terça-feira, 14 de julho de 2020

JOHANN GOETHE - Os Pseudo-Sábios



JOHANN GOETHE
(Alemanha, 1749 – 1832)
Escritor, filósofo, poeta

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Foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, no final do século 18 e início do século 19.

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OS PSEUDO-SÁBIOS

Os verdadeiros sábios perguntam como se comporta dada coisa em si mesma e na sua relação com outras coisas, sem se preocuparem com a utilidade, ou seja, com a aplicação no domínio do já conhecido ou no domínio daquilo que é necessário à vida. 

Há outros espíritos, gente bastante diferente, que, sendo mais agudos, mais virados para a vida, mais experimentados e familiarizados com a técnica, tratam imediatamente de encontrar as aplicações.

Os pseudo-sábios procuram apenas retirar tão depressa quanto possível algum proveito pessoal das novas descobertas, tratando de obter uma glória vã, seja pela tentativa de dar continuidade ou alargamento à descoberta em causa, seja pela introdução de correcções, ou até por uma simples anexação pessoal, por exemplo, afectando grandes preocupações em relação ao assunto. 

O carácter sempre prematuro desses comportamentos prejudica a verdadeira ciência, traz-lhe maior incerteza e confusão, e atrofia-lhe manifestamente aquilo que ela pode produzir de mais belo, isto é, o seu florescimento prático.




 in “Máximas e Reflexões”


segunda-feira, 13 de julho de 2020

CHARLES BUKOWSKI - O pássaro azul



CHARLES BUKOWSKI
(Alemanha, 1920 - EUA, 1994)
Poeta, romancista

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O PÁSSARO AZUL

Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?



Tradução: Pedro Gonzaga





domingo, 12 de julho de 2020

GUSTAVE LE BON – O Raciocínio das Multidões (III)



GUSTAVE LE BON
(França, 1841- 1931)
Antropólogo, psicólogo, sociólogo

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O RACIOCÍNIO DAS MULTIDÕES (III)

(continuação)

É escusado acrescentar que a incapacidade das multidões para raciocinar as priva precisamente de qualquer espírito crítico, isto é, da aptidão para distinguir a verdade do erro, para formular um juízo exacto. Os juízos que elas aceitam são sempre juízos impostos e nunca juízos discutidos. Sob este ponto de vista, há muitos indivíduos que não se elevam acima do nível das multidões. 

A facilidade com a qual certas opiniões se generalizam deve-se sobretudo à impossibilidade da maior parte dos homens formarem uma opinião própria baseada nos seus próprios raciocínios.

(Fim)




sábado, 11 de julho de 2020

ANTERO DE QUENTAL - Hino à Razão



ANTERO DE QUENTAL
(Ponta Delgada, Açores, Portugal, 1842 – 1891)
Escritor, poeta, filósofo

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Pela profundidade do pensamento filosófico, inigualável em toda a história da literatura portuguesa, e pela beleza formal dos seus poemas, em especial dos sonetos – forma que recupera após o romantismo, na senda de João de Deus – a sua obra oferece uma das mais fecundas expressões de toda a poesia portuguesa.

in“Livro dos Portugueses”

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HINO À RAZÃO

Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros, sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
buscam a liberdade entre clarões;
e os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!





sexta-feira, 10 de julho de 2020

PAUL VERLAINE – A Angústia



PAUL VERLAINE
(França, 1844 – 1896)
Poeta

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É considerado um dos maiores poetas simbolistas franceses.
Com Mallarmé e Baudelaire, Verlaine compõe o grupo dos chamados poetas decadentes.
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A ANGÚSTIA

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior.




Tradução: Fernando Pinto do Amaral




quinta-feira, 9 de julho de 2020

A CÂMARA DOS DEPUTADOS




A CÂMARA DOS DEPUTADOS


A câmara dos deputados está tendo realmente uma compreensão muito estreita dos seus deveres parlamentares. Nota-se com espanto que os senhores deputados, ao entrar, não descalçam as suas botas! Ninguém explica esta reserva. O Sr. Barros e Cunha há dias tinha calor, e não se pôs em mangas de camisa! Via-se bem antes de ontem que o Sr. Arrobas estava apertado no seu colete, e no entanto não se desabotoou! Estranhas abstenções! Porque se coíbem, Santo Deus! Porque se impõem a inexplicável privação de não beberem cerveja na sala? Que significa esta falsa compreensão das regalias constitucionais?


