quarta-feira, 7 de setembro de 2016

MARIA GABRIELA LLANSOL - Saber esperar alguém





Maria Gabriela Llansol (Lisboa, Portugal, 1931 - Sintra, Portugal, 2008).

Escritora e pedagoga. Formou-se em Direito na Universidade de Lisboa. Dedicou-se a problemas educacionais, tendo feito o curso de Ciências Pedagógicas. 
Em 1965 instala-se em Lovaina, onde trabalha no âmbito do ensino infantil. O mistério e a cor povoam o universo material e psicológico dos seus contos.

Algumas das suas obras: Os Pregos na Erva, O Livro das Comunidades, Na Casa de Julho e Agosto, Diário, Lisboaleipzig, Onde Vais Drama-Poesia, O Senhor de Herbais.


in “Portugal Século XX”


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Palavras de Maria Gabriela Llansol:
"...eu nasci em 1931, no decurso da leitura silenciosa de um poema."



Saber esperar alguém


Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.



terça-feira, 6 de setembro de 2016

FERNÃO LOPES – Primeiro Grande Historiador Português




Fernão Lopes: ignoram-se as datas do seu nascimento e da sua morte, aventando-se as de 1380 e 1460, respectivamente. 

Guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo desde 1418, Fernão Lopes foi nomeado cronista-mor do Reino em 1434 por el-rei D. Duarte, de quem recebeu o encargo de escrever as crónicas dos dez monarcas seus antecessores.

Da vasta obra a que se meteu ombros apenas se conhecem hoje, como sendo indiscutivelmente da sua autoria, a Crónica de D. Pedro I, a Crónica de D. Fernando I e a Crónica de D. João I (1ª E 2ª partes). Esta última crónica, a mais importante de todas, foi concluída pelo seu sucessor, Gomes Eanes de Zurara, que compôs a terceira parte, conhecida pela designação de Crónica da Tomada de Ceuta. Pelo que respeita às restantes crónicas, cujos textos se desconhecem, supõe-se que teriam sido utilizadas por Rui de Pina (1440-1525), cujo nome subscreve as crónicas anteriores a D. Pedro I.

Foi principal preocupação do nosso primeiro cronista legar-nos a «clara certidom da verdade», baseada em documentação histórica fidedigna, para o que procedeu a demoradas e laboriosas buscas por todo o país. Pela sua indiscutível probidade, por se conservar atento a toda a complexidade do real histórico, em vez de, como os cronistas coevos de outros países, se fixar na preferência da efeméride política ou militar, por ver as coisas principalmente do ponto de vista do colectivo, do social, Fernão Lopes revela uma concepção de história muito adiantada em relação à do seu tempo.

Além de ter sido o nosso primeiro grande historiador, Fernão Lopes foi também o primeiro grande prosador da língua portuguesa e um dos mais geniais de todos os tempos. 

O seu estilo, simples e corrente, graciosamente arcaizante, é animado por um colorido e pitoresco inigualáveis, em especial nas descrições da multidão. De notar ainda, como característica fundamental, é o seu poderoso visualismo que confere interesse espectacular às cenas descritas.



in “Selecta Literária”



segunda-feira, 5 de setembro de 2016

JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO - Debaixo desta Campa Sepultado





José Agostinho de Macedo (Beja, Portugal, 1761 – Lisboa, 1831).

Professou em 1778 na Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, sendo expulso da Ordem quatro anos depois, por os superiores o considerarem «contumaz e incorrigível». Foi várias vezes acusado e condenado pela Justiça por desmandos e roubos. 

Tendo conseguido a despensa dos votos monásticos, tornou-se pregador, alcançando os seus sermões grande notoriedade na época. 

Tornou-se membro da Nova Arcádia, entrando em quezílias com Bocage. Fez parte também da Arcádia de Roma, onde adoptou o pseudónimo de Elmiro Tangideu. Era inimigo figadal da Revolução Francesa e odiava Voltaire e Napoleão. Toda a sua luta esteve centrada na denúncia dos jacobinos, ou pedreiros-livres. Quase todas as suas obras reflectem essa luta. 

Ficaram célebres as polémicas que teve com Bocage e com Almeida Garrett.

Algumas das suas obras: Sermão contra o Filosofismo do Século XIX (1811), A Meditação (poesia filosófica, 1813), Newton (poema em 4 cantos, 1813, O Oriente (2 vols., 1814), A Tripa Virada, Tripa por uma Vez, Henriqueida (poema épico em 12 cantos), Os Burros (sátira, 1827).




in “Universidade do Minho”


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Palavras de José Agostinho de Macedo:

“Os jornalistas não hesitam em ajuizar e sentenciar em todos os assuntos como se todos os assuntos dominassem por igual. Querem, ilegitimamente, governar a Nação, ou representá-la, quando não sabem sequer governar-se a si mesmos nem têm conhecimentos ou aptidões para o fazerem. Arrogam-se, ilegitimamente, de serem os legítimos intérpretes dos anseios da Nação, quando nem sequer a compreendem.”



