segunda-feira, 17 de abril de 2017

LEWIS HINE - Fotógrafo




LEWIS HINE
(Estados Unidos da América, 1874 – 1940)

Fotógrafo e sociólogo pioneiro da fotografia documental

Sociólogo por formação, o americano Lewis Wickes Hine encontrou na fotografia uma forma de fazer a diferença diante dos piores problemas sociais dos Estados Unidos do início do século XX. Se na época suas imagens ajudaram a criar diversas leis trabalhistas, foi apenas após sua morte que foi reconhecido, também, como um grande fotógrafo.

Já como professor na Escola de Cultura Ética de Nova Iorque,  Hine comprou sua primeira câmera, utilizando as fotografias como uma ferramenta pedagógica. A partir de 1905, adoptou a prática como um meio de denunciar a miséria dos imigrantes europeus, expondo à opinião pública suas péssimas condições de trabalho. Na época, grande parte da mão-de-obra industrial norte-americana era composta por crianças. Seus registos ajudaram na criação e na aprovação da primeira lei nacional de trabalho infantil.

Em 1908, foi chamado para integrar o recém-criado “Comitê Nacional do Trabalho Infantil”, deixando de leccionar para tornar-se detective. Em um ano, viajou pelo interior do país e cobriu quase 20 mil quilómetros, em condições precárias de acomodação e higiene e sem grandes recompensas monetárias. 

Por ser ocasionalmente impedido de fazer seu trabalho pelos donos das fábricas, escondia a câmara e disfarçava-se de inspector de incêndio, fingindo entrevistar as crianças enquanto clicava. Não utilizava artifícios e valorizava os ângulos frontais, já que tinha como principal objectivo capturar a expressão em seus rostos. Para isso, estava sempre no mesmo nível de seus objectos, normalmente centralizados com precisão. 

Este período de trabalho está publicado nos livros Child Labour in the Carolinas (1909) e Day Laborers Before Their Time (1909).
Antes disso, publicou Charities and the Commons (1908), que retratava a mão-de-obra abusiva utilizada nas construções de prédios.
Com dificuldade para ganhar dinheiro como fotógrafo, perdeu sua casa em Janeiro de 1940 e morreu extremamente pobre 11 meses depois.



in “ESPM”- Centro de Fotografia


***

Palavras 
de 
Lewis Hine

"Há trabalhos que beneficiam crianças e há trabalhos que trazem benefícios apenas aos empregadores. O objectivo de empregar crianças não é treiná-las, mas tirar altos lucros de seu trabalho."



Grupo de crianças trabalhadoras 









domingo, 16 de abril de 2017

FRANCISCO DOS SANTOS - “Chico Maluco”




FRANCISCO DOS SANTOS - “Chico Maluco
(Lisboa, Portugal, 1902 – 1944)

Cantador, poeta e compositor

Francisco dos Santos, cantador e poeta popular, que pela sua extravagância e variações de humor ficou conhecido no meio fadista por Chico Maluco. Exerceu a profissão de escriturário.

Foi um dos cantadores mais brilhantes no género jocoso. Profissionalizou-se em 1927, tendo recebido inúmeros convites para actuar na Cervejaria Boémia, na Rosa Branca, Luso e Ginásio, no Solar da Alegria, no Ferro de Engomar, etc.

Era um brilhante intérprete e um compositor de mérito, que construía o seu próprio reportório, escrevendo também letras para outros fadistas. 

Com música de Fernando de Freitas, deve-se a Francisco dos Santos a primeira letra escrita para Amália Rodrigues, Ronda dos Bairros, em 1940, quando a artista firmou o seu primeiro contrato com o Solar da Alegria.



in “Histórias do Fado” - Maria Guinot, Ruben de Carvalho, José Manuel Osório.

 ***

RONDA DOS BAIRROS

Sentindo-me fadista e reforçando a amarra
prende no meu peito a sensibilidade
sobraçando contente uma velha guitarra
de noite percorri os bairros da cidade

Em todos eu cantei uma trova de amor
por Alfama e Madragoa, Alcântara e por Belém
subi ao Bairro Alto, o bairro sonhador
aonde o fado vibra eternamente bem

Em todos eu cantei uma trova de amor
unida a convulsão da minha nostalgia
e às quatro da manhã, eu reparei que estava
junto de uma capela ali na Mouraria

Senhora da Saúde, a santinha benquista
parece que escutava, a trova que eu cantei
senti-me mais mulher, senti-me mais fadista
na velha Mouraria, aonde o fado é lei.



sábado, 15 de abril de 2017

TOSCANINI E HITLER





TOSCANINI E HITLER

Friedelind Wagner, neta de Ricardo Wagner, é autora de umas recordações que estão sendo publicadas nas «Nouvelles Littéraires». Tem sobretudo interesse a partir da chegada ao poder de Hitler, do qual a mãe de Friedelind (viúva de Siegfried Wagner e, diga-se passagem, inglesa pelo nascimento) era fanática, desde o «putch» de Munich.

