terça-feira, 7 de março de 2017

WILLIAM CARLOS WILLIAMS - O Carrinho de Mão Vermelho




WILLIAM CARLOS WILLIAMS
(Rutherford, Nova Jersey, EUA, 1883 - 1963)

Poeta, romancista e dramaturgo

Começou a escrever poesia enquanto estudava na “Horace Mann High School”.
Foi associado ao movimento do Modernismo e sob a influência de Ezra Pound, abraçou o Imagismo e sua ênfase em detalhes visuais claros e na palavra exacta.
Algumas das suas obras: Imaginations, Pictures from Brueghel and Other Poems, An Early Martyr and Other Poems, The Knife of the Times, and Other Stories.


Palavras
de
William Carlos Williams
“Um novo mundo é só um novo olhar.”


O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de um
carrinho de mão
vermelho

vítreo de água
da chuva
ao lado das galinhas
brancas.


in  “The collected poems" 

segunda-feira, 6 de março de 2017

VASCO DA GAMA - Navegador





VASCO DA GAMA
Sines, Portugal, 1469 – Cochim, Índia, 1524

Navegador


Comandante da expedição que realizou a primeira viagem marítima da Europa à Ásia, partiu do Tejo em 8 de Julho de 1497. 

Em 2 de Março de 1498, atingiu Moçambique, depois de ter enfrentado tempestades e sufocado uma rebelião de seus marinheiros. Mais algum tempo de viagem e atingiu Melinde, cujo rei, hospitaleiro, lhe deu um piloto árabe, conhecedor do Índico. Em 17 de Abril de 1498, avistava Calicute. Estava descoberto o caminho marítimo para a Índia. 

Pelo feito, o rei D. Manuel nomeou Vasco da Gama almirante-mor das Índias, concedeu-lhe o título de Conde da Vidigueira e fez-lhe doação de trezentos mil réis de renda. Voltou mais duas vezes à Índia, de que foi governador e segundo vice-rei.



in “Dicionário Enciclopédico”




domingo, 5 de março de 2017

AS PALAVRAS – Redacção de uma menina de Lisboa





AS PALAVRAS

Redacção de uma menina de Lisboa, de nome Mariana, aluna da quarta classe de um estabelecimento de ensino dirigido por religiosas.


Há palavras boas e palavras más, palavras bonitas e palavras feias. A palavra Portugal é muito bonita, mas palavra Trancos não é. Há palavras que não dão com as coisas para que servem, Lua, por exemplo, dá, não podia ser outro nome porque não era essa coisa, mas caderno não dá. Lembra inverno e inferno e os cadernos dependem, nem todos são horríveis, só o de matemática para mim. Folha também dá para coisas de mais, tem de ser folha disto e daquilo, do livro, da árvore, e de flandres, senão não se sabe, não se pode ser folha sozinho.

As palavras também servem para dizer e consolar ou sofrer. Essas não são uma a uma, como as que eu escrevi antes, são em frases, isto é, todas de seguida.

Boa, por exemplo, é uma palavra boa, parece macia, mas se a pessoa nos diz «a menina não é boa», a abanar a cabeça, isso pode afligir muito. Há palavras que postas assim saem ao contrário – por exemplo, fresca. Se for fruta é bom, se for para pessoas não. A palavra triste, por exemplo, é uma palavra azul, porque quase todas as palavras têm cores, e parece que está a pedir que se calem e a palavra riso é amarela, só por si não dá para a gente se rir. A palavra mãe é grosso de mais para o que é e a palavra pai é muito clara e leve de mais.

E agora vou inventar a palavra desinteligente que é o que eu acho que sou por causa da confusão que me fazem as palavras e de estar sempre calada. A escrever as palavras são feitas de letras e só se ouvem na cabeça. Fim.
                                                                         
                                                                          Mariana
                                                                            22/6/71



in “NOVAS CARTAS PORTUGUESAS” de:

MARIA ISABEL BARRENO, escritora (Lisboa, Portugal, 1939-2016).