Debaixo desta Campa Sepultado


Debaixo desta campa sepultado
Jaz um peito, um que etéreo fogo ardia,
Que da Lusa Eloquência, e da Poesia
Será por longos Evos lamentado.
Deixou à Pátria alto Padrão alçado,
Enfeitando co’ as flores a Harmonia
A austera fronte à sã Filosofia,
Com exemplo entre nós não praticado.
Não indagues, Viandante curioso,
Da larga vida sua erro, ou defeito,
Da Morte acata o manto tenebroso.
Ele Homem foi, Homem não há perfeito;
E, deixando este valer lacrimoso,
Foi piedade buscar de Deus no peito.



In ”Antologia Poética” 

domingo, 4 de setembro de 2016

AS TRÊS PERGUNTAS





AS TRÊS PERGUNTAS


Encontramos a história que se segue tanto na Islândia como na Turquia.

Um homem tinha que responder a três perguntas, ao nascer do dia, sob pena de lhe cortarem a cabeça. Mas um dos seus amigos, um simples guardador de rebanhos, foi em seu lugar ao encontro dos soldados. Declarou-se pronto a responder. Disseram-lhe que, se não encontrasse a resposta certa, a sua cabeça seria cortada. Aceitou.

O chefe dos homens armados disse:

- Aqui tens a primeira pergunta. Quantas carroças de areia há em todas as costas da Irlanda?

- Uma só – disse o homem – desde que a carroça seja suficientemente grande.

- Eis a segunda pergunta – disse o chefe. – Quanto valho?

- Vinte e nove moedas de prata – respondeu o homem.

- Como chegaste a essa conta?

- Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por trinta moedas de prata. E tu não vales o mesmo que ele.

Esta resposta foi aceite, tal como a primeira. Então o chefe dos homens armados perguntou:

- Eis a terceira pergunta. Presta bem atenção. Quantas estrelas há no céu?

- Nove mil novecentas e noventa e nove – respondeu de imediato o homem.

Como sabes?

- Ora, se não acreditas, vai lá acima esta noite e conta-as.




in “Tertúlia de Mentirosos” de Jean-Claude Carrière
Imagem: pintura de Julien Dupré (Paris, França, 1851 -1910).


sábado, 3 de setembro de 2016

MONTEVERDI – A brilhante despedida de um génio






A brilhante despedida de um génio

No Teatro de S. João e Paulo de Veneza estreia-se em 1642 a que será a última ópera de Claudio Monteverdi e também a sua obra-prima: A Coroação de Popeia. 

O autor tem 75 anos no momento em que a compõe. Em certo sentido pode-se considerar que é o testamento musical de Monteverdi e também o de toda uma época, já que o realismo desta ópera denuncia a crise do homem do Renascimento. Embora haja ainda na obra alguns elementos alegóricos tipicamente renascentistas, as figuras sobre-humanas cedem o lugar a personagens de carne e osso, que representam praticamente todas as camadas da sociedade. 

Ao contrário do que é habitual, a virtude vai ser derrotada no final em benefício do amor. Trata-se de uma ópera de uma extraordinária beleza musical, embora muito exigente, tanto pela quantidade de cantores que devem intervir como pela variedade dos registos musicais utilizados. A obra esteve esquecida durante séculos, até que foi recuperada em meados do século XX.


in “Auditorium – Crónica da Música”

Imagem: Retrato de Claudio Monteverdi de autoria de Bernardo Strozzi, pintor do Barroco italiano (1581-1644).

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

BERTOLT BRECHT - Louvor do Esquecimento





Bertolt Brecht (Augsburgo, Alemanha, 1898 – Berlim Leste, 1956).

Dramaturgo e poeta, pertenceu ao Grupo Berlinense, constituído, na década de 1920, por expressionistas, anarquistas, niilistas e vanguardistas. 
Em 1930 aderiu ao marxismo, mas teve de fugir ao nazismo, exilando-se na Escandinávia e depois nos E.U.A. 

Suas peças, que ilustram sua doutrina do “teatro épico e de participação política”, revelam a intenção de fazer com que o espectador tome consciência das iniquidades do mundo actual. 

Além de poesias (Livro de devoção, título irónico de uma colectânea), deixou, entre outros, as peças Ópera de três vinténs (1928), Mãe Coragem (1938), que são as mais conhecidas.



in “Dicionário Enciclopédico”



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Palavras de Bertolt Brecht:

“Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.”

“Que é roubar um banco em comparação com fundar um banco?”


“Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis.”



Louvor do Esquecimento


Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.

O fogão aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.


in “Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros”

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

LENDA - O Poço sem Fundo





O Poço sem Fundo


Diz o povo que os mouros para se esconderem dos cristãos, resolveram construir no lugar do Naso, concelho de Miranda do Douro, um poço sem fundo. E quando este já ia muito fundo, ouviram uma voz que disse assim:

— Ó Maria, traz cá as peneiras!

Conta a lenda que os mouros, ao ouvirem tal, ficaram aterrorizados, pois pensaram que tinham chegado ao outro mundo. E por isso fugiram. Mas antes puseram uma cancela a meio do poço para as almas não passarem. Há quem diga que a cancela ainda lá está.




Fonte: CEAO – Alexandre Parafita – A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros – Vila Nova de Gaia.


Imagem: pintura de Janice Affonso (Brasil)

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...