As leis contra os judeus tiveram, como não podia deixar de ser, as suas consequências para as temporadas wagnerianas de Bayreuth. 

Em 1933, a mãe de Friedelind conseguira de Hitler autorização para que os artistas judeus, que já estavam contratados para a temporada seguinte pudessem cantar. Bayreuth, templo do deus Wagner, podia ter destes privilégios – pelo menos em 1933. Mas nem assim as coisas correram bem: Toscanini, que não é judeu telegrafara dizendo que não podia voltar a Bayreuth depois do que se fizera aos judeus. E então, além dum telegrama, Hitler decide mandar uma carta pessoal a Toscanini. Damos a palavra a Friedelind Wagner:

«Este telegrama foi seguido por uma carta pessoal de Hitler à qual ele imaginava que o maestro não resistiria. Brückner veio lê-la a minha mãe antes de fazer seguir. Nela se dizia que ele (Hitler) não tivera nunca ocasião de ouvir o grande chefe de orquestra, mas que nesse caso, na sua qualidade de Chanceler do Reich, se sentiria particularmente feliz em receber Toscanini em Bayreuth.

«Quando esta leitura terminou, não pude deixar de exprimir a minha opinião:

«- Seria uma loucura mandar uma carta dessas! É a maneira mais certa de afastar Toscanini! – protestei.- Se querem realmente que ele venha, não a mandem, porque ele não vem a Bayreuth por causa de Hitler, mas por causa de Wagner: vai sem dúvida ficar furioso.

Minha mãe lançava-me olhares chamejantes, e a sua cólera estalou. Em voz irritada, pediu-me que lhe deixasse a direcção dos festivais até o dia em que eu desse provas de saber ajuizar melhor. Eu mordia os lábios e sorria. Não respondi, sabendo muito bem que o meu silêncio a irritaria ainda mais – mas tinha razão. A resposta de Toscanini veio na volta do correio, e era tão violenta que, depois, Hitler corava sempre que o nome do maestro era pronunciado diante dele».

Hitler corava em 1933! Vê-se bem que estava no início da sua carreira…


in “Mundo Literário” – Semanário de crítica e informação – 1947


Imagem: Arturo Toscanini



sexta-feira, 14 de abril de 2017

JOSÉ FERNANDES BADAJOZ – Poeta Cavador




JOSÉ FERNANDES BADAJOZ
(Mucifal, Sintra, Portugal, 1920 – 2000)

Poeta e agricultor

Com 13 anos de idade, cria o mais célebre dos seus temas “O Cavador”, que viria a arrastar multidões de norte a sul do país, tal o impacto que o tema despertou nas décadas de 40, 50 e 60, pelo facto dos seus versos serem duma simplicidade extraordinária e o José Fernandes o interpretar como ninguém, servindo-se de uma voz melodiosa, pura e bem timbrada, segura e com uma postura física que só ele conseguia transmitir. 

Poeta, cantor e compositor musical, o José Fernandes – O Poeta Cavador do Mucifal, criou imensos êxitos, com a sua simplicidade das coisas que retratava e, independentemente de não saber uma nota de música, musicava-os e cantava-os. Na década de 40, encontrava-se no auge do seu êxito, os jornais do país destinavam curiosas e entusiásticas notícias em caixa alta, à carreira deste artista.

Mas o ambiente artístico profissional, já nessa altura, envolvido em invejas e ciúmes, leva este homem simples e grande artista, a afastar-se definitivamente do percurso profissional. Assim José Fernandes, não se deixa arrastar pelo fascínio da fama e do êxito profissional, vindo-se a entregar, cada vez mais, à sedução mágica do campo, trocando a fama e a riqueza por uma vida autêntica e honrada como agricultor.


in “Geocache “

Imagem: Busto de José Fernandes Badajoz - Mucifal


O CAVADOR

Mal que rompe a madrugada
Ponho ao ombro a minha enxada
Vou para o campo trabalhar.
É assim a minha vida
Porque gosto desta lida
Nunca a poderei deixar.
Quem no campo labutar
É que sabe avaliar
O que custa a nossa arte
Quem o trabalho conhece
Vê que o cavador merece
Elogio em toda a parte.

Refrão

O pobre trabalhador
Passa a vida atribulada
Desde manhã ao sol - pôr
A puxar pela enxada.
Sempre, sempre a trabalhar
É assim nosso viver
Se não podemos ganhar
Já não temos que comer.