Porque não tiram, para maior comodidade de suas pessoas, a consequência lógica do seu procedimento? Se se desprenderam de todo o respeito, porque não se desembaraçam das suas gravatas? Se se atribuíram o direito de dizer injúrias, porque não se dão o direito de trazer chinelas? Porque conservam uma certa postura de toilette – se têm desabotoado tanto a dignidade? Vamos, meus belos cavalheiros da injúria franca! Um último passo! Já aniquilaram o decoro, ponham de lado a polidez. Nem mesmo se prendam com o asseio! Tirem os botins, e atirem por cima das carteiras, à face do País, essas peúgas de alvura duvidosa! Desapertem esses coletes, e que a Pátria veja nas pregas das camisas o suor dos seus eleitos! Venha cerveja! Saltem as primeiras rolhas! Caiam as últimas injúrias! Ferva a intriga e espumem os bocks! Ao tilintar dos copos misture-se o embate dos insultos! – É falso, mente! Mais cerveja! Isso é uma bestialidade, fora! Cigarros! Rompam as disputas de café em atitudes de taberna! Ninguém se coíba! Que o fumo do tabaco faça uma nuvem às votações – e as nódoas de vinho um comentário aos projectos de lei! E praguejem, e assobiem, e escarrem! E viva a troça! Hip! hip! Hip! Hurra! Salta um decilitro! Fora, patife! E lari-ló-lé, ló-lé! Para o pagode! Oh! legisladores! Oh! homens de Estado! Oh! Feira das Amoreiras!


Pois temos nós obrigação de respeitar a câmara, quando ela se não respeita? Pois ela vive nas assuadas indecorosas – e há-de exigir que nos curvemos como se ela vivesse nas ideias elevadas?


Porque vos havemos de respeitar, dizei? Pelo saber que não tendes? Pela dignidade que renegastes? Lêem-se os extractos de todas as câmaras do mundo, e em todas há seriedade e discussão inteligente; em todas se trabalha, se pensa, se organiza, se legisla. Entre nós vemos, durante um mês, arrastar-se uma discussão sobre personalidades de regedores; e o que se debate é se se fez ou se não fez a estrada da Covilhã, e se o Governo comprou ou não comprou exemplares de um Elogio do Sr. Ávila! E todas as questões úteis e altas desprezadas, e uma perpétua ventania de insultos trocados, e o abandono de toda a ideia, o ódio de todo o trabalho, o esquecimento de toda a decência! E no entanto a Espanha mede, polegada por polegada, a porção da nossa liberdade que se vai enterrando no lodo!...


Sois tão criminosos que nos fazeis perder o riso. E no entanto ele é a nossa vingança! E é indispensável que se mantenha sempre pronto, amargo, cruel, para que em nome da consciência ofendida vos vamos expondo, querendo Deus, trémulos e grotescos, ao escárnio da multidão.

Agosto 1871 ...




in “Uma Campanha Alegre” – Eça de Queirós




quarta-feira, 8 de julho de 2020

AUGUST STRINDBERG - A cada Virtude corresponde um Vício



AUGUST STRINDBERG
(Estocolmo, Suécia, 1849 - 1912)
Dramaturgo, pintor

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Escritor cuja obra, de carácter político e revolucionário, influenciou o teatro moderno, sendo um dos principais precursores da literatura expressionista. A sua infância difícil é descrita em O Filho da Criada, sendo o Quarto Vermelho o seu primeiro romance naturalista. A sua agitada vida conjugal originou o seu desequilíbrio nervoso e inspirou as suas novelas e narrativas autobiográficas. Foi autor de peças teatrais, como Pai, A Menina Júlia e outras de carácter histórico e naturalista.

in “Nova Enciclopédia Portuguesa”


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A CADA VIRTUDE CORRESPONDE UM VÍCIO

Habituo-me a só pensar bem dos meus amigos, a confiar-lhe os meus segredos e o meu dinheiro; não tarda que me traiam. Se me revolto contra uma perfídia sou eu, sempre, a sofrer o castigo. Esforço-me por amar os homens em geral; faço-me cego aos seus erros e deixo, indulgente ao máximo, passar infâmias e calúnias: uma bela manhã acordo cúmplice. 

Se me afasto de uma sociedade que considero má, bem depressa sou atacado pelos demónios da solidão; e procurando amigos melhores, acho os piores.
Mesmo depois de vencer as paixões más e chegar, pela abstinência, a uma certa tranquilidade de espírito, sinto uma auto-satisfação que me eleva acima do próximo; e temos à vista o pecado mortal, a vaidade imediatamente castigada.

Como explicar que toda a aprendizagem de virtude dê origem a um novo vício?



in “Inferno” 




MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...