domingo, 7 de agosto de 2016

É ASSIM MESMO





É ASSIM MESMO


Uma história americana do século XX apresenta um camponês paupérrimo que todos os dias vai trabalhar para o campo, com a sua vaca. É um homem honesto, que labuta para alimentar a mulher e a família.

Um dia o céu abre-se, desencadeia-se uma tempestade e um raio mata a sua única vaca.

- Mas porquê eu? – brada o camponês dirigindo-se a Deus. – Que te fiz eu? Porque me atingiste? Não serei já suficientemente infeliz?
Deus nada lhe responde.

Passaram meses, anos. O camponês, cada vez mais pobre, vai trabalhar sozinho, com as suas mãos fatigadas. A sua mulher, de vez em quando, vai ajudá-lo. Leva-lhe um magro alimento. 
Outra tempestade revolve o céu, o raio fura as nuvens e mata-lhe a mulher.

O camponês torce as mãos de desespero e grita, de olhos no céu:

- Mas porquê? Que mais te fiz eu? Sou muito pobre e muito pio! Porque me mataste a mulher? Responde! Que te fiz eu?

Então as nuvens escuras entreabrem-se, surge uma imensa luz e a voz de Deus diz:

- Tu não me fizeste nada. Mas de vez em quando, enervas-me.





in, “Tertúlia de Mentirosos” de Jean-Claude Carrière.



sábado, 6 de agosto de 2016

ÁLVARO FEIJÓ - Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste






Álvaro Feijó (Viana do Castelo, Portugal, 1916 – Coimbra, Portugal, 1941).


Pertenceu à geração do Novo Cancioneiro que, ao acolher o seu espólio, dando a público a sua produção literária, num livro intitulado, Os Poemas de Álvaro Feijó (1961), revelou para as letras um poeta de combatividade linear e límpida que começava a despertar com invulgar resplendor. 

Era sobrinho-neto do poeta António Feijó, que imitou, inicialmente, no seu parnasianismo. Mas que mais tarde abandonou às inquietações do Neo-Realismo, debruçando-se sobre os contrastes chocantes duma sociedade formada por classes muito pobres e classes muito ricas.



in, “Dicionário Literatura Portuguesa”




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OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE


I

Quando eu morrer — e hei-de morrer primeiro
Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos
Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
E ver-te-ás de corpo inteiro.

Como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
Dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
Fecha-me os olhos com um beijo.

(Eu, Marco Póli)

Farei a nebulosa travessia
E o rastro da minha barca
Segui-los-á em pensamento. Abarca

Nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus,



II


Não um adeus distante
Ou um adeus de quem não torna cá,
Nem espera tornar. Um adeus de até já,
Como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei de voltar
De novo para ti, no mesmo barco
Sem remos e sem velas, pelo charco
Azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

Assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
To peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?










sexta-feira, 5 de agosto de 2016

PICASSO – Não há arte abstracta




                          
                    PICASSO – Não há arte abstracta


«Não há arte abstracta. Tem de se começar sempre por alguma coisa. Depois, pode tirar-se toda a aparência de realidade; já não há perigo, porque a ideia do objecto deixou uma marca indelével. Foi ele que provocou o artista, que excitou as suas ideias, pôs em movimento as suas emoções. Ideias e emoções serão definitivamente prisioneiras da sua obra; façam o que fizerem, já não poderão fugir ao quadro; tornaram-se parte integrante dele, mesmo quando não seja possível distinguir a sua presença. 

Queira ou não queira, o homem é um instrumento da natureza; esta impõe-lhe o seu carácter, a sua aparência. Nos meus quadros de Dinard, como nos meus quadros de Pourville, exprimi mais ou menos a mesma visão. Mas o senhor notou como é diferente a atmosfera dos quadros feitos na Bretanha e na Normandia, pois reconheceu a luz das falésias de Dieppe. Essa luz, não a copiei, não lhe prestei atenção especial. Fui simplesmente banhado por ela; os meus olhos tinham-na visto e o meu subconsciente registou a visão deles; a minha mão fixou as minhas sensações. Não se pode contrariar a natureza. Ela é mais forte do que o mais forte dos homens! Todos temos interesse em estar de bem com ela. Podemos permitir-nos algumas liberdades – mas apenas no pormenor.

Tampouco existe arte figurativa e não figurativa. Todas as coisas nos aparecem sob a forma de figuras Mesmo em metafísica, as ideias são expressas por figuras, e veja assim como seria absurdo pensar na pintura sem as imagens das figuras. Uma personagem, um objecto, um círculo, são figuras, que têm uma acção mais ou menos intensa sobre nós. Umas estão mais próximas das nossas sensações, produzem emoções que tocam as nossas faculdades afectivas; outras dirigem-se mais particularmente ao intelecto. É necessário aceitá-las todas, porque o meu espírito não tem menos necessidade de emoção do que os meus sentidos. 

