sábado, 19 de julho de 2014

CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS – (XI)

 

 
 
Cantigas ao Desafio

 
- Da figueira nace o figo,

Do figo se faz a passa,

Diga-me lá em cantigas,

Ó menina, a sua graça.

 

- Quem fala de mim, quem fala,

Quem de mim anda falando,

Se calhar quem assim fala

Já por mim andou chorando.

 

- Eu vou-me a fartar de rir

Se me vinhas a ganhar,

Como a ti podem vir

Até esses «se calhar».

 

- Em vendo certos fadistas

A cantar com presunção,

Salta-me o sangue às faíscas

De dentro do coração.

 

- Muito gosto eu de cantar

Onde os cantadores estão,

Se nalgum ponto me errar

Os senhores me ensinarão.

 

- Eu me vou fartar, de rir

Se chego a comprar barato,

Cantadores como tu és

Podem vir aos três ou quatro.

 

- Por se errar uma cantiga

Não se deixa de cantar,

Também o bom caçador,

Errou a peça no ar.

 

- Eu trago a minha colher,

Eu como que desunho,

Cala-te daí, gaiato,

Qu'inda t'assoas ao punho.

 

- Dá gosto de ouvir cantar

Aqueles que cantam bem;

Aqueles que cantam mal

Não dão gostos a ninguém.

 

- Se com o canto ganhasse

P'ra amparar minha velhice,

Até deixava de andar

Metida na pelintrice.

 

 

 

Cancioneiro Popular Português - J. Leite de Vasconcellos

Imagem: nova versão da pintura “Fado” de José Malhoa, exposta no Chiado, em Lisboa, por ocasião da candidatura do fado a Património da Humanidade.

 


sexta-feira, 18 de julho de 2014

ANA PAULA TAVARES

 
 
 

Ana Paula Tavares, nasceu no Lubango, Sul de Angola, em 1952.
 

É um dos nomes mais importantes da poesia africana do período pós-independência.
 
Obteve o grau de Mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Participou em congressos e comissões de estudo nas áreas da cultura como a Arqueologia e Etnologia, Património, Museologia e Ensino.
É membro, entre outros, do “Comité Angolano do Conselho Internacional de Museus” e da “Comissão Angolana para a Unesco”.
Tem poesia publicada em revistas, jornais e antologias, em vários países da Europa, em Angola, no Brasil e no Canadá.
Alguns dos seus livros: Ritos de Passagem, O Sangue da Buganvília, O Lago da Lua, Dizes-me coisas amargas com os frutos.
Ganhou o “Prémio Mário António de Poesia 2004”, da Fundação Calouste Gulbenkian e o “Prémio Nacional de Cultura e Artes 2007”.
 
 
Palavras de Ana Paula Tavares:
“Luanda é o princípio da cidade que de vez em quanto deixa de o ser. Convive bem e mal com os seus fantasmas. A baía é mágica, tem a mais bela curva do mundo. Quase enlouqueci a tentar perceber e a fazer pactos com deus e com o diabo. Mas foi ali que ficou mais clara a força das mulheres do meu país, a forma leve como pisam o chão, apesar de carregarem um filho em cada mão e outro às costas e na cabeça o mundo inteiro.”
 
 
   O lago da lua
 
 
No lago branco da lua
lavei meu primeiro sangue.
Ao lago branco da lua
voltaria cada mês
para lavar
meu sangue eterno
a cada lua.
 
 
No lago branco da lua
misturei meu sangue
e barro branco
e fiz a caneca
onde bebo
a água amarga da minha sede sem fim
o mel dos dia claros.
Neste lago deposito
minha reserva de sonhos para tomar.
 
Ana Paula Tavares, in “O Lago da Lua”
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 

 

 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

ESPANHA NO VOSSO E EM MEU CORAÇÃO

 
 
 

            
 
              Espanha no vosso e em meu coração

 
 
Espanha no coração
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão.

Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!

Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!

Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe II
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!

Espanha da liberdade:

A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da Revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!


Manuel Bandeira, poeta brasileiro
Imagem: painel que Pablo Picasso pintou, em 1937, denominando “Guernica”. Retrata a visão do bombardeamento por aviões alemães sobre a cidade basca de Guernica, em Espanha, em apoio ao ditador Francisco Franco.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

AQUILINO RIBEIRO

 
 
 
 

Aquilino Ribeiro (1885-1963) nasceu no concelho de Sernancelhe, freguesia Carregal, Beira Alta, Portugal.
A sua imensa obra, caracterizada pela riqueza do material linguístico e diversidade de recursos estilísticos, abrange diversos domínios, tais como romance, memórias, novela, teatro, conto, biografia, estudos etnográficos e históricos, literatura infantil. 

Foi um dos fundadores da revista “Seara Nova".
Escreveu, entre outros, os livros: Terras do Demo, Quando os Lobos Uivam, Andam Faunos Pelos Bosques, O Malhadinhas, O Romance da Raposa, A Grande Casa de Romarigães, Tombo no Inferno, O Arcanjo Negro, Via Sinuosa.

