sábado, 22 de agosto de 2015

AMÉLIA REY COLAÇO - A insigne figura do teatro português do século XX.

 
 




Amélia Rey Colaço (Lisboa, Portugal, 1898 – 1990).

Actriz, encenadora e empresária é a mais insigne figura do teatro português do século XX.

Iniciou a sua carreira teatral em 1917, no Teatro D. Amélia, na peça “Marianela”.

Com Robles Monteiro, seu marido, formou a Companhia que actuou durante cinquenta e três anos no Teatro D. Maria II.

Amélia Rey Colaço deu a conhecer ao público português autores como: Pirandello, Bernard Shaw, Jean Anouilh, Ionesco, Arthur Miller, Federico García Lorca, Ramada Curto, António Ferreira, Bernardo Santareno, Eugene O´Neill, José Régio, Virgínia Vitorino, Romeu Correia, Luís de Sttau Monteiro, Carlos Selvagem, Jean Cocteau, Tennessee Williams, Edward Albee, Bertolt Brecht, Max Frisch, entre outros.

Contratou os melhores actores e cenografistas.
Criou espectáculos ao ar livre, aproveitando os próprios cenários das catedrais, castelos, etc. É de salientar o espectáculo que, em 1964, organizou no adro do Mosteiro de Alcobaça.

Organizou concertos sinfónicos e recitais de poesia e dança.

Alguns dos grandes sucessos de Amélia Rey Colaço: “Salomé”, Um Marido Ideal”, “Outono em Flor”, “Romeu e Julieta”, “Visita da Velha Senhora”.
Representou o seu último grande papel na peça de José Régio “El Rei D. Sebastião”, interpretando D. Catarina.

Após o 25 de Abril de 1974, incomodada por ser encarada como um símbolo do Estado Novo, suspende a Companhia. Assume a injustiça com dignidade e discrição.

 
Palavras de Amélia Rey Colaço:

“A política dos artista é a Arte”
“A cultura é um bem que não tem preço”


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

KONSTANTINOS KAVAFIS - Candelabro

 
 
 
 
 
 
Konstantinos Kavafis (Alexandria, Egipto, 1863 – 1933).

Apesar de ter nascido no Egipto, Kavafis era grego, pois pertencia à numerosa colónia helénica que vivia em Alexandria.

É um dos mais importantes poetas gregos modernos. A sua poesia é ensinada em Universidades de todo o mundo.

 
Palavras de Konstantinos Kavafis:

 “Pouco me importa que ninguém concorde comigo.”

 

                 Candelabro

 
Num quarto pequeno e nu, quatro paredes somente,

recamadas de muitos verdes panos,

um belo candelabro brilha incandescente;

e em cada uma das chamas se acende

uma lúbrica paixão, um lúbrico ardor.

 

Na pequena alcova, que ilumina refulgente

a forte luz que vem do candelabro,

não é vulgar fogo esta luz ardente.

Não foi feita para corpos tementes

a volúpia que há neste calor.

 

Konstantinos Kavafis
Imagem: pintura de Joseph Beuys (Alemanha, 1921 – 1986).

 
 
 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

SIMONE WEIL - Nem Senhor nem Escravo

 
 
 
 
 
 

Simone Weil (Paris, França, 1909 Ashford, Reino Unido).
Poetisa, dramaturga, ensaísta e professora foi uma das mais notáveis filósofas do seu tempo.
Combateu todas as opressões do ser humano e o respeito pelos homens numa verdadeira igualdade.

 

Palavras de Simone Weil:

“Nada no mundo pode impedir o homem de se sentir nascido para a liberdade. Jamais, aconteça o que acontecer, ele pode aceitar a servidão: pois ele pensa.”