MARIA TERESA HORTA, escritora e poetisa (Lisboa, 1937).

MARIA VELHO DA COSTA, escritora (Lisboa, 1938).



Imagem: pintura de Maria Izquierdo (México, 1902 – 1955).


sábado, 4 de março de 2017

MÁRIO CESARINY - Mensagem e ilusão do acontecimento surrealista




MÁRIO CESARINY
 (Lisboa, Portugal, 1923 - 2006)

Poeta, pintor e historiador


MENSAGEM E ILUSÃO DO ACONTECIMENTO SURREALISTA


Pode-se ser surrealista sem se ter lido Breton. Pode-se ler Breton e não se ser surrealista. Pode-se ser surrealista e não se ser, realmente, mais nada. Pode-se não ser surrealista e prestar-se com isso excelente serviço a todos e ao surrealismo em especial. Isto diz-se porém das tarefas do conhecimento, que não das do saber, e eu não sei se anda clara, nas consciências actuantes, a diversidade que assiste a estas duas operações do espírito. 

Para mim, pelo menos, parece evidente que as tarefas do conhecimento – poético, na ocorrência – são únicas, pessoais e intransmissíveis, enquanto que as do saber, deduzidas daquelas, podem já ascender a leis e valorações que são filosofia, interpretação crítica, quer tramada de dentro, da parte de quem está, quer focada de fora – os que vêm ver estar – e aqui é que é impossível ser-se (ou criticar-se) determinada coisa sem se saber o que essa coisa é. Estou a pensar na crítica que não temos e na crítica de consolação que temos.(…)

Tenho na cabeça uma carta de António Maria Lisboa, que diz: “É às palavras-actos, não às palavras que supõem actos, que me dirijo». Máxima tão cruel não podia merecer mais valor citadino que o da prenda enviada pelo correio a falar de natal quando o mês era já o dos folguedos – quarta-feira de cinzas na arte e na literatura, cada vez mais arte e mais literatura, pois. (…)

Em torno do surrealismo «nascente», como, hoje, em torno do surrealismo «agonizante» fizeram crónica lá fora, os do cortejo e apito em direcção a casa, de livro branco e pantufa na mão. Entre nós, tal cortejo tem fim obrigatório na cor dos olhos de Fernando Pessoa a cair morto de bêbado em casa de cada um. (…)

Quanto ao valor (actual) da arte e da literatura (surrealistas), já se disse há tempo e não deu resultado: hoje, como há trinta anos, Mona Lisa ostenta o bigodinho que Dádá lhe doou. Aprendeu, no entanto, trinta novas maneiras de apará-lo: Mona Lisa Bigode Realista, Mona Lisa Bigode Surrealista, Mona Lisa Bigode Abstracto, Mona Lisa Bigode Socialista, Mona Lisa Bigode Fascista, Mona Lisa Bigode Existencialista, são as últimas mais elegantes saídas do literato convencido de que vai sair à rua com uma estrela na mão. 

Visto um pouco do pouco que há para ver nestas etiquetas escolásticas, entende-se: anda tudo a querer entrada grátis no espectáculo mais caro do universo: a transubstanciação da matéria.



in “Pirâmide-Antologia” - 1959


sexta-feira, 3 de março de 2017

MANOEL DE BARROS - O menino que carregava água na peneira




MANOEL DE BARROS
(Cuiabá, Brasil, 1916 - Campo Grande, 2014)

Poeta

Até os 17 anos viveu entre a casa da família e um internato, onde iniciou os estudos. Sua vida académica se passou na cidade do Rio de Janeiro, onde ficou até se formar bacharel em Direito, em 1941. Viveu também em Nova Iorque, Paris, Itália e Portugal.

Pertencente à geração de 45, onde despontaram os grandes poetas brasileiros da metade do século XX, Manoel constrói uma linguagem inovadora, que chega ao limite da agramaticalidade, cheia de neologismos e, ao mesmo tempo, remetendo a língua portuguesa às suas raízes mais profundas.