Pensa que me interessa que este quadro represente duas personagens? Estas duas personagens existiram, mas já não existem. A sua visão deu-me uma emoção inicial, pouco a pouco a sua presença real foi-se esfumando, tornaram-se para mim uma ficção e depois desapareceram, ou melhor, foram transformados em problemas de toda a espécie. Já não são para mim duas personagens, mas formas e cores; entendamo-nos, porém: formas e cores que resumem, contudo, a ideia das duas personagens, e conservam a vibração da sua vida.

Comporto-me com a minha pintura tal qual como perante as coisas. Faço uma janela exactamente como olho através duma janela. Se esta janela aberta não fica bem no meu quarto, corro um cortinado e fecho-a. É preciso agir tal qual como na vida, directamente. Bem entendido, a pintura tem as suas convenções, que é necessário ter em conta, pois que não é possível fazer de outro modo. E por isso é preciso ter constantemente diante dos olhos a presença da vida.

O artista é um receptáculo de emoções vindas seja donde for: do céu, da terra, de um pedaço e papel, de uma figura que passa, de uma teia de aranha. Por isso é que não se deve distinguir entre as coisas. Para ela não há cartas de nobreza.

Toda a gente quer compreender a pintura. Porque não tentam compreender o canto dos pássaros? Porque é que se gosta de uma noite, de uma flor, de tudo o que rodeia o homem, sem se tentar compreendê-lo? Mas quando se trata de pintura, querem compreender. Que sobretudo compreendam que o artista cria por necessidade; que ele é também um ínfimo elemento do mundo, ao qual não se deveria atribuir mais importância do que a tantas coisas da natureza que nos encantam, mas para que não pedimos explicação. Aqueles que procuram explicar um quadro seguem quase sempre o caminho errado. Gertrude Stein anunciou-me, toda contente, há tempos, ter compreendido por fim o que representava o meu quadro «Três músicos»: Era uma natureza morta.»



(Fragmentos de conversação, recolhidos por Christian Zervos, e publicados no volume “Picasso – 1930-35” (Cahiers d´Art, Paris).



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Imagem: Auto-retrato de Pablo Picasso, feito em 1907. Foi a pintura que anteviu o movimento cubista.



quinta-feira, 4 de agosto de 2016

ANTONIO BOTTO – Canção dedicada a Greta Garbo






Canção dedicada a Greta Garbo


Quem é que bate na Garbo?
- Quem é que pode tocar-lhe,
Literàriamente, é claro;
De outro modo,
Seria um crime,
Uma coisa –
Francamente lamentável.
Se bem que a mulher, às vezes,
Anda nervosa, anda instável,
E adora ser sacudida…

Mas a Garbo – esse mistério,
Tem a calma doentia
Da magnólia combalida.

Não é fácil entendê-la:
E eu que pretendo beijá-la,
Jamais pensei como e quando
E aonde é que eu hei-de vê-la.




Imagem: retrato de António Botto, pintura a óleo sobre tela, cuja autoria é atribuída a Abel Manta ´pai´, contemporâneo do poeta.


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

GARCIA DE ORTA – Médico e Cientista






Garcia de Orta (Castelo de Vide, Portugal, 1501 – Goa, Índia, 1568).

Os seus pais, Fernando Isaac de Orta e Leonor Gomes, eram judeus, tendo sido expulsos de Espanha em 1492 pelos Reis Católicos.
Estudou em Espanha, nomeadamente em Salamanca e Alcaná de Henares. Tirou o Bacharelato em Artes e licenciou-se em Medicina e Filosofia Natural. Foi durante o seu percurso universitário que surgiu o interesse pelo estudo de plantas medicinais.

Por volta de 1523, regressa a Portugal para exercer medicina na cidade onde nasceu tornando-se, mais tarde, médico de D. João III, em Lisboa. Aí conhece o ilustre matemático (e também cristão novo) Pedro Nunes.

Concorre três vezes ao lugar de professor na Universidade de Lisboa, sendo-lhe atribuído o cargo de Professor de Filosofia Natural, em 1530. Respeitado pelos alunos e com uma grande paixão pelo conhecimento, Garcia da Orta salienta a importância da observação e dos sentidos para a realização de novas descobertas.

