segunda-feira, 17 de agosto de 2020

ANATOLE FRANCE - Escritor



ANATOLE FRANCE
(Paris, França, 1844 - 1924)
Escritor

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Em 1896, é eleito membro da Academia Francesa. 

Experimenta vários géneros literários – os seus contos, Jocaste e Le Chat Maigre, de 1897, são elogiados por Flaubert -, mas é no romance que a sua vocação de escritor mais se evidencia. O seu primeiro sucesso advém com Thaïs (1890), reevocação decadente do período clássico, adaptado a libreto da ópera homónima, composta por Massenet e hoje em dia parte integrante do repertório tradicional.

Escritor de refinada cultura e elegância de estilo, Anatole France esconde sob a veste de um irónico cepticismo um indulgente desencanto pela sociedade moderna.

Em 1924, é-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura pelo conjunto da sua obra.



in “A Revolta dos Anjos”(excerto)





domingo, 16 de agosto de 2020

LIMA DE FREITAS – VIEIRA DA SILVA e os seres dos espelhos (I)



LIMA DE FREITAS
(Setúbal, Portugal, 1927 — Lisboa, 1998)
Pintor, desenhador, escritor

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VIEIRA DA SILVA E OS SERES DOS ESPELHOS (I)


Doze anos mais tarde estas palavras espalhafatosas, a que uma guerra mundial conferira já uma horrível ressonância, eram lidas com assombro, avidez e inquietação por uma menina lisboeta de 14 anos, de boas famílias e requintada educação. O nome: MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA, filha do economista Marco Vieira da Silva e neta do fundador de «O Século». 

A ousadia blasfemaria do futurista impressionou-a profundamente; seria necessário, como eles proclamavam, incendiar o Louvre? Para a futura grande pintora, cuja presença nos maiores museus de arte moderna é, desde há muitos anos, um facto consumado, começou com essa leitura, segundo refere Jean Grenier (um dos estudiosos da sua obra), uma aguda meditação sobre a arte moderna e de todos os tempos. O que era válido na tradição artística do passado? Que valores mereceriam o olvido, que novos valores se anunciavam no horizonte?

(continua)



in ”Voz Visível” – Ensaios – 1971




sábado, 15 de agosto de 2020

RIBEIRO SANCHES - Médico, filósofo



RIBEIRO SANCHES
(Penamacor, Portugal, 1699 – Paris, França, 1783)
Médico, filósofo

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Foi um dos nossos mais célebres “estrangeirados”.

Em 1726, com apenas 27 anos – apreensivo com a actividade persecutória da Inquisição – abandona Portugal, iniciando um périplo por vários países da Europa – de onde não mais regressaria – que o leva sucessivamente a Itália – onde frequenta a Universidade de Pisa -, França, Holanda e Londres, onde permanece durante dois anos que aproveita para frequentar vários cursos dentro da área da Medicina, como Cirurgia, Química e Farmacologia, mas também de Física, Matemática e Ciências Naturais.

Chegado à Rússia em 1731, fica a exercer medicina em Moscovo. Parte da Rússia ao fim de dezasseis anos de permanência e de excelentes serviços prestados ao país, em virtude dos quais lhe são atribuídas diversas honras.

Estabelece-se entretanto em Paris, onde vive durante 35 anos, não sem antes de caminho passar por Berlim, onde é recebido pelo rei da Prússia, Frederico II, admirador, correspondente e amigo de Voltaire, simpatizante do movimento iluminista e autor de uma obra de análise e crítica ao maquiavelismo – Essai de Critique sur Maquiavel.

Escreveu ao longo destes 35 anos algumas das suas obras mais importantes, para além de inúmeros escritos que nunca foram editados, encontrando-se o seu espólio disperso por diversas bibliotecas europeias - desde as Bibliotecas Nacionais de Lisboa, Madrid e Viena até às Bibliotecas das Universidades de Leyde e à da Faculdade de Medicina de Paris.

A filosofia de Ribeiro Sanches integra-se plenamente no espírito iluminista da época, já que residindo em Paris e sendo colaborador da Enciclopédia de Diderot e D´Alembert, privou de muito perto com a maior parte dos filósofos e escritores que enformavam esse espírito, como o Buffon da História Natural; Montesquieu de O Espírito das Leis; o Voltaire do Tratado sobre a Tolerância ou do Ensaio sobre os Costumes e o Espírito das Nações.  
                                                                 



Fonte: “Filosofia II” (excertos)
Imagem: in “Município de Penamacor” 





sexta-feira, 14 de agosto de 2020

JOÃO DE BARROS - Historiador



JOÃO DE BARROS
(Viseu, Portugal, 1496 - Pombal, 1570)
Historiador

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Além de se dedicar à administração pública, João de Barros também interessou-se pelas letras. Muito influenciado pela filosofia humanista, escreveu várias obras em que destacou a importância da língua como factor de fixação da soberania imperial. 

Segundo ele, a língua não é apenas uma realidade instrumental, mas um elemento que representa a consciência nacional e fortalece o sentimento de comunidade, sendo um elemento fundamental do modo de ser português. 

Publicou, em 1540, a segunda gramática da língua portuguesa, intitulada Grammatica da Língua Portuguesa, sendo precedido, apenas, por Fernão de Oliveira. João de Barros sempre apresentou um interesse pela pedagogia e o ensino.

Escreveu também obras que exaltavam os feitos dos portugueses no mundo. A primeira, A Crónica do Imperador Clarimundo, publicada em 1522, exalta a história de Portugal. 