 

 

Nem Senhor nem Escravo

 

A única disciplina é estar diante da natureza e não dos homens. Depender de uma vontade estranha, é ser escravo. Porém, esse é o destino de todos os homens.
O escravo depende do senhor e o senhor do escravo. Condição que se torna ou suplicante ou tirânica ou as duas simultaneamente.
Pelo contrário, diante da natureza inerte, não temos outro remédio que não seja pensar.

 

Simone Weil, in “A Gravidade e a Graça”
Imagem: pintura de Evelyn Williams (Inglaterra, 1919 – 2012).

 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

HENRI CARTIER-BRESSON – Pioneiro do Fotojornalismo

 
 
 
 
 
 

Henri Cartier-Bresson (Chanteloup-en-Brie, França, 1908 – Montjustin, França, 2004).

É considerado uma das figuras mais originais, influentes e admiradas da história da fotografia do século XX.  
Esteve na Guerra Civil em Espanha, na Revolução Chinesa e na Segunda Guerra Mundial.
Foi o primeiro fotógrafo da Europa Ocidental a fotografar, sem controlo da censura, o quotidiano da União Soviética.
Fotografou Gandhi, Pablo Picasso, Paul Valéry, Jean Paul Sartre, Simone Beauvoir, Albert Camus, Paul Éluard, entre muitos outros,
Publicou, em 1952, o livro sobre fotografia intitulado: Images à la Sauvette,
Esteve em Portugal em 1955.

 

 
Palavras de Henri Cartier-Bresson:

O reconhecimento é um fardo muito pesado para se carregar. Não quero ser fotografado, identificado, quero ser anónimo. A celebridade é horrível. Eu sou libertário. Tenho horror ao poder. A notoriedade como fotógrafo é uma forma de poder que recuso.”
 
 
Índia - Punjab. Kurukshetra.- Campo de Refugiados para 300.000 pessoas. (Outono, 1947)

 
 
 

 

terça-feira, 18 de agosto de 2015

RAINER MARIA RILKE - Carta a um jovem poeta

 
 





Rainer Maria Rilke (Praga, República Checa, 1875 – Montreux, Suiça, 1927).
Reconhecido como um dos maiores poetas da língua alemã do século XX, a sua obra foi influenciada pelo Expressionismo.

 
Palavras de Rainer Maria Rilke :
“Na vida não há aulas para principiantes, exigem-nos logo o mais difícil.”


 
Carta a um jovem poeta
 
 
Paris, 17 de Fevereiro de 1903

 
Prezadíssimo Senhor,
Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica.
Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do - que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. (…) Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.
Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". (…)
Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, ninguém.
Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?" (…)
Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. (…)
Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas.
Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? (…)
Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta. (…)
Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança.
Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke
 
Rainer Maria Rilke, in “Cartas a um jovem poeta”
Tradução: Cecília Meireles
 
 
 
 

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

ISABEL DA NÓBREGA - Viver com os Outros

 
 
 
 
 
 Isabel da Nóbrega (Lisboa, Portugal, 1925). 
 
Escritora, jornalista e tradutora escreveu mais de três mil crónicas para a imprensa e a rádio.

Criou o “Prémio Cidade de Lisboa” para romance e fundou o “Instituto de Apoio à Criança”.

 
 
Palavras de Isabel da Nóbrega:

 "As pessoas, nos seus trabalhos, estão a ficar muito isoladas. Tudo o que veio de civilizacional acabou por não servir a atmosfera de companhia, de discussão e troca de ideias - pelo contrário, acentuou o isolamento."

