais expressivas foram adaptadas para o cinema.

Foi a primeira mulher a receber o “Prémio Nobel de Literatura”, em 1909, e a ser membro da “Academia Sueca”, em 1914.

O seu mais fabuloso sucesso editorial foi A Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson, publicado em 1906.

A sua obra caracteriza-se por um profundo sentimento de humanidade e de amor à terra que a viu nascer.

 
Palavras de Selma Lagerlöf:

Ninguém pode livrar os homens da dor, mas será bendito aquele que fizer renascer neles a coragem para a suportar.”
 
 
A Marcha Nupcial
 
Há muitos anos, ia celebrar-se um rico casamento na comuna de Svarstjo, na Vermlândia. A bênção nupcial seria na igreja, e a festa duraria três dias inteiros, e, enquanto durasse a festa, devia dançar-se desde o anoitecer até de manhãzinha.
 
E, pois que se devia dançar tanto, era muito importante achar um músico consumado, e a Nils Elofson, o rico camponês que casava a filha, atormentava mais este problema do que o resto dos preparativos. Quanto ao músico que habitava em Svarstjo, não o queria ele por preço algum. Chamava-se João Oster, e o nosso camponês sabia bem que tinha grande nomeada, mas era tão pobre, que às vezes se apresentava nas festas descalço e de colete rasgado. Não é um maltrapilho assim que a gente gosta de ver à frente de um cortejo nupcial.
 
Decidiu-se enfim a mandar perguntar a certo Martim, chamado o Tocador, de Josseherad, cantão vizinho, se estava disposto a vir tocar no casamento de Svarstjo.  Sem um instante de hesitação, respondeu Martim, o Tocador, que nunca tocaria em Svarstjo, enquanto houvesse naquela comuna o melhor músico de toda a Vermlândia. Visto que tinham aquele, não havia necessidade de mandar chamar outro.
 
Recebendo esta resposta, esperou Nils Elofson alguns dias para reflectir, depois mandou perguntar a Olle de Saby, que morava na comuna de Stora Kil, se podia vir tocar no casamento de sua filha.
 
Mas Olle de Saby deu a mesma resposta que Martim. Mandou dizer a Nils Elofson que, enquanto houvesse em Svarstjo um músico como João Oster, ele lá não iria tocar.
 
Nils Elofson não achava graça à pretensão dos músicos de lhe imporem quem ele não queria. Parecia-lhe até que era agora um ponto de honra achar outro músico que não fosse João Oster.
 
Alguns dias depois de receber a resposta de Olle de Saby, enviou o criado a Lars Larsson, o violinista de Engsgardet, na comuna de Ulerud.
 
Lars Larsson era homem abastado, proprietário de uma próspera granja; era prudente e reflectido, não uma cabeça esquentada como os outros músicos.
 
Mas esse, como os outros, pensou logo em João Oster, perguntando por que não se tinham dirigido a ele para o que queriam. Por malícia, respondeu o criado de Nils que, como João Oster morava em Svarstjo, havia ocasião de ouvi-lo todos os dias, e, visto que Nils Slofson promovia uma festa extraordinária, desejava oferecer aos seus convidados alguma coisa melhor, mais rara.
 
— Duvido que ele ache melhor.
 
— Sem dúvida, vai dar a mesma resposta que Martim o Tocador, e Olle de Saby — disse o criado, contando-lhe o acolhimento que aqueles tinham feito ao convite do seu senhor.
 
Atento, ouviu Lars Larsson a narração do criado. Guardou silêncio um momento, reflectindo, e deu resposta afirmativa.
 
— Dize a teu amo que agradeço o convite e que irei à hora marcada.
 
No domingo seguinte, lá foi Lars Larsson à igreja de Svarstjo. Viram-no chegar à ladeira que conduz à igreja, justamente quando começava a formar-se o cortejo nupcial para se pôr a caminho.
 
Viera no seu próprio carrinho, puxado por um cavalo de preço; vestia um belo trajo negro e tirou o instrumento de uma esplêndida caixa. Recebeu-o Nils Elofson com todos os respeitos devidos à sua categoria: aquele, sim, era um músico de quem a gente se podia orgulhar.
 
Pouco depois da chegada de Lars Larsson, viram aproximar-se João Oster, com o violino debaixo do braço. Foi direito ao cortejo que cercava a noiva, como se tivesse sido convidado para tocar na festa.
 
Vinha com o seu velho colete de burel cinzento, que vestia há longos anos, mas, como se tratava de casamento tão rico, a mulher fizera alguns consertos, pondo nos cotovelos grandes remendos de pano verde. Era um belo homem, de alta estatura, e faria grande figura à frente do cortejo nupcial, se não estivesse tão miseravelmente vestido, e se a luta incessante contra a miséria lhe não houvesse marcado o rosto de rugas.
 
Vendo chegar João Oster, pareceu Lars Larsson contrariado.
 
— Convidou-o também? — perguntou a meia voz a Nils Elofson. — Não são demais com efeito, dois músicos para tão magnífico casamento.
 
— Mas não o convidei — protestou Nils Elofson. — Não compreendo por que veio. Espera um pouco, que lhe farei saber que nada tem a fazer aqui.
 
— Foi então algum trocista que o convidou. Mas, se quer o meu parecer, façamos de conta que de nada desconfiamos e vá dar-lhe as boas-vindas. Tenho ouvido dizer que ele é arrebatado de génio, e não podemos ter a certeza de que não vá fazer escândalo, se lhe disser que não foi convidado.
 
