sábado, 7 de junho de 2014

Lágrimas Inúteis Lágrimas

 



 
Lágrimas Inúteis Lágrimas

 

 
Lágrimas, inúteis lágrimas,
Não sei o que significam,
Lágrimas vindas do fundo
De alguma aflição sublime
Emergem no coração,
E chegam até os olhos,
Vendo os alegres campos outonais
E pensando nos dias que não mais existem.


 
Novas qual primeiro raio
Cintilando numa vela,
Que traz aqui para cima
Os amigos do submundo,
Tristes como as derradeiras
Que fazem corar alguém
Que afunda com tudo o que amamos sob a borda;
Tão tristes, estranhos dias que não mais existem.


 
Tristes e estranhas como em
Sombria alba de verão
Primeiro pio de aves semilúcidas
Para ouvidos moribundos,
Quando pra olhos decadentes
Lentamente a janela desenvolve
Um quadrado de luz tênue;
Tristes, estranhos dias que não mais existem.

 
 
Diletas tal qual os beijos
Na memória após a morte,
E suaves como aqueles
Que em afeto sem fé fingem
Nos lábios que são para outros;
Profunda como é o amor,
Como é primeiro amor, e insano com toda a pena;
Ó Morte em Vida, os dias que não mais existem!
 
 
Alfred Tennyson, poeta inglês (1809-1892)
Ilustração: Anne-Marie Zilberman, pintora francesa.   
 

 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Se eu fosse fogo, incendiava o mundo...

 
 
 

 
 
Se eu fosse fogo, incendiava o mundo...

 
Se eu fosse fogo, incendiava o mundo.
Se eu fosse vento, desfazê-lo ia.
E se fosse água, eu inundá-lo-ia.
Se eu fosse Deus, o dava ao demo imundo.

Se eu fosse Papa, ó que prazer jucundo,
a toda Cristandade intrujaria.
Se fosse Imperador... o que eu faria?
Decapitava de um só golpe o mundo.

Fosse Morte, meu pai eu atacava.
Se vida fosse, dele fugiria
e à minha mãe também eu escapava.

Se fosse Cecco, como sou e seria,
as fêmeas boas pra mim tomava,
velhas, feias... ao mais eu deixaria.

 

 
Cecco Angioliere, poeta italiano (1260-1312)

Tradução: Jorge de Sena

Ilustração: pintura de Salvador Dali

 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Quem dorme à noite comigo?

 
 
 
 

 
Quem dorme à noite comigo?

 
Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!


E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.


Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?


Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

 

 
Reinaldo Ferreira, (1922-1959) poeta português

Ilustração: pintura em acrílico do artista italiano Paolo Troilo.

                              

 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Alfred de Musset

 
 
 
 

 
Alfred de Musset (1810-1857) nasceu em Paris, França.

Poeta e dramaturgo, foi um dos representantes do Romantismo.

Em 1830, publicou a sua primeira colectânea de poemas “Contos de Espanha e de Itália”.

Algumas das suas obras: “Os Caprichos de Mariana”; “Não se brinca com o Amor”; “Poesias Completas”; “Fantasio”.“A Confissão”.

Escreveu a autobiografia “A Confissão de um Filho do Século”.

Foi nomeado Cavaleiro da Legião de Honra e eleito membro da Academia Francesa.

Poeta da dor e das grandes paixões, foi também o poeta da fantasia.

 

 Palavras de Alfred de Musset:

“O mal existe, mas nunca sem o bem, tal como a sombra existe, mas jamais sem a luz.”
 
 
              Tristeza

Eu perdi minha vida e o alento,
E os amigos, e a intrepidez,
E até mesmo aquela altivez
Que me fez crer no meu talento.

Vi na Verdade, certa vez,
A amiga do meu pensamento;
Mas, ao senti-la, num momento
O seu encanto se desfez.

Entretanto, ela é eterna, e aqueles
Que a desprezaram - pobres deles! -
Ignoraram tudo talvez.

Por ela Deus se manifesta.
O único bem que ainda me resta
É ter chorado uma ou outra vez.

 
Alfred de Musset
Tradução: Guilherme de Almeida
 
 
 

 
 


terça-feira, 3 de junho de 2014

Ilustre e Formosíssima Maria

 
 
 

                                    
Ilustre e Formosíssima Maria

 
          Ilustre e formosíssima Maria,
                           enquanto deixam ver-se a qualquer hora
                           em tuas faces a rosada Aurora,
                           Febo nos olhos e na fronte o dia,

 
                           e enquanto com gentil descortesia
                           o vento move a fibra voadora
                           e que é a Arábia em seus veios guardadora,
                           que o rico Tejo nas areias cria;

 
                            antes que, à idade, enfim, Febo eclipsado
                            e o claro dia feito em noite escura,
                            refuja a Aurora do mortal nublado;

 
                            antes que quanto hoje é ruivo tesouro
                            vença das brancas neves a brancura:
                            goza, goza essa cor, e a luz, e o ouro.        

 

 
 
Luis de Gôngora, poeta castelhano, in “Sonetos Completos”.

Tradução: Anderson Braga Horta

segunda-feira, 2 de junho de 2014

António Franco Alexandre

 

 
António Franco Alexandre nasceu em Viseu, Portugal, em 1944.

Poeta, professor de Filosofia, investigador, é considerado um dos melhores poetas nacionais da actualidade.

Viveu e estudou em França e nos Estados Unidos.

Foi herdeiro da diferentes linguagens poéticas do Movimento Poesia 61, no qual foram figuras de destaque os poetas Casimiro de Brito, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta, Fiama Hasse Pais Brandão e Gastão Cruz.

Esse Movimento foi importante, no surgimento de novos rumos, para a poesia portuguesa, a partir dos anos 60.

Alguns dos livros publicados: “Distância”; “Poemas”; “Quatro Caprichos”; “Visitação”; “Oásis”; “Aracne”; “Duende”.

Recebeu diversos prémios, entre os quais: “Prémio APE de Poesia”; “Prémio D. Dinis”; “Prémio Luís Miguel Nava”; “Prémio Correntes d´Escritas”.
 
 
Como posso eu amar-te, se nem sei
 
Como posso eu amar-te, se nem sei
como à porta te chamam os vizinhos,
nem visitei a rua onde nasceste,
nem a tua memória confessei.
Que vaga rima me permite agora
desenhar-te de rosto e corpo inteiro
se só na tua pele é verdadeiro
o lume que na língua se demora...
Não deixes que te enganem os recados
na infernal gazeta publicados
que te dão já por escultura minha;
nocturno frankenstein, em vão soprei
trombas de criação, e foste tu
quem me criou a mim quando quiseste. 
 
António Franco Alexandre, in “366 poemas que falam de amor”
 

 
 

 


domingo, 1 de junho de 2014

Em Louvor das Crianças

 
 



                                 Em Louvor das Crianças

 
Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância.
A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia.
Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer.
Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint- Exupéry, o dinheiro e a vaidade.
Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.

O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina.
Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos.
O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.

 
Eugénio de Andrade, in “Rosto Precário”


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...