sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Chaves na mão, melena desgrenhada

 


Chaves na mão, melena desgrenhada

 Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé no chão, a mãe ordena
Que o furtado colchão fofo e de pena
A filha o ponha ali, ou a criada.
 
A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co'a doce voz que o ar serena:
"Sumiu-se-lhe um colchão?! é forte pena;
 Olhe não fique a casa arruinada.
 
"Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
  Já cuidas que por ter pai embarcado,
  á a mãe não tem mãos?" E, dizendo isto,
 
Arremete-lhe à cara e ao penteado;
  Eis senão quando (caso nunca visto!)
   Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.
 
 
Nicolau Tolentino - (Poeta português)


 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Fialho de Almeida

 
 

Fialho de Almeida (1857-1911) nasceu em Vila de Frades, Alentejo, Portugal.

 Foi escritor, cronista, jornalista, contista, crítico literário e teatral.

Em 1880, fundou e dirigiu a revista “A Crónica”, além de ter colaborado em outras diversas publicações.

Em 1881, editou os textos que foi escrevendo durante quatro anos,
sob o título genérico “Contos”.

Algumas das suas obras : “Pasquinadas”; “Os Gatos” (6 volumes); “Lisboa Galante”; “A Cidade do Vício”; “O Pai das Uvas”.
 
A sua posição crítica, não alinhada com os poderes institucionais, atraiu, ao longo da sua vida, múltiplas hostilidades e inimizades.

Rafael Bordalo Pinheiro pintou o seu retrato que está exposto no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado.


 
Palavras de Fialho de Almeida:

"Instruir, salubrizar, enriquecer... Nenhuma obra de governo forte pode assentar sobre aquisições que não sejam as derivadas próximas destes postulados máximos e extremos."
 
 
Excerto do texto “Os Jornalistas”:
"Compreende-se o jornalismo em França ou na Inglaterra, onde quase tudo o que há de instruído, de liberal, de inteligente, nos três quartos da nação, existe ali (…)
Da imprensa deriva toda a espécie de incentivo e de energia fecunda e transformável, que depois vai propulsar em todos os distritos gerais da actividade, moral e ciência, indústria e arte, política e religião. (...)
Falem-me agora da acção da imprensa em Portugal, nos últimos anos. Quanto aos jornalistas, dêem-me seis que tenham passado a vida a defender os interesses do povo, sem fazer da redacção elevador para uma aposentadoria; dêem-me quatro aonde eu escolha um grande homem de letras, ou simplesmente um grande homem de espírito."

Fialho de Almeida, in “Pasquinadas”.

 
 


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Cancioneiro Popular – (VI)

 
 

 
            O Frade
(Versão da Beira-Baixa)

 

Triste vida é a de um frade,
É peor que a de uma freira;
Andar de noite à carreira,
E penitencia.

É preciso paciencia
Com o nosso noviciado;
Estar um anno encerrado,
Eu não sabia.

Eu disse que não queria
Ser frade n´este convento,
Para meu maior tormento
Experimentei.

Eu à força professei,
Por meu pae assim querer;
Ser defunto sem morrer
Amortalhado!

Num fogo vivo abrazado
Com este meu cruel vestido;
Quando me vejo despido
Estou contente..

Quando me vejo doente
Requeiro a enfermaria,
Então tenho alegria
Pelo descanço.

Se alguma licença alcanço
Meu pae me vem visitar,
Com os frades vae passear
E eu também vou.

De noite às portas da cella
O sino ouço tocar,
Ai de mim, que para o côro
Vou resar.

 

Esta canção está incluída no “Cancioneiro Popular” de 1867, coligida por Teófilo Braga.

 

 
 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Maria Braga Horta

 
 

 
Maria Braga Horta (1913-1980) nasceu na Fazenda Boa Esperança, do Arraial de Bom Jesus da Cachoeira Alegre, Minas Gerais, Brasil.

Começou a escrever versos com 12 anos de idade.

Em 1996, publicou o livro de poesia, “Caminho das Estrelas”.  
 