Em Décadas da Ásia, obra publicada em 4 volumes, sendo o primeiro de 1552, o autor narra as aventuras e as glórias do império português. 

É considerado um grande historiador devido à quantidade de informações sobre a história de Portugal que concentrou nos seus livros.

Morreu na mais completa miséria.




Fonte: “Instituto Camões” (excertos)




quinta-feira, 13 de agosto de 2020

RENATA PALLOTTINI - Cerejas, meu amor



RENATA PALLOTTINI
(São Paulo, Brasil, 1931)
Poetisa, dramaturga

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CEREJAS, MEU AMOR

Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...





quarta-feira, 12 de agosto de 2020

BEATRIZ MILHAZES - Pintora



BEATRIZ MILHAZES
(Rio de Janeiro, Brasil, 1960)
Pintora

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Sua obra se caracteriza pelo uso da ornamentação, constituída, sobretudo, por arabescos e motivos ornamentais.

Além da pintura, dedica-se também à gravura e à ilustração. Suas obras da década de 1980 revelam uma tensão entre figura e fundo, entre representação e ornamentalismo. Posteriormente, faz opção por uma pintura de carácter decididamente bidimensional.

Participa nas exposições que caracterizam a Geração 80 – grupo de artistas que buscam retomar a pintura em contraposição à vertente conceitual dos anos de 1970, e tem por característica a pesquisa de novas técnicas e materiais.

A sua obra faz referências ao barroco, à obra de Tarsila do Amaral (1886-1973) e Burle Marx (1909-1994), a padrões ornamentais e à art déco.

Trabalha frequentemente com formas circulares, sugerindo deslocamentos ora concêntricos ora expansivos. Na maioria dos trabalhos, prepara imagens sobre plástico transparente, que são descoladas, como películas, e aplicadas na tela por decalque. Aglomera as imagens, preenchendo o fundo e retocando a imagem final. Os motivos e as cores são transportados para a tela por meio de colagens sucessivas, realizadas com precisão.



Fonte: “Enciclopédia Itaú Cultural” (excertos)






segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O TÚMULO MAIS BELO DO MUNDO




O TÚMULO MAIS BELO DO MUNDO


Na Rússia, nada vi de mais majestoso e mais comovedor do que o túmulo de TOLSTOI.

Solitário, distante, todo encastoado na floresta, assim contemplamos o famoso local de peregrinação e respeito para as raças futuras.

Conduz a esta colina um estreito atalho, como que traçado ao acaso através de clareiras e terreno arborizado – e a colina não passa de um pequeno montículo de terra, por ninguém vigiado, por ninguém guardado, à sombra de algumas grandes árvores. E estas árvores tão altas, docemente embaladas pelo vento da Primavera, foi Tolstoi quem as plantou, segundo me diz a sua neta.

Quando rapazes, ele e o irmão Nicolau tinham ouvido contar à ama ou a qualquer mulher da aldeia, a velha lenda de que era lugar de felicidade aquele onde se plantavam árvores. Por brincadeira, plantaram alguns rebentos na quinta que lhes pertencia e em breve esqueceram o passatempo de crianças.

Só mais tarde se lembrou Tolstoi desta ocorrência e do estranho convite à felicidade, a que o homem, cansado da vida, deu um significado novo, mais belo. E manifestou, imediatamente, o desejo de ser enterrado debaixo dessas árvores que plantara. Assim aconteceu, de acordo com a vontade de Tolstoi, e é o túmulo mais belo, mais expressivo, mais impressionante do Mundo.

Dentro da floresta, uma pequena elevação rectangular, coberta de flores; nem uma pedra tumular, nem uma coroa, nem sequer o nome de Tolstoi.

O grande homem repousa, sem uma inscrição, como se fora vagabundo, encontrado por acaso, ou soldado desconhecido, esse que tanto sofreu debaixo do preço da glória, acarretada pelo seu nome.

A ninguém é recusado aproximar-se do último asilo onde descansa; não está fechada a ligeira vedação em volta – de guarda ao túmulo de Tostoi só o respeito dos homens que habitualmente, por curiosidade, vêm perturbar os túmulos dos grandes. Aqui, porém, a estranha simplicidade impede todo o desejo de exibição e proíbe toda a palavra, dita em voz alta.

Nas árvores perpassa o vento sobre o túmulo do homem sem nome e o Sol ardente nele vem pousar; no Inverno, a neve branca cobre a terra escura; e, de Inverno e de Verão, poderíamos passar, sem uma indicação que nos aponte que este pequeno rectângulo de terra recebeu em si um dos homens mais poderosos do nosso tempo.

Mas é precisamente este anonimato que nos impressiona com mais profunda emoção do que todo o mármore, toda a pompa imaginável entre as centenas de criaturas que este dia excepcional hoje levou ao seu túmulo, ninguém teve coragem para arrancar uma só flor de sobre o escuro montículo e levá-la como lembrança.
Nada neste Mundo actua com a força monumental, exercida pelo extremo da simplicidade.

A cripta de Napoleão, debaixo da arcaria marmória dos Inválidos, o túmulo de Goëthe, em Weimar, no panteão principesco, o sarcófago de Shakespeare, na Abadia de Westminster, não conseguem comover fortemente a parte mais humana em cada criatura, como este túmulo maravilhoso, tão emocionante no seu silêncio, este túmulo sem nome, perdido na floresta acariciada pelo vento, este túmulo sem mensagem, sem palavras escritas!     





in “Impressões e Ideias”- Stefan Zweig








MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...