quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

JOACHIM DU BELLAY – Não sendo o natural suficiente àquele que em poesia quer criar obra digna de imortalidade



                              JOACHIM DU BELLAY
(França, 1522 – 1560)
Poeta

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NÃO SENDO O NATURAL SUFICIENTE ÀQUELE QUE EM POESIA QUER CRIAR OBRA DIGNA DE IMORTALIDADE


Quem quiser voar pelas mãos e bocas dos homens, deve longamente manter-se em seu quarto; e quem desejar viver na memória da posteridade, deve como em si mesmo morto transpirar e muitas vezes, e assim como os poetas da nossa corte bebem, comem e dormem a contento, sofrer fome, sede e longas vigílias. São tais as asas com que os escritos dos homens voam para os céus.


Tradução: Filipe Jarro


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

BRITES DE ALMEIDA – Padeira de Aljubarrota



BRITES DE ALMEIDA – PADEIRA DE ALJUBARROTA

Segundo a tradição, Brites de Almeida (sécs. XIV-XV) teria capitaneado um grupo ousado de populares que foi perseguir na fuga os vencidos de Aljubarrota. Ao regressar a casa, encontrando sete foragidos escondidos no forno onde fabricava o pão, à medida que saiam do esconderijo um a um foi matando os sete castelhanos a golpes de pá.

Durante séculos a celebrada pá saiu processionalmente integrada nas comemorações oficiais da Batalha de Aljubarrota, sendo também exposta aquando da visita de algum personagem importante; em vão os Filipes, durante o seu governo, a procuraram para a levar para Espanha; só reapareceu após a aclamação de D. João IV, em 1640.



in “Livro dos Portugueses”



segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ALVES REDOL – Gaibéus



ALVES REDOL
(Vila Franca de Xira, Portugal, 1911 – Lisboa, 1969) 
Escritor

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(…) Como rajada de vento, os ceifeiros marcham pela seara adiante, brandindo alfaias, derrubando espigas.

Na sua frente, os cachos adejam à viração, como um mar crispado de mareta que eles querem estagnar.

As cachopas e as velhas já arfam pelo ímpeto do trabalho, mas não podem dar tréguas; os capatazes continuam alertas. Arrastam-se sem alma nos braços, cabeça em rodopio, dentes fincados. (…)

Na crista das marachas os capatazes espiam sempre.

- Dêem a porrada pequena, que o arroz está cabeçudo, eh, gente!...

- Que raio de serviço!... Cheguem atrás!

Aquele vai deitando o olho às curvas tostadas das pernas das mulheres, descompostas pelo pendor dos troncos no lameiro.

Safo de fadigas, belisca-lhes com a vista o capite das pernas. A saia de baixo de uma delas está rasgada e tem manchas de sangueira pisada.

O capataz afasta a vista e sente ganas de a mandar desferrar.

- Ora o raio!...

Dá a volta na maracha para se afastar dela, mas o rancho descreve agora uma linha sinuosa, a procurar jeito ao trabalho, e a saia rasgada fica de novo à sua frente.

Já lhe parece que todas as saias de mulheres se rasgaram e têm manchas de sangueira pisada.

Ali ao pé dele grita uma papoila – como um charco de sangue que a ceifeira deixasse o seu rasto.



in “Gaibéus”


domingo, 16 de dezembro de 2018

LI PO - Olhando com Tristeza a Lua


LI PO
(China, 701 - 762)
Poeta 
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Foi um dos grandes poetas chineses. Alcoólico inveterado, vagabundo impenitente, homem incapaz de adaptar-se às carreiras extremamente burocráticas do Império Celeste. A sua poesia atinge, por vezes, extremos refinamentos de graciosidade e leveza.

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OLHANDO COM TRISTEZA A LUA

Nesta pura primavera
houve um pinheiro
para ensombrar dez mil anos.
A lua treme
nas ondas crespas.
O luar avança
pela janela.

Num vácuo de alma
sento-me e canto
e penso em ti
profundamente.
Não nos veremos.
O gozo é morto.
É indizível
a dor que está
no coração
do homem.



in “Poesia de 26 séculos” – Antologia de Jorge de Sena











sábado, 15 de dezembro de 2018

BLAISE CENDRARS – São Paulo


BLAISE CENDRARS
 (Suíça, 1887 - França, 1961)
Poeta, novelista
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 SÃO PAULO


Adoro esta cidade
São Paulo do meu coração
Aqui nenhuma tradição
Nenhum preconceito
Antigo ou moderno 
Só contam este apetite furioso esta confiança absoluta este optimismo esta audácia este trabalho este labor esta especulação que fazem construir dez casas
por hora de todos os estilos ridículos grotescos belos grandes pequenos
norte sul egípcio ianque cubista
Sem outra preocupação que a de seguir as estatísticas prever o futuro o conforto a utilidade a mais-valia e atrair uma grande imigração
Todos os países
Todos os povos  
Gosto disso
As duas três velhas casas portuguesas que sobram são faianças azuis
     
  

Tradução: Teresa Thieriot

 





sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

ELIZABETH BISHOP - A Arte de Perder



ELIZABETH BISHOP
(EUA, 1911 - 1979)
Poetisa

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É considerada uma das mais importantes poetisas do século XX a escrever na língua inglesa.

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A Arte de Perder

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamã. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério.





quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

JAN KOCHANOWSKI – A Tília



JAN KOCHANOWSKI
(Polónia, 1530 - 1584)
Poeta

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É considerado um verdadeiro humanista e o melhor representante do período da Renascença naquela região da Europa.
Algumas das suas obras: Treny, Lamentos, A Demissão dos Enviados Gregos.

in “The History of Polish Literature” (excerto)

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A TÍLIA

Peregrino, senta debaixo da ramagem,
Descansa; eu prometo – sequer o sol selvagem
Aqui pode avançar. Porém os raios justos
Deverão as sombras aquietar nos arbustos.
Aqui sempre sopram brisas frescas do campo,
Rouxinóis e negras aves cantam seu canto.
Abelhas obreiras recolhem mel das flores
Perfumadas para brindar as mesas nobres.
E a todos os homens meu murmúrio sereno
Cobre facilmente de adocicado sono.
Maçãs não carrego, mas sou árvore farta
Das Hespérides no jardim, meu amo exorta.



Tradução: Aleksandar Jovanovic





MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...