A profunda correlação da fala poética com as imagens visuais, vem de sua leitura do Padre António Vieira: “eu aprendera em Vieira que as imagens pintadas com palavras eram para se ver de ouvir”.

Manoel cria uma relação única com a linguagem e o mundo. Uma linguagem que desobedece, a seu modo, e que tem um mundo concreto que brinca a seu modo.  Enfim, um poeta singular!

Algumas das suas obras: Gramática expositiva do chão, O livro das ignorãças, Livro sobre nada.


Palavras 
de 
Manoel de Barros

“O que escrevo resulta de meus armazenamentos ancestrais e de meus envolvimentos com a vida. Sou filho e neto de bugres, andarejos e portugueses melancólicos. Minha infância levei com árvores e bichos do chão. Penso que a leitura e a frequentação das artes desabrocha a imaginação para um mundo mais puro. Acho que uma inocência infantil nas palavras é salutar diante do mundo tão tecnocrata e impuro. Acho mais pura a palavra do poeta que é sempre inocente e pobre”.



in “Fundação Manoel de Barros” (excertos e adaptação)


***

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens, 
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!





quinta-feira, 2 de março de 2017

EDUARDO LOURENÇO – Esfinge ou a Poesia




EDUARDO LOURENÇO
(São Pedro de Rio Seco, Almeida, Portugal, 1923),

Professor e filósofo português.


ESFINGE OU A POESIA
(…)
A cada hora o mundo é o que fazemos dele. A história o que fizermos dela. E os valores. E os encontros. Impossível aceitar como Édipo que tudo está feito só porque descobrimos a fórmula que permite que tudo se faça.

Tudo se está fazendo. Se cruzamos os braços, as coisas e as ideias voltam ao caos, e os fantasmas da necessidade e da morte adquirem novo alento pela nossa desistência. Era indecente que um só tivesse carregado a cruz uma só vez. O cristão sabe que deve levá-la todos os dias. A cada hora basta a sua pena, mas cada hora precisa duma dor nossa para se sentir acordada. 

A Esfinge não é um enigma resolvido nem a resolver nos séculos futuros. A Poesia não é uma árvore morta nem a fazer florir nas colinas de amanhã. E a resolução que damos à história, aos encontros, às promessas de cada vez que consentimos descer das palavras à dificuldade dos actos. Ou subimos dos actos à corola mágica das palavras com que os arrancamos à certa desolação do tempo e da morte.

Como na hora em que concebemos a Esfinge para nos tocarmos melhor, continuamos sendo aqueles que procuram danadamente uma autêntica face de homem, uma existência em busca duma essência. Ou uma essência descontente de si mesma buscando-se entre possibilidades múltiplas de existir. Por isso sabemos hoje que não teremos uma face diferente daquilo que fizermos. Mas fazer de novo é continuar a criação e criar é ser poeta. O que significa finalmente não ter outro rosto senão o que a Poesia nos modelar.




in “Árvore: folhas de poesia” – 1951




quarta-feira, 1 de março de 2017

MATILDE ROSA ARAÚJO – Páginas de diário (III)




MATILDE ROSA ARAÚJO
(Lisboa, Portugal,1921 – 2010)

Escritora


OUTRO DIA

Nunca me hei-de esquecer do casal, hoje, do carro eléctrico. Ela muito pintada, a pintura sem poder esconder a palidez que grita e uma franja que não lhe esconde os olhos e uma pluma negra caída que não lhe esconde a cara. Toda vestida e enchapelada de cinzento claro. Como uma pomba. Uma pomba com uma pena negra em vez de bico. E uma borracha de água quente debaixo do casaco. Ia a falar do coração com o marido, também muito pálido, que levava uma radiografia presa nos dedos engelhados.

Ela parecia que andava a fingir de viva com a pluma negra e ele que era a sombra daquele fingimento. A borracha de água quente para o coração não arrefecer. Um dos mistérios misteriosos da vida ia ali. A pomba cinzenta a que apetece fechar as asas.




in “Árvore - Folhas de Poesia” – 1951


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...