Participou em diversas antologias poéticas.

Ganhou vários prémios, entre os quais, o 1º lugar no “Primeiro Concurso de Poesia da Fundação de Assistência aos Garimpeiros”, atribuído em 1971, na cidade de Brasília.
Os sonetos exprimem o ponto alto da sua poesia.
 

Palavras de Maria Braga Horta: 
“Faço versos assim como amor faz ciúme, a árvore faz sombra e dá frutos e flor, como a flor desabrocha irradiando perfume, como a nuvem dá chuva e o sol produz calor. Faço versos porque só meu verso resume os meus sonhos de glória e os meus sonhos de amor e neles me reflito e em seu frágil volume condenso as vibrações.”

 

                            
                                Lirismo

 

Fale um outro poeta mais austero

de temas, em geral, de alto horizonte,

ou imite Camões, Virgílio, Homero,

buscando a inspiração em nobre fonte.

 

Que eu não tento transpor tão longa ponte

e penetrar num mundo tão severo.

Como Kháyyám, Gonzaga e Anacreonte,

só canto o amor, só dele a glória espero.

 

"Ser poeta é ser triste." Esta legenda

vem na fronte do poeta e é como prenda

que lhe fazem as musas no batismo.

 

Desse prêmio, porém, não tive a parte,

e me faltando enredo, engenho e arte,

falo de amor no mais banal lirismo.

   

Maria Braga Horta

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Prémio Camões - 1996

 

Eduardo Lourenço nasceu em 1923.
Foi galardoado com o Prémio Camões, em 1996. Recebeu-o no Rio Janeiro, em Abril do mesmo ano.
Professor universitário, filósofo e ensaísta, é uma das personalidades mais destacadas da cultura portuguesa contemporânea.

 

“O povo brasileiro é um povo cheio de humor. Não é culpa dele se é um povo demasiado grande para a memória que tem, como nós somos um povo pequeno de mais para a memória imensa que ao longo dos séculos refluiu para o nosso coração e nos sufoca.”
Eduardo Lourenço


Excerto do livro “Tempo e Poesia” :

“A poesia é expressão de origens. Solicitado pela noite animal e a plenitude solar, um poeta talhou na rocha uma forma visível da sua condição. Compreender a Esfinge, compreender a poesia é olhá-la sem a tentação de lhe perguntar nada. E aceitar o núcleo de silêncio donde todas as formas se destacam. A obra vale pela densidade de silêncio que nos impõe. Por isso os poetas que imaginam dizer tudo são tão vãos como as estátuas gesticulantes.

 Agora é fácil compreender como pôde nascer o mistério da esfinge. O enigma da poesia. Ele existe para homens incapazes de acolher esse silêncio original. Gente que não compreende, enquanto não substitui a irredutível figura de uma obra, a ímpar forma de um poema, por uma palavra, por um discurso.

 Só o criador sabe que no lugar de uma forma não havia outra forma e que o dicionário é impotente para os filólogos quanto mais para os poetas.

 Mas há os outros, os arqueólogos do coração e da inteligência, “outros” que podem ser os próprios poetas quando deixam de estar vigilantes. Assim aconteceu ao criador da Esfinge (daquilo a que os “outros” chamariam Esfinge).”

 
Eduardo Lourenço, in “Tempo e Poesia”

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Rogério do Carmo

 

 
Rogério do Carmo nasceu em Sobreiro, Mafra, no dia 2 de Fevereiro de 1935.
Poeta, escritor, declamador, pintor, desenhador, caricaturista e radialista, viajou pelo mundo, energicamente, à procura de trabalho e do prazer de viver.    
Com quatro anos de idade pintava pratos na famosa Olaria de José Franco, em Mafra.
Oito anos depois, começou a publicar os seus poemas, no jornal da região.
Aos 14 anos fez o retrato do Rei D. João V,  património do Estado, que pode ser visto no Museu Regional de Mafra.
Estudou teatro com Berta de Bivar, grande actriz do Teatro D. Maria II.
Viveu cerca de dois anos em Israel, onde aprendeu a falar e escrever hebraico.
Foi o principal dinamizador da Rádio Alfa, que iniciou as suas emissões regulares a partir da sua residência, em Paris, no dia 5 de Outubro de 1987.
Publicou o primeiro livro de poemas em França, intitulado “Sombras”.
Em 1976 recebeu uma medalha do jornal “Artes e Letras” e, em 1991, foi galardoado com “Prémio Internacional de Poesia Florbela Espanca”.
Está a escrever as suas memórias, que publicará com o título “Tudo em Pratos Limpos”.
 