Há quem diga por supor
Que o pobre trabalhador
É rude e não sabe nada
Que é uma ideia embrutecida
Pois somente leva a vida
A puxar pela enxada.
Sabemos compreender
Que é bonito saber ler
E que é bom ser educado
A sorte é que nos ilude
Mas não tem nada ser rude
Para ser homem honrado.





quinta-feira, 13 de abril de 2017

GOTTFRIED BENN - Homem e Mulher Passam pelo Pavilhão de Cancerosos




GOTTFRIED BENN
(Mansfeld, Alemanha,1886 - Berlim, 1956)

Poeta e ensaísta

Foi um dos mais famosos escritores do Expressionismo.
Serviu como médico militar na primeira e segunda guerras mundiais, e estabeleceu-se depois em Berlim como especialista de doenças de pele.
Os seus primeiros poemas, Morgue (1912), Sohne (1914) e Schutt (1916) são uma revelação terrível de corrupção e doença. 

Para Gottfried Benn a verdadeira vida era a vida dos sonhos e alucinações, a vida do inconsciente, onde existia a verdadeira essência do ser. Foi um seguidor de Nietzsche e niilista radical. Só reconheceu o valor da arte, e só nela confiava para vencer o caos.


in “Enciclopédia de Literatura”

***

Palavras
de
Gottfried Benn
“Um poema, isto quase nunca ‘nasce’, isto se fabrica


HOMEM E MULHER PASSAM PELO PAVILHÃO DE CANCEROSOS

O homem:
A fila aqui são ventres podres
e aquela, peitos podres. Cama fede junto
a cama. As enfermeiras trocam de hora em hora.

Vem, ergue devagar esta coberta.
Olha: esta massa gorda com humores podres
já foi querida outrora por um homem,
era seu êxtase e seu lar.

Vêm, olha as chagas neste peito. Notas
o rosário de nós pequenos, moles?
Apalpa. A carne é mole e nada sente.

Esta outra sangra como que de trinta corpos.
Ninguém tem tanto sangue.
Tiveram que cortar,
daquele corpo canceroso uma criança.

Que durmam. Dia e noite. — Diz-se aos novos:
o sono aqui faz bem. — Mas aos domingos
deixam-nos acordar, para as visitas.

Comem um pouco. Suas costas cobrem-se
de chagas. Olha as moscas. A enfermeira,
às vezes, lava-os. Como se lavasse um banco.

A cova aqui já ronda cada cama.
A carne desce à lama. A chama some.
A seiva se derrama. A terra chama.


Tradução: Nelson Ascher




quarta-feira, 12 de abril de 2017

MÚSICA PARA UMA FESTA AQUÁTICA




GEORG FRIEDRICH HAENDEL
Alemanha,1685 – Reino Unido, 1759)

Compositor

MÚSICA PARA UMA FESTA AQUÁTICA

Em 17 de Julho de 1717, cerca de cinquenta músicos interpretam a Música aquática, de Georg Friedrich Haendel, a bordo de uma embarcação que sobre o rio Tamisa atrás do iate real de Jorge I de Inglaterra. Escrita para este desfile real em celebração da assinatura da Paz de Aix-la-Chapelle, a partitura tem sonoridade e características musicais próprias para ser interpretada ao ar livre, graças, sobretudo, à importância que nela se concede aos instrumentos de sopro, principalmente oboés e trompas. 

Consta de umas vinte peças breves nas quais figuram danças populares, minuetes, fugas e hornpipes (uma dança tipicamente britânica de marinheiros caracterizada pelo seu ritmo ternário). 

A Música aquática, replecta de passagens rápidas e de grande fluência, pode considerar-se como a peça musical mais alegre que Haendel escreveu. 
Posteriormente, a obra foi adaptada para ser interpretada em salas de concerto e agrupada em várias suítes orquestrais.




in “Crónica da Música”




EDGAR NEVILLE - Escritor




EDGAR NEVILLE
(Madrid, Espanha,1899 - 1967)

Escritor, dramaturgo, cineasta, poeta e pintor

Iniciou a sua carreira literária com Crónicas sobre a guerra de Marrocos (1921).
Edgar Neville optou por um humor não comprometido politicamente, que cultivou em todos os géneros: teatro, poesia, novela, cinema, pintura...
El último caballo e Duende y misterio del flamenco são considerados os seus melhores trabalhos como cineasta.

Algumas das suas obras literárias: A Margarita y los hombres, Después escribió Veinte añitos, El baile, Teatro de Edgar Neville, Eva y Adán, La vida en un hilo.


in “Biografias e Vidas”



MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...