segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Que quer dizer a mágoa sempre que se deixa

 
 
 
 
 
 
 

Que quer dizer a mágoa sempre que se deixa

 

 Que quer dizer a mágoa sempre que se deixa
 fazer sentir, quando se afasta depois
 de ocupar os únicos sítios? O que quero
 dizer fica menos veloz. A evitar o azul branco
 do céu sobre mim, a visitar esta terra só
 de inverno. Seria inútil começar agora
 uma conversa mais explícita, talvez
 sobre o ritmo exigente da cidade em que estás
 ou sobre a actividade quase perfeita das crianças
 em redor. Prefiro calar-me, sentir o vento
 que vem do mar, rir um pouco tropeçando
 na madeira corroída.
 De pouco serve escutar assim as vozes
 já tão cansadas, antes a cuidadosa escolha
 das tábuas a pôr na casa vazia. Depois
 falaste-me de um eco, de um barco inclinando-se,
 da casa que não tens.
 Esgota-se o que mais falta. Que vamos
 dizer? Está bem amo-te. E ao fogo
 acabando na cinza, à manhã que não existe.
 
Hélder Moura Pereira (Setúbal, Portugal, 1949)
 
 

 

 

domingo, 16 de novembro de 2014

Murasaki Shikibu

 
 
 
 
 
 

Murasaki Shikibu (973-1025 d.C) nasceu em Quioto, Japão.

Romancista e poetisa foi dama de honra da corte imperial durante o período Heian.

Foi a autora de O Romance do Genji, tendo sido um dos primeiros e mais famosos romances da literatura mundial, considerado um marco da literatura japonesa.

O romance é composto por 54 capítulos que relatam a vida e os amores do príncipe Genji, jovem e talentoso filho de um imperador.

Harold Bloom, professor e crítico literário norte-americano, incluiu Murasaki Shikibu entre os 100 maiores génios da literatura. Afirmou, ainda, que o Romance do Genji está para a cultura japonesa assim como Dom Quixote está para a cultura ocidental.

 

Palavras de Shikibu Murasaki:

“Embora o corpo se mova, a alma, às vezes, fica para trás.”

 


sábado, 15 de novembro de 2014

São Paulo

 
 
 
 
 

  
     São Paulo
 
 
Adoro esta cidade
São Paulo é conforme meu coração
Aqui nenhuma tradição
Nenhum preconceito
Nem antigo nem moderno
Contam apenas esse apetite furioso essa confiança absoluta esse otimismo essa audácia esse trabalho esse labor essa especulação que fazem construir dez casas por hora de todos os estilos ridículos grotescos belos grandes pequenos norte sul egípcio ianque cubista
Sem outra preocupação além de seguir as estatísticas prever o futuro o conforto a utilidade a mais-valia e atrair uma grande imigração
Todos os países
Todos os povos
Amo isso
As duas três velhas casas portuguesas que restam são azulejos azuis

 

Blaise Cendrars (La Chaux-de-Fonds, Suíça, 1887 – Paris, França, 1961).
Tradução: António Cícero
Imagem: cidade de São Paulo, Brasil.

 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Barco Negro

 
 
 
 
 
 

                Barco Negro

 
De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!
Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.
No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.
 

 
 
David Mourão Ferreira (Lisboa, Portugal, 1927-1996) foi escritor e poeta.
Ilustração: quadro do pintor impressionista francês Claude Monet (1840-1926).

 
 
 
 
 

 
 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O Mar não conhece o Mar

 
 
 
 
 
 
 

    O Mar não conhece o Mar

 

 
o mar não conhece as profundidades
nenhum azul nem conhece as suas ondas
o mar não é soberbo nem
manso nem amargo
não conhece o sabor do vento nem da espuma
o mar não vê nenhum sol
nem terra nem seixos
O mar não ama o céu
nem a lua
o mar não se conhece
 
 
 
Eva Christina Zeller (Ulm, Alemanha, 1960)
Tradução: Maria Teresa Dias Furtado
 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Alexander Soljenítsin

 
 




Alexander Soljenítsin (1918-2008) nasceu em Kislovodsk, Cáucaso, Rússia.

Escritor, historiador e activista político participou na Segunda Guerra Mundial.

Por ter criticado o ditador russo Estaline, numa carta dirigida a um amigo, Soljenítsin foi enviado para um campo de concentração, onde viveu durante oito anos, sujeito a trabalhos forçados.

Publicou, entre outros títulos, O Arquipélago de Gulag, que dedicou “a todos os que não viveram para contar a história”.

Foi agraciado, em 1970, com o Prémio Nobel de Literatura.

 
Palavras de Alexander Soljenítsin:

"Indubitavelmente o povo tem direito ao poder, mas o que o povo quer não é o poder, e sim, antes de tudo, uma ordem estável."

 

 

Excerto do livro: Os Direitos do Escritor:
 
"Uma literatura que não respire o ar da sociedade que lhe é contemporânea, que não ouse comunicar à sociedade os seus próprios sofrimentos e as suas próprias aspirações, que não seja capaz de perceber a tempo os perigos morais e sociais que lhe dizem respeito, não merece o nome de literatura: quando muito pode aspirar a ser cosmética”.
 
Alexander Soljenitsyne, in “Os Direitos do Escritor”.
 
 




terça-feira, 11 de novembro de 2014

Cancioneiro Popular (XV) – Cantigas do Trabalho

 
 
 
 
 
 

Cancioneiro Popular (XV) – Cantigas do Trabalho

 
 
 
Ceifeiro

 
 
O que dirá meu amor

Amanhã em me avistando:

- Ora adeus, como passaste,

Onde é que andaste ceifando?

 
 
 
Corticeiro

 
 
Não há vida mais bonita.

Que a vida do corticeiro:

Anda de ramo em ramo

e de sobreiro em sobreiro.

 
 
Ferreiro

 
 
Todos me lavam a cara

Que o meu amor é ferreiro

Deixa-o lá bater o ferro...

Quem tem ferro tem dinheiro.

 
 
Lavadeira

 
 
Fui lavar ao rio turvo,

Escorregou-me o sabão,

Abracei-me com as tosas,

Ficou-me o cheiro na mão.

 
 
Lavrador

 
 
Hei-de namorar, cantando.

Um filho dum lavrador:

Quem anda ao frio e anda à calma

Goza sempre a mesma cor!

 

 
 
Cancioneiro Popular Português de J. Leite de Vasconcellos

 
Imagem: Costa Araújo (1947), artista plástico português.

 

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...