Apesar de ter sido eleito deputado do Conselho Universitário, a 12 de Março de 1534, procurando e não encontrando um lugar onde houvesse espaço para a experimentação, de forma a poder satisfazer a sua mente curiosa, decide então partir para a Índia. 

Embarcou como médico pessoal de Martim Afonso de Sousa, um amigo que fora nomeado vice-rei da Índia. 
Em Goa, familiariza-se com a literatura médica da Índia e com a grande variedade de plantas, animais e resinas utilizadas para tratar doentes. 
É, também, nesta cidade que estabelece amizade com o ainda desconhecido Luís de Camões, que lhe dedicou alguns poemas. 

Posteriormente, como recompensa dos seus serviços, o vice-rei entrega-lhe o foro de Bombaim. Mandou, então, construir um jardim botânico.

Em Abril de 1563, publica a sua notável obra Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia incidindo esta no estudo de espécies de plantas da Índia e as suas aplicações na Medicina. 

Nesta obra, constituída por 58 Colóquios, Garcia de Orta estabelece um diálogo com Ruano, amigo imaginário ao qual expõe as suas investigações. Para além do seu enorme valor científico, o livro conta, ainda, com a primeira poesia impressa de Luís de Camões. 

É de salientar que foi o primeiro registo científico de plantas do Oriente feito por um europeu. Foi traduzido para várias línguas, sendo a versão mais conhecida um resumo em latim da autoria de Charles L’Eccluse.

Em 1568, em Goa, morre de sífilis e embora nunca tenha tido directamente problemas com a Inquisição, a 4 de Dezembro de 1580 os seus ossos foram desenterrados e queimados em auto de fé juntamente com exemplares do seu livro. 

Actualmente podemos encontrar um hospital em Almada com o seu nome e também uma Escola Secundária no Porto.



in “Dicionário de Médicos Portugueses”



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Excerto do poema Aquele único exemplo, Ode VIII, de Luís de Camões ao Conde de Redondo, Vice-Rei da Índia. Este foi o primeiro poema impresso de Camões.Está incluído no livro de Garcia de Orta, Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da India.



Aquele único exemplo

Aquele único exemplo
de fortaleza heróica e de ousadia,
que mereceu, no templo
da eternidade, ter perpétuo dia
o grão filho de Thétis, que dez anos
flagelo foi dos míseros Troianos;
não menos ensinado
foi nas ervas e médica notícia
que destro e costumado
no soberbo exercício da milícia:
assi qu’as mãos que a tantos morte deram,
também a muitos vida dar puderam.
(...)
O fruto daquella Orta onde florecem
Prantas novas, que os doutos não conhecem.
Olhai que em vossos annos
Produze huma Orta insigne varias ervas
Nos campos lusitanos,
As quaes, aquellas doutas protervas
Medea e Circe nunca conheceram,
Posto que as leis da Magica excederam






terça-feira, 2 de agosto de 2016

ELIS REGINA – Poema





Elis Regina (Porto Alegre, Brasil, 1945 – São Paulo, 1982).

Em 1958, gravou o primeiro disco em 78 rotações, com as canções Da Sorte e Sonhando.
Em 1965, venceu o primeiro Festival de Música Popular Brasileira, interpretando Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.
Como activista política, interpretou músicas que se tornaram símbolos da luta contra o regime militar.



Palavras de Elis Regina:
“A cada dia que passa as pessoas boas ficam mais escassas.” 



                 Poema


Poema é noite cheia de armagura.
Poema é a luz que brilha lá no céu.

Poema é ter saudade de alguém,
Que a gente quer e que não vem.

Poema é um cantar de um passarinho,
Que vive ao léu, perdeu seu ninho,
É a esperança de um encontrar.

Poema é a solidão da madrugada,
Um ébrio triste na calçada,
Querendo a lua namorar.

Poema é um cantar de um passarinho,
Que vive ao léu, perdeu seu ninho,
É a esperança de um encontrar.

Poema é a solidão da madrugada,
Um ébrio triste na calçada,
Querendo a lua namorar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

LENDA BÍBLICA - A Torre de Babilónia







A Torre de Babilónia


A Torre de Babilónia fez-se no intuito de chegarem ao Céu (os homens desse tempo). O Senhor, porém, não consentiu isso e embargou-lhes a obra, mandando-lhes as linguagens diferentes, pois até aí havia só uma língua em todo o Mundo. 

Esta mudança pôs termo à má resolução, porque não se entendiam uns aos outros. Assim, um dizia: «Dá cá aquele martelo» e o outro trazia-lhe uma pedra, etc. Daqui é que nasceram as várias linguagens que hoje existem.




Fonte: José Leite Vasconcellos - Contos Populares e Lendas.




MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...