Aceitou Nils sem hesitação este conselho. Seria inoportuno procurar aborrecimentos no momento em que o cortejo se formava na praça da igreja. Aproximou-se, pois, de João Oster e cumprimentou-o.
 
Feito isto, colocaram-se ambos os músicos à frente. Atrás deles, o par, sob o pálio, seguido dos pajens e donzelas de honor, dois a dois; vinham depois os pais dos noivos, e os diversos membros de ambas as famílias, de modo que o acompanhamento tinha na verdade um aspecto imponente.
 
Quando tudo estava pronto, um rapaz, dirigindo-se aos músicos, pediu-lhes que iniciassem a marcha nupcial.
 
Fizeram ambos os músicos simultaneamente o mesmo gesto de apoiar o violino ao queixo. Nisto pararam ambos, rígidos, à espera, porque, em Svarstjo, um velho costume exigia que fosse o músico mais hábil a iniciar a marcha nupcial.
 
Olhou o rapaz para Lars Larsson como a indicar que este começasse, mas Lars Larsson olhou para João Oster, dizendo:
 
— É João Oster quem deve começar!
 
Não pensava, porém, João Oster que o outro, vestido tão ricamente como um senhor, lhe pudesse ser inferior, a ele que, envergando um velho colete de burel, vinha de uma pobre cabana onde não havia mais do que trabalho e miséria.
 
— Oh, mas de modo nenhum — disse ele, confuso. — Oh! Não, de modo nenhum!
 
Viu que o noivo tocava no cotovelo de Lars Larsson, dizendo:
 
— Lars Larsson deve começar!
 
Ouvindo estas palavras, João Oster retirou o violino do queixo e deu um passo para o lado.
 
Lars Larsson não se moveu; ficou no seu lugar, parecendo tranquilo e contente de si. Contudo, também não levantou o arco.
 
— É João Oster quem deve começar — repetiu, acentuando as palavras, como homem habituado a fazer o que quer.
 
Houve não pouca agitação no cortejo, por causa da demora. Veio o pai do noivo pedir a Lars Larsson que começasse. À porta da igreja apareceu o porteiro, fazendo-lhe sinal para que se apressassem; o pastor já estava diante do altar. Era pouco delicado fazê-lo esperar.
 
— Não têm mais do que pedir a João Oster que comece — respondeu Lars Larsson. — Nós, músicos, sabemos que é o mais hábil de todos.
 
— Pode ser que assim seja — replicou o camponês — mas nós, camponeses, achamos que és tu, Lars Larsson, o mais hábil.
 
Cercavam-nos todos os convidados.
 
— Mas começai — diziam — o pastor está à espera. Vamos servir de risota a toda a gente.
 
Lars Larsson, porém, permaneceu ali, tenaz e desdenhoso como nunca.
 
— Não compreendo por que a gente daqui se opõe com tanto ardor a que o seu próprio músico tenha o primeiro lugar — disse ele.
 
Mas Nils Elofson enfurecera-se perante a obstinação de todos em quererem impor-lhe João Oster. Aproximou-se de Lars Larsson e disse-lhe ao ouvido:
 
— Compreendo que foste tu quem chamou João Oster, para o honrar diante de todos. Mas agora trata de começar, senão vou enxotar da praça este esfarrapado, que só levará daqui vergonha e confusão.
 
Sem mostrar cólera, olhou-o Lars Larsson nos olhos e fez com a cabeça um sinal afirmativo.
 
— Sim, tem razão, é preciso acabar com isto.
 
Fez sinal a João Oster para retomar o seu lugar à frente. Depois, adiantou-se alguns passos para que todos o pudessem ver. E, com um gesto rápido, lançou longe o arco, tirou a faca do bolso e cortou de um golpe as quatro cordas, que se partiram, produzindo um som agudo.
 
— Ninguém dirá que me considero acima de João Oster! — gritou ele.
 
Ora, é o caso que há três anos ruminava João Oster uma ária que sentia palpitar em si, mas que era incapaz de fazer sair das cordas do violino, porque, lá em casa, estava constantemente curvado sob o pesado fardo de cuidados pequeninos e miseráveis, e nunca lhe sucedera nada que o pudesse elevar acima da tarefa quotidiana.
 
Quando ouviu rebentarem as cordas do violino de Lars Larsson, atirou para trás a cabeça e aspirou violentamente o ar nos pulmões. Tinha os traços do rosto tensos, como se escutasse alguma coisa que lhe vinha de muito, muito longe, e de repente, pôs-se a tocar.
 
Porque a ária que procurara em vão durante três anos, lhe aparece de improviso com maravilhosa limpidez, e, fazendo ressoar as notas claras, pôs-se a caminhar altivamente para a igreja.
 
E jamais a gente do cortejo ouvira ária tão triunfal. Arrastou-os a todos com tão irresistível ímpeto que o próprio Nils Elofson não se pôde manter quieto. E estavam todos tão contentes, não só de João Oster, mas também de Lars Larsson, que o acompanhamento inteiro tinha os olhos rasos de lágrimas ao entrar na igreja.
 
 
Selma Lagerlöf
Imagem: pintura de Rui Carruço (Lisboa, Portugal, 1976)
 
 

 
 

 

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...