 



 
Palavras de Rogério do Carmo:

Francisco, é um dos meus nomes, e admiro a sua humanidade!”
“Somos o que somos, não o que gostaríamos de ter sido!”
A Poesia é o que nos vai na alma, e que tem de tombar sobre o papel!”


 
 
Contradição

 

Quando eu morrer
Não falem de mim
  Não quero ser falado!
  Apenas meu corpo
   Feito cinzas calcinado
   Na imensidade do deserto
    Meu túmulo sempre aberto
    Prodigamente dispersado!

   E o vento me soprará
     E a espuma do mar escreverá
     Na areia molhada que pisei:
     -Tudo o que tive! Um dia fora meu!-

  “Aqui jaz alguém que muito amou
  Alguém que o mundo já deixou
   Alguém que o mundo já esqueceu
      E que um dia o mundo lembrará! ”

Rogério do Carmo

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Alberto Girri

 
 

 
Alberto Girri  (1919-1991) nasceu em Buenos Aires, Argentina.

 
Foi  poeta, tradutor e professor do ensino secundário.

Fez parte da geração dos anos 40.

Em 1946, publicou o seu primeiro livro intitulado “ Playa Sola”.

Colaborou no quinzenário “Correio Literário”, no suplemento literário de “La Nacion” e na revista “Sur”.

Escreveu mais de trinta livros de poesía e diversos livros de prosa.

Algumas das suas obras:Coronación de la espera”;Poesía de Observación”; “Poemas Elegidos”; “Quien habla no está muerto”; “Los Valores Diários”.

Traduziu poetas ingleses e americanos, tais como T.S. Eliot, Robert Frost , Wallace Stevens.

Recebeu inúmeros prémios, entre eles: “Primeiro Prémio Municipal de Poesia”, “Primeiro Prémio Nacional de Poesia”, “Faixa de Honra da Sociedade Argentina de Escritores”.

 

 Palavras de Alberto Girri:
 
Eu acho que uma coisa é o que o poeta pensa, ou julga pensar, e outra é o que o poema pensa.  Criado pelo poeta, o seu poema é um facto e um objeto novo, original e autónomo,  com seu próprio pensamento. Obviamente, nem é necessário compartilhar as ideias de um poema para que nos pareça  bom,  nem devemos culpar o autor pelas ideias  contidas no poema.”
 
 

 

O Desesperado

 

Deixem-no gritar
com seu penetrante odor
de pródigo rondando como um abutre
pelos pecados da omissão.

Deixemos,
que a conformidade oculta
é artigo de sua vigília
fixa no amor.

                 Que a paz, peste de paz,
                 estímulo de negócios
                 para que agonizemos na cama
                 e de sua permanência ninguém se arrependa,
                 é seu intolerável fuste.

Que o nosso gemido,
                 vicioso presente anquilosando
                 o resplendor do que somos,
                 impede reconhecer-nos
                 à imagem e semelhança.

Que o fundo de sua dívida
                 é núpcias com a imundície,
                 onde o vinho fino, a gota de água,
                 a rosa inchada de azeite,
                 uma herança, descem a chorar.

Que a caridade que obedecemos,
                 perjura resposta
                 á sua única, devoradora solidão,
                 desconfia das obras.

Deixem-no gritar, deixemos,
                 devotos pobremente sensíveis
                 da Segunda Pessoa
                 que por ele abrasa.

 
Alberto Girri
Tradução: António Miranda

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...