quarta-feira, 14 de maio de 2014

Fernanda Botelho

 

Fernanda Botelho (1926-2007) nasceu no Porto, Portugal.

Foi escritora, poetisa e tradutora.

Foi uma das fundadoras da revista literária “Távola Redonda”. Nela publicou seis poemas, que marcaram o início da sua carreira literária.

Colaborou em revistas literárias, tais como: “Graal”; “Europa”; “Tempo Presente”  e “Panorama”.

Algumas das suas obras: “ As Coordenadas Líricas”; “O Ângulo Raso”; Calendário Privado”; “A Gata e a Fábula”; “Lourenço, é Nome de Jogral”; “Dramaticamente Vestida de Negro”; “Esta Noite Sonhei com Brueghel”; “Festa em Casa de Flores”; “Os Gritos da Minha Dança”.

Foi agraciada com os seguintes prémios literários: “Prémio Camilo Castelo Branco”; “Prémio Nacional de Novelística”; “Prémio da Crítica“; “Prémio Eça de Queirós” e o “Prémio Pen Clube Português de Ficção”.

Recebeu uma medalha da Direcção Geral das Relações Culturais de Itália, pela tradução de “O Inferno “, de Dante.

Foi distinguida com o grau de “Grande Oficial da Ordem do Mérito”.

Na Bélgica, foi galardoada com a “Ordem de Leopoldo I”.

 
 
Palavras de Fernanda Botelho:

Nem na morte vou perder o meu sentido de humor nem a minha ironia".

 

        As Coordenadas Líricas



Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu

A geométrica forma de meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
— as minhas coordenadas.



Fernanda Botelho, in "Coordenadas Líricas"

 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Aparição

 
 
 
 
 
  Aparição
 
 
Um dia, meu amor (e talvez cedo,
Que já sinto estalar-me o coração!)
Recordarás com dor e compaixão
As ternas juras que te fiz a medo...
Então, da casta alcova no segredo,
Da lamparina ao trémulo clarão,
Ante ti surgirei, espectro vão,
Larva fugida ao sepulcral degredo...
E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos
E aflitos ais, estenderás os braços
Tentando segurar-te aos meus vestidos...
- “Ouve! espera!” - Mas eu, sem te escutar,
 Fugirei, como um sonho, aos teus abraços
 E como fumo sumir-me-ei no ar!
 

Antero de Quental, in "Sonetos"

Ilustração: pintura de Joseph Mallord William Turner, pintor inglês

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sava Dobroplodni

 

 
Sava Dobroplodni (1820-1894), nasceu em Sliven, Bulgária.

Escritor, dramaturgo, tradutor e encenador teatral, foi um dos mais brilhantes professores do período da Renascença da história búlgara.

Formou-se na Faculdade Ortodoxa Grega “Phanar”, em Istambul.

Como educador, escreveu, além de muitos livros, o “Manual de Redacção”, que foi publicado em 1853. Foi um dos primeiros manuais búlgaros, que proporcionava o ensino de metáforas, sinónimos, alegoria e regras para escrever.

Trabalhou como professor em diversas escolas secundárias na Bulgária.

Fundou e reformou escolas e bibliotecas.

 O último livro que publicou, em 1893, foi “Uma Pequena Autobiografia”.

 O seu trabalho foi reconhecido universalmente.

 Em 1889, o príncipe Ferdinand homenageou-o com uma medalha de prata.

 Foi membro honorário da “Sociedade Búlgara de Literatura”

 

Palavras de Sava Dobroplodni:

“Eu como professor tenho que ser um exemplo a seguir para  meus alunos e para os cidadãos.”

 

 

domingo, 11 de maio de 2014

Sobre a pintura de um ramo florido

 
 
 

Sobre a pintura de um ramo florido
"Primavera Precoce", de Wang

 
Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?

Quem o disse vê com olhos de não entendimento

Quem disse que o poema deve ter um tema?