 
Excerto do livro Viver com os Outros”:

 
“Aquecer a água para o Henrique tomar de manhã. Tanto copo, senhores!
Mas correu tudo bem. Ainda no outro dia era o calor do quarto do hospital. Que bom poder festejar o teu regresso a casa, ao trabalho, à vida. Aqueles longos, intermináveis, dias e noites, o teu rosto suado, emaciado, interrogativo. Hoje rodeado da “equipe de choque”.
É bom receber à nossa mesa, dar um jantar cozinhado por nós com alegria – oh, a alegria… Em dada altura parecias ter desistido de lutar, parecias resvalar devagarinho para o outro lado.
Eu gritava-te como em sonhos, sem ouvir a voz, que não me deixasses, que não me deixasses. Agora foram-nos de novo entregues as nossas noites, os nossos dias. A água ao lume. Se me faltasses, tu que és o meu esteio, que seria de mim? E a outra angústia, que nunca sei descrever-te, ou que nunca sabes ouvir, porque brincas com ela.
Onde estou, que sou eu, para onde vou? Três planos de realização, o plano pessoal, o plano social mundano e o plano social-social. Eu sinto-me humanamente realizada, mas sem uma vocação, que me defina nem uma profissão que me justifique, qual a minha contribuição no plano social? Nem todos podem intervir na vida do seu tempo, mas todos têm obrigação de contribuir.
Ainda não ferve. Que seria hoje a Mariana sem o seu diploma. Está apta para assumir responsabilidades, uma carreira. Mas, coitada, quantos mal-entendidos. Mal-entendido. Malentendu. Camus. O Camus explica na peça que para evitar mal-entendidos é preciso não usar artifício. “Se o homem quiser que o reconheçam, diga simplesmente quem é”. – Isso era bom, era. Mas nunca ninguém nos reconhece. Mesmo quando dizemos quem somos. Tu próprio, Henrique…desconfiaste, descreste de um amor que se te oferecia em bloco…
Ferveu. Thermos. Copo. Frasco. Colher de chá. Tudo na bandejinha. Permanente esta interrogação. Não me agarro a certezas. Estou sempre pronta a rever as minhas ideias. Mas não me integro em nenhum meio. Não lhes pertenço. Porquê? A sensação, por vezes, de me desintegrar…Oh, Henrique…”

- Pronto. A bandejinha. Afasta o candeeiro.

- Lá fora, apagaste a luz, amor?

- Apaguei.

- E fechaste o gás, meu amor?

- Sim, fechei.

-Mas há uma porta que range… Tinha de ser…

- Eu vou fechá-la, amor, eu vou já ver. – Era a porta da varanda. Abri-a de par em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sozinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós”.

 

Isabel da Nóbrega, in “Viver com os Outros”
Imagem: pintura de Elizabeth V. Blackadder (Reino Unido, 1931).


domingo, 16 de agosto de 2015

MARINA TSVETAEVA - Poema do fim

 
 
 
 
 
 
 
Marina Tsvetaeva (Rússia, 1894 – 1941).

Poetisa e tradutora.
O seu estilo é caracterizado pela alternância duma sensibilidade romântica com o realismo inspirado na vida quotidiana.

 

     
        Poema do fim

 
Como a pedra afia a faca,

Como ele desliza a serragem ao varrer,

Assim, a pele aveludada

De súbito, entre os dedos. úmida.

 
Oh dupla coragem, sequidão -

Dos homens, onde está você,

Se em minhas mãos há lágrimas

E não chuva?

 
A água é da fortuna

O que mais poderia querer?

Se teus olhos são diamantes

Que se vertem em minhas palmas,

 
Já não perco

Nada. Fim do fim.

Carícias, abraços

- Eu acariciava tua face.

 
Assim somos, orgulhosos

E polacas - Marina -,

Quando chove em minhas mãos

Olhos de águia:

 
Você chora? Meu amor,

Meu tudo: me perdoe.

Pedras de sal

Caem em minhas mãos.

 
Planto de homem, veia,

Na cabeça recostada.

Gritos. Outra te devolverá

A vergonha que te fiz deixar.

 
Somos dois peixes

Dos meus - meu - seu - meu mar

Duas conchas mortas

Lábio contra lábio.

 
Todas as lágrimas.

sabor

Um oráculo

- O que acontecerá

quando

Despertares?

 

Marina Tsvetaeva

Imagem: pintura de Titian (Itália, entre 1488 e 1490 – 1576).

 

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...