Republicano, democrata e antifascista, Aquilino Ribeiro foi um homem da liberdade. Empenhado, cívica e politicamente, combateu os autoritarismos e os poderes estabelecidos.
Salazar disse sobre Aquilino Ribeiro: "É um inimigo do regime. Dirá mal de mim, mas não importa: é um grande escritor." (Uma lição para alguns democratas que exercem hoje o poder).

Em 1952, viajou ao Brasil onde foi homenageado por escritores e artistas, na “Academia Brasileira de Letras”.
Foi proposto, em 1960, para o "Prémio Nobel de Literatura" por vários escritores e personalidades da cultura.

É considerado o mestre da ficção contemporânea.

 

 

Palavras de Aquilino Ribeiro:

“Que o escritor realize o mundo de beleza que traz em si, e já é alguma coisa. Quanto ao mais, que seja o que lhe apetecer, desde que não arme em fariseu, e não esteja nunca contra os simples, de braço dado com os trafulhas.”





Excerto do livro Volfrâmio:


(…) “As aldeias esvaziavam-se, mal nascia o dia, por montes e vales em busca de volfro, como é de supor que andassem os hebreus no deserto, em busca de maná.
Eram substâncias análogas no transcendente e no destino; caíam imprevistamente do céu e vinham matar a fome a multidões igualmente famintas.
 
Todas as canseiras eram dadas por muito bem empregadas se à noite a sombra vágula, dobrada para terra, trouxesse na cova da mão duas areias de oiro negro.
Num plano superior, todas as poucas-vergonhas eram desculpadas dado que conduzissem ao enriquecimento.
 
Formava-se uma moral nova com a nova indústria. Dolo, roubo, mentira, falsidade, desde que constituíssem processos de promover o negócio do volfrâmio, tornavam-se ordinários, por conseguinte de prática corrente, discutível ainda, mas admitida.
 
Resultava de tal consenso que procuravam todos empulhar-se uns aos outroo mais conspicuamente possível, e que falsificar o minério, fritando-o, desencantando-lhe substitutos falaciosos, era um recurso industrial como outro qualquer”. (…)



Aquilino Ribeiro, in “Volfrâmio”
 
 
 

 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



 

terça-feira, 15 de julho de 2014

HILDA HILST

 
 
 

Hilda Hilst (1930-2004) nasceu em Campinas, Brasil.

Poetisa, cronista, dramaturga e tradutora, diplomou-se em Direito na Universidade de S. Paulo.

Em 1950, publicou o primeiro livro de poemas intitulado Presságio.

Outras obras: Balada do Festival, Roteiro do Silêncio, Trovas de Muito Amor para Um Amado Senhor, Sete Cantos do Poeta para o Anjo, Cantares de Perda e Predilecção, Poesia (Antologia de poemas), Rútilo Nada, A Obscena Senhora, O Verdugo.

Foi galardoada com os mais importantes prémios literários do Brasil, tais como: “PEN Clube”, “Prémio Anchieta”, “Grande Prêmio da Crítica para o Conjunto da Obra”, da Associação Paulista de Críticos de Arte, “Prémio Jabuti”.

Hilda Hilst foi uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX.

 


Palavras de Hilda Hilst:

“Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais.”
 
 
 
 

Dez chamamentos ao amigo


Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

 

Hilda Hilst, in “Poesia”

 

 


segunda-feira, 14 de julho de 2014

POEMA MELANCÓLICO A NÃO SEI QUE MULHER

 
 


 
 
           Poema melancólico a não sei que mulher

 

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...


Miguel Torga, in “Diário VII”

Imagem: quadro do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944), precursor do expressionismo alemão.                

domingo, 13 de julho de 2014

HONORÉ DE BALZAC

 
 
 

Honoré de Balzac (1799-1850) nasceu em Tours, França.
É considerado um dos criadores do realismo na literatura moderna.
Observador atento da sociedade francesa contemporânea produziu cerca de 90 romances e novelas, na maioria dos quais retratou a sociedade parisiense.
Em Paris, fervilhavam os novos-ricos, os jovens intelectuais, os criminosos, os funcionários, os comerciantes, os escândalos entre a aristocracia e a alta burguesia.
Todo este acervo multifacetado integra a obra, globalmente denominada, A Comédia Humana.
No livro, Os Camponeses, denunciou os problemas enfrentados nas áreas rurais.

 

Palavras de Honoré de Balzac:

"É tão natural destruir o que não se pode possuir, negar o que não se compreende, insultar o que se inveja."


                 
                                   A Compaixão Mata

 
O sentimento que o homem mais dificilmente suporta é a compaixão, sobretudo quando a merece. O ódio é um sentimento tónico, faz viver, inspira a vingança; mas a compaixão mata, enfraquece ainda mais a nossa fraqueza.

 
Honoré de Balzac, in “A Pele de Onagro”

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...