Quem o disse perde a poesia do poema

Pintura e poesia têm o mesmo fim:

Frescura límpida, arte para além da arte

Os pardais de Bain Lun piam no papel

As flores de Zhao Chang palpitam

Porém o que são ao lado destes rolos

Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?

Quem teria pensado que um pontinho vermelho

Provocaria o desabrochar da primavera?

 

Su Dongpo: poeta chinês (1035-1101)

Ilustração: pintura de Salvador Dali

sábado, 10 de maio de 2014

Walt Whitman

 
 

Walt Whitman (1819-1892) nasceu em West Hills, Nova Iorque.

Poeta, jornalista, ensaísta, professor, considerado um dos mais influentes poetas da América, identificado com os ideais democráticos da Revolução Americana.

Em 1855, publicou a primeira edição da sua obra-prima “Leaves of Grass”, um marco da literatura americana, onde, em longos versos livres, usando as expressões mais espontâneas da linguagem popular, celebrou a sensualidade dionísica e a liberdade.

O primeiro dos doze poemas publicados nessa edição, começa com a frase “I celebrate myself”.

Whitman foi o precursor do que se tornou mais tarde uma tendência, trazer à poesia o não poético.

As suas reflexões em torno do comum, levou-o a valorizar o amor como bem supremo espiritual, independente de sexo, capaz de amar indistintamente.

Foi interessado em frenologia, pseudociência que estuda a estrutura do crânio, determinando o carácter e a capacidade mental das pessoas.

Em 1849, Whitman decidiu cartografar a sua cabeça. O relatório foi altamente favorável, tendo-lhe dado ânimo para ultrapassar os momentos pouco felizes que então vivia. Em 1856, ele reproduziu o gráfico do seu crânio numa edição de “Leaves of Grass”.

Fernando Pessoa, em homenagem ao poeta, escreveu o poema “Saudaçao a Walt Whitman”.

 

Palavras de Walt Whitman:

"Se há alguma coisa sagrada é o corpo humano."

 

             Pensamentos

 

Da propriedade — como se alguém
apto a possuir coisas não pudesse
entrar na posse delas à vontade
e incorporá-las, a ele ou a ela;
da vista — pressupõe um olhar para trás,
atravessando o caos em formação

a imaginar a evolução, a plenitude, a vida
a que se chega na jornada agora
(eu porém vejo a estrada continuando,
e a jornada sempre a continuar);

do que uma vez faltava sobre a terra
e que a seu tempo foi propiciado
— e do que ainda está por ser propiciado,
pois tudo o que eu vejo e sei
creio ter seu sentido mais profundo
no que ainda está por ser propiciado.


Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

 

 

 

 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Sabíamos do mar sem o sabermos

 
 
 

 
Sabíamos do mar sem o sabermos

 

Sabíamos do mar sem o sabermos,
do mar dos mapas, da cor azul do mar,
dos naufrágios no mar,
do sol solto no mar.


Sabíamos do mar sem o sentirmos
nos poros dilatados pelo mar,
o verdejante mar escalando as montanhas
tão bruscas como o sal.


Sabíamos do mar em sinuosos sinos
assinalando a noite
com corações arrepiados,
abertos como mãos
sulcadas de cabelos e molhadas
de rugas e escamas.


Sabíamos do mar em signos, símbolos,
tropos e metáforas.
Sabíamos do mar?
Sabíamos o mar.
Sabíamos a mar

 

António Rebordão Navarro, poeta português, in “Poemas”.

Ilustração: quadro de William Turner (1775-1851), pintor do romantismo inglês.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Prémio Camões - 1999

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) nasceu no Porto, Portugal.
Dramaturga, ensaísta e tradutora foi uma das mais importantes poetisas portuguesas.

Em 1999, foi galardoada com o “Prémio Camões”. Recebeu-o em Salvador, no Brasil.

 

Palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen:

“Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso.”



                           Aqui
 
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'
Ilustração: caricatura de autoria do pintor e ilustrador português Carlos Botelho.





MALMEQUER

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